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terça-feira, 26 de julho de 2016

Teologia e trabalho (Religião)

Teologia e trabalho
Por: Rev. Guilhermino Cunha
Em meio ao caos econômico, político e social que estamos mergulhados, cumpre nesta hora lembrarmos da mensagem de João Calvino, o reformador protestante de Genebra, que no século XVI, estabeleceu normas éticas e morais tanto para os indivíduos, como para os negócios e por extensão para a sociedade em geral.
Calvino teceu comentários e recomendou procedimentos para a solução dos problemas sociais, econômicos e políticos de sua época, muitos identificaram nesta postura, uma prévia do capitalismo, mas com a degradação do sistema capitalista, a nível mundial, desembocando no capitalismo selvagem, muitas vezes o pensamento calvinista é mal compreendido, quase sempre é erradamente citado e infelizmente bastante distorcido.
Em seu livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber destaca a doutrina da "vocação". Sem dúvida, o tema é um ponto muito significativo da tecnologia e da ética calvinista para quem a vocação é um serio e fiel compromisso da pessoa com o trabalho; o trabalho é visto como um chamado de Deus e uma responsabilidade espiritual. O trabalho não é meramente econômico, é uma finalidade divina. As preconizadas na ética calvinista de diligência,  poupança e sobriedade, são prepara uma autêntica prosperidade e saída da crise.
Afirma Max Weber que o espírito do capitalismo é o espírito do ascetismo cristão. Só que o ascetismo neste caso sai da clausura e vai para as ruas, para o dia-a-dia, para a vida prática. Para Weber, o capitalismo é fruto do espírito calvinista com sua ideia de vocação divina para o trabalho secular.
Revisitando o pensamento weberiano constatamos que jamais Calvino preconizou princípios do capitalismo selvagem. O que temos hoje não reflete o que Calvino ensinou. O próprio Weber falou de um capitalismo moderno, organizado e racional onde haveria justiça social, distribuição de riquezas e não o que vemos na atualidade: acúmulo de capital, exploração de um indivíduo sobre outros e de nações sobre outras. O que estamos presenciando, sentindo e sofrendo, a nível internacional e, principalmente em nosso país, é a excessiva concentração de riqueza e uma perversa socialização dos prejuízos. Isto não é, nunca foi, calvinismo.
É tempo de voltarmos ao pensamento de João Calvino como analisado por Max Weber e André Biéler, este último em O Pensamento Econômico e Social de Calvino, não somente pelas ideias práticas e objetivas, mas pela fidelidade do reformador de Genebra à Bíblia.
Se aplicarmos os princípios bíblicos na administração da política, da economia e em nossa vida pessoal veremos resultados surpreendentemente positivos.


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Fonte:
Revista Urgência Missionária. M. D. Navarro Editora e Publicidade. Osasco - SP, 1992, pág. 10.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

As Seitas Judaicas

As Seitas Judaicas — No fim deste período apareceram na Judéia diversas seitas, sendo as principais a dos Fariseus, a dos Saduceus e a dos Essênios. Esta última, ainda que não seja mencionada pelo nome no Novo Testamento, exercia uma certa influência na vida religiosa daqueles tempos.
Os Fariseus eram os sucessores espirituais dos Hasideanos, ou Casidins, "homens poderosos de Israel, oferecendo-se de boa vontade pela Lei", 1 Mac. 2:42. Desejavam vivamente conservar a nação fiel às tradições do passado. Mas quando Jônatas, o filho de Matatias, principiou a mostrar outro propósito na luta, não sendo já movido pela causa de Deus, mas pelos seus próprios interesses, e quando Simão foi escolhido pelo povo para seu sumo sacerdote, os escribas e os hasideanos retiraram-se do partido dos Macabeus. "Não pode haver dúvida alguma", diz Wellhausen, de que sob o ponto de vista legal eles tinham muita razão em se contentarem, como fizeram, com a conquista da liberdade religiosa. Os hasmoneus não tinham direito hereditário ao sumo sacerdócio, e a sua política que aspirava ao estabelecimento duma monarquia nacional, era inteiramente contrária ao espírito e essência da segunda teocracia". Foi uma profunda aderência à antiga constituição mosaica que produziu uma completa ruptura entre João Hircano, neto de Matatias e os fariseus. Num banquete político disse um fariseu a Hircano que ele devia resignar o seu lugar de sumo sacerdote e tratar simplesmente do governo civil do povo.
Significação do nome — Os fariseus, ou "separatistas", foram assim chamados, provavelmente pelos seus inimigos, para indicar o seu exclusivismo em face do povo em geral, o "povo da terra". A separação era realmente essencial ao ideal farisaico da vida religiosa. A Lei, como era exposta pelos escribas, era tão minuciosa que se tornava impossível aos judeus em geral o guardá-la perfeitamente. Os fariseus eram os homens que, unidos aos escribas, aceitavam os seus ensinamentos, consistindo a sua principal tarefa em pô-los em prática. Diz a seu respeito o Deão Stanley: "Eles por princípio e por política multiplicavam os sinais exteriores, que os deviam distinguir do mundo gentílico, ou mesmo dos do seu país, já manchados de gentilismo. Borlas nos seus vestidos; rolos e pequenos receptáculos de couro presos à testa, à cabeça e ao pescoço, com textos da Lei; longas orações feitas em praças públicas: abstinência rigorosa; imersões constantes; tudo isto eram as insígnias sacramentais, de que faziam uso, para mostrarem a sua superioridade". Não se pense todavia, que os pensamento-e vidas dos fariseus eram inteiramente consagrados às ordenações externas. Importa lembrar que eles procuravam conservar viva a esperança da vinda do Messias, e que, se muitas vezes deturpavam a verdade, não deixavam de proclamar que Deus recompensaria a obediência à Lei: eles confortavam aqueles que sofriam na sua defesa com a segurança de que haviam de possuir a vida eterna, e iam advertindo os maus üi que as suas maldades haviam de ter uma retribuição correspondente por toda a eternidade. Entre todas as seitas judaica a dos fariseus, embora não fosse a mais numerosa, era na verdade a mais proeminente, a mais popular, e a mais nacional em espírito. O patriotismo era o seu ponto de partida, e a restauração do governo divino era o seu objeto; apesar disso, como o farisaísmo não avaliava os homens pelos seus sentimentos, mas somente pelas exterioridades, ele foi severamente denunciado por Jesus Cristo, que por isto mesmo contava entre os fariseus os seus maiores inimigos.
Os Saduceus, o grande partido rival dos fariseu receberam o seu nome, ou de Zadoque, o sumo sacerdote, meado por Salomão (1 Reis 2:35) ou "porque pretendiam eu oposição aos meros partidos do separatismo, ser os verdadeiros Rsadiquins, os homens retos que insistiam mais na prática da moral do que no cumprimento da Lei cerimonial". Eles negavam a autoridade da tradição, e consideravam suspeitas as revelações posteriores a Moisés. Faziam objeção a todo o desenvolvimento da verdade divina, tratando-se mesmo de princípios plenamente subentendidos no Pentateuco, e desta forma muitas vezes compreendiam mal os próprios livros que declaravam receber. E então chegavam a negar as doutrinas da ressurreição e da imortalidade da alma. Com respeito a negarem eles a existência de anjos e espíritos, como se lê em Atos 23:8, isso não pode ter outra explicação, senão a de que quando os homens se tornam cépticos, a incredulidade está intimamente ligada à sua credulidade. Os preceitos da Lei eram as únicas partes do Pentateuco que eles consideravam claras, tudo mais era para eles incerto. Relativamente à esperança messiânica, eram eles profundamente indiferentes. Os saduceus na sua maior parte eram pessoas de alta posição e riqueza. A partir do tempo de João Hircano vemos que eles ocuparam muitas vezes o lugar de sumo sacerdote. Anás e o seu genro Caifás, que presidiram o julgamento de Cristo, eram saduceus. Dá-nos uma ideia clara do dogmatismo desta seita o fato de que eles excederam os fariseus na perseguição dos apóstolos, que "ensinavam ao povo e pregavam, por Jesus Cristo, a ressurreição dos mortos".
Os Essênios — A reserva dos escritores do Novo Testamento a respeito da terceira das grandes seitas que neste período apareceram na Judéia, é realmente notável, visto como alguns dos seus pontos característicos estão em íntima relação com os ensinamentos de João Batista e mesmo de Jesus Cristo. O essenismo era uma reação contra as formalidades mecânicas em que o farisaísmo assentara. Os seus partidários não tomavam parte alguma nos negócios públicos, e passavam a vida em lugares retirados e solitários, onde nas ocupações da agricultura, por meio de hábitos ascéticos, pelo celibato, e pelas abluções e orações, eles procuravam realizar o seu ideal de pureza levítica. À exceção dum juramento solene quando eram iniciados na sua seita, os essênios abstinham-se de jurar, desprezavam as riquezas e manifestavam a maior aversão pela guerra e pela escravidão. Todavia, embora ciosos da Lei, transgrediam-na também rejeitando os sacrifícios de animais, e adorando o sol. Em matéria de crença eles seguiam as Escrituras, e tinham por elas o maior respeito, interpretando-as, contudo, segundo um sistema alegórico inteiramente seu;  acreditavam também na imortalidade da alma, mas não aceitavam a doutrina da ressurreição dos corpos.
Posteriormente ao tempo de Jesus Cristo estas seitas foram conhecidas por diferentes nomes. Os fariseus foram sucessivamente chamados rabinistas (discípulos dos rabis, ou grandes mestres), cabalistas (isto é, tradicionalistas) e talmudistas. Os que sustentavam a doutrina dos saduceus sobre a supremacia do texto literal do Pentateuco, embora não abraçassem os seus outros erros, foram chamados caraítas ou escrituristas. Os essênios também são conhecidos na história pelo nome de terapeutas (isto é. médicos da alma), ainda que alguns pensem que este nome pertencia aos sequazes duma seita inteiramente distinta, posto que semelhante. Para maior conhecimento do assunto desta secção, vejam-se os capítulos sobre fariseus, saduceus e essênios na obra de Schürer Jewish People in the time of Christ, parte II, vol. II; e o capítulo sobre as Comunidades Religiosas da Terra Santa, no vol. I de Jesu van Nazara, do escritor Keim. E especialmente sobre os essênios, leia-se a dissertação do Bispo Lightfoot no seu Commentary on Colossians, e as conferências do Dr. H. R. Reynolds sobre João Batista.
Devemos observar que se os fariseus faziam uso da tradição na descoberta da verdade, os saduceus empregavam para o mesmo fim, a lógica racionalista, como em tempos posteriores vieram a fazer os filósofos escolásticos; e também que estas seitas tiveram a sua origem nas tendências da natureza humana e na decadência da religião espiritual. Mas a grande questão entre aqueles era a extensão e autoridade da tradição. Os saduceus embora quisessem comparar a tradição com a parte da Escritura que aceitavam, negavam a sua autoridade, ao passo que os fariseus recebiam-no como divina.


