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terça-feira, 26 de julho de 2016

Cristianismo e Filosofia (Religiosidade)

Cristianismo e Filosofia

Por: Adgeny Carvalho de Almeida.
Professores de Filosofia têm sido constantemente alvos de críticas e rotulações de "hereges". A partir de que conceito tem sido gerada e alimentada toda essa confusão? O que é que se teme tanto?
Antes de responder essa questão, precisamos ter em mente que o domínio da fé e da ciência é distinto. A fé, que está no domínio das verdades reveladas, inacessíveis à razão, é demonstrada com a razão natural, que tem como ponto de partida o lógico. "Estejam sempre prontos para responder a qualquer pessoa que pedir que explique a fé que vocês têm" (l Pé 3.15).
Os filósofos gregos, conhecidos como amantes do saber ou da verdade, julgavam poder encontrar na investigação racional o conhecimento que fosse ao mesmo tempo o mais válido e o mais extenso possível. "Toda filosofia tem seu ponto de partida no homem, apela a seu intelecto e trata de noções e problemas puramente naturais. Seu objetivo é proporcionar uma interpretação racional do mundo, da natureza, da sociedade, do homem e da sua vida interior, a fim de torná-lo verdadeiramente sábio e orientá-lo para a consecução de sua meta natural" (Philothaus Boehner, p. 10 e 11).
Os filósofos consideravam que uma "teoria" devia ser discutida e não defendida. E é exatamente aí que se dá a confrontação da filosofia helênica com o cristianismo. A filosofia helênica se ocupava, também, com questões de ordem religiosa. Em face disso, tornou-se imperioso o Cristianismo assumir uma atitude crítica, uma vez que tem a posse da verdade absoluta, garantida pela revelação em Cristo Jesus. O Cristianismo faz o homem ver pela razão a necessidade de se deixar curar pela fé e pela graça. A razão orientada pela fé torna-se capaz de retificar e aprofundar na verdade o que a razão lesada dos pagãos não pode alcançar. Ela realiza a meta que a filosofia grega, base de todo pensamento humano, só pôde esboçar em traços gerais.

ESCÂNDALO E LOUCURA
A notícia de que Deus havia se feito homem num lugar e num momento preciso e havia morrido crucificado pelos romanos nunca foi e nem poderia ser assimilada pela filosofia grega, pois era incompatível com a imutabilidade, impassibilidade e perfeição divina desenvolvida até então.
A partir de Heráclito de Éfeso (século V a.C.) logos designava a inteligência cósmica ou razão do mundo, princípio fontal, gerador, do ser e do conhecimento. Filo, filósofo judeu, via, no logos, a ideia divina do mundo e o meio pelo qual Deus opera no mundo. João aplica o termo logos em relação a Jesus Cristo, como o Deus vivo (não está em e com Deus, ele, logos é o próprio Deus. Esta personalidade do logos e sua encarnação, constituíam escândalo para os judeus e loucura para os gentios. O logos contém em si as ideias; é luz espiritual, fonte de todo o conhecimento que ilumina toda Terra. "Deus fez todas as coisas por meio dele, e nada do que existe foi feito sem ele. Ele tinha vida em si mesmo, e essa vida trouxe luz para os seres humanos. Essa é a luz verdadeira, a luz que veio ao mundo e ilumina todas as pessoas" (Jo 1.3,4,9).

SUJEIÇÃO HUMILDE
A sabedoria deste mundo é referência à sabedoria hostil a Deus. A sabedoria que Paulo conheceu fazia parte desta sabedoria mundana. Paulo jamais pretendeu, como alguns interpretam, contrastar a razão e a revelação ou a razão e a fé, pois, como já dissemos, as áreas de domínio são distintas. Mas ele sentiu a oposição da filosofia helênica versus a doutrina cristã.
O cristianismo condena a soberba e a autossuficiência da razão mundana e exige a sujeição humilde à cruz de Cristo. Paulo confronta os gregos com o absurdo de um Deus morto, ressuscitado e elevado à glória dos céus, em lugar do imponente sistema de ideias construído em fundamentos puramente racionais, sustentado por sua própria coerência interna. Paulo substitui a ciência puramente humana, que não passa de desvios e especulações, pela sabedoria salvífica de Deus.
Jesus declara que a sabedoria é um dom de Deus, e não um produto da mera razão natural. A sabedoria não depende de recursos humanos, ela se manifesta na fraqueza humana segundo a lei universal da graça.
"Ó pai, senhor do céu e da Terra! Eu te agradeço porque tens mostrado aos que não são instruídos aquilo que escondeste dos sábios e dos instruídos" (Mt 11.25). Essa oração de Jesus não é um enunciado contra a razão. A razão em si mesma é dom de Deus. Ela só é incapaz de penetrar nos mistérios mais profundos de Deus. Como são grandes as riquezas de Deus! Como são profundos o seu conhecimento e a sua sabedoria! Quem pode explicar as suas decisões? (Rm 11.33,34a), mas pode aplicar-se com êxito a problemas de sua competência.
Vivemos hoje em plena era das ciências, fruto de trabalho consistente de investigação do homem, a partir do lógico, do verificável, o que foi um longo processo. Quantos não são os benefícios conquistados pela razão? O problema se dá, na ciência e na religião, quando o conhecimento se deriva do abuso da razão, pois a partir daí temos a distorção e até mesmo a inversão do conhecimento verdadeiro, tanto científico como religioso.

CONHECIMENTO NATURAL
Os gentios não convertidos possuíam algum conhecimento natural de Deus independente de uma revelação especial, mas, por não lhe terem dado a devida reverência, o seu entendimento obscureceu na mais absurda idolatria. "E, como não querem saber do verdadeiro conhecimento a respeito de Deus, ele os entregou aos seus maus pensamentos, para que façam o que não devem. Estão cheios de perversidade, maldade, avareza, vícios, ciúmes, lutas, mentiras e malícia. Difamam e falam mal uns dos outros. Odeiam a Deus e são atrevidos, orgulhosos e vaidosos. Inventam muitas maneiras de fazer o mal, desobedecem aos pais, são imorais, não cumprem a palavra, não têm amor por ninguém e não têm pena dos outros. Eles sabem que a lei de Deus diz que quem vive assim merece a morte. Mas mesmo assim continuam a fazer essas coisas e, pior ainda, aprovam os que agem como eles" (Rm 1.28-32).
"Mas onde pode ser achada a sabedoria? Em que lugar está a inteligência?" (Jó 28.12). "A sabedoria não entra numa alma maligna, ela não habita num corpo devedor ao -pecado. Pois o Espírito Santo, o Educador, foge da duplicidade, ele se retira diante dos pensamentos sem sentido, ele se ofusca quando sobrevêm a injustiça" (Sabedoria l .4-5). "Para ser sábio, é preciso temer ao Senhor; para ter compreensão é necessário afastar-se do mal" (Jó 28:28).
O homem, mesmo antes dos filósofos gregos sistematizarem a investigação racional à busca do conhecimento e da verdade, tenta explicar e compreender a origem do mundo, a essência do homem, o destino do homem, o fundamento das normas político-morais. Ele tem encontrado as respostas mais diversas a essas questões. Mas a razão é um dom de Deus e da só pode ser vivenciada como um presente quando sujeita a Cristo, pois ele é o alfa e ômega, o princípio e o fim de todas as coisas.


