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quarta-feira, 27 de julho de 2016

A Bíblia e o quadro negro (Religiosidade)

A Bíblia e o quadro negro
Igreja Presbiteriana cresceu investindo no evangelismo e na educação
O pioneiro Simonton: vida a serviço da obra missionária
Todo mundo já ouviu o célebre ditado "o tempo voa". Para a maioria das pessoas, a vida passa sem dar-lhes oportunidades de deixar sua existência marcada neste mundo. Ou, pelo menos, elas se queixam disso. Ao longo da história, não foram muitos os que souberam utilizá-lo como aliado, vivendo cada minuto como se fosse o último. Mas, pessoas assim existiram. O próprio Jesus Cristo deu exemplo: só precisou de três anos para registrar na História uma participação tão marcante que acabou dividindo-a em duas partes, antes e depois dele. Mais tarde, vieram outros, inclusive alguns que, procurando viver à imagem e semelhança do Filho de Deus, fizeram do seu tempo o melhor uso possível, vivendo para divulgar a mensagem do Mestre. O pastor e missionário americano Ashbel Green Simonton pode ser incluído nesta categoria. Em apenas oito anos, ele aprendeu tudo o que podia sobre a Palavra de Deus, viajou para o Brasil, anunciou o Evangelho para pessoas que nunca tinham ouvido falar da salvação em Cristo e morreu deixando como herança uma das maiores igrejas protestantes em território nacional. Hoje, passados 138 anos da chegada de Simonton ao país, a Igreja Presbiteriana do Brasil tem mais de 1.700 igrejas e quase dois mil pastores espalhados pelo país. É o grupo evangélico que mais investiu em educação no Brasil, possuindo até hoje uma grande rede de escolas em todos os níveis de ensino. Isso sem falar nos quase l milhão de fiéis vinculados aos quatro grandes grupos em que se dividem hoje os presbiterianos.
Desde cedo, Simonton, nascido em West Hanover, no estado da Pensilvânia, em 20 de janeiro de 1833, demonstrou interesse incomum pela obra missionária. Assim que concluiu o Seminário Presbiteriano de Princeton e tornou-se pastor, não hesitou em fazer as malas e partir rumo ao Brasil. A decisão, totalmente inusitada, deveu-se a uma revelação que Simonton interpretou como a vontade de Deus na sua vida. Depois de longa viagem de navio, aportou no Rio de Janeiro em 1855 onde logo manteve contato com c médico escocês Robert Kalley. Esse "estágio" com o pioneiro do Evangelho em terras fluminenses foi mais do que providencial: além da comunhão e do aprendizado espiritual. Simonton, que tinha apenas 26 anos. pôde conhecer bastante sobre a sua "terra prometida". Como quase todos os estrangeiros na época, ele pouco mais sabia sobre o Brasil além do fato de aqui haver florestas e muitos índios. Kalley já desenvolvia um trabalho protestante na cidade, apesar das dificuldades culturais e da forte resistência católica. Foi o que bastou para encorajar o jovem missionário.
Escravidão
Não demorou muito e Simonton começou a andar com as próprias pernas, mas sempre pela fé. No dia 19 de maio de 1861, conseguiu sua primeira vitória, Com a ajuda do pastor Alexander Blackford, seu cunhado, o pioneiro alugou uma sala na rua do Ouvidor, no centro da então capital do Império. O preço, 50 mil réis, era bastante salgado na época, mas Simonton contou com a ajuda financeira de um grupo de americanos que ali passaram a realizar culto; em inglês. A iniciativa valeu a pena. De acordo com a historiadora Leila Menezes Duarte, especialista na história do protestantismo no Rio de Janeiro, naquele imóvel realizou-se o primeiro culto ministrado em português realizado em local público. "O âmbito doméstico era a única forma de culto permitida pela constituição do império para os protestantes no Brasil", informa a pesquisadora. Na verdade, o culto tinha o objetivo principal de estudar a Bíblia, e essa primeira reunião contou com apenas duas pessoas. Mas o otimista Simonton teve seus esforços recompensados. Três domingos depois, a sala já ficou cheia de brasileiros interessados em estudar a Palavra de Deus junto com os missionários presbiterianos. Logo as reuniões de estudo bíblico tornaram-se evangelísticas. Os frutos não tardaram e, no dia 12 de janeiro de 1862, Simonton realizou o batismo dos dois primeiros convertidos, um padeiro português chamado Camilo e o brasileiro Serafim, que trabalhava como carpinteiro. Aquela data acabou tornando-se histórica, passando a marcar a fundação da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, a primeira da denominação no Brasil. O crescimento da obra na sala da rua do Ouvidor levou Simonton e seus seguidores a instalar-se num terreno da Travessa da Barreira (atual rua Silva Jardim). O local abriga até hoje a Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro.
A expansão da missão de Simonton logo adaptou-se à realidade brasileira. Inclusive, num ponto polêmico: a escravidão. Apesar de ser fervoroso antiescravista, Simonton não tocava no assunto em suas mensagens. A Junta de Missões Estrangeiras, responsável pela missão no Brasil, temia um confronto com a classe dirigente brasileira, em sua maioria defensora da escravatura, o que poria em risco o apoio político e ideológico conseguido para seus missionários. Tal característica persistiu até a proclamação da República, em 1889, o que originou um fato curioso: não havia representantes das duas classes que compunham a base e o pico da pirâmide social do país - os escravos e a aristocracia - na igreja.
Vencidos os primeiros obstáculos no Rio de Janeiro, Simonton se dirigiu para o Estado de São Paulo, organizando no ano de 1865 a Primeira Igreja Presbiteriana da capital paulista. Preocupado em expandir o protestantismo num país onde o catolicismo perseguia qualquer um que se atrevesse a mudar o discurso religioso, Simonton foi surpreendido pela providência divina. Um ano após a fundação da igreja em São Paulo, nascia uma congregação na cidade de Brotas, no interior paulista. Não haveria nada demais neste fato, exceto que houve a ajuda decisiva de um ex-padre convertido ao protestantismo, José Manoel da Conceição. Sacerdote controvertido, ele já aborrecia os bispos católicos mesmo antes da sua conversão, quando estimulava seus párocos a lerem a Bíblia. Figura fundamental na expansão da igreja, Manoel, além de realizar frequentes cruzadas no Rio e em São Paulo, fazia questão de visitar a população do interior, não passando por nenhuma fazenda ou casa pobre sem orar e ler a Bíblia com os moradores. Através da influência do ex-padre, as antigas paróquias católicas interioranas acabaram se transformando em igrejas evangélicas. O crescimento acelerado, contudo, não pôde ser presenciado pelo pioneiro Simonton, que morreu em 1867, em São Paulo, com apenas 34 anos de idade, vítima da febre amarela - moléstia tropical que fez milhares de vítimas no fim do século 19.
Fé na educação
Com o passar dos anos e a consolidação da denominação em território nacional, os presbiterianos começaram a engajar-se na realidade social brasileira. No início deste século, a maioria da população brasileira era formada por analfabetos. Sob o ponto de vista espiritual, esse fato era um desastre: significava uma multidão de pessoas sem acesso às doutrinas e ensinos bíblicos. Atentos a esse drama que afetava milhões de brasileiros, a igreja resolveu investir maciçamente em educação. A filosofia era simples, mas eficaz, e era traduzida no slogan: "Ao lado de cada igreja, uma escola". O sucesso foi total. "O grande interesse pela educação fez com que os presbiterianos criassem inúmeras  instituições  de  ensino, algumas respeitadíssimas até hoje", diz o professor Cléber Selos, 37 anos, que leciona história da igreja no Seminário Presbiteriano do Rio. Além do Instituto Presbiteriano Mackenzie, em São Paulo, a maior universidade particular da América Latina, os presbiterianos possuem ainda 500 templos-escola, que ministram ensino da pré-escola ao 2- Grau. "Temos desafiado as igrejas a usar os espaços vazios para dar cursos de alfabetização, ou mesmo profissionalizantes para crianças e adultos", conta o pastor Guilhermino Cunha, que há três anos preside o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, a maior das quatro convenções da denominação no país. Além da preocupação em manter a dedicação das igrejas pelo ensino, Guilhermino objetiva uma  reaproximação  com  as outras vertentes da igreja em território  nacional:  Igreja  Presbiteriana Unida (IPU), a Igreja Presbiteriana Independente (IPI) - e Igreja Presbiteriana Conservadora  (IPC),  que juntas representam cerca de 30% do -     total de presbiterianos no país. Mas eles não estão atentos apenas à educação.  O pastor Guilhermino salienta que o objetivo da igreja é implantar pelo menos uma congregação por semana. "Temos conseguido alcançar este alvo, que faz parte da nossa grande meta de dobrar o número de evangélicos presbiterianos no país até o ano 2000." Esse empenho missionário mostra que os ideais de Ashbel Simonton continuam delineando as prioridades  da Igreja Presbiteriana do Brasil até hoje.    