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Fonte
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História,  doutrina e interpretação da Bíblia - Volume II, por: Joseph Angus. Tradução: J. Santos Figueiredo. Casa Publicadora Batista. Rio de Janeiro, 1953, págs. 197-200.

domingo, 17 de julho de 2016

Santo Agostinho: A ação da alma sobre o corpo

A ação da alma sobre o corpo
Por: José Américo Motta Pessanha
Essa concepção de homem provinha de Platão (428-348 a.C.) e foi conhecida por Agostinho, pouco antes da conversão, através de Plotino. No diálogo Alcibíades, Platão define o homem como uma alma que se serve de um corpo, e Agostinho mantém permanentemente esse conceito com todas as consequências lógicas que ele comporta, dentre as quais a principal é a ideia de transcendência hierárquica da alma sobre o corpo. Presente em sua morada terrena, a alma teria funções ativas em relação ao corpo: atenta a tudo o que se passa ao redor, nada deixa escapar à sua ação. Os órgãos sensoriais sofreriam as ações dos objetos exteriores, mas com a alma isso não poderia acontecer, pois o inferior não pode agir sobre o superior. Ela, no entanto, não deixaria passar despercebidas as modificações do corpo e, sem nada sofrer, tiraria de sua própria substância uma imagem semelhante ao objeto. Essa imagem, que constituiria a sensação, não é, portanto, paixão sofrida pela alma, mas ação.
Entre as sensações, algumas referem-se às necessidades e estados do corpo, outras dizem respeito a coisas exteriores. O caráter distintivo desses objetos é a instabilidade: aparecem e desaparecem, estão aí e já não estão mais, sem que seja possível apreendê-los de uma vez por todas. Com isso ficam inteiramente excluídos de qualquer conhecimento verdadeiro, pois este exige necessariamente estabilidade e permanência. O conhecimento não seria, portanto, apreensão de objetos exteriores ao sujeito, tal como são dados à percepção. Seria, antes, a descoberta de regras imutáveis, tais como "2 + 2 = 4", ou então o princípio ético segundo o qual é necessário fazer o bem e evitar o mal. Tanto num caso como no outro, refere-se a realidades não-sensíveis, cujo caráter fundamental seria a necessidade, pois são o que são e não poderiam ser diferentes. Da necessidade do conhecimento decorreria sua imutabilidade e, desta, a sua eternidade.
Essa conclusão coloca desde logo um problema, pois revela a existência de dois tipos inteiramente diferentes de conhecimento. O primeiro, limitado aos sentidos e referente aos objetos exteriores ou suas imagens, não é necessário, nem imutável e nem eterno; o segundo, encontrado na matemática e nos princípios fundamentais da sabedoria, constitui a verdade. Essa verificação permite que se indague: será o próprio homem a fonte dos conhecimentos perfeitos? Contra a resposta afirmativa depõe o fato de ser o homem tão mutável quanto as coisas dadas à percepção, e justamente por isso ele se inclina reverente diante da verdade que o domina. Assim, só haveria uma resposta possível: a aceitação de que alguma coisa transcende a alma individual e dá fundamento à verdade. Seria Deus.


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Fonte:
Os Pensadores: Santo Agostinho. Tradução: J. Oliveira Santos e Ambrósio de Pina. Nova Cultural. São Paulo, 1996, págs. 15-16.

domingo, 10 de julho de 2016

Existe Deus?

Existe Deus?
Não há na existência humana uma pergunta mais profunda exigindo uma resposta. "Existe um deus?" é a pergunta que deve ser respondida por todos os seres humanos individualmente, e a resposta tem um longo alcance em suas implicações.
Mortimer Adler, em seu ensaio sobre Deus, na monumental obra Great Ideas Synopticon ("Sinóticos das Grandes Ideias") declara: "Exceção feita a certos matemáticos e físicos, todos autores dos "Grandes Livros" estão representados neste capítulo. Só na enorme soma de referências, tanto quanto na variedade, é o capítulo mais longo. A razão é óbvia. Para o pensamento, bem como para a ação, há mais consequências resultantes da afirmação ou da negação de Deus do que da resposta a qualquer outra pergunta fundamental." E ele prossegue, descrevendo as implicações práticas: "Todo o teor da vida humana é atingido pelo fato de os homens, ou se considerarem os seres supremos do universo, ou reconhecerem um ser sobre-humano que eles concebem como objeto de medo ou de amor, uma força a ser desafiada ou um Senhor a ser obedecido. Entre aqueles que reconhecem uma divindade, importa muito se ela é representada meramente pelo conceito de Deus — objeto de especulação filosófica — ou pelo Deus vivente que os homens adoram em todos os atos de piedade que compõem os rituais da religião."
Devemos dizer claramente desde o princípio que não é possível "provar" Deus no sentido científico do termo. Mas pode-se dizer com ênfase idêntica que não se pode "provar" Napoleão pelo método científico. A razão jaz na própria natureza da História e nas limitações do método científico. Para que alguma coisa seja "provada" pelo método científico, ela deve ser passível de repetir-se. Ninguém pode anunciar ao mundo uma nova descoberta baseado numa única experiência. Mas a História, na sua natureza real, não é passível de repetição. Ninguém pode "reprisar" o começo do universo, ou trazer Napoleão de volta, ou repetir o assassinato de Lincoln ou a crucifixão de Jesus Cristo. Porém o fato de que estes acontecimentos não podem ser "provados" pela repetição, não refuta a sua realidade como acontecimentos.
Existem muitas coisas reais que escapam ao critério da verificação pejo método científico. Este só é útil para coisas mensuráveis. Ninguém jamais viu três metros de amor, ou dois quilos de justiça, mas seria verdadeiramente uma estultícia negar a realidade destas coisas. Insistir em que Deus seja "provado" pelo método científico equivale a insistir em que se use um telefone para medir a radiotividade. Ele simplesmente não foi feito para isso.
Quais são as evidências a favor de Deus? É muito significativo que recentes pesquisas antropológicas revelaram que, entre povos primitivos mais longínquos e remotos, hoje em dia, há uma crença generalizada em Deus. E que nas histórias e lendas mais antigas de todos os povos ao redor do mundo o conceito original era de um só Deus, que era o Criador. Parece que, em suas consciências, mesmo aquelas sociedades que hoje são politeístas, tinham a princípio um Deus supremo. Esta pesquisa, nos últimos 50 anos, desafiou o conceito evolucionista do desenvolvimento da religião, que sugeria que o monoteísmo — o conceito dum só Deus — era o ápice dum desenvolvimento gradual que começou com os conceitos politeístas. Está cada vez mais claro que as tradições mais antigas por toda parte eram dum único Deus supremo.
Para os nossos objetivos atuais, contudo, é suficiente observar que a vasta maioria da humanidade, em todos os tempos e em todos os lugares, tem crido em alguma espécie de Deus ou deuses. Embora este fato não seja de modo algum uma prova conclusiva, devemos conservá-lo na mente à medida que tentamos responder à grande pergunta.
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Fonte:
Você pode explicar sua fé?, por: Paul E. Little. Tradução: Gordon Chown. Editora Mundo Cristão. São Paulo, 1997, págs. 18-20.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Os primeiros homens e a ideia de Deus