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Fonte:
Revista UniJovem. Ano XI - Nº 49 - 1993. JUMOC. Rio de Janeiro,  págs. 38-39.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Biografia de Cícero

Notícia Biográfica
Marco Túlio Cícero nasceu em Arpino, no ano 106 a. C. Sua mãe, Hélvia, pertencia a uma família humilde, mas de boa reputação.  Quanto a seu pai, divergem as opiniões dos biógrafos, pretendendo uns que ele tenha nascido na loja de um pisoeiro que o educou, e outros fazendo-o descender de Túlio Átio, que combatera valorosamente contra os romanos.
O nome de Cícero tem uma origem pitoresca: em latim cicer significa "grão-de-bico", e assim fora apelidado um seu antepassado em virtude de ter no nariz uma protuberância cuja forma lembrava a do gravanço. A esse respeito,  respondeu Cícero, quando já homem público, aos amigos que o aconselharam a mudar de nome: "Farei tudo para tornar o nome de Cícero célebre que o de Escauro e o de Catulo". Com efeito, Scaurus e Catulus, nomes de oradores famosos, não têm, em latim, significados menos jocosos: "pé torto" e "cachorrinho"... Mais tarde, quando questor na Sicília, Cícero mandou gravar, num vaso de prata que iria oferecer aos deuses, os seus dois primeiros nomes, Marcus Tullius, e, no lugar do terceiro, um grão-de-bico.
Dotado de excepcionais qualidades literárias e filosóficas, Cícero cultivou todos os gêneros de atividade intelectual, inclusive a poesia, tendo composto, ainda criança, um poema intitulado Pontius Glaucus, no qual descreve a aventura de um pescador da Beócia que, depois de ter comido certa erva, se atirou ao mar transformando-se em deus marinho. Aperfeiçoou de tal maneira a sua cultura e tão notável se revelou a sua eloquência que chegou a ser considerado, não só como o melhor orador, mas ainda como um dos melhores poetas do seu tempo; e note-se que, entre os príncipes da poesia latina, fulguravam nomes como os de Catulo e de Lucrécio.
O primeiro professor de Cícero, logo que terminou os primeiros estudos, foi Filão, o acadêmico, cuja eloquência e cujo caráter eram legítimo motivo de orgulho dos romanos. Ao mesmo tempo, frequentava Cícero a casa de Mudo Cêvola, senador ilustre, em cujo convívio adquiriu um profundo conhecimento das leis. Manteve, igualmente, estreitas relações com os sábios gregos de sua época, com os quais pôde aumentar e enriquecer o seu já precioso cabedal científico.
Depois da morte de Sua, sob cujo governo o jovem Cícero já tinha alcançado um grande renome, decidiu ele abraçar a carreira administrativa. Nomeado questor da Sicília, acabou por merecer do povo tão grandes provas de gratidão como nenhum outro magistrado romano recebera até então. Em toda a Itália, o seu nome se tornou conhecido e venerado. Mas, a sua popularidade culminou quando ele, insurgindo-se contra os desmandos de Verres, que fora pretor na Sicília, produziu os formidáveis discursos que se imortalizaram sob o nome de Verrinas.
Admirado e estimado, possuía amigos por toda parte, não havendo lugar na Itália em que não fossem numerosos. Contudo, a sua vontade e, sobretudo, as frases irônicas e mordazes de que frequentemente usava para ferir os que ousavam fazer-lhe sombra, acarretaram-lhe uma reputação de malignidade. De espírito fino e de um sarcasmo impiedoso, para tudo encontrava Cícero uma saída ou uma resposta.
Irritado com Munácio, porque este, cuja absolvição ele conseguira, demandava contra Sabino, um dos seus amigos, disse-lhe Cícero: - "Estás mesmo pensando, Munácio, que foste absolvido graças à tua inocência, e não à minha eloquência, que ofuscou a luz aos olhos dos juízes?" Como Marco Crasso lhe manifestasse sua estranheza diante de uma censura, quando pouco tempo antes havia sido por ele elogiado, Cícero respondeu-lhe: -"Sim, eu quis experimentar o meu talento num motivo ingrato". Mas tarde, esse mesmo Crasso, querendo reconciliar-se com Cícero, avisou-o de que iria cear com ele; e, algum tempo depois, como alguém lhe comunicasse que Valtínio, com quem ele também brigara, desejava fazer as pazes, disse Cícero: - "Valtínio também quer cear comigo?" Ao verificar, um dia, que era falsa a notícia que correra da morte de Valtínio, exclamou: -"Maldito quem mentiu tão inoportunamente!" A um rapaz que o ameaçava de cobri-lo de injúrias e que, pouco antes, fora acusado de ter envenenado o próprio pai com um bolo, disse Cícero: -"Prefiro tuas injúrias ao teu bolo". A um certo Públio Cota, que se tinha na conta de jurisconsulto, embora ignorante das leis e medíocre, retrucou Cícero, quando aquele, interrogado como testemunha num processo, lhe respondeu que não sabia nada: - "Julgas que te interrogo sobre o direito?!" Como Metelo Nepote, numa discussão acalorada, perguntasse insistentemente a Cícero quem era seu pai, teve esta resposta: "Graças à tua mãe, encontras mais dificuldades do que eu para responder' a essa pergunta". Ao ouvir Marco Ápino dizer, numa defesa, que o amigo que ele defendia lhe recomendara muita exatidão, raciocínio e boa fé, interrompeu-o Cícero: -"E como tens coragem de não fazer nada do que o teu amigo te pediu?" Tendo Verres, cujo filho adolescente era tido como homossexual, chamado Cícero de efeminado, este respondeu-lhe:
- "É uma censura que deves fazer ao teu filho, com as portas fechadas".
Outras vezes, suas frases eram cheias de humorismo, como quando perguntou a Domício, ao cogitar este de dar a um homem pouco inclinado à guerra, cuja honestidade entretanto admirava, um posto qualquer de que não o destinas para educar os teus filhos?" Ou quando, na Espanha, onde combatia ao lado de Pompeu, retrucou a um certo Márcio, que, recém-chegado da Itália, disseram que em Roma corria o boato de que Pompeu estava sitiado:  - "E embarcaste, então, só para vives certificar disso com teus próprios olhos?"
Como Cônsul, o maior triunfo político obtido por Cícero foi a repressão fulminante da conspiração de Caulina, cujos partidários ele mandou prender ,. cm seguida, fez executar em sua presença e na presença de todo o povo. As suas famosas Catilinárias, pronunciadas no senado valeram-lhe o título de "Pai da Pátria". Cícero era, então, o homem mais querido e de maior autoridade em Roma.
A sua estrela, só principiou a empalidecer quando encontrou diante de si, enérgica e impetuosa, a figura de César, futuro ditador. Tendo procedido ingratamente para com Clódio, homem de grande influência a quem devia grande parte de sua força, Cícero acabou perdendo totalmente o seu prestígio: duramente combatido pela aliança de César com Clódio, humilhou-se e, depois de uma série de perseguições, foi exilado. Mas, embora abandonado pelos grandes vultos romanos e mesmo por muitos dos seus velhos amigos, não deixou Cícero de receber, no exílio, testemunhos eloquentes de estima e admiração. Em Dirráquio onde esteve de passagem, foi visitado por grande número de pessoas que, em nome das cidades gregas, iam prestar-lhe homenagem. Por fim, como Clódio se incompatibilizasse com o povo pelas arbitrariedades que praticara, Cícero foi de novo chamado à Itália, tendo sido recebido com grandes manifestações de alegria, depois de ter passado dezessete meses fora do país. Clódio, algum tempo mais tarde, morreu assassinado, e Cícero foi o defensor do assassino, não tendo, porém, conseguido a sua absolvição. Foi nessa ocasião que se indispôs, com Catão, por ter este reprovado asperamente a sua atitude. Todavia, como governador da Cilícia, que lhe coubera por sorte na partilha que fora feita das províncias, a sua excelente administração e, sobretudo, uma vitória militar alcançada sobre os bandidos que assolavam a montanha de Amano, nos limites com a Síria, puderam reabilitá-lo e fazê-lo subir tão alto no conceito dos seus soldados concidadãos, que lhe foi dado o título de imperator e, em Roma, se fizeram preces publicas para agradecer aos deuses o seu esplêndido triunfo.
De regresso da Cilícia esteve Cícero em Rodes e em Atenas, onde visitou os vultos mais eminentes da época e recebeu dos gregos grandes provas de veneração. Chegando a Roma, Cícero encontrou uma situação extremamente grave, minada pelo dissídio entre César e Pompeu. Cheio de ambição e sem saber que partido tomar para satisfazê-la, colocou-se a princípio ao lado de Pompeu, para logo depois, aconselhado por Catão, passar a fazer o jogo de César. Catão, no entanto, não podia fazer o mesmo, por achar que não devia abandonar a causa que abraçara desde o início de sua carreira política. Cícero fez, mais tarde, o elogio de Catão, e César, na resposta que lhe deu, não deixou de louvar-lhe a eloquência e os serviços prestados à pátria. O discurso de Cícero intitula-se Catão, e o de César Anti-Catão.
Conta Plutarco que, tendo Cícero se encarregado da defesa de Quinto Ligário, acusado de ter pegado em armas contra César, disse este aos seus amigos: - "Que impede que deixemos Cícero falar? Há muito tempo que o ouvimos. Quanto ao seu cliente, é um homem mau e meu inimigo: está julgado". No entanto, a defesa feita por Cícero foi tão brilhante que perturbou o próprio César, fazendo-o tremer de emoção, e Ligário foi absolvido.
Instaurada a autocracia de César, retirou-se Cícero da vida pública, passando a ensinar filosofia no seu retiro de Túsculo e só raramente indo a Roma para prestar homenagens ao ditador. Era seu projeto, igualmente, escrever uma história da Itália, mas os múltiplos afazeres e as preocupações domésticas que se seguiram ao seu divórcio, impediram-lhe a realização desse desejo. Separando-se de Terência, sua mulher, casou-se em seguida com Publília, jovem cuja beleza e fortuna o seduziram. Pouco tempo depois, desgostoso com a morte de sua filha Túlia, acabou repudiando a nova mulher, sob o pretexto de que esta se alegrara com o triste acontecimento.
Embora amigo de Bruto, Cícero não participou da conspiração contra César. Morto o ditador, António, que era cônsul, tratou logo de fortificar o seu poder e moveu contra Cícero uma campanha terrível, sobretudo quando este, cheio de ambição, principiou a conspirar com o jovem César Otávio para chegar ao governo. Foi, porém, traído por Otávio, que acabou constituindo um triunvirato com António e Lépido, e os três, de comum acordo, partilharam o império entre si.
Inteiramente abandonado, Cícero e seu irmão Quinto deixaram Túsculo, onde se encontravam em repouso, e partiram para Astira, com o fim de embarcarem, depois, para a Macedônia e se colocarem ao lado de Bruto, cujas forças segundo corria, tinham aumentado consideravelmente. Em meio da viagem, porém, desesperançados e sem provisões, resolveram separar-se devendo Cícero continuar a viagem e Quinto correr à sua casa em busca do necessário. Alguns dias mais tarde, Quinto, pilhado por seus perseguidores, foi mono ao mesmo tempo que seu filho, depois de uma discussão comovente entre ambos, cada qual desejando ser o primeiro a morrer: os carrascos não esperaram que chegassem a um acordo e, separando-os, os degolaram.
Em Ástira, Cícero, encontrando um navio, embarcou e foi até Circeu, mas aí, mudando totalmente de resolução, quis voltar a Roma, onde esperava contar com a benevolência de Otávio. Caminhou a pé alguns quilômetros e, sempre hesitante, tornou ao ponto de onde partira e regressou a Ástira, dirigindo-se, no dia seguinte, para Caieta (hoje Gaeta), onde possuía um domínio. A sua aflição era enorme e, para tirá-lo da situação penosa em que se achava, o seus criados resolveram levá-lo numa liteira em direção ao mar. Foi quando, a meio caminho, chegaram os seus assassinos, Herênio e Popílio, e o degolaram, tendo o próprio Cícero estendido corajosamente a cabeça ao mesmo tempo que pronunciava estas palavras: Moriar in patria saepe servata ("Morra eu na pátria que tantas vezes salvei").
Morreu no ano 43 a.C., aos sessenta e três anos de idade. Entre as as principais obras filosóficas, contam-se as seguintes: De Re Publica, De Officiis, Cato Major, Loelius Seu De Amititia, De Finibus Bonorum et Maloum, Pararadoxa Stoicorum, Tusculunarum Quoestionum, De Natura Deorum, De Divinatione, etc. E entre os seus discursos: In Catilinam, Pro Q. Gallio, Pro A . Cluentio Avito, Pro Lege Manilia, Pro À. Coecina, In Verrem, In Q. Coecilium, Pro Scamandro, Pro C. Mustio, Pro P. Quinctio, Pro Q. Roscio, Pro Murena, Post Reditum ad Quirites, Pro L. Cornelio Balbo, In L. Pisonem, Pro C. Rabirio Posthumo, Pro Q. Ligario, Pro Rege Dejetaro, Pro T. Annio Milone, Pro M. Marcello, Pro C. Planeio, De Provinciis Consularibus, Pro M. Coelio Rufo, Pro Domo Sua, Ad Pontífices, Pro P. Sextio, etc.


