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domingo, 10 de julho de 2016

Pessoa e os heterônimos

Pessoa e os heterônimos
Mais do que meros pseudônimos, outros nomes com os quais um autor assina sua obra, os heterônimos são invenções de personagens completos, que têm uma biografia própria, estilos literários diferenciados e que produzem uma obra paralela à do seu criador. Fernando Pessoa criou vários desses personagens. Os estudiosos seguem discutindo por que Pessoa teria criado seus heterônimos. Seria esquizofrenia? Psicografia? Uma grande piada? Um genial jogo de marketing poético? Decerto, sabemos que a genialidade de Fernando Pessoa é grande demais para caber em um só poeta. Como bem o sintetizou o seu heterônimo mais atribulado, Álvaro de Campos:
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.

Além disso, Fernando Pessoa viveu durante os primórdios do Modernismo, uma época em que a arte se fragmentava em várias tendências simultâneas, as chamadas vanguardas: Futurismo, Cubismo, Expressionismo, Dadaísmo, Surrealismo e muitas outras.
A arte, no momento da explosão das inúmeras vanguardas modernistas por todo o mundo, também se dividia e se multiplicava. Fernando Pessoa, introdutor das vanguardas modernistas em Portugal, ao se dividir, levou a fragmentação da arte moderna às últimas consequências.


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Fonte:
Poemas Completos de Alberto Caeiro - Fernando Pessoa. Editora Martin Claret. São Paulo, 2007.

terça-feira, 5 de julho de 2016

A Escola de Sócrates

A Escola de Sócrates

Eu nunca fui mestre de ninguém, conquanto nunca me opusesse a moço ou velho que me quisesse ouvir no desempenho de minha tarefa. Tampouco falo se me pagam, e se não pagam, não; estou igualmente à disposição do rico e do pobre, para que me interroguem ou, se preferirem ser interrogados, para que ouçam o que digo. Se algum deles vira honesto ou não, não é justo que eu responda pelo que jamais prometi nem ensinei a ninguém. Quem afirmar que de mim aprendeu ou ouviu em particular alguma coisa que não todos os demais, estai certos de que não diz a verdade. Então, por que será que alguns gostam de se entreter comigo tanto tempo? Vós o ouvistes, Atenienses; eu vos disse toda a verdade; eles gostam de me ouvir examinar os que supõem ser sábios e não o são; e isso não deixa de ter o seu gosto. Mas, repito, faço-o por uma determinação divina, vinda não só através do oráculo, mas também de sonhos e de todas as vias pelas quais o homem recebe ordens dos deuses. É fácil de comprovar essa verdade; se há moços que estou corrompendo e outros que já corrompi, forçosamente, decerto, alguns deles já amadurecidos compreenderam que outrora, na sua mocidade, eu lhes dera maus conselhos e podem levantar-se para me acusar e punir; se não o quiserem eles fazer, alguém da família, o pai, os irmãos, outros parentes, se os seus familiares sofreram qualquer má influência minha, podem lembrá-la agora e punir-me. Há um bem grande número deles que estou vendo aqui, começar por Críton, que é da minha idade e do meu bairro, pai de Critobulo aqui presente; em seguida, Lisânias de Esfetos, pai de Esquines, que aí está; depois, Antifonte de Cefísia, pai de Epígenes; aí estão outros, cujos irmãos frequentaram aqueles entretenimentos: Nicóstrato, filho de Teozótides e irmão de Teódoto — Teódoto, por sinal, morreu e não poderia estorvá-lo com sua intercessão; há mais, Para-lo, filho de Demódoco, de quem era irmão, Teages; esse outro é Adimanto, filho de Aristão, de quem é irmão, Platão, aqui presente; esse é Ajantodoro, de quem é irmão, Apolodoro, também presente. Posso citar muitas outras pessoas, uma das quais, de preferência, devia Meleto ter apresentado como testemunha da acusação; se então se esqueceu, faça-o agora, com minha licença, e diga se tem algum testemunho daquela natureza. Bem ao contrário, senhores, achareis todos prontos a acudir-me; a mim, o corruptor, que faço mal a seus parentes no dizer de Meleto e Anho. Talvez tivessem razões para me apoiar os corrompidos; mas os que não corrompi, já mais idosos, parentes daqueles, que motivo terão para apoiar-me, senão o reto e justo de reconhecerem que Meleto mente e eu digo a verdade?


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Fonte:
Sócrates: vida e pensamentos. Editora Martin Claret. São Paulo, 1996.