Os primeiros homens e a ideia de Deus
Deus! Haverá algo mais belo, edificante e sublime do que meditarmos sobre a existência e os mistérios deste Ser que é mais profundo do que o mais profundo de nós mesmos, cuja glória e poder enchem a terra e os céus? Todos os grandes homens que influenciaram a história do pensamento humano consagraram um estudo especial sobre "o Ser do qual não é A possível pensar nada maior" , segundo a famosa definição do teólogo Anselmo de Cantuária (1033-1109). Não existe, em todo o Universo, assunto de maior grandeza. Crer ou não, crer na existência de Deus — eis a grande questão que divide a humanidade, e define o nosso destino eterno.
Acreditando ou não na existência divina, o homem necessita de Deus para compreender-se a si mesmo e entender os mistérios da vida e da Natureza. É por esse motivo que não se tem notícia de povos ateus entre os primeiros grupos humanos que habitaram o mundo primitivo. O moralista e historiador grego Plutarco (45-125 d.C.) costumava dizer que "é possível encontrar cidades sem muralhas, sem ginásios, sem leis, sem moedas, sem cultura literária; mas um povo sem Deus, sem orações, sem juramentos, sem ritos religiosos, sem sacrifícios, jamais foi encontrado". E esta afirmação continua plenamente válida até os dias de hoje.

Jamais foram encontrados povos ateus
Todos os grandes estudiosos das religiões, em todos os tempos e entre todos os povos, confirmam que a crença na existência de Deus é universal. Nunca existiram povos ateus. O teólogo holandês C. P. Tiele (1830-1902), no seu manual de História Comparada das Antigas Religiões diz que "a afirmação de povos ou tribos sem religião repousa ou em observações inexatas, ou numa confusão de ideias. Nunca se encontrou tribo ou nação que não acreditasse em um Ser superior; os viajantes que afirmaram o contrário foram depois desmentidos pelos fatos".
Tanto os antigos missionários que partiram para evangelizar os mais longínquos recantos da terra, como também os exploradores de regiões desconhecidas depararam-se com a ideia de um Ser Supremo espalhada entre os povos. No livro Uma Introdução para a História das Religiões, Frank Byron Jevons cita oito autores especializados no assunto para confirmar que nunca foi encontrada qualquer tribo destituída da ideia de Deus. E por último, eis o que diz o renomado antropólogo Armando de Quatrefages (1810-1892) na 4ª parte do seu livro A Espécie Humana: "Obrigado pelo meu magistério a passar em revista todas as raças humanas, procurei o ateísmo entre as mais degradadas e as mais elevadas. Não o encontrei em lugar nenhum, a não ser no estado individual... O ateísmo só existe em estado errático. Tal o resultado de uma investigação que posso chamar conscienciosa, e que comecei muito antes de subir à cátedra de Antropologia."
Por esse e outros motivos, podemos afirmar que o ateísmo — essa epidemia que vem contaminando ao longo dos séculos o espírito de milhões de seres humanos — é uma espécie de câncer que nasce no coração de indivíduos soberbos, uma posição vaidosa, uma decisão precipitada, superficial e, em muitos casos, uma fuga. Porém, devemos também considerar que muitos se declaram ateus por jamais terem sido eficientemente alcançados pela reveladora e transformadora mensagem de Jesus Cristo. No capítulo sete deste livro estudaremos as respostas evangélicas ao problema do ateísmo.


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Fonte:
Provas da Existência de Deus, por: Jefferson Magno Costa. Editora Vida. São Paulo, 1995, 11-12.

Abraão

Abraão (pai duma grande multidão; originalmente Abrão, pai exaltado).
Progenitor de povo hebraico, nasceu em Ur Casidim. Ur dos caldeus, propriamente, Ur dos babilônios, no sul da Babilônia, ou ainda Uri, nome sumeriano de Acade. Tábuas de contrato -  tábuas feitas de barro com pactos inscritos enquanto massa molhada e postas a secar em lugar próprio — revelam que na era de Abraão, negociantes cananeus — ou "amorreus", como eram chamados pelos babilônios, falando a língua de Canaã, Isa. 19:18 — o hebraico — fixaram residência na Babilônia. Em uma tábua-datada no reinado do avô de Hamurabi, o Anrafel de Gên. 14:1, uma das testemunhas é chamada "o amorreu, filho de Abjramu", isto é, Abrão. Em emigrar para o oeste. Terá agiu de conformidade com o costume dos babilônicos e dos amorreus. Assim foi parar em Harã da Mesopotâmia, cidade edificada pelos reis da Babilônia. O deus lunar, no seu grande templo erguido no centro da cidade, era o padroeiro de Ur, como também de Harã.
Mesmo em Canaã, Abraão estava sob a influência e o governo da Babilônia. Em primeiro lugar, acampou debaixo do terebinto de Moré, defronte de Siquém; então foi a Betel, depois para o Egito, que nesse tempo era governado pelos reis hiksos, conquistadores vindos da Ásia, em cuja corte naturalmente, todo asiático era bem-vindo. Zoa, capital dos hiksos, ficava no nordeste do delta; assim, um viajante vindo da Ásia chegaria sem dificuldade, à presença de Faraó. Entre outros bens, Abrão possuía muitos camelos, animal peculiar à Ásia, porém, só utilizado no Egito depois na era cristã.
Quando o patriarca voltou para Canaã, foi abandonado por seu sobrinho Ló que ficara em Sodoma, tornando-se, assim, cananeu. Os príncipes cananeus do vale de Sidim se rebelaram contra os seus senhores babilônios e por isso um exército comandado por Quedorlaomer de Elão, senhor feudal da Babilônia, os combateu. Sob seu comando marcharam Anrafel de Sinar (isto é, da Babilônia setentrional), Arioque de Elasar e Tidal, que eram reis. Nomes semelhantes foram encontrados nas inscrições babilônicas.
No tempo dessa invasão, Abrão, o confederado de três comandantes amorreus, morava em Manre ou Hebrom. Ao saber que seu sobrinho era cativo do exército invasor, o patriarca e seus aliados acossaram o inimigo até perto de Damasco, retomando os cativos e seus despojos. Na sua volta o conquistador é saudado por Melquisedeque, sacerdote-rei de Jerusalém.
Abrão teve um filho, Ismael, com a escrava egípcia Agar. O nome Ismael é encontrado nos documentos babilônicos da era de Hamurabi, rei da Babilônia. Quando Ismael estava com a idade de treze anos, Abrão e todos os homens de sua família foram circuncidados. No Egito, a circuncisão fura praticada em data imemorável, no entanto, tornou-se o seio do Pacto entre Deus e a descendência de Abrão, cujo nome, ao mesmo tempo, foi mudado para Abraão, significando assim que ele não era mais babilônio. Pouco depois as cidades pecaminosas da campina, ou do vale de Sidim, foram destruídas por fogo e enxofre. Abraão intercedera, em vão, pelos pecadores; escapou somente Ló com suas filhas, que se tornaram progenitoras de Amom e Moabe.
Em seguida encontramos Abraão em Gerar, ao sul de Gaza. Nessa região nasceu Isaque: foi ali também que Deus provou Abraão, para que em conformidade com os ritos cananeus, em um monte na terra de Moriá, ele sacrificasse seu filho unigênito, o herdeiro da repetida promessa de uma grande nação que havia de possuir a terra de Canaã. Deus, porém, mandando sustar o sacrifício de Isaque, mostrou a Abraão que ele não exigia essa absurda oferta determinada pela religião pagã. Sua mulher Sara (em assírio Sarrat, isto é, rainha), morre em Hebrom e é sepultada no campo de Macpela, que o patriarca comprara por quatrocentos siclos de prata, dos hiteus que aí moravam. Os detalhes desse ajuste concordam com o processo legal babilônico a tais transações.
Nessa época Abraão envia seu servo a Harã, na Mesopotâmia, a fim de buscar uma mulher para seu filho Isaque, entre seus parentes. Consequentemente, Rebeca, irmã de Labão, tornou-se mulher de Isaque. Abraão foi, por parte de sua segunda mulher Quetura, progenitor de varias tribos da Arábia central. Mais tarde morre Abraão e é sepultado em Macpela.
Abraão era amigo de Deus, glorioso protótipo de obediência, de justiça, de fé, pai dos fiéis, fundador da raça hebraica, o zeloso protagonista da religião de Jeová.

