Versões do Velho Testamento
O texto
nos tempos pré-massoréticos. Em virtude do trabalho dos Massoretas e dos seus
predecessores, desde o fim do primeiro século em diante, o texto hebraico foi
transmitido como que por um canal para isso preparado e livre da possibilidade
da corrupção. Deram-nos com extraordinária fidelidade o que receberam. Resta
saber se o mesmo processo de fiel preservação e reprodução foi seguido nos
tempos ante-apostólicos até Esdras e antes deste. Certamente não foi assim e
nós, no que respeita à pureza do texto hebraico, dependemos da perícia e
escrúpulo com que foi determinado o texto massorético e transmitido às gerações
seguintes. Boa prova de fidelidade nos dão as versões, que indicam mais ou
menos precisamente o texto hebraico do tempo em que foram feitas.
Versões Semíticas — Entre estas versões
deve-se colocar em primeiro lugar os Targuns
pois se trata, em linguagem, da versão que mais se aproxima do original
hebraico.
Quando os
judeus voltaram do cativeiro de Babilônia tinham em grande parte perdido o uso
da sua própria língua. Era, portanto, necessário ler-lhes não só as Escrituras
no original, mas também dar a verdadeira significação do texto (Vede Neem. 8:8).
Isto era feito oral e parafrasticamente. Passado algum tempo, era escrita a
tradução parafraseada, numa série de Targuns
(interpretações), na "língua
caldaica" ou, mais corretamente, no dialeto oriental aramaico. Esses targuns eram sem dúvida numerosos; os
que chegaram até nós já são da era cristã. Os mais antigos são os da Lei,
feitos por Onquelos, um amigo de Gamaliel, e dos Profetas, feitos por Jonatã
ben Uziel, que se diz ter sido um discípulo de Hilel. Outros dois, targuns
sobre o Pentateuco são anteriores ao sétimo século: um é injustamente atribuído
ao mesmo Jonatã, e o outro (que existe somente em fragmentos) é conhecido pelo
nome de Targum de Jerusalém. Estes, como outros de menos importância sobre os
Hagiógrafos, contêm paráfrases insípidas e adições fabulosas, mas são úteis,
empregados com a devida cautela, para o exame do texto hebraico.
O Pentateuco Samaritano — Este livro,
escrito num dialeto da mesma família da língua hebraica, e com os caracteres do
antigo Hebraico, é mais uma revisão do que uma tradução do texto hebraico.
Eusébio e Cirilo fazem referências a cópias, mas por muito tempo se julgou que
tudo tinha perecido. Todavia no princípio do século dezessete foi enviada uma
cópia de Constantinopla a Paris. Depois disto Ussher achou seis cópias e
Kennicoit chegou a cotejar dezesseis. Kennicott e muitos críticos que se
seguiram consideram muito provável que aquela revisão tivesse sido levada para
o reino de Israel por ocasião da separação das Dez Tribos.
Se isto se
pudesse sustentar, constituiria uma prova evidente da antiguidade do
Pentateuco. Afirmou-se que a animosidade para com Judá obstaria a que entrassem
no reino de Israel os Profetas e os Hagiógrafos. Diz-se também que a forma
antiquada das letras é uma prova de que o texto pertence a uma época remota
pelo menos algum tempo antes do cativeiro babilônico.
Agora é,
entretanto, admitido pela maior parte dos eruditos que essa cópia do Pentateuco
foi levada para Samaria por Manassés, por ocasião do estabelecimento do culto
rival no Monte Gerizim. Esta questão, que tem dado margem a controvérsias, não
pode ainda ser considerada como inteiramente resolvida.
O valor
crítico desta revisão foi a princípio superestimado, mas agora já se não julga
de modo algum, superior ao texto hebraico. Os LXX parece que a seguiram mais
frequentemente do que o atual texto hebraico, do qual todavia não difere
materialmente. Gesenius pensa que a sua leitura é preferível à do Hebraico em
Gênesis 4:8, onde dá as palavras "Vamos para o campo"; em Gênesis
14:14, onde se lê "ele contou", em vez de "ele armou"; em Gênesis
22:13, onde omite as palavras "detrás dele"; e em Gênesis 49:14, onde
a diferença é somente na expressão, e não no sentido. A cópia samaritana é de
grande valor para a determinação da história das vogais hebraicas, e para a
confirmação da exatidão geral do texto atual, mas não é uma fonte de correções
valiosas.