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Fonte:
Revista Vinde. Ano II - Nº 22 - Setembro de 1997. Editora Vinde. Rio de Janeiro, págs. 56-58.

O homem Lutero (Religião)

O homem Lutero

A DESCOBERTA DA BÍBLIA
Quando e em que circunstâncias começou o seu interesse pela Bíblia?
Fazia meu curso universitário em Erfurt quando, com a idade de 20 anos, descobri um exemplar da Bíblia, em latim, na biblioteca da escola. O primeiro trecho que li foi a história de Ana e Samuel. Até então julgava que a Bíblia continha apenas aquilo que era lido nas missas, A partir daí tornei-me um leitor assíduo da Escritura. Já como sacerdote e professor, na Universidade de Wittenberg, a partir de 1508, recebi a incumbência de interpretar a Bíblia. Aprofundei-me no conhecimento dela e foi através de meus estudos bíblicos que redescobri o evangelho primitivo como se encontra em o Novo Testamento.
A Bíblia é a Palavra de Deus?
"A Bíblia é a Palavra de Deus, escrita por inspiração do Espírito Santo; o Velho Testamento pelos santos profetas, e o Novo Testamento pelos santos evangelistas e apóstolos, A inspiração é o ato divino pelo qual Deus Espírito Santo soprou nas almas dos escritores da Bíblia os pensamentos que deviam escrever, bem como as palavras exatas que deviam empregar."
À afixação das 95 teses à porta da Igreja do Castelo e os acontecimentos posteriores têm alguma relação com esse seu apego à Bíblia?
Sim. Propugnei um retorno à Bíblia. Procurei demonstrar que a autoridade das Escrituras é maior que a da igreja. Esta não é dona da Bíblia, mas serva. A tradição da igreja pode ser legítima, porém não infalível; por isso deve ser julgada pela Bíblia. Em outras palavras, preguei que a Palavra de Deus é regra de fé e prática.
O Doutor é a favor de se colocar a Bíblia nas mãos do povo?
Perfeitamente. Eu mesmo traduzi o Novo Testamento do texto grego e o Velho Testamento do texto hebraico para o alemão que todos entendem. Os 5 mil exemplares do Novo Testamento publicado em setembro de 1522 foram vendidos em três meses, de modo que em dezembro já saía uma nova edição. Muitas outras vieram depois.
Tomávamos sempre o cuidado de eliminar erros tipográficos, corrigir erros de tradução ou substituir palavras por outras expressões mais convenientes, Melanchthon, especialista em grego, e Aurogallus, especialista em hebraico, ajudaram-me muito nessas revisões.
O Doutor gosta do nome luterano dado especialmente aos alemães que abraçaram a Reforma?
"Peço que se silencie acerca de meu nome e ninguém se denomine luterano, mas, sim, cristão. Quem é Lutero? A doutrina não é minha e não fui crucificado por ninguém... E como poderia ser que eu, um pobre saco de estrume, tivesse meu nome, o qual nenhuma salvação encerra, dado aos filhos de Cristo? Não deve ser assim, terminemos com esses nomes partidários e denominemo-nos cristãos, pois possuímos a doutrina de Cristo."
O Doutor não exagera quando se diz "um pobre saco de estrume"?
Não estou exagerando nem dando uma aparência de humildade. Na verdade "sou um pobre verme diante da justiça de Deus, sou um pobre servo do Senhor da igreja, sou um aluno das Sagradas Escrituras", O pecador não tem valor   em si mesmo, não tem nada para dar, carece totalmente da glória de Deus.
VIDA FAMILIAR
O Doutor é favorável ao celibato sacerdotal?
"Fazem apenas 400 anos que na Alemanha os sacerdotes foram compelidos a força a deixarem o matrimônio e fazerem voto de castidade. Todos se opuseram a isso com tamanha seriedade e rijeza, que um arcebispo de Mogúncia, o qual publicara o novo edito papal a respeito, quase foi morto no tumulto de uma revolta de todo o corpo sacerdotal. E aquela proibição logo no começo foi efetivada com tanta rapidez e impropriedade, que o papa, ao tempo, não só proibiu o matrimônio de sacerdotes para o futuro, mas ainda rompeu o casamento daqueles que havia muito já estavam nesse estado, o que não é contrário apenas a todo direito, divino, natural e civil, mas também aos cânones estabelecidos pelos próprios papas e aos mais renomados concílios."
Uma vez desobrigado do voto do celibato sacerdotal, em vista de seu rompimento com Roma, como o Doutor encarou a ideia do matrimônio?
Aconselhei que os pastores se casassem. Os sacerdotes que aderiram à Reforma e tinham ligações com mulheres foram exortados a anunciar seu matrimônio com elas. Muitos se casaram com suas próprias cozinheiras, com as quais já viviam e das quais tinham filhos. Por esta razão, nem sempre a esposa pertencia à mesma classe social do marido,
E quanto ao Doutor?
Meus amigos sugeriram-me que eu também me casasse para quebrar o tabu e servir de exemplo. "Meus sentimentos não me pareciam levar a contrair matrimônio, E mesmo não tencionei casar porque esperava diariamente a morte e a punição por heresia". Mas, em 12 de junho de 1525, liguei-me pelos laços do matrimônio a Catarina de Bora, da nobreza rural da Saxônia. Eu estava com 42 anos e ela, com 26. Catarina e mais oito freiras haviam fugido do convento de Nimbsch e moravam em Wittenberg desde 1523. Ela era hóspede do pintor Lucas Cranach. Desde os 10 anos até os 24, minha mulher esteve enclausurada.
Que tal o novo estado?
"Não há ligação mais doce do que a de um matrimônio feliz e não há separação mais amarga do que a de um matrimônio feliz. A isto apenas corresponde a morte de uma criança. A dor que ela nos causa, eu próprio a experimentei, A maior dádiva de Deus é uma esposa piedosa, resoluta, temente a Deus e com dotes domésticos. Graças a Deus, tal me foi concedido. Eu a considero mais do que o reino da   França ou o domínio dos venezianos. Minha Catarina me é mais útil do que eu ousara pensar."
E os filhos?
"Os filhos constituem, no matrimônio, o penhor mais aprazível. Estabelecem e conservam o vínculo do amor." Tivemos três meninas e três rapazes. Isabel faleceu com 8 meses e Madalena, com 14 anos. Margarida veio a casar-se com o vice-governador Kuhnheim. Dos homens, João formou-se em Direito, Martinho é pastor, e Paulo, médico,
O casamento é para sempre?
"O matrimônio é a união vitalícia instituída por Deus e contraída, mediante esponsais legítimos, por um homem e uma mulher para uma só carne".
Algumas pessoas que participam de seu lar em Wittenberg estão passando informações de suas conversas à mesa, no seio da família e no convívio com os numerosos estudantes que moram em sua casa. O Doutor não se preocupa com isso?
Em absoluto. Na verdade eu gosto muito de falar. Nossa casa sempre está cheia — uma tia de Catarina, vários parentes órfãos, estudantes, refugiados, ajudantes e criados moram conosco, como família. À hora da refeição conversamos animadamente sobre problemas teológicos e as novidades mais corriqueiras do dia-a-dia. De vez em quando, recordo alguma experiência passada. Mas nada há para esconder. É tudo aberto e examinado à luz da Escritura.