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Fonte:
Conciso Dicionário Bíblico (Ilustrado), por: D. Ana e S.L. Watson. Imprensa Bíblica Brasileira, 14ª Edição. Rio de Janeiro, 1986, págs. 7-8.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Início da Criação


O Início da Criação
O Livro de Gênesis (significando "princípios", "origens") é, nestes dias de cinismo, frequentemente considerado como nada mais que uma coleção de lendas antigas de épocas primevas menos sofisticadas. Alguns tomam as histórias do Gênesis como alegorias contendo certos valores morais e espirituais, embora não verazes no sentido histórico.
Mas o cristão que crê na Bíblia não pode aceitar essas ideias. Para ele, Gênesis constitui o alicerce sobre o qual se ergue todo o edifício da Escritura. O Novo Testamento, por exemplo, cita Gênesis diretamente, ou a ele se refere, nada menos de sessenta vezes. Cristo e os apóstolos obviamente aceitaram Gênesis como histórico e divinamente inspirado.
Ao considerarmos os onze primeiros capítulos de Gênesis, veremos que todos os dados verdadeiramente científicos e históricos apoiam a verdade do registro bíblico. Veremos também que os propósitos de Deus em Seu grandioso plano de salvação ligam-se inseparavelmente a esses mesmos fatos.

l - SIGNIFICADO DA CRIAÇÃO
O primeiro versículo da Bíblia é p mais importante e fundamental de todos. "No princípio criou Deus os céus e a terra." Quando cremos de fato neste versículo, temos pouca dificuldade em crer em todo o restante da Palavra de Deus. Este único versículo refuta a todas as diversas pseudo-teorias inventadas pelos homens acerca das origens.
O ateísmo, inequívoca negação da existência de Deus, é falso porque Deus é.
O materialismo, que pretende explicar todas as experiências da vida em termos das leis físicas, e nega a necessidade de crer em Deus como a Causa eficiente de todas as coisas, é falso porque aqui se vê que a matéria um dia começou existir.
O dualismo, ensinando que há dois princípios eternos, até mesmo dois seres divinos — um mau e o outro bom — em oposição mútua, é falso porque no princípio havia Deus somente.
O panteísmo, que afirma que tudo é Deus e Deus é tudo, identificando Deus e natureza, insistindo na eternidade da matéria, e asseverando que a matéria pode de si própria originar vida, é falso porque Deus estava fora de Sua criação.
O politeísmo, que é culto a muitos deuses, é falso porque só havia um Deus criando.
O evolucionismo, definido como a teoria de que, mediante processos naturais e por transformação gradual, todas as coisas derivam de materiais pré-existentes, é falso porque céus e terra foram criados.
Na verdade, todas essas falsas filosofias são uma e a mesma coisa, em essência. Todas as teorias das origens — alheias ao verdadeiro relato bíblico — ensinam que o "cosmo" presente veio a existir pela operação dos "deuses" ou das forças da natureza ou de algum princípio místico agindo sobre a "substância" material já existente no "caos" anterior. Esta ideia prevalece igualmente no moderno cientismo, como no paganismo antigo. A revelação da criação especial de todas as coisas ex nihilo (do nada), graças a um Deus eterno e todo-poderoso, pertence, essencialmente, a Bíblia de modo exclusivo! Assim, todas as demais explicações das origens — sejam religiosas ou filosóficas ou científicas — são basicamente diferentes modalidades do conceito de evolução apenas.
A questão chave é se todas as coisas foram particularmente criadas pelo Deus da Bíblia ou se elas se desenvolveram a partir de materiais prévios rumo a suas formas atuais mediante a operação de princípios inatos. Se o segundo elemento da alternativa é o verdadeiro, segue-se que esse desenvolvimento, essa "evolução", prossegue ainda, desde que é de presumir que os mesmos princípios continuam operando.
Contudo, de acordo com a Bíblia (Gn. 2.1-3), a criação foi concluída dentro de seis dias, depois dos quais Deus "descansou". Deste modo, os processos ou princípios empregados na criação não operam mais e não podem ser estudados pelos cientistas modernos! Os processos atuais não podem ser processos de criação, fato confirmado cientificamente pela lei de conservação da matéria e da energia. Esta lei é a mais fundamental e certa de todas as leis científicas, e estabelece que no presente nada esta sendo criado nem destruído.
Além disso, uma segunda lei, igualmente universal e comprovada, estatui que todos os sistemas atuais tendem a decair e a desordenar-se. Esta tendência é precisamente oposta ao conceito de evolução, pois este tem que pressupor um princípio inato de desenvolvimento e ordem crescente. Estas duas leis de conservação e decadência também são conhecidas como a primeira e a segunda leis da termodinâmica, ciência que trata das ações mecânicas ou relações da energia do calor em conexão com outras formas de energia.
Desta maneira, tanto a Escritura como a ciência ensinam que a criação não está acontecendo agora. Daí, não temos possibilidade alguma de estudar experimentalmente nenhum dos processos da criação. O que quer que desejamos saber a respeito, só o podemos aprender daquele que, só Ele, no-lo pode contar — Deus. Temos de aproximar-nos da narrativa bíblica da criação com a mente e o coração abertos para ver e crer o que Deus disse, sem a ideia de tentar harmonizá-lo com alguma teoria humana das origens.
Isto nos ajudará a lembrar que todas as diferentes teorias que tratam das origens do sistema solar, da origem das galáxias, da evolução estelar e cósmica, bem como doutras questões similares, não passam de "cosmogonias" de invenção humana. As cosmogonias referem-se à criação e à originação do mundo ou universo, ou podem referir-se a alguma teoria a respeito dessa criação.
Com base no estudo dos processos físicos atuais, os homens vêm tentando elaborar teorias visando a explicar como o universo pôde desenvolver-se a partir de um primitivo princípio hipotético até chegar à forma que hoje apresenta. Têm sido propostas numerosas teorias diferentes, mas é significativo que nenhuma delas foi objeto de aceitação geral, nem mesmo por "cosmogonistas" profissionais. Há muitas teorias rivais, cada qual com seus advogados científicos, mas todas são essencialmente evolucionistas, e é óbvio que todas são inteiramente incapazes de comprovação científica (como é possível estudar experimentalmente a evolução de astros e galáxias?)
A ciência não contém absolutamente nada que nos impeça de aceitar o fato revelado de que Deus criou todas as coisas, chamando-as ex-nihilo à existência, na qual entram já funcionando em condição de pleno desenvolvimento desde o início.
Como matéria de fato, isto está implícito nas duas leis da termodinâmica. A primeira lei ensina que nada está sendo criado agora. Decorre daí que, ou todas as coisas foram criadas em alguma ocasião do passado, ou sempre existiram como no presente. A segunda lei indica que o segundo termo da alternativa acima não é possível, uma vez que o universo está "indo abaixo", aproximando-se de um estado de completa desordem e morte. Visto que tal estado não foi ainda atingido, o universo não pode ser infinitamente velho. Portanto, ele tem que ter tido um princípio. Os argumentos que tentam evadir estas conclusões só podem ser argumentos filosóficos ou religiosos, não científicos. As duas leis básicas da ciência levam inexoravelmente à conclusão de que Gênesis 1.1, tomado de modo simples e literal, é a mais razoável de todas as possíveis explicações da origem do universo.
Vemos, pois, que "Deus criou os céus e a terra" nalgum ponto inicial do tempo. O "princípio" a que se refere Gênesis 1.1 não é o mesmo de João 1.1, onde se nos diz que "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." É evidente que o Verbo de Deus não é outro senão Deus o Filho (Jo. 1.14), que existe eternamente. O "princípio" de Gênesis 1.1 não significa eternidade passada; significa o ponto inicial do tempo como o conhecemos. Assim é que Deus criou o Tempo simultaneamente com a criação do Espaço e da Matéria ("céus e terra").
O segundo versículo descreve o aspecto inicial da terra criada. O verbo é corretamente traduzido por "era". Alguns têm insistido em traduzi-lo por "tornou-se", mas não há por que fazê-lo. É o termo hebraico normalmente empregado para exprimir a ideia de ser. Embora em alguns contextos esteja bem traduzi-lo por "tornou-se", isto acontece apenas seis vezes dentro de um total de 264 vezes em que o verbo ocorre no Pentateuco.
Como é óbvio, a terra nesse estágio não era "perfeita", quer dizer, não era completa, até que ficasse completa no final dos seis dias, mas era perfeita no sentido de atender ao propósito imediato de Deus.
Inicialmente a terra "era sem forma e vazia", expressão que significa exatamente o que quer dizer: informe e vazia. Diz Pedro que "de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus" (2 Pe. 3.5). Em tradução mais literal, a terra tomou "consistência pela água e através da água". O significado dessa afirmação pode estar além de nossa capacidade de compreendê-lo cientificamente, desde que a ciência nada pode falar-nos dos métodos utilizados por Deus na criação, mas parece dizer-nos que a conformação material da terra primitiva foi de algum modo constituída em matriz de água. Matriz é lugar ou elemento envolvente em cujo interior algo se origina, toma forma ou se desenvolve. Águas cobriam a terra informe e trevas cobriam a face do abismo.
Mas a presença energizante de Deus dava testemunho de Sua aprovação da obra feita até aí. "O Espírito de Deus pairava por sobre as águas." Refere-se ao Espírito Santo, que procede do Pai mediante o Filho, e cujo poder, fluindo copiosamente, é a fonte de toda a poderosa obra de Deus na criação. Há interessante paralelo entre este versículo e 2 Pedro 1.21 onde se nos diz que "homens santos de Deus foram movidos pelo Espírito Santo" no registro que fizeram da Escritura. Deste modo, o "movimento" do Espírito Santo é fundamental na revelação de Deus, tanto na natureza corno na Palavra escrita.