O antigo
Pentateuco Samaritano não se deve confundir com a versão samaritana suais moderna, que está impressa com outras na Poliglota, pois esta é uma tradução
muito literal em samaritano moderno.
Versões gregas: a Septuaginta — A versão
chamada dos "Setenta" ou "Septuaginta", foi feita no Egito
por judeus de Alexandria. Aristeas, um escritor que quis passar por gentio e
valido na corte de Ptolomeu Filadelfo, conta que aquela versão foi feita por
setenta e dois judeus (seis de cada tribo), mandados a Alexandria no ano 285
antes de Cristo por Eleazar, a pedido de Demétrio Falário, o bibliotecário do
rei, e completada em setenta e dois dias. Esta narrativa recebeu vários
acréscimos, em que se afirmava a intervenção miraculosa no trabalho e a
infalibilidade dos tradutores. O Dr. Hody provou dum modo concludente que essa
narrativa não pode ser autêntica, posto que nada se descobrisse que
materialmente possa abalar o valor ou a data da versão, sendo esta
provavelmente feita em datas diferentes após o referido ano de 285. Quanto ao
tempo em que se completou, não existe prova alguma. Considerando dum modo
crítico a obra, podemos observar que contém muitas palavras greco-egípcias e
que o Pentateuco está traduzido com muito maior exatidão do que os outros
livros. A tradução de Jó, dos Salmos, e dos Profetas é inferior, especialmente
Isaías e Daniel. Os livros históricos são muitas vezes incorretamente
traduzidos.
Na primitiva
Igreja Cristã essa versão era tida !em alta conta, embora certos escritores
frequentemente se valessem do texto hebraico para infirmá-la. Com o fim de
corrigi-la, compôs Orígenes a sua Hexapla,
ou versão de seis colunas (A. D. 228), contendo, além da versão dos LXX, as
traduções gregas do Antigo Testamento feitas por Áquila do Ponto, cerca do ano
130, por Teodoto de Éfeso, cerca do ano 160, e por Símaco, um samaritano, cerca
do ano 218. As duas colunas Gestantes continham o texto hebraico, e o mesmo
texto em caracteres gregos. Esta obra, que no seu todo era constituída de
cinquenta volumes, perdeu-se provavelmente no saque de Cesaréia, feito pêlos
sarracenos no ano de 653; felizmente o texto dos LXX, que formava uma das
colunas, tinha sido copiado por Eusébio, juntamente com as correções ou adições
de outros tradutores, as quais Orígenes tinha inserido.
O texto hexaplariano,
como é chamado, foi publicado por Montfaucon em Paris no ano de 1714. Os
principais MSS. dos LXX são o Vaticano, o Sináitico, o Alexandrino, juntamente
com fragmentos do Códice Efraimita.
Entre as
edições impressas dos LXX, podemos mencionar a Complutensiana (1517), que
muitas vezes segue a versão hebraica massorética e a Hexapla de Orígenes; a
Aldina (1518), que apresenta muitas variantes de B; a Romana ou Vaticana
(1587), baseada em B; a Grabiana (1707 a 1720), que foi extraída principalmente
de A; e a edição crítica de Cambridge, devida a H.B. Swete (1887-1894).
A versão é
mais livre do que literal, e muitas vezes falha em trasladar o sentido do
original. É grandemente útil para fixar o texto primitivo, mas é mais
apreciável na interpretação, ainda que esta frequentemente falhe nas passagens
difíceis, em virtude da liberdade das suas explicações, da negligência e
ignorância dos tradutores, e da ausência de regras fixas para a tradução.
Levando em conta estas causas de erro. deve-se acrescentar que a versão dos LXX
indica muitas vezes um texto sobre que se apoia, e que difere do massorético.
Escreve o
Dr. Swete que "houve um tempo, entre a época da tradução dos LXX e a de
Áquila, em que deve ter sido feita uma revisão completa da Bíblia hebraica,
provavelmente sob direção oficial". "É suficiente", continua o
mesmo teólogo, "avisar o principiante de que na tradução dos LXX tem
diante de si a versão dum texto primitivo, que muitas vezes difere
materialmente do da Bíblia hebraica impressa e dos MSS. hebraicos
existentes." Também diz "que somos levados à conclusão de que a transição
dum texto flutuante para outro relativamente fixo ter-se-ia efetuado no
intervalo entre a queda de Jerusalém e o acabamento da versão de Áquila."