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Fonte:
Mestres Pensadores: Cícero - Da República. Editora Escala. Tradução: Amador Cisneiros. São Paulo, s/d, págs. 9-13.

domingo, 17 de julho de 2016

Santo Agostinho: A ação da alma sobre o corpo

A ação da alma sobre o corpo
Por: José Américo Motta Pessanha
Essa concepção de homem provinha de Platão (428-348 a.C.) e foi conhecida por Agostinho, pouco antes da conversão, através de Plotino. No diálogo Alcibíades, Platão define o homem como uma alma que se serve de um corpo, e Agostinho mantém permanentemente esse conceito com todas as consequências lógicas que ele comporta, dentre as quais a principal é a ideia de transcendência hierárquica da alma sobre o corpo. Presente em sua morada terrena, a alma teria funções ativas em relação ao corpo: atenta a tudo o que se passa ao redor, nada deixa escapar à sua ação. Os órgãos sensoriais sofreriam as ações dos objetos exteriores, mas com a alma isso não poderia acontecer, pois o inferior não pode agir sobre o superior. Ela, no entanto, não deixaria passar despercebidas as modificações do corpo e, sem nada sofrer, tiraria de sua própria substância uma imagem semelhante ao objeto. Essa imagem, que constituiria a sensação, não é, portanto, paixão sofrida pela alma, mas ação.
Entre as sensações, algumas referem-se às necessidades e estados do corpo, outras dizem respeito a coisas exteriores. O caráter distintivo desses objetos é a instabilidade: aparecem e desaparecem, estão aí e já não estão mais, sem que seja possível apreendê-los de uma vez por todas. Com isso ficam inteiramente excluídos de qualquer conhecimento verdadeiro, pois este exige necessariamente estabilidade e permanência. O conhecimento não seria, portanto, apreensão de objetos exteriores ao sujeito, tal como são dados à percepção. Seria, antes, a descoberta de regras imutáveis, tais como "2 + 2 = 4", ou então o princípio ético segundo o qual é necessário fazer o bem e evitar o mal. Tanto num caso como no outro, refere-se a realidades não-sensíveis, cujo caráter fundamental seria a necessidade, pois são o que são e não poderiam ser diferentes. Da necessidade do conhecimento decorreria sua imutabilidade e, desta, a sua eternidade.
Essa conclusão coloca desde logo um problema, pois revela a existência de dois tipos inteiramente diferentes de conhecimento. O primeiro, limitado aos sentidos e referente aos objetos exteriores ou suas imagens, não é necessário, nem imutável e nem eterno; o segundo, encontrado na matemática e nos princípios fundamentais da sabedoria, constitui a verdade. Essa verificação permite que se indague: será o próprio homem a fonte dos conhecimentos perfeitos? Contra a resposta afirmativa depõe o fato de ser o homem tão mutável quanto as coisas dadas à percepção, e justamente por isso ele se inclina reverente diante da verdade que o domina. Assim, só haveria uma resposta possível: a aceitação de que alguma coisa transcende a alma individual e dá fundamento à verdade. Seria Deus.


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Fonte:
Os Pensadores: Santo Agostinho. Tradução: J. Oliveira Santos e Ambrósio de Pina. Nova Cultural. São Paulo, 1996, págs. 15-16.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

O que significa morrer?