II - O DEUS E SENHOR DA CRIAÇÃO
É de suprema importância crer no vero Deus da Bíblia. Os homens inventaram muitos "deuses", e Satanás está engajado numa tentativa milenar de tornar-se o governador ou "deus" do universo. Mas há somente um Deus verdadeiro: Aquele que criou todas as coisas. É só na Bíblia que aprendemos de Sua natureza, de Seu caráter e de Seus desígnios.
Segundo a Escritura, a doutrina de Deus revela-O como o Deus triuno. É Pai, Filho e Espírito Santo. A pluralidade do Ser divino é sugerida pela palavra "Deus" no primeiro versículo da Bíblia, que é a forma plural de É significativo que cada uma das três pessoas está associada à obra da criação. "Toda boa dádiva e todo dom perfeito" — certamente dentro de tudo que Deus criou e "que era muito bom" — vem do Pai (Ver Tg. 1. 17). A obra do Espírito é exposta claramente em Gênesis 1.2. Mas, de maneira a mais enfática, declara-se que o Filho é a Palavra de Deus por meio de quem a criação recebeu ordem de existir. Observem-se passagens da Escritura como João 1.1-3; Hebreus 1.3; Salmo 33.6; Apocalipse 3.14, e principalmente Colossenses 1.16,17. É preciso que os homens se capacitem plenamente de que Jesus Cristo é Deus e de que por Ele é que todas as coisas foram criadas.
É notável que a Bíblia não tenta provar que Deus existe antes de narrar o que Ele fez. Ela simplesmente parte de Deus, dando por líquido e certo o fato de Sua existência e de Sua onipotência. Na verdade, a Escritura afirma que só o "insensato" pode dizer no seu coração que não há Deus (SI 14.1). O certo é que, com a evidência da "criação" em torno de nós, qualquer pessoa deveras razoável deve reconhecer a existência do Criador.
O próprio fato dos "inteligíveis" fenómenos naturais no mundo indica uma "inteligência" que os causou. Fenómeno é termo científico frequente neste livro. É um fato, circunstância ou experiência manifesta aos sentidos; manifestação não necessariamente extraordinária, mas simplesmente manifestação de fato. O fato de existirem no mundo personalidades individuais capazes de sentir emoções e de exercer volição, indica a existência de uma Pessoa grandiosa que, como Causa daquelas, ama, ira-se e exerce Sua vontade. O fato de que todos os seres humanos têm noção inata de que o "certo" é melhor do que o "errado" testifica que a causa dessa consciência instintiva tem que ser um Criador santo. A lei científica de causa e efeito — sendo que nenhum efeito pode ser maior do que sua causa — seguramente aplica-se a estas conclusões, como também às de quaisquer outras categorias da ciência e da lógica.
Não obstante, muitos tentam acompanhar esta linha raciocínia e ainda se recusam a aceitar a Deus como Ele nos é apresentado na Escritura Sagrada. "E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus", "inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos" (Rm. 1.28,22).
Confiamos em que, diferentemente, o leitor esteja predisposto a crer plenamente em Deus como Ele é revelado na Escritura. Isto naturalmente significa crer em Jesus Cristo como Criador e Salvador — como Aquele que criou todos os seres humanos e também morreu para redimi-los. (Jo 1.11-13; 3.36; 5.24).
Como explicar que Moisés — treinado ou educado no Egito — não apresenta a teoria egípcia de que a terra saiu de um ovo?
Ajuda-nos nisto a passagem de 2 Timóteo 3.16?
A compreensão das duas leis da termodinâmica é de primordial importância para este estudo. Expostas de modo simples para facilitar a consulta, são elas:
(1) - A Lei da Conservação da Energia, segundo a qual, embora a energia possa mudar de forma, não pode ser nem criada nem destruída e, portanto, a soma total da energia é constante.
(2) - A Lei da Deterioração da Energia, que estabelece que em qualquer processo ou sistema no qual a energia esteja sendo transformada em outras formas, ao menos certa porção dela transforma-se em energia térmica (de calor) que, por sua vez, não pode reconverter-se em outras formas úteis.


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Fonte:
Criação ou Evolução, por: Henry Morris. Editora Fiel, 1996, págs. 8-15.

As línguas da Bíblia

As línguas da Bíblia
O estudo das diversas línguas é interessante e de muito proveito. As línguas estão sempre se modificando e mudando com o desenvolvimento dos povos e inter-relacionando as nações. Será necessário que reconheçamos isto neste estudo. Deus não inspirou a Bíblia na língua portuguesa, embora tenhamos a Bíblia inspirada em vernáculo nosso. Originalmente a Bíblia fora escrita em três línguas, a saber: hebraica, aramaica e grega. Esta era a língua do Novo testamento. Alguns comentadores dizem que provavelmente Abraão deixou de usar a velha língua semítica — A caldaica — a qual era a da sua própria terra (Gên. 12:1-5), quando saiu de Ur, e adotou a língua dos cananeus, em cujo meio foi morar. A sua descendência — os hebreus — mais tarde, durante o cativeiro em Babilônia, deixou de falar a língua hebraica e adotou a caldaico-aramaica, a qual continuou a ser falada até os tempos de Jesus Cristo.
Esta língua cananéia, que Abraão usou, era, provavelmente, a mesma ou alguma forma dela, que foi conhecida mais tarde como hebraica. Parece que a língua hebraica foi chamada "a língua de Canaã" (Is. 19:18). Algumas das tabuinhas de Tel-el-Amarna, descobertas em 1887 no Egito, assim chamadas pelo nome do lugar em que foram achadas, com data de 400 anos mais ou menos depois de Abraão, são escritas em boa língua cananéia ou língua hebraica.

A Língua do Velho Testamento
Com poucas exceções, o Velho Testamento foi escrito na língua hebraica. Esta era a língua do povo de Israel e é chamada "a língua judaica" (II Reis 18:26). Esta língua continuou a ser falada e escrita pelos hebreus até o cativeiro, quando adotaram a aramaica ou siríaca, a qual é um dialeto da hebraica. Devido a esta mudança de língua, os versados na língua hebraica podem descobrir três períodos em que se divide a história do desenvolvimento dela. Cada período é distinguido pelo seu estilo e idioma.
1) - O período em que foi escrito o Pentateuco. Ê o da língua hebraica falada no tempo de Moisés.
2) - O período em que a língua alcançou o ponto do seu maior desenvolvimento em pureza e refinamento. Neste foram escritos os livros de Juízes, Samuel, Reis, Crônicas, Salmos dê Davi, Provérbios e os demais livros de Salomão e as profecias de Isaías, Oséias, Joel, Amos, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum e Habacuque.
3) - O período em que foram escritos os demais livros de profecias, assim como os de Ester, Esdras e Neemias. Durante esta época, palavras, frases e idiotismos de línguas estrangeiras tinham sido incorporados à hebraica da segunda época, em consequência da comunicação dos judeus com as nações vizinhas.
As passagens do Velho Testamento que não são escritas em hebraico são as seguintes: Esdras 4:8 a 6:18 e 7:12-26, Jeremias 10:11 e Daniel 2:4 a 7:28. Estas são escritas no dialeto caldaico. Este fenômeno se explica pela residência de Daniel e Esdras na Babilônia e as suas relações com os governadores desses países.

A Língua do Novo Testamento
Os livros do Novo Testamento foram escritos originalmente na língua grega, conhecida como helênica, porque os gregos eram chamados helenos ou o povo de Helas. Depois da grande conquista de Alexandre Magno, rei da Macedônia, filho de Filipe e de Olímpia, a língua grega, numa forma helênica, espalhou-se em toda parte do Egito e do Oriente, e tornou-se a língua vernácula dos hebreus que residiam nas colônias de Alexandria e outras partes.