FE E OBRAS
O Doutor foi acusado de corromper a moral cristã. O que diz sobre isso?
Nada mais falso. Os adversários, baseando-se na doutrina da justificação pela graça perdoadora de Deus, da qual me tornei pregador convicto e entusiasta, não entenderam ou deturparam meu ensino e diziam que eu tornara as boas obras desnecessárias e destituídas de significado, abrindo assim caminho para as más obras, Por outro lado, é provável que algumas pessoas imaturas tenham se valido desta interpretação errônea para se entregarem à devassidão. O que, todavia, a Palavra de Deus ensina e eu custei a descobrir é que "não podemos alcançar remissão dos pecados e justiça diante de Deus por mérito, obra e satisfação nossas, mas pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu e nos são dadas justiça e vida eterna". A tremenda verdade da justificação pela fé diz nada mais nada menos que Deus "considera justo o homem que possui a justiça que Ele próprio, Deus, lhe oferece — a justiça de Cristo. Deus a oferece pelo Evangelho de Cristo e o homem a recebe e dela toma posse pela fé, ou seja, quando toma a sério a mensagem e crê na oferta e doação que Deus lhe está fazendo".
"Temos de guardar fielmente o artigo da justificação pela fé em todos os tempos por ser o artigo principal da doutrina cristã, pela qual a igreja de Cristo se distingue de toda religião falsa, sendo dada a glória somente a Deus e constante conforto ao pecador."
Por que o homem não pode alcançar a salvação mediante as obras, por exemplo, da própria Lei de Deus?
"Porque desde a queda no pecado, o homem natural é de todo incapaz para guardar a Lei de Deus e o próprio cristão só a cumpre imperfeitamente."
Então, para que serve a Lei?
"A Lei serve para um fim triplo. Em primeiro lugar, concorre para a manutenção da ordem e da honestidade exterior do mundo, impedindo de certa maneira o desenfreamento grosseiro do pecado. Neste caso a Lei é freio. Em segundo lugar, ensina de modo especial aos homens a reconhecerem verdadeiramente seus pecados. Neste caso a Lei é espelho, Em terceiro lugar, mostra ao regenerado quais são verdadeiramente as boas obras. Neste caso a Lei é norma."
O Doutor poderia situar a fé e as obras na experiência religiosa do homem?
Vamos conceituar primeiro a boa obra. Boa obra é toda obra ordenada por Deus. Se for feita da fé, é boa; se for feita para granjear méritos, é má, "A mais nobre de todas as boas obras é crer em Cristo," Ensinamos que "as boas obras devem e têm de ser feitas não para que nelas se confie a fim de merecer a graça, mas por amor de Deus e em seu louvor". A fé, por sua vez, "é uma confiança viva e ousada na graça de Deus, tão segura, que nela o homem poderia morrer mil vezes. A fé nos torna alegres, ousados e bem dispostos diante de Deus e de todas as criaturas". "Sempre é a f é que apreende a graça e o perdão de pecados, E visto que pela fé é dado o Espírito Santo, o coração também se torna apto para praticar boas obras, porque antes, enquanto está sem o Espírito Santo, é demasiadamente fraco, Além disso, está no poder do diabo, que impele a pobre natureza humana a muitos pecados, como vemos nos filósofos que se lançaram à empresa de viver vida honesta e irrepreensível e contudo não conseguiram realizá-lo, caindo em muitos pecados graves e manifestos.
É o que acontece ao homem quando está sem a verdadeira fé e sem o Espírito Santo, e se governa apenas pela própria força humana. Sem a fé e sem Cristo, a natureza e a capacidade humanas são por demais frágeis para praticar boas obras, invocar a Deus, ter paciência no sofrimento, amar o próximo, exercer com diligência ofícios ordenados, ser obediente, evitar maus desejos etc, Taís obras elevadas e autênticas não podem ser feitas sem o auxílio de Cristo, conforme Ele mesmo diz: 'Sem mim nada podeis fazer' (Jo 15.5)."
A vida crista é estática ou dinâmica?
Não se deve "pensar que a vida de um cristão seja ficar quieto e descansar, mas estar a caminho e partir dos vícios à virtude, de clareza à clareza, de força à força".
A oração é essencial à vida cristã?
"Como o sapateiro faz sapatos e o alfaiate faz roupas, assim deve o cristão orar. Ninguém crê quanto pode a oração senão aquele que o aprendeu pela experiência e o provou pessoalmente.
É grande coisa alguém sentir o aperto e este obrigá-lo a recorrer à oração. Bem sei: todas as vezes que orei de coração, fui ricamente atendido e alcancei mais do que havia pedido. É verdade que por vezes Deus demorou um pouco, mas nem por isso deixou de me atender."


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Fonte:
Revista Ultimato. Ano XXXIII - Nº 262 - Janeiro/Fevereiro de 2000. Editora Ultimato. Viçosa - MG, págs. 27-29.

Os Cristãos e o Plebiscito (Política e Religiosidade)

Os Cristãos e o Plebiscito
Por: Robinson Cavalcanti
O Plebiscito
Os cristãos brasileiros - juntamente com os demais cidadãos - por disposição da Constituição federal de 1988, estão sendo chamados a se pronunciar, no próximo dia 21 de abril, em um plebiscito sobre o sistema de governo (presidencialismo x parlamentarismo), e sobre a forma de governo (monarquia x república) mais adequados ao País. Nessa consulta não estão em discussão nem a forma de Estado (federalismo), nem o regime político (democracia), nem o sistema econômico (capitalimo) ora vigentes.
Há na motivação dos constituintes a busca de legitimidade institucional diante do golpe de Estado militar que derrubou a monarquia e o parlamentarismo em 1880, um julgamento do desempenho histórico da república e do presidencialismo, e a necessidade de um aprofundamento em nossa caminhada democrática antes da ampla revisão constitucional que teremos a partir de outubro próximo.
As mudanças legais não terão implicações materiais imediatas: não aumentarão o pão na mesa do pobre, mas terão um valor de longo alcance: a clareza das regras do jogo democrático. E, nossa posição no plebiscito exige uma consciência cristã informada e responsável.