O que significa morrer?
A terceira parte da Apologia pretende ser a transcrição das últimas palavras endereçadas por Sócrates aos que haviam acabado de condená-lo a morrer bebendo cicuta. Em sua alocução, a mesma serenidade, o mesmo tom altaneiro: "Não foi por falta de discursos que fui condenado, mas por falta de audácia e porque não quis que ouvísseis o que para vós teria sido mais agradável, Sócrates lamentando-se, gemendo, fazendo e dizendo uma porção de coisas que considero indignas de mim, coisas que estais habituados a escutar de outros acusados". Sustenta-o uma certeza: mais difícil que evitar a morte é "evitar o mal, porque ele corre mais depressa que a morte". Quanto a esta, apenas pode ser uma destas duas coisas: "Ou aquele que morre é reduzido ao nada e não tem mais qualquer consciência, ou então, conforme ao que se diz, a morte é uma mudança, uma transmigração da alma do lugar onde nos encontramos para outro lugar. Se a morte é a extinção de todo sentimento e assemelha-se a um desses sonos nos quais nada se vê, mesmo em sonho, então morrer é um ganho maravilhoso. (...) Por outro lado, se a morte é como uma passagem daqui para outro lugar, e se é verdade, como se diz, que todos os mortos aí se reúnem, pode-se, senhores juízes, imaginar maior bem?" Apoiado nessas hipóteses — as únicas existentes a respeito de um fato que não permite certezas racionais —, o setuagenário Sócrates despede-se, tranquilo, de seus concidadãos: "Mas eis a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem de nós segue o j melhor rumo, ninguém o sabe, exceto o deus".
A execução da pena teve de ser adiada por trinta dias. Como acontecia todos os anos, um navio oficial havia sido enviado ao santuário de Delos para comemorar a vitória de Teseu, o herói mitológico ateniense, sobre o Minotauro, o terrível monstro que habitava o labirinto de Creta e se alimentava de carne humana. Enquanto o navio não regressasse de sua missão sagrada, nenhum condenado podia ser executado.
No diálogo Fédon, Platão descreve as conversações que, durante os dias de espera na prisão, Sócrates mantivera com seus discípulos e amigos. Um problema se propunha a todos como urgente e atormentador: a morte, a morte que para Sócrates se tornava cada dia mais próxima. E, do mesmo modo que nas outras circunstâncias de sua atividade filosófica, Sócrates ocupava-se apenas de questões que eram propostas imediata e vivamente à sua consciência e à de seus interlocutores — assim, naqueles dias em que se aguardava o retorno do navio que partira para Delos, somente tinha sentido meditar e dialogar sobre um problema: o do significado da própria morte. Sócrates então debate com os amigos diversos argumentos que poderiam levar à admissão da imortalidade da alma, uma das únicas soluções que já apontara na parte final da Apologia, quando se despedira de seus juízes. Sobre a outra — a morte representar o nada, como longa noite de sono sem sonhos — nada havia a dizer, como nada havia a temer. Restava explorar a única possibilidade na qual o pensamento podia transitar, tecendo argumentos e conjecturas.
Mas o barco está prestes a retornar de Delos. Na véspera de sua chegada, um dos amigos avisa a Sócrates: "Amanhã terás de morrer". O mestre não se perturba: "Em boa hora, se assim o desejarem os deuses, assim seja". Suplicam-lhe que aceite a fuga que os amigos haviam preparado. Sócrates recusa. E explica: a única coisa que importa é viver honestamente, sem cometer injustiças, nem mesmo em retribuição a uma injustiça recebida. Ninguém, nem os amigos, consegue convencê-lo a abdicar de sua consciência. Entra a mulher de Sócrates, Xantipa, trazendo os filhos para a despedida. Sócrates permanece sereno. Finalmente chega o carcereiro com a cicuta. Imperturbável, Sócrates toma o vaso que lhe é oferecido, de um só gole bebendo todo o veneno. Os amigos soluçam. Mas ele ainda os anima: "Não, amigos, tudo deve terminar com palavras de bom augúrio: permanecei, pois, serenos e fortes".
Ao sentir os primeiros efeitos da cicuta, Sócrates se deita. Aquele que sempre indagara sobre o significado das palavras e dos valores que regiam a conduta humana e investigara o sentido dos costumes e das leis que governavam a cidade buscava a consciência nas ações e nas afirmativas, mas não pretendia se subtrair às normas estabelecidas e às exigências dos preceitos e das instituições sociais e políticas. Porque não traíra sua consciência, preferira a morte a declarar-se culpado. Mas porque respeitava a lei não quisera fugir da prisão. Suas últimas palavras teriam sido ainda um testemunho dessa dupla fidelidade: a si mesmo e aos compromissos assumidos. Dirige-se a um dos amigos presentes, lembrando-lhe que j deviam um sacrifício ao deus Asclépio. E morre.


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Fonte:
Os Pensadores: Sócrates. Tradução: José Américo Motta Pessanha. Nova Cultural. São Paulo, 1999, págs. 10-13.