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Fonte:
A Bíblia: e como chegou até nós, por John Mein: JUERP. Rio de Janeiro, 1977, págs. 18-20.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Biografia de Santo Agostinho

Santo Agostinho: vida e obras do autor
A Igreja cristã estava cm franca expansão. No ano 313 o cristianismo tornou-se religião oficial. O IV século se afigurou como um tempo da tolerância de Roma com o cristianismo, mas ainda existiam algumas perseguições. As questões teológicas e religiosas eram discutidas, com mais abertura que no III século, pois saíam dos limites da Igreja e começaram a locar nos problemas políticos e sociais.
No ano em que Agostinho nasceu, governava o Império romano Constando II. liste havia mandado executar um dos Césares (Galo), em Ístria, seu próprio primo e sobrinho de Constantino o Grande, que se havia aliado com os cristãos. Em Roma, administrava a Igreja o papa São Libero, trigésimo quinto sucessor de São Pedro, e responsável pela edificação da igreja de Santa Maria Maior.
Aurelius Augustinus (354-430) nasceu em Tagasta, pequena cidade africana da Numídia. Oriundo de uma família burguesa, nasceu no dia 13 de novembro do ano 354. Ele não era muito dado às letras como seus pais o desejavam. Percebe-se em seus relatos autobiográficos que seu pai o condenara ao "suplício" da escola para permitir-se a satisfação de duas espécies de apetites insaciáveis: os de uma indigência opulenta e os de uma glória ignominiosa. Estas eram as características da educação daquela época.
Sua família constituía um lar de modesta burguesia: pouca fortuna e muita ambição para o filho. Seus pais não queriam que ele se tornasse um vagabundo pelas ruas e campos de Tagasta; era este o motivo da ambição dos estudos para o filho. As varadas que lhe dava o mestre e que o deixavam moído, com as costas a arder, eram motivos de riso de seus pais. Isso causava tristeza e humilhação ao menino. A mãe estava de acordo com o marido, de fazer o filho estudar, pois desejava para ele uma honrosa carreira de professor de belas letras.
Santo Agostinho nem sempre foi cristão. Seu pai, de nome Patrício, era pagão; teria recebido o batismo pouco antes de morrer. Afirma seu biógrafo São Possídio que Patrício era um curial, isto é, um magistrado e devia possuir alguns recursos, algumas terras e plantações, que Agostinho, mais tarde, chamaria de modesto património. O próprio Agostinho o vendeu depois e distribuiu o dinheiro obtido entre os pobres. Seu pai era dado aos prazeres dos sentidos e incentivava o filho a seguir o mesmo caminho. Agostinho sentia que herdara do pai essas tendências e todas as paixões. Em suas memórias, faz alusões ao pai sem nunca demonstrar afeição.
Sua mãe, Mônica, era uma cristã fervorosa e exerceu sobre o filho uma grande influência religiosa. De acordo com os costumes da época, Agostinho não foi balizado quando criança, mas só aos dezessete ou dezoito anos por Santo Ambrósio. Sua mãe o marcou com o sal, desde o primeiro dia de sua existência e o inscreveu nas legiões de Cristo, mas só mais tarde é que Aurelius encontrou neste caminho a sua missão. A mãe faleceu logo depois de seu batismo, depois de muito ter orado por sua conversão. Agostinho considerava sempre que foi de Mônica que herdou o melhor de seu coração e de sua inteligência. A formação e conversão do filho era a razão de viver de Mônica que enviuvara muito cedo.
Indo para Cartago, a fim de aperfeiçoar seus estudos, desviou-se moralmente. Fez os primeiros estudos na cidade natal; com 13 anos vai estudar gramática em Madaura; assim pôde continuar seus estudos superiores e, aos dezesseis anos, completar os estudos superiores de retórica em Cartago.
Agostinho como autodidata estuda filosofia, fazendo em Madaura, depois em Cartago, estudos de retórica num centro intelectual renomado, graças à ajuda do rico concidadão e amigo de seu pai, Romaniano. Estuda um pouco de grego, sem muito aprofundamento, pois não era essa a sua preferência, gostava mais do latim, embora o tenha estudado à força de muitos açoites. Esse desgosto pelos estudos foi terminando à medida que foi se tornando adulto.
Caiu em uma profunda sensualidade, que, segundo ele, é uma das maiores consequências do pecado original; e esta o dominou longamente, moral e intelectualmente, fazendo com que aderisse ao maniqueísmo, que atribuía a realidade substancial tanto ao bem como ao mal, trevas e luz, espírito e matéria. Em busca da verdade, aceitou o ensino maniqueísta, uma seita complexa e cheia de doutrinas, mitologias, heresias, fantasias, especulações gnósticas e muito mais, tomadas emprestadas de outras seitas. Julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do mal e, por consequência, uma justificação para sua vida vivida. Mais tarde integra o montanismo (descida do Paráclito), mas, por achá-lo incompleto, volta a estudar filosofia e lê Horiênsius, obra profana de Cícero, que o faz se interessar pêlos ensinos do neoplatonismo, que Talam sobre a imortalidade da sabedoria, despertando-lhe certa preocupação com Deus.
Teve um caso de amor, interessava-se por questões mundanas e desse relacionamento nasceu um filho, falecido ainda adolescente. Aos de/oito anos Agostinho toma-se pai de Adeodato e vive fiel, durante quinze anos, com a mulher que lhe deu o filho. Com vinte anos, perdeu o pai e ficou sendo o responsável pelo sustento de duas famílias. Mais tarde, no começo do ano 386, após um exame critico de si, abandonou o maniqueísmo, e passou a combater essa doutrina, que foi criada por Manes, abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal, encontrando a concepção cristã da vida.
Tendo terminado os estudos, abriu uma escola em Cartago, onde foi professor de retórica, mas depois se mudou para Roma e, em seguida, para Milão, onde voltou a ensinar retórica. Influenciado pelos estoicos, por Platão e o neoplatonismo, também esteve entre os adeptos do ceticismo.
Sua mãe foi contra a mudança e Agostinho teve de enganá-la na hora da viagem. Em setembro de 386, Agostinho renuncia inteiramente ao mundo, à carreira, ao matrimônio; retira-se, durante alguns meses, para a solidão e o recolhimento, em companhia da mãe, do filho e de alguns discípulos, perto de Milão. Ali escreveu seus diálogos filosóficos, na Páscoa do ano 387, juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio.
Agostinho inspirou-se no neoplatonismo. Pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo, fundiu em si mesmo o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina, ainda que os problemas que fundamentalmente o preocupavam fossem sempre os problemas práticos e morais: o mal, a liberdade, a graça, a predestinação.
Sua conversão se deu num momento de meditação sobre sua vida, quando ouve uma expressão, próxima à porta de onde estava que dizia: "Toma e lê!" Agostinho abre sua Bíblia que cai em Romanos 13, 13-14 e a leitura trouxe-lhe o que sua alma não tinha conseguido encontrar, até então, em nenhum de seus estudos. Despediu a mãe de seu filho e foi para o seminário, abandonando sua profissão. Foi ordenado sacerdote em 391. Cinco anos depois, foi sagrado bispo de Hipona.
Converteu-se então à fé cristã, depois de conhecer a palavra do apóstolo Paulo. Aos trinta e três anos de idade recebeu o batismo em Milão, das mãos de Santo Ambrósio, cuja doutrina e eloquência muito contribuíram para a sua conversão. Em julho de 386 a crise definitiva o atormenta. Agostinho tem 32 anos e é hóspede de um colega de professorado quando se dá sua conversão definitiva.
Um ano depois do falecimento da mãe em Óstia, Agostinho desiste do cargo de professor, deixa finalmente a Itália, abandona Milão e volta para Tagasta, África, com o propósito de ali fundar uma espécie de comunidade religiosa, monástica, e a fundamentar racionalmente a fé, como foi comum na Idade Média.
Vendeu todos os haveres e, distribuído o dinheiro entre os pobres, fundou um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. Ordenado padre em 391 e sagrado bispo titular em 396 em Hipona, segunda cidade da África. A diocese era difícil de conduzir e as tarefas materiais do bispo eram pesadas.
Desde sua ordenação sacerdotal, sobretudo desde a sagração episcopal, identificou-se com a causa de Deus no serviço da Igreja. Procurar a unidade eclesial foi sua grande preocupação. Fundou comunidades religiosas para viver em profundidade esta unidade e quis que elas fossem sinal e fermento desta visão.
Após a sua conversão, Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada Escritura, da teologia revelada, e à redação de suas obras, entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas. Sua vida, marcada por grandes momentos espirituais, resultou em escritos valiosos e estudos sobre sua caminhada de conversão e libertação. Santo Agostinho deu início à era da incerteza dogmática. O problema das relações entre a razão e a fé, problema fundamental da escolástica medieval e que já atormentava a mente de Santo Agostinho.
Renunciando a seus bens, na companhia daqueles que decidiram viver o mesmo propósito, passou a viver para Deus, com jejuns, orações e boas obras, meditando dia e noite na divina lei. Comunicava aos outros, tudo o que recebia do céu no estudo e na oração, ensinando aos presentes e aos ausentes com sua palavra e escritos. Não descansava, passando horas a estudar e a meditar, tentando entender o que significava onipresença, onisciência, infinito, Santíssima Trindade, consubstanciação, espírito e corpo, diversidade espiritual e a atemporalidade. Agostinho foi visto inúmeras vezes vagando sozinho à noite, angustiado, tentando descobrir a resposta científica para a fé. E, na ânsia de descobrir como se libertar da dúvida indaga ao seu arter ego as respostas a essas questões.
As obras de Agostinho que apresentam interesse filosófico são, sobretudo, os diálogos filosóficos: Contra os acadêmicos. Da vida beata, Os solilóquios, Sobre a imortalidade da alma, Sobre a quantidade da alma, Sobre o mestre, Sobre a música. Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre os costumes, Do livre-arbítrio, Sobre as duas almas, Da natureza do bem. Estudava muita teologia, matemática, filosofia, mecânica, e a física que na época era rudimentar, com o propósito de explicar a existência de Deus através da razão humana. Observava a natureza e acreditava que o homem através de sua inteligência iria finalmente descobrir a verdade de Deus e colocar os parâmetros da fé em bases científicas. Este foi o grande tema de sua obra Solilóquios. O primeiro problema filosófico de Agostinho, após a sua conversão, foi o dos fundamentos do conhecimento, ante uma resposta racional. Redige o diálogo Contra os Acadêmicos, onde afirma: O erro provém dos juízos que se fazem sobre as sensações e não delas próprias. A sensação enquanto tal jamais é falsa. Falso é querer ver nela a expressão de uma verdade externa ao próprio sujeito. Assim, nenhum célico pode refutar alguém que afirme simplesmente: Eu sei que isto me parece branco, limito-me à minha percepção e encontro nela uma verdade que não me pode ser negada. Esta afirmação difere do dizer: Isto é branco! Haveria assim uma verdade absoluta que estaria implicada no próprio ato de perceber.
Agostinho introverteu conceitos de Platão, principalmente quando este define o homem como uma alma que se serve de um corpo, admitindo a ideia de transcendência hierárquica da alma sobre o corpo. Fundamentado em uma metáfora de Platão, a conhecida alegoria da caverna que mostra ser o conhecimento (nesta obra traduzida por educação), em última instância, o resultado do bem que ilumina o mundo inteligível, Agostinho explica como é possível ao homem receber de Deus o conhecimento das verdades eternas. Todas as proposições percepcionadas como verdadeiras, assim seriam, porque previamente foram iluminadas pela luz eterna da razão que procede de Deus e atua a todo o momento. Porém, tal não dispensaria o homem de ter um intelecto próprio, posto que a iluminação tivesse apenas a função de tornar o intelecto capaz de pensar corretamente em virtude de uma ordem natural estabelecida por Deus.
Agostinho vê Deus como o infinitamente bom, uma realidade interna só perceptível ao ser humano e transcendente ao seu pensamento. Sua instância seria atestada para todos os juízos formados pelo homem e, como por outro lado esta natureza divina escaparia ao alcance humano, seria mais fácil descrever o que ela não é.
Preocupado com o problema da criação do universo, Agostinho investigou a noção de tempo, revelando grande penetração analítica. O tempo é por ele entendido como constituído por momentos diferentes de passado, presente e futuro, significando descontinuidade e transformação.
...é claro e manifesto que não existem coisas passadas e futuras; nem se pode dizer, com exatidão, que os tempos são três: passado, presente e futuro. Mas, talvez, se deveria dizer, com propriedade, que os tempos são três... o presente das coisas passadas (memória), o presente das coisas presentes (visão) e o presente das coisas futuras (expectativa). Estas três coisas existem na alma e, em outro lugar, não as vejo. Por isso pareceu-me que o tempo é unia distensão. De que coisa, eu não sei; admirar-me-ia se não fosse uma distensão da própria alma (livro XI das Confissões, §20 e 36)
Certo dia, Santo Agostinho, após longo período de trabalho e muito compenetrado na sua angústia, adormeceu no claustro. Teve um sonho revelador: caminhava sobre urna raia deserta, a contemplar o mar e o céu. De repente, avistou um menino que com uma vasilha de madeira indo até a água do mar, enchia a vasilha e voltava, despejando a água num pequenino buraco na areia. Santo Agostinho, perplexo e curioso perguntou ao menino: O que você está fazendo? O menino calmamente olhou para Santo Agostinho e respondeu: Vou colocar toda água do mar neste buraco! Santo Agostinho sorriu e retrucou: Isso é impossível menino, observe quanta água existe no oceano e você quer colocá-la toda neste pequeno buraco! Mais uma vez o menino olhou para Santo Agostinho e de forma firme e corajosa disse: Em verdade vos digo. É mais fácil colocar toda água do oceano neste pequeno buraco do que a inteligência humana compreender os mistérios de Deus! E num átimo Santo Agostinho acordou assustado e desorientado. Acabara de ter uma mensagem divina que acalmaria sua alma conturbada.
Dada, porém, a mentalidade agostiniana, em que a filosofia e a teologia andam juntas, compreende-se que interessam à filosofia também as obras teológicas e religiosas, especialmente: Da Verdadeira Religião, As Confissões, A Cidade de Deus, Da Trindade, Da Mentira.
Governou a Igreja de Hipona até a morte, que se deu durante o assédio da cidade pêlos vândalos, a 28 de agosto do ano 430. Tinha setenta e cinco anos de idade.
Agostinho se consagra a Deus segundo um modo de vida que Possídio descreve nestes termos:
"A vida do bispo decorreu numa época de crise. Desmoronava o império romano sob a pressão das invasões dos bárbaros. No dia 28 de agosto Hipona estava sitiada. Agostinho morria vivendo intensamente aquele drama de dor. Embora confiasse cm Deus, não podia alhear-se aos sofrimentos de seu povo." Na expressão de São Possídio, Agostinho, depois de sua morte, permaneceu triunfalmente vivo nos livros que legou á posteridade e nós podemos acrescentar, também em seu carisma.
Santo Agostinho (+430) foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Bonifácio VIII em 1295, figurando com esse título entre outras grandes personalidades dos primórdios do cristianismo, como Santo Amhrósio de Milão (+397), São Jerônimo (+420), e São Gregório Magno (+604). A fama de São Jerônimo e Santo Ambrósio, contudo é pequena, diante da reputação de Santo Agostinho.
Considerado o teórico de todas as igrejas e o Príncipe da Igreja Católica, Santo Agostinho é um pensador que deixou uma herança valiosa e fecunda cm doutrinas.