Os Sistemas de Governo
Os sistemas de governo são modalidades de um regime. No caso da democracia são eles: o colegiado (apenas aplicado na Suíça), o presidencialismo e o parlamentarismo.
a) O presidencialismo
O protótipo do presidencialismo é o modelo dos Estados Unidos: maior separação entre os poderes executivo, legislativo e judiciário, com predominância do executivo, cujo titular o exerce à base de um mandato popular temporário, acumula a Chefia de Estado e a Chefia de Governo e não pode ser destituído por julgamento político, mas apenas por crimes de responsabilidade no instituto do impeachment. O sistema se baseia em uma chefia pessoal forte, que centraliza e agiliza as decisões, jogando os partidos políticos um papel secundário.
A experiência norte-americana, com suas peculiaridades, é a única bem sucedida. O presidencialismo foi adotado nos países sob influência dos Estados Unidos, porém de tradição cultural autoritária (América Latina, Libéria, Filipinas, Coreia) servindo, na maioria das vezes, como mero anteparo legal para o caudilhismo, o populismo e o militarismo.
No Brasil o presidencialismo foi adotado, por influência do positivismo e do liberalismo conservador, a partir da Constituição de 1891. A marca desses 102 anos de nossa história política tem sido a instabilidade (golpes, renúncia, suicídio), com apenas dois presidentes eleitos democraticamente, terminando seus mandatos e passando a faixa para os seus sucessores em igual condição (Dutra e Juscelino), sem que seus antecessores ou sucessores tivessem igual performance. A demasiada soma de poderes tende a criar executivos imperiais, sem sólida base partidária e de traumático processo de remoção.
b) O parlamentarismo
O parlamentarismo se origina na longa experiência política britânica de redução dos poderes dos nobres e aristocratas em favor dos "comuns", por meio de uma casa legislativa representativa fortalecida. Com variações locais, o sistema é adotado na maioria das democracias estáveis atuais. Nele o mandato é conferido ao partido e não aos indivíduos, o conselho de ministros tem que ter base partidária parlamentar e pode ser destituído se não andar bem por meio de simples voto de desconfiança. Pratica-se a fidelidade partidária, os eleitores aprendem a valorizar mais os programas do que o "charme" ou o messianismo das estrelas políticas. Em caso de impasse entre o gabinete e o parlamento, este poderá ser dissolvido pelo chefe de Estado e convocadas novas eleições legislativas.
O mais importante é a separação entre a figura do Chefe de Estado (rei ou presidente), de caráter arbitrai, moderador, simbólico, suprapartidário e o Chefe de Governo (primeiro-ministro), líder do partido ou coalização com maioria, responsável pela condução política e administrativa.
No Brasil o parlamentarismo teve uma experiência positiva no Segundo Reinado (dentro das condições da época) e uma experiência "insincera" (61-63), como forma de se contornar a ameaça de um golpe militar.
As experiências do Japão, Itália, Portugal, Espanha e Grécia demonstram a possibilidade do parlamentarismo dar certo em países de tradição autoritária, e     a experiência da índia comprova que ele  pode funcionar em país pobre. É a experiência parlamentarista que gera uma burocracia técnica e partidos fortes, e não o contrário.
As Formas de Governo
O conceito usado no plebiscito não se refere à distribuição teórica da autoridade de mando, mas às peculiaridades do titular do executivo. O presidencialismo é intrinsecamente republicano, enquanto que o parlamentarismo pode existir tanto com a monarquia (Grã-Bretanha, Suécia, Holanda), quanto com a república (Alemanha, Itália, Áustria). Nesse caso, o parlamentarismo funcionaria de forma idêntica, alterando-se apenas não as funções, mas as características do Chefe de Estado: um rei permanente ou um rei "a prazo fixo" (como já foi denominado o presidente parlamentarista).
No passado a monarquia era associada a regimes autoritários e a república a regimes democráticos. Hoje se vê que essa associação não é procedente: há monarquias democráticas (Espanha) e absolutistas (Arábia Saudita) e repúblicas democráticas (França) e ditatoriais (Haiti).
No Brasil as elites e o estamento militar, por influência do positivismo, possuem convicções republicanas, enquanto a cultura popular (rei do baião, rainha dos baixinhos, roupas "nobres" nas escolas de samba) tem fortes raízes monárquicas. A Casa de Bragança está dividida em um ramo progressista (Petrópolis) e um ramo conservador (Vassouras).
Cremos que a opção parlamentarista - seja ela republicana ou monárquica -representará um salto de qualidade, uma revolução cultural em nossa política, quando as ideias, as propostas e a organização serão mais importantes do que os chefes iluminados. Com figuras paternais (maternais) na chefia do Estado, quem desejar ver Brizola, Maluf, Lula, Covas, Quércia ou ACM na chefia de governo que vote em um deputado do seu partido, para que eles venham a ser primeiros-ministros responsáveis e não magestáticos salvadores da pátria.
Contribuição Cristã
Nenhum segmento da sociedade pode concorrer para a democratização do Estado se não se democratizar internamente. Nem as formas políticas dos tempos bíblicos, nem a busca de chancela celestial para formas de governo eclesiástico autocráticas e historicamente explicáveis, nem a submissão ao autoritatismo de nossas raízes culturais ajudam esse propósito. É preciso conhecer a contribuição dos cristãos para a desconcentração do poder, do saber, da renda e da propriedade. Sem inquisições formais ou informais, mas na prática do pluralismo e no respeito às opiniões divergentes estaremos dando vida ao nosso voto no plebiscito. Uma igreja democrática em um país democrático.


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Fonte:
Revista Ultimato. Ano XXVI - Nº 221 - Março de 1993. Editora Ultimato. Viçosa - MG, págs. 12-13.

Jesus ou Yehoshuah? (Religião)

