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sábado, 16 de julho de 2016

Semiologia e Linguística

Semiologia e Linguística
Em várias passagens de suas obras, Claude Lévi-Strauss sugere que uma regra elementar, a da proibição do incesto, ao ordenar um "instinto" biológico, efetua uma ruptura entre o universo das coisas naturais — domínio da Natureza —, e o universo das práticas sociais humanas — domínio da Cultura —. Se aceitarmos tal distinção, poderemos isolar duas características da cultura:
(a) pertence ao universo da cultura tudo o que o homem acrescentou à Natureza,  através  do seu trabalho transformador;
(b]  pertence  ao universo  da  cultura  tudo  o que  não  é  hereditário, mas é aprendido pelo homem.
A aprendizagem, a conservação, a transformação e a transmissão da cultura realizam-se através de uma grande variedade de práticas sociais. As práticas sociais organizam-se para expressar a cultura das comunidades humanas assumindo a condição de sistemas de signos para transmitir essa cultura de um indivíduo para outro, de uma geração para a geração seguinte.
A ciência que estuda os sistemas de signos, quaisquer que eles sejam e quaisquer que sejam as suas esferas de utilização, chama-se Semiologia ou Semiótica.
A Semiótica não estuda, como se vê, nenhum tipo de "realidade natural", mas sim a "realidade cultural" de uma comunidade, todas as espécies de sistemas sígnicos que o homem construiu ao longo dos séculos.     O  objeto  da Semiótica  é  estudar  um  "conhecimento"  da realidade fenomênica, tal como ele se espelha nos diferentes sistemas linguísticos   que   re-criam   —   no  sentido   literal,   criam   de   novo   — essa realidade.    Os mitos e os quadros de pintura, o alfabeto Morse e os sistemas de relações de parentesco, os cardápios e as peças musicais, as modas indumentárias e os processos de adivinhação, as instituições, como o Direito e os jogos desportivos, possuem todos uma série de propriedades específicas que os investe de um papel social: são,  todos,  linguagens no sentido mais vasto da palavra.     Essas linguagens   são   capazes   de   expressar,   sob   diferentes   modalidades   de substâncias   significantes,   o   mesmo   significado   básico;   todos   esses sistemas sígnicos  exprimem  aspectos  de  uma  particular  modelização do mundo, uma imago mundi intuída pela sociedade que criou esses sistemas.    É na medida em que estuda tais sistemas que a Semiótica "constitui   a   ciência   das ideologias"   (Rey-Debove,   1971a,   6-7),   no seu  plano   de   conteúdo,  constituindo,   ao   mesmo   tempo,   a   ciência das retóricas, no seu plano de expressão.
Assim como a relação entre o homem e o mundo vem mediatizada pelo pensamento, a relação entre um homem e outro homem, dentro de uma sociedade, vem mediatizada pelos signos. Para que o pensamento transite de uma para outra subjetividade, deve ele formalizar-se em signos. Os signos são, por um lado, suportes exteriores e materiais da comunicação entre as pessoas e, por outro lado, são o meio pelo qual se exprime a relação entre o homem e o mundo que o cerca. A organização social dessas mediações atribui às linguagens a função de sistemas modelizantes.
Com relação ao caráter ideológico dos sistemas sígnicos em geral e das línguas naturais (português, francês, italiano, etc.) em particular, ressaltemos, com Ivanov (1969.41 s.s.) que a sociedade é a fonte produtora das ideologias. Internalizada como mecanismo de primeira sociabilização no psiquismo de cada indivíduo na fase da sua aprendizagem, a língua natural carrega consigo os valores da sociedade de que esse indivíduo c membro; assim, ao aprender a língua do seu grupo, cada indivíduo assimila também a sua ideologia (= sistema de valores grupalmente compartilhados).
Desse modo, o comportamento dos indivíduos sociais é duplamente "programado" (no sentido cibernético):
(a)  por um código genético, herdado  de  seus antepassados;
(b)   por um código linguístico-ideológico, aprendido do seu grupo.
É assim que a língua falada por cada um de nós equivale, também, a um instrumento a serviço do controle comportamental que cada grupo social exerce sobre a atuação de cada um de seus membros. Este é um dos sentidos mais importantes das palavras modelização e sistemas modelizantes, aplicadas aos códigos simbólicos.
É claro que os falantes dessas linguagens não têm consciência da complexa interação de fatores psicossociais envolvidos no mais simples processo de comunicação. E esta é, talvez, a mais importante tarefa dos estudos semióticos: fazer-nos tomar consciência da condição mental (e cultural) da existência humana. (Cf. Weis-gerber, apud Hörmann, 1972.47)
A Linguística, que faz parte da Semiótica, estuda a principal modalidade dos sistemas sígnicos, a das línguas naturais.