O mundo perfeito das ideias


O mundo perfeito das ideias
"Admitamos pois — o que me servirá de ponto de partida e de base — que existe um Belo em si e por si, um Bom, um Grande e assim por diante. Se admitires a existência dessas coisas, se concordares comigo, esperarei que elas me permitirão tornar-te clara a causa, que assim descobrirás, que faz com que a alma seja imortal." E Sócrates quem fala a Cebes, em Fédon, diálogo no qual Platão, descrevendo os últimos instantes de vida e as últimas conversações de seu mestre, pouco antes de beber a cicuta, atribui-lhe explicitamente uma nova linha de resolução de antigos problemas filosóficos e científicos: a doutrina das ideias. Pouco antes, no mesmo diálogo, Sócrates declarara: "... Eis o caminho que segui. Coloco em cada caso um princípio, aquele que julgo o mais sólido, e tudo o que parece estar em consonância com ele — quer se trate de causas ou de qualquer outra coisa — admito como verdadeiro, admitindo como falso o que com ele não concorda". Aquela afirmação de que existe um Belo em si, um Bom em si ou um Grande em si surge, dentro do desenvolvimento da filosofia platônica, justamente no momento em que esta — segundo a maioria dos intérpretes — começa a assumir fisionomia própria e se distingue do socratismo. Essa separação teria ocorrido no ponto em que a formulação da noção de ideia, como essência existente em si — independente das coisas e do intelecto humano —, representa a adoção, por Platão, de um método de pesquisa de índole matemática. Colocar um princípio e aceitar como verdadeiro o que está em consonância com ele, rejeitando o que lhe está em desacordo — como afirmara Sócrates — significa pensar "como geômetra", que propõe hipóteses das quais extrai as consequências lógicas. E é o que Platão propõe através da boca de Sócrates: remontar do condicionado (os problemas a serem resolvidos ou as coisas a serem explicadas) à condição (a hipótese explicativa), visando antes de tudo a estabelecer uma relação de consequência lógica entre as duas proposições (a que exprime o problema e a que exprime sua hipotética resolução). Provisoriamente deixa-se de lado a questão de saber se a condição é ela própria autossustentável ou se exige o recurso a condições mais amplas ou básicas que a condicionem. De saída, o importante é verificar o que está em consonância com o princípio proposto. Todavia o platonismo não se deterá aí: o exame da primeira hipótese que resulta da aplicação do "método dos geômetras" — a existência de entidades em si, as ideias, causas inteligíveis do que os sentidos apreendem — remeterá a outras hipóteses que a condicionam. O pensamento de Platão irá se construindo, assim, como um jogo de hipóteses interligadas. Ao relativismo dos sofistas, Platão opõe não uma afirmação de verdade simplória e dogmática. A busca de uma condição incondicionada para o conhecimento, o encontro com o absoluto fundamento da verdade (que só então se distingue do erro e da fantasia), é para Platão não o ponto de partida, mas a meta a ser alcançada. Porém só se chegará aí depois que se atravesse todo o campo do possível. O absoluto, o não-hipotético, habita além das últimas hipóteses.
Nos primeiros diálogos — os da "fase socrática" — já se buscava algo de idêntico e uno que estaria por trás das múltiplas maneiras de se entender conceitos como "temperança" ou "coragem". Mas esse mesmo que existiria em diversas coisas não era ainda uma entidade metafísica, algo que existisse em si e por si. Em Eutífron é que as palavras ideias e eidos aparecem empregadas, pela primeira vez, numa acepção propriamente platônica. Ambas aquelas palavras são derivadas de um verbo cujo significado é "ver" e têm, assim, como acepção originária, a de "forma visível" (primariamente no sentido de "formato" ou "figura"). Ao que parece, já estavam integradas ao vocabulário dos pitagóricos, com o sentido de modelo geométrico ou figura.
Nos diálogos da primeira fase, que parecem reproduzir as conversações do próprio Sócrates, a procura do mesmo, além de ficar restrita à busca de um denominador comum no nível da significação das palavras, limitava-se a debates sobre questões morais. Esses debates não eram conclusivos: deixavam os problemas enriquecidos e revoltos, com isso denunciando a fragilidade ou a parcialidade dos pontos de vista confrontados. Ao chegar a esse ponto, a dialética socrática podia dar-se por satisfeita, na medida em que seu objetivo seria o dramático embate das consciências, condição para o autoconhecimento. Já em Platão — a partir da fase de Fêdon — a dialética vai progressivamente perdendo o interesse humano imediato e a dramaticidade, para se converter, cada vez com mais apoio em recursos matemáticos, num método impessoal e teórico, que visa aos próprios problemas e não apenas à sondagem da consciência dos interlocutores. Torna-se uma pesquisa das interligações entre as ideias, chegando, na fase final do platonismo, a ser considerada um tipo de "métrica" ou arte das medidas e das proporções.
"Admitamos pois — o que me servirá de ponto de partida e de base — que existe um Belo em si e por si, um Bom, um Grande e assim por diante." Essas palavras, que Platão faz Sócrates dizer em Fédon, representam uma mudança de direção da investigação filosófica em relação aos pensadores do passado. A explicação do mundo físico, desde os filósofos da escola de Mileto, convertia-se na procura de uma situação primordial que justificaria, em seu desdobramento, a situação presente do cosmo. Antes, a água (Tales), o ilimitado (Anaximandro), o "tudo junto" (Anaxágoras) — depois, devido a diferentes processos de transformação ou de redistribuição espacial, o universo em seu aspecto atual. A explicação filosófica representava, assim, o encontro de um princípio (arque) originário, e era, por isso mesmo, movida por interesse arcaizante, de busca das raízes, de desvelamento das origens. Com Platão essa índole retrospectiva e "horizontal" da investigação é substituída pela perspectiva "vertical" e ascendente que propõe, seguindo a sugestão do método dos geômetras, as ideias como causas intemporais para os objetos sensíveis. O que é belo, mais ou menos belo, é belo porque existe um belo pleno, o Belo que, intemporalmente, explica todos os casos e graus particulares de beleza, como a condição sustenta a inteligibilidade do condicionado.
Através dos diálogos, Platão vai caracterizando essas causas inteligíveis dos objetos físicos que ele chama de ideias ou formas. Elas seriam incorpóreas e invisíveis — o que significa dizer justamente que não está na matéria a razão de sua inteligibilidade, reais, eternas e sempre idênticas a si mesmas, escapando corrosão do tempo, que torna perecíveis os objetos físicos. Merecem, por isso mesmo, o qualificativo de "divinas", qualificativos que os filósofos anteriores já atribuíam à arque. Perfeitas e atáveis, as ideias constituiriam os modelos ou paradigmas quais as coisas materiais seriam apenas cópias imperfeitas e transitórias. Seriam, pois, tipos ideais a transcender o plano mutável dos objetos físicos.
A afirmativa de que o mundo material se torna compreensível através da hipótese das ideias deixa, porém, em suspenso um problema decisivo: o da possibilidade de se conhecer essas realidades invisíveis e incorpóreas. Com efeito, o que inicialmente foi tomado como hipótese explicativa — a existência do mundo das ideias — não basta a si mesmo. É preciso que se admita um conhecimento das ideias incorpóreas que antecede ao conhecimento fornecido pelos sentidos, que só alcançam o corpóreo. Em Mênon, Platão expõe a doutrina de que o intelecto pode apreender as ideias porque também ele é, como as ideias, incorpóreo. A alma humana, antes do nascimento — antes de prender-se ao cárcere do corpo —, teria contemplado as ideias enquanto seguia o cortejo dos deuses. Encarnada, perde a possibilidade de contato direto com os arquétipos incorpóreos, mas diante de suas cópias — os objetos sensíveis — pode ir gradativamente recuperando o conhecimento das ideias. Conhecer seria então lembrar, reconhecer. A hipótese da reminiscência vem, assim, sustentar a hipótese da existência do mundo das formas. Mas, por sua vez, implica outra doutrina, que a condiciona: a da preexistência da alma em relação ao corpo, a da incorruptibilidade dessa alma incorpórea e, portanto, a da sua imortalidade. Essa imortalidade, de que Sócrates não teve certeza nos primeiros diálogos, converte-se, na construção do platonismo, numa condição para a ciência, para a explicação inteligível do mundo físico.
Mas se a doutrina da reminiscência liga a alma às ideias e justifica que o homem as conheça, como explicar o relacionamento entre as formas e os objetos físicos, entre o incorpóreo e o seu oposto, o corpóreo? Essa é uma questão que o próprio Platão levanta no diálogo Parmênides. Antes ainda suscita outro problema, que está na base daquele e que não havia sido esclarecido nas obras anteriores: afinal, de que há ideias?
Os exemplos de ideias apresentados em Fédon são extraídos ou da esfera dos valores estéticos e morais (o Belo, o Bom), ou das relações matemáticas (o Grande). De fato, desses dois campos é que o platonismo vai colher preferencialmente os pontos de apoio para propor um mundo de modelos transcendentes. Isso é compreensível, uma vez que a variação de mais e menos (mais belo, menos belo; maior, menor) parece sugerir a referência a um padrão absoluto, a uma "justa medida" (o Belo, o Grande). Todavia, já em Crátilo, onde aparece a primeira afirmação da transcendência das ideias, ela é feita a propósito da ideia referente a um objeto físico, a um artefato, a naveta. Em Parmênides o problema ainda mais se aguça ao fazer-se a pergunta: há uma forma correspondente ao fogo (realidade física e natural), uma forma correspondente ao lodo (objeto físico "inferior")? Valores negativos ou realidades abjetas teriam um modelo no plano das essências divinas? O que está aí em questão é, na verdade, o significado que o mundo físico tem enquanto corpóreo; se é cópia, o que lhe confere o estatuto de cópia, distanciando-o do arquétipo? Se sua causa inteligível é o mundo das ideias, o que constitui isto que lhe dá concreção e materialidade?
Num primeiro momento, de dialética ascendente, impulsionada pelo método inspirado no procedimento dos matemáticos, Platão deixara de lado, provisoriamente, a natureza do sensível enquanto sensível. Mas na etapa final de seu pensamento, animada também por uma dialética descendente que procura vincular o inteligível ao sensível, essa questão assume crescente interesse, motivando a cosmogonia e a física de Timeu. Também no ensinamento oral dessa fase — segundo o depoimento de Aristóteles — Platão ocupou-se do mesmo problema, embora tratando-o noutra direção, ao investigar as ideias relativas aos objetos de arte.
A relação existente entre as formas e os objetos físicos que lhe são correspondentes é a outra grande questão levantada por Parmênides. Platão pretende resolvê-la através de duas noções fundamentais: a de participação e a de imitação. Em Parmênides o próprio Platão formula muitas das objeções que pensadores posteriores (inclusive Aristóteles) farão a essas noções. E, se ao longo Ida evolução de seu pensamento, permanentemente aprofundou, esclareceu ou refez o significado de participação e de imitação, lais abriu mão da transcendência das ideias.
A doutrina platônica da imitação (mímesis) difere da que os pitagóricos propunham desde o século VI a.C. Desenvolvendo um pensamento fundamentado nas investigações matemáticas, os primitivos pitagóricos afirmavam que "todas as coisas são números", entendendo como números realidades corpóreas, constituídas por unidades indecomponíveis que eram ao mesmo tempo o mínimo de corpo e o mínimo de extensão. As coisas imitariam os números, para os pitagóricos, numa acepção plenamente realista: os objetos refletiriam exteriormente sua constituição numérica interior. A mímesis, no pitagorismo, apresentara portanto um caráter de imanência: o modelo e a cópia estão ambos no plano concreto; são as duas faces — interna (apreendida racionalmente) e externa (apreendida pelos sentidos) — da mesma realidade. Com Platão a noção de imitação adquire acepção metafísica, como lógica decorrência do "distanciamento" entre o plano sensível e o inteligível. Os objetos físicos — múltiplos, concretos e perecíveis — aparecem como cópias imperfeitas dos arquétipos ideais, incorpóreos e perenes. O mundo sensível seria uma imitação do mundo inteligível, pois todo o universo, segundo a cosmogonia de Timeu, seria resultante da ação de um divino artesão (demiurgo) que teria dado forma, pelo menos até certo ponto, a uma matéria-prima (a "causa errante"), tomando por modelo as ideias eternas. A arte divina teria produzido as obras da natureza e também as imagens dessas obras (como o reflexo do fogo numa parede). Analogamente, a arte humana produz de dupla maneira: o homem tanto constrói uma casa real como, na condição de pintor, pode reproduzir num quadro a imagem dessa casa. O artista aparece por isso, em A República, como "criador de aparências". O problema da imitação torna-se mais complexo quando referido aos objetos de arte, objetos artificiais, artefatos. Faz-se então a distinção entre graus intermediários de imitação: o objeto natural imita a ideia que lhe é correspondente e a arte imita, por sua vez, aquela imitação. A relação cópia-modelo usada metafisicamente por Platão para explicar a relação sensível-inteligível reaparece assim em sua concepção estética e justifica as restrições feitas aos artistas em A República. Particularmente os poetas, como Homero, são aí representados como fazendo "simulacros com simulacros, afastados da verdade". No caso das artes plásticas, Platão recusa a utilização dos recursos da perspectiva, que então se difundiam e lhe pareciam a sofística na arte, pois acentuavam a "ilusão de realidade". A arte imitativa deveria preservar o caráter de cópia de seus produtos, não querendo confundi-los com os objetos reais. Outro caminho para as artes plásticas seria tentar reproduzir a verdadeira realidade — das formas incorpóreas —, o que coloca Platão, segundo alguns intérpretes, como antecipador da arte abstrata.