Antigas versões latinas — Entre as mais
antigas versões, baseadas na dos LXX, havia a latina, feita na África, e muitas
vezes transcrita no todo ou em parte em várias províncias do Império. Peias
diferenças que se encontram nas cópias, têm alguns pensado que houve diversas
versões, mas a opinião mais provável é a de que se trata de revisões da mesma
tradução original. A mais importante destas revisões fez-se na Itália, em parte
com a ideia de corrigir os provincianismos e outros defeitos da versão
africana. Agostinho, refere-se a essa versão chamando-a de ítala. Jerônimo acha-a, em geral, muito boa. O seu tipo
predominante de texto, como se pode inferir dalguns fragmentos que ainda nos
restam, concorda com o MS. Alexandrino, e por algumas citações de Tertuliano a
versão deve pertencer pelo menos à última parte do segundo século .
As
diversidades e imperfeições das cópias latinas levaram Jerônimo (A.D.382) a
fazer a revisão do texto, como Orígenes tinha anteriormente feito a revisão da
LXX. Empregou para este fim a Hexapla,
que serviu para que ele, cuidadosamente, corrigisse todo o Velho Testamento, de
que nos restam apenas algumas porções. Mas, quando a revisão de Jerônimo estava
se completando, aconteceu que a versão dos LXX, por tanto tempo recebida
favoravelmente pelos judeus, principiou a cair em descrédito, devido ao fato,
provavelmente, de apelarem para ela os cristãos. Por este motivo tomou Jerônimo
sobre si a empresa duma tradução em latim, feita diretamente do hebraico.
Consagrou pois a esta obra o melhor do seu tempo durante vinte anos,
completando-a em 405 A.D. Uma reverência supersticiosa à versão dos LXX fez com
que muitos fizessem oposição à obra de Jerônimo, mas a tradução foi ganhando
terreno, e no tempo de Gregório, o Grande (A.D. 604), já tinha ela pelo menos
igual autoridade, e foi dignificada com o nome de Vulgata ("versio vulgata" a versão corrente). O texto,
que foi composto em parte à vista da antiga versão latina, e em parte com base
na edição revista por S. Jerônimo, é também em parte uma nova tradução direta
do hebraico. Jerônimo estava familiarizado com os expositores hebraicos, e por
isso muitas das interpretações desses exegetas foram incorporadas na Vulgata,
mas geralmente é seguida a versão dos LXX, ainda mesmo quando esta difere do
hebraico. A Vulgata serve mais para interpretação do que para crítica do texto,
ainda que para ambas as coisas é de valor. A versão dos Salmos é traduzida da Hexapla, e chama-me Saltério Galicano. Cedo foi o texto corrompido, e vários homens
eruditos, entre os quais Alcuino e Lanfranc, tomaram o encargo de revê-lo. Uma
edição autorizada foi publicada em 1590 por Sixto V, para ser imediatamente
retirada, e substituída pela de Clemente VIII em 1592. Edições críticas são as
de Vercellone (1861) e de Tischendorf (1864).
Siríaca, ou as Versões Aramaicas Ocidentais
— A versão Peshita ("correia", ou "simples") das Sagradas
Escrituras foi feita diretamente do hebraico, e concorda rigorosamente com o
Texto Massorético. Não sé sabe em que tempo e onde foi preparada essa tradução,
mas é bem provável que os cristãos da Síria tivessem obtido, bem cedo, na sua
própria língua as Escrituras. Pelo exame da tradução crê-se que foram judeus
cristãos os tradutores, e que eles verteram o Velho Testamento do original
hebraico. Esta versão contém todos os livros canônicos do Velho Testamento, e
todos os do Novo, com exceção da 2ª epístola de Pedro, da 2ª e 3ª epístolas de
João, da epístola de Judas, e do Apocalipse. O texto difere de todas as
principais classes de MSS., tendo-o reivindicado sucessivamente cada uma
destas. Foi primeiramente impresso nas poliglotas de Paris e de Londres, e é
dum grande valor crítico. O seu importante lugar na crítica do Novo Testamento
será mostrado no capítulo seguinte, quando se descreverem também outras
traduções siríacas do Novo Testamento.