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Fonte:
Fundamentos da Linguística Contemporânea, por: Edward Lopes. Editora Culturix. São Paulo, 1995, 15-17.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Leitura ao jeito de cada leitor

Leitura ao jeito de cada leitor
E o pulo do gato? Como disse, esse não se ensina mesmo. Mortimer Adler e C. Van Doren, apesar de terem escrito um tratado sobre a arte de ler, advertem que "as regras para adormecer lendo são mais fáceis de seguir do que as regras para ficar acordado enquanto se lê... conseguir ficar acordado, ou não, depende em grande parte da meta visada na leitura".
A esta altura espero tenha deixado claro que. para compreendê-la e para a leitura se efetivar, deve preencher uma lacuna em nossa vida, precisa vir ao encontro de uma necessidade, de um c de expansão sensorial, emocional ou racional, de uma vontade de conhecer mais. Esses são seus pré-requisitos. A eles se acrescentam os estímulo e os percalços do mundo exterior, suas exigências e recompensas. E, se pensarmos especialmente na leitura a nível racional, há que considerar o esforço para realizá-la. O homem é um ser pensante por natureza, mas sua capacidade de raciocínio precisa de tanto treinamento quanto necessita seu físico para, por exemplo, tornar-se um atleta. Nada, enfim, é gratuito; sequer o prazer. Este, aliás, nasce de um anseio de realização plena, portanto pressupõe uma meta e um empenho para atingi-la.
O treinamento para a leitura efetiva implica aprendermos e desenvolvermos determinadas técnicas. Dos manuais didáticos aos estudos aprofundados sobre o ato de ler, todos oferecem orientações ora menos ora mais objetivas e eficientes. Todavia, cada leitor tem que descobrir, criar uma técnica própria para aprimorar seu desempenho. Auxiliam-no, entre os fatores imediatos e externos, desde o ambiente e o tempo disponível até o material de apoio: lápis, papel em branco, bombons, almofadas, escrivaninha ou poltrona, alto-falantes, fones — aí entra toda a parafernália de objetos que se fazem necessários ou que fazem parte do mise-en-scène de cada leitor.
Se isso tudo pode influenciar criando uma atmosfera propícia, sabidamente e com raras exceções é dispensável. Fundamental mesmo é a continuidade da leitura, o interesse em realizá-la. Quantos leitores já deixaram passar a sua parada porque, no ônibus superlotado, barulhento sacolejante, estavam totalmente imersos no seu radinho de pilha, na fotonovela, no romance; num artigo científico ou numa fotografia; na rememoração de um filme, de uma peca teatral, de uma conversa?
Há quem só consiga ler um livro de ensaios, por exemplo, sentado quieto em seu canto, tomando notas, assinalando passagens do texto; outros o fazem deitados ou mesmo de pé em meio à maior balbúrdia. Há os que se sentem "no cinema" apenas quando acomodados numa das dez primeiras fileiras da sala de exibição, outros vão para a última. Muitos "curtem o som" de modo a tudo ao redor estremecer com o volume do alto-falante, enquanto outros só conseguem apreciar música J em surdina. Enfim, cada um precisa buscar o " seu jeito de ler e aprimorá-lo para a leitura se tornar cada vez mais gratificante.
A releitura traz muitos benefícios, oferece subsídios consideráveis, principalmente a nível racional. Pode apontar novas direções de modo a esclarecer dúvidas, evidenciar aspectos antes despercebidos ou subestimados, apurar a consciência crítica acerca do texto, propiciar nonos elementos de comparação.
Uma das razões pelas quais às vezes nos sentimos desanimados diante de um texto considerado "difícil" está no fato de supormos ser em tocar de deficiência nossa, de incapacidade para compreendê-lo. Isso em geral é um equívoco. Por que desistirmos de uma leitura racional se temos interesse e necessidade de realizá-la? Tampouco adianta ficar relendo mecanicamente; o contrário, é pior. Para diminuir a tensão, amenizar as dificuldades, importa muito não considerar o texto como uma ameaça ou algo inatingível. Melhor relaxar, não se preocupar em decifrá-lo descobrir o sentido, mas cercá-lo ao modo da gente, pelo ângulo que mais atraia, mesmo parecendo algo secundário do texto.
Tratando-se de um livro, retomá-lo folheando ao acaso e lendo uma ou outra passagem, sem sentirmos obrigados a entendê-la, mas procurando apreciá-la, estabelecendo relações com outras passagens lidas, com leituras já realizadas, quaisquer que tenham sido os meios de expressão dos textos ou os níveis privilegiados. Às vezes o som das palavras de um poema vem-nos indicar o caminho para começar a pensá-lo; a descrição de uma cena, de uma paisagem, de um acontecimento talvez remeta a uma experiência vivida e facilite a compreensão do texto; um assunto desconhecido pode, num determinado momento, trazer referências a algo já lido e, por ai, começamos a entendê-lo.
Enfim, é fundamental não ter preconceito, nem receio de carrear para a leitura quaisquer vivências anteriores; procurar questionar o texto — quem sabe ele apresente falhas, seja confuso, inconsequente e não há por que simplesmente aceitá-lo.
Daí a importância de discutir a seu respeito, de buscar esclarecimentos com outros leitores ou em outros textos.
A leitura, mais cedo ou mais tarde, sempre acontece, desde que se queira realmente ler, Acima de tudo, precisamos ter presente que se não conseguimos, de vez, dar o pulo do gato — bem, que se continue andando ainda um pouco, pois não é pecado caminhar.