Jesus ou Yehoshuah?
Por: Carlos R. Caldas Filho
Em meu trabalho de pesquisa e pastoral, tenho me defrontado com uma versão hebraizante do cristianismo: pessoas que defendem ser errado usar o nome "Jesus". Para elas o certo seria sua forma hebraica Yehoshuah. Há quem pense que incorrem em erro as seguintes tradições: ortodoxa, calvinista, luterana, anglicana, presbiteriana, batista, metodista, adventista, quadrangular, assembleiana e outras pentecostais (de igrejas como Deus é Amor, O Brasil para Cristo, Congregação Cristã do Brasil e IURD). Todos estariam servindo a um falso deus.
A argumentação de quem pensa desta maneira pode ser assim resumida; a revelação de Deus à humanidade foi dada na língua hebraica. A única transliteração possível do nome do Messias é Yehoshuah, e não Jesus, que seria uma deturpação greco-romana, pois na língua hebraica não há correspondente para a letra "j". Portanto, o nome do Senhor, para o grupo citado, não poderia em hipótese nenhuma ser transliterado com a letra "j". O fato de a língua hebraica não possuir letra correspondente a "j" não é nada demais. Há tempos, especialistas em hebraico são unânimes em transliterar palavras que começam com a letra hebraica yod (a letra inicial de Yehoshuah), ora com ."i" (ou "y"), no caso de substantivos comuns, ora com "j", no caso de nomes próprios. Uma rápida consulta a qualquer léxico, analítico . ou gramática de hebraico bíblico confirma esta afirmação.
O movimento pretende restaurar o que considera ser uma verdade adormecida por 2.000 anos.
"O falso Jesus"
Não leva em consideração o fato atestado pelo Dr. Karl Heinrich Rengstorf, de que séculos antes de Cristo o nome "Jesus" já era muito popular entre os judeus. Há extensa documentação que comprova a afirmação do professor Rengstorf. É, portanto, impossível que o nome "Jesus" fosse o nome de um falso deus, como acredita o movimento que quer hebraizar o cristianismo. Se assim fosse, judeus jamais colocariam este nome em seus filhos.
O que se pode dizer com relação a este ensino? Antes de iniciar qualquer argumentação, uma ressalva: para se comentar este assunto em detalhes, é preciso muito espaço. Portanto, o que se segue é uma síntese.
DO ÓBVIO ULULANTE À DESCOBERTA DA AMÉRICA
Nelson Rodrigues, conhecido teatrólogo brasileiro, criou a expressão "óbvio ululante". Parte da argumentação do grupo que defende o uso de Yehoshuah Hamashiah (em bom português, Jesus Cristo) insere-se nesta categoria. Seus textos repetem à exaustão que o nome do Salvador foi revelado em sua forma hebraica Yehoshuah. Isso é verdade. Tal declaração é um axioma, uma verdade evidente por si mesma, que não necessita de comprovação. Em sua soberania, Deus escolheu o antigo povo de Israel para ser o depositário da revelação (Dt 7.6-7; Rm 9.4-5). É óbvio que Ele comunicou-se com o povo que escolheu na língua hebraica. No entanto, não há nas Escrituras ordem para que a língua hebraica seja mantida nem proibição à tradução e, ou, transliteração de nomes em hebraico para qualquer outra língua. A língua hebraica não é sagrada. No Egito, em meados do quarto século antes da era cristã, aconteceu a tradução da Bíblia hebraica para a língua grega. Essa tradução é a famosa Septuaginta (LXX). As comunidades judaicas que não residiam em Israel e não tinham o hebraico como língua materna sempre entenderam a Septuaginta como Palavra de Deus, mesmo sabendo ser uma tradução, na qual os nomes próprios hebraicos foram transliterados,.
Passados tantos séculos, um grupo "descobre a América" e passa a acreditar na forma Yehoshuah como sendo a única correta, bem como a ensiná-la. É estranha essa tentativa de "reinvenção da roda", por alguns motivos.
Primeiro, a insistência na forma Yehoshuah é exemplo do que especialistas em sociologia chamam de sequestro simbólico. Há um sequestro de um elemento da cultura judaica, que é imposto como sendo o único correio.
Segundo, voltando ao que foi dito há pouco, o cristianismo não reconhece nenhuma língua como sagrada, de uso obrigatório. Uma das principais contribuições da Reforma Protestante foi a tradução da Bíblia para diversas línguas, abolindo a exclusividade do latim, até então a língua litúrgica da Europa Ocidental. A imposição de uma língua é característica muçulmana, não cristã. Na tradição islâmica o árabe é língua sagrada. Não há equivalente deste fato na tradição cristã. Portanto, o Apocalipse de João, que fecha com chave de ouro a revelação de Deus, fala sobre "grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação" (Ap 7.9-10). Além disso, é mais do que provável, conforme lembram eruditos como Joachim Jeremias, que Jesus e seus contemporâneos tenham falado aramaico e, não, hebraico. Haja vista o Talita cumi (Mc 5.41). O cego à beira do caminho gritou para Jeshua (com "j" mesmo) "Filho de Davi", e foi ouvido (Mc 10.47).
Terceiro, nos Discursos de Despedida registrados no Evangelho segundo João, o Senhor Jesus fala a respeito do Espírito Santo, que viria "a fim de que esteja para sempre convosco" (Jo 14.16). O Espírito de Deus já veio. Ele é o Espírito da verdade (Jo 14.17). Se o movimento que defende com tanta ênfase o uso da forma hebraica do nome de Jesus tivesse razão, o Espírito Santo, logo no início da história da igreja, teria levantado pessoas para trazerem os fiéis de volta à verdade. E no mínimo, estranho, pensar que o Espírito da verdade esperasse 2.000 anos para atuar, ainda mais em uma questão dessa natureza.
Quarto, o movimento Yehoshuah Hamashiah é típico representante da efervescência religiosa de fim de milênio.
Teóricos em sociologia da religião lembram ser períodos assim propícios ao aparecimento das mais variadas propostas de experiências religiosas. Não é coincidência que tal movimento faça ouvir sua voz no fim do século XX.
Quinto, para utilizar mais uma vez a contribuição das ciências sociais em sua abordagem do fenômeno religioso: observa-se que o grupo que defende o uso de Yeoshuah é um grupo com características de seita, não de igreja. Considera-se o único detentor da verdade, contra todas as demais tradições cristãs. Utiliza linguagem por demais arrogante e ofensiva. Por meio do conhecimento da língua hebraica, pratica uma manipulação do poder religioso, Isto fica evidente pelo fato de o líder do movimento se autodenominar Haroeh ("Pastor", em hebraico). Por que não utilizar a palavra designativa de sua função em português? Essa tentativa de hebraização do cristianismo não é santa. Por trás de uma aparente piedade, esconde-se um jogo de poder. Afinal, são pouquíssimos os membros de igrejas que possuem algum conhecimento do  -hebraico bíblico. Quando surge alguém que conhece um pouco, dizendo que tudo que os outros aprenderam está errado, fica fácil semear confusão e conquistar adeptos. Em sua linguagem empafiosa, repetindo o tempo todo que é o único detentor da verdade, pois seria o único que invoca verdadeiramente o nome do Senhor, o movimento Yeoshuah Hamashiah se esquece de textos como: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mt 7.21).
Sexto, o movimento comete grosseiro erro teológico quando cita passagens como Joel 2.32 e Romanos 10.13: "Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo". Para o grupo, só será salvo quem invocar o nome Yehoshuah. Deste modo, reduzem o dom da salvação à invocação mecânica de um nome hebraico. De onde vem a salvação: da graça de Deus, que nenhum de nós merece, ou da mera pronúncia de um nome hebraico? Parece que a forma hebraica do nome do Senhor foi transformada em palavra mágica. Outro problema não tratado pelo grupo é que, em Joel 2.32, o Senhor é Javé. Em Romanos 10.13, citação do texto de Joel, a palavra Senhor (Javé, em hebraico) é traduzida por Kurios (literalmente Senhor, em grego).
Como bom judeu e bom conhecedor da língua hebraica, Paulo não se incomodou em traduzir Javé por Kurios. Então, quem será salvo: quem invocar o nome Javé ou quem invocar o nome Kurios? Assim, parece uma versão "evangélica" das Testemunhas de Jeová.
A PESSOA E O NOME
Finalmente, o grupo hebraísta tem uma antropologia distorcida. Na antropologia bíblica, o nome é como um sinônimo da própria pessoa. A pessoa é o que é, e não deixa de o ser se seu nome for traduzido ou transliterado para outra língua. Saulo de Tarso não mudou quando foi chamado de Paulo. Vale lembrar que Saulo é seu nome hebraico (Shaul, transliterado Saul em português) e Paulo, seu nome latino, Simão não deixou de ser o que era quando foi chamado por Jesus de Pedro, Mateus e Levi eram nomes de urna mesma pessoa, e não de duas pessoas distintas. Ainda, Silas e Silvano eram nomes de uma mesma pessoa, e não de duas pessoas distintas. Ademais, o nome Josué (equivalente hebraico do nome Jesus — o Novo Testamento grego não distingue entre Josué e Jesus) aparece como Ieshua cerca de 29 vezes nos livros de Crônicas, Esdras e Neemias (incluindo Esdras 5.2 em aramaico), assim como Jehoshuah aparece cerca de doze vezes em Ageu e Zacarias. Muitas vezes esses dois nomes se referem à mesma pessoa, o filho de Jozadaque. Vale lembrar que o erudito F, Delitzch, profundo conhecedor da língua hebraica, mantém a forma Jeshua em sua tradução do Novo Testamento.
Alguns brigam pela obrigatoriedade do uso da forma hebraica do nome de Jesus. Melhor é abandonar uma postura aguerrida e obedecer ao Príncipe da Paz. que nos ordenou testemunharmos dele a todos os povos, falantes de todas as línguas. Pois um dia, na presença do que está assentado no trono e do Cordeiro, o nome de Jesus será louvado não apenas em hebraico, mas em toda língua falada pela raça humana,
Vem, Senhor Jesus! 
Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Volume II. Colin Brown (Ed.), São Paulo: Vida Nova, 1982, pp. 484-485.