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Os Pensadores: Platão. Nova Cultural. São Paulo, 1999, págs. 17-23.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Filósofo e religioso?

Filósofo e religioso?
Além de grande cientista, Einstein teria sido também um filósofo? Para alguns biógrafos, sim, sendo que seu pensamento filosófico transparece na forma quase inocente - porém, não ingênua - de fazer perguntas à natureza.
Mesmo os que veem em Einstein um filósofo concordam que ele não era do tipo convencional, que escreve tratados. Seu pensamento filosófico era expresso em seus artigos científicos, bem como em cartas, palestras, livros, jornais ou revistas. Esses escritos demonstram que Einstein tinha um amplo conhecimento dos grandes debates filosóficos, antigos e contemporâneos, bem como sobre a história da humanidade. Teve discussões penetrantes com filósofos conceituados, como o norte-americano Russell, o francês Henry Bergson e o alemão Hans Reichenbach.
Em relação à posição religiosa, limitamo-nos a dizer que Einstein não acreditava em um Deus pessoal, que se preocupa com o destino das pessoas. Sua posição a esse respeito foi exposta em pelo menos quatro artigos (1930, 1939, 1940 e 1948), sendo o primeiro e o terceiro considerados os mais polêmicos por teólogos. E isso lhe causou enxurradas de cartas de protesto.
Einstein tampouco era ateu, qualificativo que geralmente - e para seu desgosto - lhe era atribuído. Para ele, negar a existência de um Deus pessoal não era negar a Deus. Sua posição, comumente designada "religiosidade cósmica", está mais próxima das ideias do filósofo a quem mais admirava, Spinoza. A religiosidade de Einstein pode ser expressa pela profunda admiração que tinha pela natureza, pelas simetrias do universo e pelo fato de este poder ser compreensível através da racionalidade. Em um assunto ainda polêmico como esse, o melhor é dar voz ao próprio Einstein:
"Eu não posso conceber um Deus pessoal que teria uma influência direta sobre as ações das pessoas [...] Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração do espírito infinitamente superior que se revela no pouco que podemos compreender da realidade.
Eu acredito no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia de tudo que existe, mas não em um Deus que se preocupa com o destino e as ações dos seres humanos."
Apesar de incisivas, as passagens - respectivamente de 1927 e 1929 - estão longe de abarcar a complexidade da posição de Einstein em relação à sua religiosidade.

O século de Einstein
A obra científica de Einstein foi de tamanha grandeza que seu colega Max Born a resumiu com as seguintes palavras: "[Ele] poderia nunca ter escrito uma só linha sobre a relatividade, mas, mesmo assim, teria sido um dos maiores físicos do século XX". Muitos concordam que seria uma tarefa difícil escolher entre Einstein e Newton para o posto de maior cientista de todos os tempos.
Einstein morreu à 1h15 da manhã de 18 de abril de 1955, devido ao rompimento de uma artéria abdominal, depois de recusar um possível tratamento cirúrgico. "Já fiz a minha parte. É hora de partir", disse aos médicos. Ainda na cama do hospital, trabalhou no que seria um discurso para a cerimônia do dia da independência de Israel.
Seus olhos e seu cérebro foram retirados para pesquisa. Até hoje, não se notou nada muito significativo nesse último, a não ser o fato de ele ter um pouco mais de um tipo de células (gliais) na parte esquerda, que controla as habilidades matemáticas e da linguagem.
Einstein foi cremado na tarde do mesmo dia, e suas cinzas oram lançadas, a seu pedido, em local desconhecido, pois ele temia que seu túmulo virasse um local de peregrinação. Desconfia-se que o local seja um lago próximo a Princeton onde Einstein gostava de praticar seu esporte predileto: velejar. Bertrand Russell resumiu a vida do amigo assim:
"Einstein não foi apenas um grande cientista, foi um grande homem. Ele defendeu a paz em um mundo que caminhava para a guerra. Ele se manteve são em um mundo insano, e liberal em um mundo de fanáticos."
Pelo legado moral e intelectual que deixou, é provável que, no futuro, o século XX seja conhecido como "o Século de Einstein".

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Fonte:
O grande Albert Einstein, por: Fernando Cury. Odysseus Editora. São Paulo, 2003, págs. 113-114.

terça-feira, 5 de julho de 2016

A Escola de Sócrates

A Escola de Sócrates

Eu nunca fui mestre de ninguém, conquanto nunca me opusesse a moço ou velho que me quisesse ouvir no desempenho de minha tarefa. Tampouco falo se me pagam, e se não pagam, não; estou igualmente à disposição do rico e do pobre, para que me interroguem ou, se preferirem ser interrogados, para que ouçam o que digo. Se algum deles vira honesto ou não, não é justo que eu responda pelo que jamais prometi nem ensinei a ninguém. Quem afirmar que de mim aprendeu ou ouviu em particular alguma coisa que não todos os demais, estai certos de que não diz a verdade. Então, por que será que alguns gostam de se entreter comigo tanto tempo? Vós o ouvistes, Atenienses; eu vos disse toda a verdade; eles gostam de me ouvir examinar os que supõem ser sábios e não o são; e isso não deixa de ter o seu gosto. Mas, repito, faço-o por uma determinação divina, vinda não só através do oráculo, mas também de sonhos e de todas as vias pelas quais o homem recebe ordens dos deuses. É fácil de comprovar essa verdade; se há moços que estou corrompendo e outros que já corrompi, forçosamente, decerto, alguns deles já amadurecidos compreenderam que outrora, na sua mocidade, eu lhes dera maus conselhos e podem levantar-se para me acusar e punir; se não o quiserem eles fazer, alguém da família, o pai, os irmãos, outros parentes, se os seus familiares sofreram qualquer má influência minha, podem lembrá-la agora e punir-me. Há um bem grande número deles que estou vendo aqui, começar por Críton, que é da minha idade e do meu bairro, pai de Critobulo aqui presente; em seguida, Lisânias de Esfetos, pai de Esquines, que aí está; depois, Antifonte de Cefísia, pai de Epígenes; aí estão outros, cujos irmãos frequentaram aqueles entretenimentos: Nicóstrato, filho de Teozótides e irmão de Teódoto — Teódoto, por sinal, morreu e não poderia estorvá-lo com sua intercessão; há mais, Para-lo, filho de Demódoco, de quem era irmão, Teages; esse outro é Adimanto, filho de Aristão, de quem é irmão, Platão, aqui presente; esse é Ajantodoro, de quem é irmão, Apolodoro, também presente. Posso citar muitas outras pessoas, uma das quais, de preferência, devia Meleto ter apresentado como testemunha da acusação; se então se esqueceu, faça-o agora, com minha licença, e diga se tem algum testemunho daquela natureza. Bem ao contrário, senhores, achareis todos prontos a acudir-me; a mim, o corruptor, que faço mal a seus parentes no dizer de Meleto e Anho. Talvez tivessem razões para me apoiar os corrompidos; mas os que não corrompi, já mais idosos, parentes daqueles, que motivo terão para apoiar-me, senão o reto e justo de reconhecerem que Meleto mente e eu digo a verdade?