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Fonte:
Sililóquios, por: Santo Agostinho. Tradução: Antônio A. Minghetti. Editora Escala. São Paulo, s/d, págs. 13-20.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

As características geológicas da Terra

As características geológicas da Terra
Segundo o criacionismo, a maioria das características geológicas da Terra são em grande parte o resultado de processos rápidos, catastróficos, que afetaram a Terra tanto à escala regional como global (é o que se chama o "catastrofismo"). Para o evolucionista, pelo contrário, a maioria das características geológicas da Terra são o produto de processos lentos e progressivos, sendo que os acontecimentos catastróficos foram pouco frequentes e limitados à escala local (é o que se chama o "uniformismo").
O estudo da geologia mostra-nos que houve acontecimentos catastróficos que caracterizaram a história da Terra. Grandes inundações, colisões maciças de meteoros, importantes erupções vulcânicas, desabamentos devastadores e intensos tremores de terra, tudo isso marcou profundamente o nosso planeta. Só acontecimentos catastróficos explicam a formação de cadeias de montanhas, o depósito de espessas camadas sucessivas de rochas sedimentares contendo fósseis, a origem da era glaciar e o desaparecimento de numerosas espécies animais, inclusive os dinossauros. O criacionista defende que o catastrofismo, e não o uniformismo, se revela ser a melhor interpretação quanto à maioria dos fatos geológicos da nossa Terra.
Como muitos autores criacionistas revelam, um número considerável de fatores prova que houve um dilúvio catastrófico. As camadas sucessivas de rochas sedimentares foram formadas rapidamente sob a ação de aluviões, como no-lo mostram os seguintes exemplos:
1 — Troncos de árvores fossilizados bastante rapidamente, em situação vertical, atravessam várias camadas sedimentares (frequentemente chamadas "fósseis polistratros");
2 — Seixos e blocos de formas irregulares em grande número que cobrem vastas regiões do sudoeste dos Estados Unidos;
3 — Toros fossilizados, numa só camada, que foram encontrados em vastas zonas como por exemplo no Parque Nacional "Petrified Fprest" (Florestas Petrificadas) nos Estados Unidos;
4 — Mariscos, bancos de peixe e outros animais aquáticos que foram sepultados vivos em massa e que podem ser descobertos em numerosas rochas sedimentares por todo o mundo.
5 — "Cemitérios de fósseis" tais como os célebres cemitérios de dinossauros que se encontram em vários sítios dos Estados Unidos;
6 — Fósseis absolutamente invulgares como:
a) um peixe a comer outro;
b) um ictiossauro a dar à luz uma cria;
c) um pterodáctilo cuja bolsa (debaixo do bico) continha peixes fossilizados.
Todos estes exemplos mostram que houve depósito rápido e catastrófico de aluviões; não podem de forma alguma ser explicados em termos de uniformismo.
Isto não impede, contudo, o criacionista de reconhecer que processos uniformistas, em todo o tempo e por toda a parte modelaram a superfície da Terra, tais como a sedimentação normal dos rios, os pequenos vulcões, a erosão lenta, os tremores de terra de menor importância, etc... A ação destes processos é reconhecida, mas é preciso  rendermo-nos à evidência de  que eles não podem  explicar uma grande parte dos factos geológicos da Terra.