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Fonte:
Revista Ultimato. Ano XXXII - Nº 260 - Setembro/Outubro de 1999. Editora Ultimato. Viçosa - MG, págs. 40-41.

Cronologia Turca

Cronologia Turca
As Grandes Datas do Cristianismo na Turquia
30 - Morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, em Jerusalém, a uns 700 km de Tarso, na Cilícia, ao sul da Turquia, não muito longe da fronteira com a Síria.
33 - Conversão de Paulo, nascido em Tarso, em Damasco, capital da Síria.
47-57 - Paulo anuncia o evangelho na Turquia na primeira, na segunda e na terceira viagens missionárias.
330 (11 de maio) - Constantino transfere a capital do Império Romano para Bizâncio, a "Nova Roma", e passa a chamá-la de Constantinopla.
325 - Primeiro Concílio Ecumênico da Igreja, realizado em Nicéia (atual Iznik), na Bitínia, com a presença de Constantino e 300 bispos, divididos em três partidos.
337 (22 de maio) - Morte de Constantino, provavelmente aos 63 anos, pouco depois de ser finalmente batizado por Eusébio, bispo de Nicomédia, mais tarde patriarca de Constantinopla.
381 - Segundo Concílio Ecumênico da Igreja, realizado em Constantinopla, por convocação do imperador Teodósio, que tinha apenas um ano de batismo.
428 - Nestório torna-se patriarca de Constantinopla. Três anos mais tarde é condenado injustamente como herege pelo Concílio de Éfeso e desterrado para o Grande Oásis, no Egito, onde morre cerca de 20 anos depois.
431 - Terceiro Concílio Ecumênico da Igreja, realizado em Éfeso, por convocação dos imperadores do Ocidente e do Oriente, para discutir as doutrinas de Nestório.
451 - Quarto Concílio Ecumênico da Igreja, realizado em Calcedônia, em frente a Constantinopla, com a presença de 600 bispos.
553 - Quinto Concílio Ecumênico da Igreja, realizado em Constantinopla, por convocação de Justiniano I, com a presença de 165 bispos. Maria é declarada aeiparthenos (sempre virgem) e diz-se que os irmãos de Jesus (Mc 3.31-32) são meio-irmãos, primos ou parentes próximos.
622 - Maomé organiza em Medina, na Arábia Saudita, a primeira comunidade muçulmana da história. Estava então com 52 anos e morreria dez anos mais tarde.
680 - Sexto Concílio Ecumênico da Igreja, realizado em Constantinopla, por convocação do imperador Justiniano II. Tornam-se maiores as diferenças entre as alas ocidental e oriental da igreja.
787 - Sétimo Concílio Ecumênico da Igreja, realizado em Nicéia, por convocação de Irene, mãe do imperador Constantino VI, com a presença de 300 prelados e dois legados papais, para resolver a questão iconoclasta. Embora o uso de imagens na igreja oriental estivesse proibido por decreto desde 725, o Concílio de Nicéia promulgou que as figuras, a cruz e os Evangelhos "devem receber a devida saudação e honrosa reverência, mas não o culto verdadeiro, que só pertence à natureza divina".
1054 (16 de julho) - O Cardeal Humberto, em nome do papa Leão IX, deposita sobre o altar-mor da catedral de Hagia Sophia, uma bula de excomunhão do patriarca Miguel Cerulário, no momento em que este se preparava para celebrar a comunhão. A excomunhão se estendia a todos os partidários de Cerulário. Foi assim que se deu o Grande Cisma, a primeira grande divisão do cristianismo. De um lado ficou a igreja ocidental (católica) e do outro a igreja oriental (ortodoxa).
1453 - Exércitos otomanos, sob a liderança de Mehmet II, conquistam Constantinopla, o último reduto do império bizantino, que durou 1.123 anos. Quase toda Turquia, grande parte da Trácia e dos Balcãs já estavam em poder dos muçulmanos. A cidade muda de nome pela segunda vez: de Constantinopla para Istambul. O país muda de religião, pela segunda vez: do cristianismo para o islamismo. A população muda de livro sagrado: da Bíblia para o Corão. O púlpito de Hagia Sophia muda de pregação: Jesus não é mais o Verbo que se fez carne nem Salvador do mundo, mas um simples profeta, inferior a Maomé.


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Fonte:
Revista Ultimato. Ano XXIX - Nº 239 - Março de 1996. Editora Ultimato. Viçosa - MG, pág. 19.

A última música do Titanic

A última música do Titanic
O relógio do enorme e luxuoso salão de baile marcava menos de duas horas da madrugada da noite de 14 para 15 de abril de 1912. Todo mundo estava acordado. Os escaleres apinhados de mulheres e crianças da primeira classe já haviam descido. Vários passageiros já haviam pulado para a água gelada do mar. Alguns já haviam morrido por causa do impacto da queda e seus corpos boiavam ao redor do navio. A noite estava serena e o mar também. Foi quando um dos violinistas, já no convés do Titanic, entre gritos de desespero, começou a tocar um dos mais ternos hinos religiosos, no que foi imediatamente acompanhado por outros violinos, viola e violoncelo. Talvez ninguém, naquela altura, tenha cantado ou cantarolado a conhecida letra da conhecida música. Mas, tanto uma como a outra, deve ter soado gostoso aos ouvidos de todos os que ainda estavam a bordo, antes de o navio se partir em dois e afundar de vez. Era pelo menos um pequeno conforto para quem não conseguiu lugar num dos botes salva-vidas e estava a apenas um passo da morte certa e pavorosa. Era também — quem sabe — uma confissão de última hora, para compensar a desatenção coletiva dada a Deus até então e a soberba daquele passageiro incontido que achava e declarou em público que nem Deus podia afundar o Titanic. Pois todos que ouviram a melodia certamente se lembraram no mínimo do título do hino: Nearer, my God, to Thee (Mais perto, meu Deus, de ti).
Não era a primeira vez que o hino Mais perto, meu Deus,, de ti entrava para a história. Dois anos antes, em 1910, por ocasião da Convenção Mundial de Escolas Dominicais, realizada em Washington, ele foi cantado em 23 idiomas. E, em 1872, 40 anos antes, 50.000 pessoas o entoaram na celebração do Jubileu da Paz, na cidade de Boston.


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Fonte:
Revista Ultimato. Ano XXXI - Nº 252 - Maio de 1998. Editora Ultimato. Viçosa - MG, pág. 27.