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Fonte:
Sócrates: vida e pensamentos. Editora Martin Claret. São Paulo, 1996.


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Biografia de Stuart Mill

Stuart Mill: vida e obras do autor
John Stuart Mill nasceu em Londres em 1806. Começou a estudar em casa mesmo, tendo como professor o próprio pai, James Mill, e aos três anos de idade já estudava grego.
Aos dezessete anos passa um ano na França na casa de Samuel Bentham, filósofo inglês. Em 1823 entra na East India Company. onde trabalhava o pai dele. Com a morte do pai, em 1836, John é promovido ao cargo de supervisor na mesma Companhia.
Em 1851, casa-se com Harriet Taylor, viúva de John Taylor. Com graves problemas de saúde, em 1854 viaja para a França e para a Grécia, recuperando-se totalmente. Em 1858 falece sua esposa e ele se retira da East India Company.
 A partir de 1859 passa seis meses por ano na cidade francesa de Avignon, hábito que conserva até a morte. Em 1865 é eleito membro do Parlamento da Inglaterra pelo distrito de Westminster e, no mesmo  ano, é nomeado Reitor da Universidade de Saint Andrew.
O ano de 1867 é marcante para a vida de John Stuart Mill, porquanto propõe no Parlamento o voto político extensivo às mulheres, mas infelizmente não tem sucesso em seu intento.
Em 1873 falece em Avignon, França.

PRINCIPAIS OBRAS:
SYSTEM OF LOGIC
PRINCIPIES OF POLITICAL ECONOMY
UTILITARIANISM
ON LIBERTY
CONSIDERATIONS ON REPRESENTATIVE GOVERNMENT
THE SUBJECTION OF WOMEN
THREE ESSAYS ON RELIGION (PÓSTUMA)
CHAPTERS ON SOCIALISM (PÓSTUMA)


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Fonte:
A Sujeição das Mulheres, por: Stuart Mill. Tradução: Débora Ginza. Editora Escala. São Paulo, s/d, págs. 11-12.

Biografia de Sêneca

Sêneca: vida e obras do autor
1. A vida de Sêneca
A vida de Sêneca apresenta quatro fases bem distintas de existência: mocidade, exílio político, professor de Nero e velhice com fim trágico,
1.   Nascimento, juventude e mocidade:
1.1 - Nasceu em Córdoba, na Espanha. No ano 4 a.C., sua família se transferiu para Roma.
O pai de Sêneca ingressou na ordem equestre e adquiriu fama como intelectual e orador.
A mãe, Helvia, terá suas virtudes celebradas pelo filho na obra De Consolatione.
Dos seus dois irmãos, o menor. Marco Âneo Mela. será o pai do poeta Lucano.
1.2 - Em Roma, o menino Sêneca recebe os primeiros ensinamentos de professores adeptos da filosofia estoica: Átalo, Sazião e Papírio Fabiano.
No ano 26, encerra seus estudos e vai para o Egito a fim de cuidar da saúde. Ali. fica com parentes, até completar a idade de 35 anos.
De volta para Roma, entra na vida pública e oficial como participante da questura com atuação direta, no foro, em questões relativas à justiça criminal.
1.3 - No ano 39, um discurso pronunciado, no foro, provocou a ira de Calígula. Quem o salvou da morte foi uma amante do Imperador. Ela o convenceu para não tomar medida drástica contra Sêneca porque a saúde frágil logo o levaria para a sepultura. Aliás, dessa sua fragilidade física, Sêneca fala na carta a Lucílio. Na carta 104, ele descreve seu estado de saúde precária. Ali, declara: "O médico dizia que era algo só principiante porque a batida do pulso indicava uma agitação mal definida de algo que perturbava as condições normais do organismo."
1.4 Após a morte do Imperador Augusto, (14 d.C.), o sucessor dele, Tibério, enfrenta dificuldades no panorama político porque a nobreza pleiteava o retorno ao regime republicano para limitar os poderes imperiais. Tibério assumiu atitudes severas, até violentas, contra as classes da aristocracia.
1.5 Sobrevêm a morte de Tibério. O Senado elege Calígula, mas logo decepciona-se com o escolhido. Embora com respaldo junto ao povo e às forças armadas, Calígula era devasso e mesmo mentalmente desequilibrado. Era mesmo visto pela nobreza como demente. Assassinado, precocemente, não teve tempo de designar seu sucessor. Assim, os militares proclamaram Cláudio César Germânico, tio de Calígula. Foi, a seguir, confirmado pelo Senado.
O período de governo de Cláudio vai de 41 a 54. Sua primeira esposa, Messalina, ficou notória pela traição conjugal e por isso foi condenada à morte pelo Imperador. A segunda esposa, Agripina consegue que Cláudio designasse como seu futuro sucessor, o filho dela, Nero. Cláudio morreu envenenado.

II. Exílio político
2.1 - Durante os anos entre 41 e 48, Sêneca reside na ilha de Córsega como exilado. Ele fora acusado de adultério com uma dama da corte imperial. Ali, em região selvagem e inóspita, longe da política agitada da capital, Sêneca se entrega à produção intelectual. Datam de então suas melhores obras de filosofia na linha da corrente estoica.
2.2 - Nesse período, Sêneca escreve a obra Consolo para minha mãe Hélvia, onde analisa o problema da dor pela ausência de um ente querido. Em outra obra denominada Sobre a brevidade da vida, ele defende, com brilho, a tese da supremacia da vida moral sobre a materializada no afago dos prazeres sensuais. Enfim, no De Constantia sapientis, destaca a soberania inabalável do verdadeiro sábio que sabe como cultivar as virtudes que florescem na seara "da honestidade.
2.3 - No ano 43, escreve o Consolatio ad Polybium, um amigo seu liberto muito influente na corte de Cláudio. Soneca o consola pela perda de parentes próximos.

III. Professor de Nero
3.1 - No ano 49, por influência de Agripina (agora, mulher de Cláudio), Sêneca retorna para Roma, onde é designado preceptor do futuro imperador, Nero.
3.2 Com apenas dezessete anos de idade, Nero ó eleito imperador. Sêneca e outros preceptores o assessoram como conselheiros. Graças a essa ajuda, os primeiros sete anos do jovem imperador fizeram lembrar os anos felizes dos tempos de Augusto. Sob a vigilância assídua de Sêneca e Afrânio Burro, prefeito do Pretório, Nero controlou sua índole perversa.
Foi, neste período de presença no palácio imperial, que Sêneca escreveu as obras A tranquilidade da alma, A clemência, A vida feliz e Os benefícios.
3.3 - Entrementes, Agripina entra em conflito com o filho. Este manda matar a mãe. Daí para frente, Nero desequilibra de vez. Ingressa na vida dissoluta de festins e bebedeiras, fazendo-se de poeta e músico, sem temer a ignomínia a que se expunha perante todos.
3.4 - Sêneca pede afastamento da vida pública. Retira-se para a solidão e entrega-se aos estudos da filosofia moral. Isso ocorre entre 62 Q 65.
3.5 - Como tinha recebido de Nero riqueza vultuosa, propõe restituir tudo ao imperador que não aceitou a devolução.
Assim mesmo Sêneca utiliza seus bens para beneficiar, largamente, os amigos. Passa a viver seus últimos anos, na simplicidade de relativa pobreza, dedicado aos estudos da ética estoica.
3.6 - Longe do fausto da corte e das loucuras de Nero, Sêneca escreve que, "com alma alegre e radiante, devemos encerrar o dia, dizendo: vivi, cumpri meu curso vital. O amanhã é ganho, se deus nô-Io conceder." (Cana 12, 9)
3.7 - No ano 65, descobre-se uma conjuração contra Nero. O Imperador acolhe a suspeita de que Sêneca seria o mentor do movimento. Exige que ele se suicide. Tácito (Annales XV, 60-5) narra os últimos momentos do filósofo que morre, confortando a esposa e os amigos.
Luiz Feracine


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Fonte:
A Tranquilidade da Alma. A Vida Retirada, por: Sêneca. Tradução: Luiz Feracine. Editora Escala. São Paulo, s/d, págs. 7-10.