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Fonte:
Argumentos Científicos Pró-Criação, por: A. J. Monty White. Tradução: João A. C. Pinheiro. Centro Bíblico Europeu. Lisboa, 1985, pág. 19.

domingo, 26 de junho de 2016

Os Quatro Amores: Eros

Eros
Dou naturalmente o nome de Eros àquele estado que chamamos de "estar amando"; ou, se preferir, àquela espécie de amor em que os amantes estão "envolvidos". Alguns leitores devem ter-se surpreendido quando num capítulo anterior descreve a Afeição como o amor em que nossa experiência parece aproximar-se mais daquela dos animais. Alguém poderia então perguntar: "Não é certo que nossas funções sexuais nos aproximam igualmente deles?" Isto é verdadeiro no que se refere à sexualidade humana de modo geral.
Não vou porém ocupar-me da sexualidade humana em si, pois ela faz parte de nosso assunto somente quando se torna um ingrediente do sentimento complexo de "estar amando". Que a experiência sexual pode ocorrer sem Eros, sem estar "amando", e que Eros inclui outros aspectos além da atividade sexual, tenho como certo. Se quiser colocar a questão assim, não estou pesquisando a sexualidade comum a nós e aos animais ou mesmo comum a todos os homens, mas uma variação humana singular da mesma que se desenvolve dentro do "amor" — a qual chamo de Eros. O elemento carnal ou sexualidade animal contido em Eros, pretendo chamar de Vênus (seguindo um uso antigo). Chamo de Vênus aquilo que é sexual, não num sentido obscuro e refinado, como os psicólogos poderiam explorar, mas num sentido perfeitamente óbvio. O que é tido como sexual por aqueles que experimentam a sensação, o que poderia ser provado como sexual mediante as mais simples observações.
A sexualidade pode operar sem Eros ou como parte de Eros. Apresso-me a acrescentar que faço a distinção apenas para limitar nossa pesquisa e sem quaisquer implicações morais. Não estou de forma alguma adotando a ideia popular de que é a ausência ou presença de Eros que torna o ato sexual "impuro" ou "puro", degradado ou belo, legal ou ilegal. Se todos os que se deitarem juntos sem estar no estado de Eros fossem abomináveis, nós todos viemos de uma linhagem espúria. As épocas e lugares em que o casamento depende de Eros são uma minoria. A maior parte de nossos ancestrais se casaram cedo com parceiros escolhidos por seus pais por razões que nada tinham a ver com Eros. Prestavam-se ao ato sem qualquer outro estímulo além do simples desejo animal. E agiram bem; maridos e mulheres cristãos honestos, obedecendo aos pais, cumprindo suas "obrigações conjugais", e educando suas famílias no temor do Senhor.
Este mesmo ato, porém, praticado sob a influência de um Eros ardente e sublime, que reduz o papel dos sentidos a uma consideração menor, pode, de maneira oposta, revelar-se como simples adultério, envolvendo a traição da esposa, do marido, ou de um amigo, profanando a hospitalidade e resultando no abandono, dos filhos.
Deus não se agrada do fato de a distinção entre um pecado e um dever depender de sentimentos nobres. Este ato, como qualquer outro, é justificado ou não por critérios bem mais prosaicos e explicáveis: pelo cumprimento ou quebra de promessas, pela justiça ou injustiça, pela bondade ou egoísmo, pela obediência ou desobediência. O meu tratamento exclui a simples sexualidade — sexualidade sem Eros — com bases que nada têm a ver com a moral, por ser irrelevante ao nosso propósito.
Eros (a variação humana) constitui para o evolucionista algo que surgiu de Vênus, uma complicação e desenvolvimentos tardios do impulso biológico imemorial. Não devemos supor, entretanto, que isto aconteça necessariamente na consciência do indivíduo. Uns provavelmente irão sentir a princípio um mero apetite sexual por uma mulher e depois passam, num estágio posterior, a "sentir amor por ela". Mas duvido que isto seja comum. No geral, o que acontece primeiro é simplesmente uma deliciosa preocupação com o ser amado — uma preocupação geral, inespecífica, com a mulher total. O homem nestas condições na verdade não tem tempo para pensar em sexo, pois está muito ocupado pensando numa pessoa. O fato de ela ser uma mulher é muito menos importante do que ser ela mesma. Ele está cheio de desejo, embora este não tenha uma tonalidade sexual. Se lhe perguntasse o que quer, sua resposta sincera geralmente seria: "Continuar pensando nela". É o amor contemplativo. E quando mais tarde desperta o desejo explicitamente sexual, não irá sentir (a não ser que teorias científicas estejam a influenciá-lo) que desde o princípio fora essa a razão de tudo. Ele irá sentir com muito maior probabilidade que a maré enchente de Eros, tendo demolido muitos castelos na areia e ilhado muitas rochas, encheu agora esta parte de sua natureza com uma sétima onda triunfante — a pequena poça de sexualidade comum que se encontrava na praia antes de chegar a maré. Eros se introduz nele como um invasor, dominando e reorganizando, uma a uma, as instituições de um país conquistado. Pode ter tomado muitas outras antes de chegar ao sexo nele; e irá reorganizá-lo também.
Ninguém indicou tão concisa e corretamente a natureza dessa reorganização do que George Orwell, que a rejeitava e preferia a sexualidade em sua condição primitiva, incontaminada por Eros. No livro 1984 o seu terrível herói (muito menos humano do que os heróis de quatro patas de seu excelente Animal Farm!), antes de penetrar a heroína, exige uma certeza: "Você gosta de fazer isso?" pergunta, "Não simplesmente de mim, mas da coisa em si?" Não fica satisfeito enquanto não obtém a resposta: "Adoro". Este pequeno diálogo define a reorganização. O desejo sexual, sem Eros, deseja a coisa em si; Eros deseja o ser amado.
A coisa é um prazer transitório; isto é, um acontecimento que ocorre no interior de nosso próprio corpo. Usamos uma expressão idiomática infeliz quando dizemos a respeito de um homem sensual rondando as ruas que ele "quer uma mulher". Num sentido rigoroso da ideia, uma mulher é justamente o que ele não quer. Ele deseja um prazer em que a mulher acontece ser a peça necessária. O quanto ele se preocupa com a mulher como tal pode ser medido pela sua atitude cinco minutos depois do prazer (ninguém guarda o maço de cigarros depois de tê-los fumado). Eros, por sua vez, faz com que o homem não deseje uma simples mulher, mas uma mulher especial. De algum modo misterioso mas indiscutível, o amante deseja a amada, ela mesma, e não o prazer que lhe pode proporcionar. Amante nenhum no mundo jamais procurou os abraços da mulher amada como resultado de um cálculo, embora inconsciente, de que seriam mais agradáveis do que os de qualquer outra.
Se ele tivesse pensado no assunto, sem dúvida esperaria que fosse assim, mas levantar a questão seria sair por completo do mundo de Eros. O único homem que, segundo sei, fez essa pergunta foi Lucrécio, mas ele não se achava certamente apaixonado na ocasião.
Sua resposta é digna de interesse. Aquele austero sibarita era de opinião que o amor na verdade prejudica o prazer sexual. A emoção era uma distração. Ela prejudicava a receptividade fria e crítica de seu paladar. (Um grande poeta; mas "Senhor, que grandessíssimos animais foram os romanos!")

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Fonte:
Os Quatro Amores, por: C. S. Lewis. Tradução: Neyd Siqueira. Editora Mundo Cristão. São Paulo, 1986, págs. 72-75.