O papado: do renascimento até João Paulo II (Religião)

O papado: do renascimento até João Paulo II

Por: Alderi Souza de Matos
A Reforma Protestante do século 16 despertou a cúpula da Igreja Católica do estado de letargia espiritual e omissão pastoral em que se encontrava. A reação católica teve duas manifestações complementares. Por um lado, Roma empenhou-se em combater o novo movimento, detendo o seu crescimento e procurando suprimi-lo onde fosse possível, como aconteceu na Espanha e na Polônia, Esse esforço recebeu o nome de Contra-Reforma. Por outro lado, a Igreja Romana, consciente das distorções espirituais e morais apontadas pelos reformadores, fez uma autocrítica rigorosa e um esforço sério no sentido de corrigir seus erros, aperfeiçoar sua estrutura e explicitar melhor sua fé, Esse aspecto é denominado pelos historiadores de Reforma Católica. Nos dois esforços, os papas tiveram uma atuação destacada,
Até o início da década de 1530, o trono pontifício continuou a ser ocupado por homens excessivamente envolvidos em questões seculares e políticas. Essa situação mudou quando Alessandra Farnese tornou-se o papa Paulo III (1534-1549). Farnese nomeou uma comissão de cardeais que avaliou a situação da igreja e propôs medidas saneadoras, entre elas que o papado se concentrasse nas suas tarefas espirituais e deixasse em segundo plano a preocupação com o poder, a opulência e a dignidade terrena. Outras duas grandes realizações de Paulo III foram a aprovação formal da nova ordem dos jesuítas ou Companhia de Jesus (l 540) e a convocação do Concílio de Trento (1545-1563):
Esse famoso concílio afastou definitivamente qualquer possibilidade de conciliação com os protestantes. Desde então, o catolicismo conservador e militante tem sido designado como "trídentino" (de Trento). Entre as suas muitas e importantes resoluções, o concílio reafirmou o papel dominante dos papas na vida da igreja. Outros destacados pontífices da era de Trento foram Giovanni Pietro Caraffa (Paulo IV, 1555-1559) e Giovanni Angelo Mediei (Pio IV, 1559-1565). Este último tem seu nome ligado a uma importante declaração de fé católica, o Credo de Pio IV ou Profissão de Fé Tridentina, que deve ser afirmada por todos os convertidos ao catolicismo. Esses papas reformadores contribuíram decisivamente para tornar a Igreja Católica uma instituição mais coesa, organizada e disciplinada, bem como dotada de uma clara identidade doutrinária. Um fato revelador é que por mais de trezentos anos nenhum outro grande concílio seria convocado até o Vaticano I.
Nos séculos 17 e 18, as antigas ligações entre a Igreja Católica e as autoridades seculares continuaram a criar problemas para os papas, O Concílio de Trento contribuiu para a centralização do poder no papado e isso não foi bem recebido em muitas partes da Europa devido ao crescente nacionalismo e ao absolutismo real. A oposição ao conceito de uma igreja centralizada sob a autoridade papal recebeu o nome de galicanismo, por haver se manifestado mais fortemente na França, a antiga Gália. Assim, somente em 1615, os decretos de Trento foram promulgados nesse país. Até mesmo dentro da Igreja houve galicanos, isto é, aqueles que acreditavam que a autoridade eclesiástica residia nos bispos, e não no papa. Por outro lado, os defensores da autoridade suprema dos papas foram chamados de ultramontanistas, porque buscavam essa autoridade "além das montanhas" (os Alpes). Outro golpe recebido pelo poder papal foi a supressão da ordem dos jesuítas, um poderoso instrumento das políticas pontifícias. Após ser expulsa de Portugal, Espanha e França, bem como de suas colônias latino-americanas, a Sociedade de Jesus foi dissolvida em 1773 pelo papa Clemente XIV. Assim, ironicamente, enquanto os papas insistiam na sua jurisdição universal, eles estavam de fato perdendo poder e autoridade.
Um golpe ainda mais devastador contra o papado foi desferido pela Revolução Francesa (1789). Desde o início houve um profundo conflito entre a Igreja e o ideário republicano da revolução. Assim, logo que tomou o poder, o novo governo procurou enfraquecer o papado e suprimir a Igreja na França. Dois papas da época sofreram bastante nas mãos do novo regime. O primeiro foi Giovanni Angelo Braschi ou Pio VI (1775-1799). Em 1798, o exército francês ocupou Roma, proclamou uma república e declarou que o papa não mais era o governante temporal da cidade. Pio VI morreu no ano seguinte, virtualmente como prisioneiro dos franceses. Seu sucessor, Barnaba Chiaramonte, eleito papa Pio VII (1800-1823), inicialmente foi deixado em paz. Todavia, em 1808, Napoleão tomou a cidade de Roma e o papa foi feito prisioneiro por vários anos, até a queda do soberano francês em 1814. Pouco depois de retornar a Roma, Pio VI restaurou a Sociedade de Jesus.
A memória da Revolução Francesa reforçou o conservadorismo político e teológico dos papas e sua consequente oposição às ideias republicanas e democráticas que viriam a ser cada vez mais amplamente aceitas no mundo ocidental. Essa atitude alcançou a sua expressão máxima no cardeal Giovanni Maria Mastai-Ferretti, que, como papa Pio IX, teve o mais longo pontificado da história (1846-1878). Pio IX enfrentou um novo problema, que foi o nacionalismo italiano e a luta pela unificação da Itália, até então subdividida em muitos principados, um dos quais eram os antigos estados pontifícios, Um desses líderes nacionalistas foi Giuseppe Garibaldi, que casou-se com a brasileira Anita Garibaldí. Em 1870, as tropas do novo Reino da Itália tomaram os estados papais e assim chegou ao fim o poder temporal dos papas, que havia atingido o seu auge no pontificado de Inocêncio III, no século 13.
Ao mesmo tempo que perdia o seu poder político, Pio IX acentuou fortemente as suas prerrogativas na área religiosa. Sua ousadia tornou-se patente quando, pela bula Ineffabilis, proclamou o dogma da imaculada concepção de Maria (1854), Com isso, ele foi o primeiro pontífice a definir um dogma por si mesmo, sem o apoio de um concílio. Dez anos depois, Pio promulgou a encíclica Quanta cura (1864) e seu famoso apêndice, o Sílabo de Erros. Suas oitenta proposições condenaram explicitamente, entre outras coisas, o protestantismo, a maçonaria, a liberdade de consciência, a liberdade de culto, a separação entre a igreja e o estado, a educação leiga e, em geral, o progresso e a civilização moderna. Sua última grande realização foi o Concílio Vaticano I (1870), o qual, através do decreto Pastor aeternus, proclamou o controvertido dogma da infalibilidade papal. Essa infalibilidade ocorreria quando o papa fala ex cathedra, isto é, no exercício oficial do seu cargo, definindo questões de fé e moral. Não por coincidência, isso ocorreu no mesmo ano em que a Itália anexou os estados pontifícios.
A Igreja Católica e seus pontífices começaram lentamente a aceitar o mundo moderno com o papa Leão XIII (1878-1903). Embora ainda marcadamente conservador, a ponto de declarar na bula Immortale Dei que a democracia era incompatível com a autoridade da igreja, ele deu uma série de passos construtivos no relacionamento com diversos governos europeus. Sua realização mais notável foi a encíclica Rerum novarum (1891), na qual expressou o pensamento social da Igreja e fez uma corajosa defesa dos direitos dos trabalhadores no contexto da revolução industrial e do capitalismo em expansão.
Um período especialmente conturbado para a Igreja Católica e para os seus líderes foi a época das duas guerras mundiais. Em sua repulsa do comunismo antirreligioso e ateu, e em sua preocupação com a defesa dos interesses da igreja, os pontífices do período acabaram estabelecendo fortes laços com regimes de extrema direita em diversos países da Europa. Em 1929, Pio XI (1922-1939) assinou uma concordata com o ditador fascista Benito Mussolini, o Tratado de Latrão, mediante a qual foi criado o Estado do Vaticano. Ele também apoiou o regime de Francisco Franco na Espanha. Mais problemática foi a concordata com Adolf Hitler em 1933, vista por muitos observadores internacionais como uma aprovação tácita do regime nazista. Todavia, em 1937, Pio XI publicou a encíclica Mit brennender Sorge ("com viva ansiedade"), contendo severas críticas ao nacional-socialismo,
Seu secretário de estado, o cardeal Eugênio Pacelli, sucedeu-o no trono pontifício como papa Pio XII (1939-1958), ao mesmo tempo em que eclodia a II Guerra Mundial. Esse papa tem sido severamente criticado por seu silêncio diante das atrocidades cometidas pelos nazistas contra os judeus, mesmo convertidos ao catolicismo. No campo doutrinário, ele proclamou o dogma da ascensão corporal de Maria (1950), Paradoxalmente, esse papa conservador tomou iniciativas que contribuíram para as grandes mudanças que viriam a acontecer na igreja após a sua morte. Ele incentivou o uso dos novos métodos de estudo bíblico por meio da encíclica Divino afflante Spiritu (1943), bem como valorizou e estimulou as igrejas localizadas fora da Europa,
Um dos períodos mais extraordinários da história da igreja e do papado teve início com a eleição do idoso cardeal Angelo Giuseppe Roncalli como papa João XXIII (1958-1963). Convencido da necessidade de uma ampla atualização (aggiornamento] da igreja, ele convocou o Concílio Vaticano II, formalmente instalado no dia 11 de outubro de 1962. Esse importante concílio, que teve expressiva participação de bispos do terceiro mundo, aprovou resoluções sem precedentes nas áreas de renovação litúrgica, preocupação com os pobres e diálogo interconfessional. As duas últimas preocupações já haviam sido expressas respectivamente na encíclica Mater et Magistra e na criação do Secretariado para a Promoção da Unidade Cristã. Seu sucessor, o cardeal Giovanni Battista Montini (Paulo VI, 1963-1978), embora mais contido, deu continuidade ao Concílio Vaticano II, no interesse de "construir uma ponte entre a Igreja e o mundo moderno". A "Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno" foi o documento mais longo já produzido por um concílio e contrastou profundamente com certas ênfases do século anterior.
Paulo VI também publicou a controvertida encíclica Humanas vitae (1968), que proibiu aos católicos o uso dos métodos de controle artificial da natalidade.
A eleição do último papa do século 20, em 1978, foi um acontecimento não menos momentoso para a Igreja Católica e para o mundo ocidental. O polonês João Paulo II (Karol Jozef Wojtyla) é o primeiro papa não italiano desde o século 16. Sua atuação corajosa contribuiu para a derrocada do comunismo em sua pátria e no Leste Europeu, Em 1981, ele sobreviveu a um grave atentado na Praça de São Pedro, É também o papa que mais se deslocou pelo mundo afora, tendo feito quase uma centena de viagens internacionais. Dotado de sólido preparo intelectual, tem publicado inúmeras encíclicas, abordando temas éticos, sociais e teológicos: Redemptor hominis (1979), Dives in misericordia (1980), Sollicitudo rei socialis (1988), Veritatis splendor (1993), Evangelium vitae (1995), Ut unum sint (1995). Por outro lado, representa um recuo conservador em relação aos seus predecessores, como ficou evidenciado na sua atitude em relação à teologia da libertação, nas suas interferências diretas em muitas organizações da igreja e, em geral, no seu entendimento exaltado da autoridade papal.
No seu conjunto, o papado tem sido uma instituição predominantemente benéfica para a Igreja Católica, dando-lhe um notável senso de unidade, propósito e identidade. Muitos pronunciamentos papais sobre temas sociais e éticos têm sido altamente relevantes em um mundo secularizado e materialista. Suas fraquezas têm sido o envolvimento político e um estilo de liderança nem sempre condizente com as normas dadas por Cristo aos pastores do seu rebanho. Finalmente, é de se lamentar que justamente essa instituição seja o maior obstáculo para uma maior aproximação entre os cristãos, visto que a autoridade pontifícia é rejeitada não somente pelos protestantes, mas pela Igreja oriental, que tem raízes tão antigas e apostólicas quanto a Igreja latina.