Outras versões antigas — A história
eclesiástica coloca a conversão da Etiópia no ano 330 A.0., pouco mais ou
menos, e ao mesmo século ou ao seguinte pertence a tradução das escrituras em
Giz ou Etíope; vede o § 18. O seu autor não é conhecido. Exemplares completos
do Velho Testamento não são vulgares ainda que Bruce afirme que achou alguns; e
há MSS. desta versão em algumas bibliotecas da Europa. Têm sido impressos
somente fragmentos. O texto baseia-se inteiramente na versão dos LXX, e segue
as variantes de A.
A maior
parte do Velho Testamento existe também nos dialetos CÓPTICOS do Egito
(Menfítico ao norte, Tebaico ao sul), ainda que somente uma pequena parte foi
impressa. A data mais provável em que estas versões foram feitas é o terceiro
ou o quarto século, ainda que alguns as supõe do primeiro ou do segundo. Ambas
são baseadas na dos LXX, e geralmente seguem as variantes de A. Não são
conhecidos os tradutores.
A versão
GÓTICA da Bíblia foi feita por Ulfilas, um bispo dos Ostrogodos, que esteve no
Sínodo de Constantinopla em 360 A. D. Ê uma tradução da LXX, e é de
considerável valor crítico, embora infelizmente só nos restem dela alguns
fragmentos.
Quanto à
versão Armênia, pouco mais se sabe
que foi feita em princípios do quinto século, e está baseada na siríaca, ainda
que depois tenha sido revista segundo a versão dos LXX. Foi seu tradutor o
patriarca Mesrob. A versão Georgiana
foi feita, no século seguinte, e por meio de cópias da tradução armênia. A
versão armênia tem sido repetidas vezes impressa (sendo a melhor edição a de
Zohrab, Veneza, 1805); e toda a Bíblia, em georgiano, foi impressa em Moscou no
ano de 1743, tendo sido partes dela anteriormente impressas em Tiflis.
Pertence ao
nono século a versão eslava ou eslavônica,
feita, pelos irmãos Cirilo e Metódio de Tessalônica, missionários da Bulgária e
Morávia, os quais tornaram possível o seu valoroso trabalho, reduzindo
primeiramente à escrita a língua eslavônica. É geralmente considerada como
provinda da LXX, ainda que por testemunhos antigos, recentemente confirmados,
se possa dizer que a tradução foi feita do latim. O texto foi logo no princípio
corrigido segundo os MSS. gregos, e por esta razão se julga de considerável
valor crítico. Foi toda impressa em 1576, e várias edições se publicaram desde
então em Moscou.
As versões
ÁRABES de diversos livros da Escritura, como se acham nas Poliglotas de Paris e
de Londres, foram traduzidas da LXX entre o oitavo e o décimo segundo séculos
por diferentes escritores: mas Jó, as Crônicas, Juízes, Rute, Samuel, e partes
doutros livros, foram traduzidos da Siríaca Peshita.
Por estes
fatos se mostra que os Targuns, o Pentateuco Samaritano, a LXX, parte da Vulgata,
e a Siríaca Peshita, são todos mais ou menos de valor para verificar o texto do
original hebraico; mas as outras versões do Velho Testamento, tendo sido feitas
com base nas já apontadas e não no original, têm pouco ou nenhum valor crítico,
a não ser para determinar o texto das traduções em que se basearam.
Ainda que em
geral possamos estar certos de que possuímos substancialmente os livros, como
eles foram escritos, não tendo sido obscurecida uma promessa, não tendo sido
alterada uma verdade, e ainda que, pelo menos a contar do fim do primeiro
século, a pureza da letra tenha sido quase miraculosamente preservada, temos de
contentar-nos com a posse dum tesouro que não corresponde perfeitamente aos
autógrafos sagrados. As imperfeições da letra podem bem levar-nos a considerar
o espírito do texto, indo das palavras para a Palavra, que permanece inabalável
e cresce em significação através dos tempos.
---
Fonte:
História, doutrina e interpretação da Bíblia, por: Joseph Angus. Tradução: J. Santos Figueiredo. Casa Publicadora Batista. Rio de Janeiro, 1951, págs. 22-28.
Nenhum comentário:
Postar um comentário