Biografia de Voltaire

Voltaire: vida e obra do autor

Poeta, contista, romancista, teatrólogo, historiador, membro da Academia Francesa, Voltaire é o pseudônimo de François-Marie Arouet, nascido em Paris, no dia 21 de novembro de 1694. Foi aluno brilhante do colégio de Clermont, dirigido pelos jesuítas, padres que Voltaire passou a atacar virulentamente pelo resto da vida. Recém-formado, tentou dedicar-se à magistratura. Acusado de ser o autor de um panfleto político em versos, foi preso em 1717 e passou seis meses na famosa Bastilha. Na prisão começou a escrever seus livros. Em 1726, envolvido num incidente com o príncipe de Rohan-Chabot, foi parar outra vez na Bastilha. Libertado sob a condição de deixar a França, exilou-se na Inglaterra, onde viveu até 1729. Durante esse período de exílio, em seus novos escritos nota-se um Voltaire que imprime uma orientação reformadora em seu modo de pensar, na filosofia. Suas Cartas Filosóficas ou Cartas da Inglaterra, publicadas em 1734, provocaram enorme escândalo, e Voltaire teve de refugiar-se num castelo, onde se entregou ao estudo e à elaboração de muitas de suas obras. Em 1749 voltou a Paris, cheio de glória e já conhecido e reconhecido como grande literato e filósofo na Europa inteira. A convite de Frederico II, rei da Prússia, transferiu-se para Berlim, de onde voltou em 1753, por causa de desentendimentos com o presidente da Academia de Berlim. Novos atritos e intrigas não lhe permitiram retomar a Paris. Refugiou-se então na Suíça, nos arredores de Genebra. Ali conseguiu atrair as iras de católicos e protestantes, por causa de novas obras publicadas. Sem poder fixar residência em parte alguma, perambulou por várias cidades suíças e francesas, até que, em 1758, adquiriu uma propriedade na região francesa de Gex. onde viveu tranquilo e celebrado por seus concidadãos, pela intelectualidade de toda a Europa e mesmo por seus antigos adversários e críticos. Morreu no dia 30 de março de 1778, aos 84 anos de idade.


PRINCIPAIS OBRAS:

A donzela de Orléans
A morte de César
Brutus
Cândido ou o Otimismo
Cartas Filosóficas
Dicionário Filosófico
Édipo
Ensaio sobre os costumes
Epístola a Urânio
História de Carlos XII
O Filósofo Ignorante
O Homem dos Quarenta Escudos
O Ingénuo
O século de Luís XIV
O templo do gosto
Poema sobre os desastres de Lisboa
Tancredo
Tratado sobre a Tolerância
Zadig ou o Destino
Zaire.


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Fonte:
Zadig ou o Destino, por: Voltaire. Tradução: Antônio Geraldo da Silva. Editora Escala. São Paulo, s/d, págs. 11-12.

Biografia de Voltaire

Voltaire: vida e obra do autor

Poeta, contista, romancista, teatrólogo, historiador, membro da Academia Francesa, Voltaire é o pseudônimo de François-Marie Arouet, nascido em Paris, no dia 21 de novembro de 1694. Foi aluno brilhante do colégio de Clermont, dirigido pelos jesuítas, padres que Voltaire passou a atacar virulentamente pelo resto da vida. Recém-formado, tentou dedicar-se à magistratura. Acusado de ser o autor de um panfleto político em versos, foi preso em 1717 e passou seis meses na famosa Bastilha. Na prisão começou a escrever seus livros. Em 1726, envolvido num incidente com o príncipe de Rohan-Chabot, foi parar outra vez na Bastilha. Libertado sob a condição de deixar a França, exilou-se na Inglaterra, onde viveu até 1729. Durante esse período de exílio, em seus novos escritos nota-se um Voltaire que imprime uma orientação reformadora em seu modo de pensar, na filosofia. Suas Cartas Filosóficas ou Cartas da Inglaterra, publicadas em 1734, provocaram enorme escândalo, e Voltaire teve de refugiar-se num castelo, onde se entregou ao estudo e à elaboração de muitas de suas obras. Em 1749 voltou a Paris, cheio de glória e já conhecido e reconhecido como grande literato e filósofo na Europa inteira. A convite de Frederico II, rei da Prússia, transferiu-se para Berlim, de onde voltou em 1753, por causa de desentendimentos com o presidente da Academia de Berlim. Novos atritos e intrigas não lhe permitiram retomar a Paris. Refugiou-se então na Suíça, nos arredores de Genebra. Ali conseguiu atrair as iras de católicos e protestantes, por causa de novas obras publicadas. Sem poder fixar residência em parte alguma, perambulou por várias cidades suíças e francesas, até que, em 1758, adquiriu uma propriedade na região francesa de Gex. onde viveu tranquilo e celebrado por seus concidadãos, pela intelectualidade de toda a Europa e mesmo por seus antigos adversários e críticos. Morreu no dia 30 de março de 1778, aos 84 anos de idade.


PRINCIPAIS OBRAS:
A donzela de Orléans
A morte de César
Brutus
Cândido ou o Otimismo
Cartas Filosóficas
Dicionário Filosófico
Édipo
Ensaio sobre os costumes
Epístola a Urânio
História de Carlos XII
O Filósofo Ignorante
O Homem dos Quarenta Escudos
O Ingênuo
O século de Luís XIV
O templo do gosto
Poema sobre os desastres de Lisboa
Tancredo
Tratado sobre a Tolerância
Zadig ou o Destino
Zaire.



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Fonte:
Zadig ou o Destino, por: Voltaire. Tradução: Antônio Geraldo da Silva. Editora Escala. São Paulo, s/d, págs. 11-12.

Biografia de Kant

Immanuel Kant: vida e obra do autor

Immanuel Kant nasceu em Königsberg no ano de 1724. Considerado um dos maiores filósofos alemães e mesmo do mundo, jamais abandonou sua cidade natal, cidade universitária, onde estudou e lecionou. Metódico como um relógio, cumpriu o mesmo ritual durante toda a sua vida entre sua casa, na qual refletia e elaborava suas obras, e a cátedra na Universidade. Sofreu forte influência do luteranismo conservador e puritano, marcado pelo misticismo e pelo pessimismo, que era a religião de sua mãe. Na idade adulta, foi influenciado pelo racionalismo, em voga na época, sobretudo nos grandes centros universitários da Europa. Faleceu em 1804.

Em vida, gozou da proteção e do apoio de Frederico u da Prússia, seu grande admirador. O sucessor, Frederico Guilherme II, ficou perplexo com a publicação da obra A religião nos limites da simples razão e obrigou Kant a não mais escrever sobre religião. Aceitou a imposição, mas considerou-a como restrita a esse soberano, porquanto sob Frederico Guilherme III, não deixou de tomar partido no conflito das Faculdades, em 1798, e tratou das relações entre religião natural e religião revelada.

PRINCIPAIS OBRAS:
Dissertação sobre a forma e os princípios do mundo sensível e do mundo inteligível
Crítica da razão pura
Crítica da razão prática
Crítica do juízo
Fundamentos da metafísica dos costumes
Primeiros princípios metafísicos da ciência da natureza
A religião nos limites da simples razão
Metafísica dos costumes
A doutrina da virtude
Ensaio filosófico sobre a paz perpétua.


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Fonte:
A Religião nos Limites da Simples Razão, por: Immanuel Kant. Tradução: Ciro Mioranza. Editora Escala. São Paulo, s/d, pág. 9.