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Fonte:
Revista Ultimato. Ano XXXIV - Nº 269 - Março/Abril de 2001. Editora Ultimato. Viçosa - MG, págs. 50-51.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

A Esmola - Um gesto de amor pelo pobre

A Esmola - Um gesto de amor pelo pobre

"Quando, pois, deres esmola,
não toques trombeta diante de ti,
como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas,
para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua esquerda o que faz a tua direita;
para que a tua esmola fique em secreto;
e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará."
(Mt 6.2-4)
"Quando, pois, deres esmola...". Cuidar dos pobres é uma responsabilidade de todos os seguidores de Jesus Cristo. Podemos fazer por atos de justiça ou ações de misericórdia. Nas Escrituras está a ideia da recompensa dada por Deus àquele que atende ao ou a ideia de que Deus assume para si mesmo o favor feito a necessitado: Deus livra do mal, torna feliz, protege, preserva a de quem acode o necessitado (SI 41.1-2). "Quem se compadece do .:o Senhor empresta, e este lhe paga o seu benefício" (Pv 19.17). Jesus para si o socorro que prestamos aos famintos, aos forasteiros, í sedentos, aos prisioneiros (Mt 25.31-48).
Em geral damos esmola daquilo que nos sobra, e assim, estamos apenas denunciando o mundo de injustiça em que estamos inseridos. O que nos sobra pode ser exatamente o que tem faltado a outros. Quando damos aquilo que nos faz falta, a nossa esmola pode anunciar a grandeza de nossa sensibilidade e misericórdia. Cuidar dos pobres é um mandamento tão importante quanto os mandamentos da oração ou do jejum.
A esmola é um gesto que pode representar a sensibilidade e compaixão que alguém demonstra em favor dos pobres. Mas pode também constituir-se num instrumento de promoção pessoal. Os pobres esmolam sempre em lugares públicos - estão nas praças, nas esquinas, em portas de igrejas. Lugares atraentes para se praticar publicidade pessoal. Por isto, o gesto de compaixão pelo pobre está carregado da tentação de se agir na intenção de buscar reconhecimento e prestígio populista.
Como se vê, o texto não está tratando das implicações de dependência provocadas pela filantropia pura e simples. Se a esmola vai ou não gerar dependência, isso é outra questão; mas não é este o tema da ilustração do Mestre. Aqui, Jesus está condenando a artimanha dos hipócritas em utilizar a esmola para publicidade pessoal: "...para serem glorificados pelos homens". Observe-se também que não se pode utilizar este texto para condenar a publicidade feita para conseguir a compaixão das pessoas por outras que estejam submetidas a situações de crise e sofrimento. A filantropia deve constituir-se num gesto em favor da vida, e qualquer propaganda neste sentido só é legítima se for um instrumento em benefício exclusivo do pobre.
Portanto, utilizar-se da miséria do outro para publicidade pessoal é desumano. Utilizar-se da miséria para, tocando na sensibilidade humana dos fregueses, ajudar um comerciante a vender melhor seus produtos, parece-me desumano. Usar a situação do pobre e a nossa filantropia para promover a igreja e não o ser humano é hipocrisia pura. Jesus recomenda que a nossa atuação em favor do pobre seja marcada pela discrição: "Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua esquerda o que faz a tua direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará."


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Fonte:
Ser é o bastante, por: Carlos Queiroz. Editora Ultimato. Curitiba, 2003, págs. 145-146.