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Fonte:
O que é Leitura (Coleção Primeiros Passos), por: Maria Helena Martins. Editora Brasiliense, 11ª Edição. São Paulo, 1989, págs. 82-87.

domingo, 10 de julho de 2016

O cronista deve prestar atenção ao banal

O cronista deve prestar atenção ao banal
A crônica de Lourenço Diaféria, tomando por base o cenário paulista, segue outra vertente do humorismo: a precedência do fato sobre os personagens que o vivem. Jornalisticamente, o narrador confere mais importância ao acontecimento em si, porque é a partir dele que depreenderemos o lado risível de cenas que se repetem no dia-a-dia, embora vividas por atores diferentes. É bom lembrar que Stanislaw Ponte Preta assume outra estratégia, representando outra vertente, pois ele é o grande construtor de tipos que representam a índole do povo brasileiro, mostrando ao leitor que os fatos que aqui acontecem são o produto de um caráter diversificado, mas sem o necessário equilíbrio. O caos urbano e visto por Sérgio Porto como consequência de um país formado por moçoilas ávidas de prazer e fama, rapazinhos ingênuos, políticos incultos e altamente corruptíveis, enfim, toda uma galeria de seres sem o conteúdo humano capaz de unificar nosso caráter, tornando-nos mais fortes, mais representativos de uma nação habilitada a governar o seu destino. Um enfoque mais pessimista, sem dúvida, na medida em que o realismo do cronista Ponte Preta revela o quanto é difícil mudar o rumo das coisas onde prevalece uma mentalidade amarrada a insólitos padrões.
Lourenço Diaféria se mostra mais otimista: consciente de que sua função é prestar atenção ao banal, ele deixa de lado os tipos (mais duradouros e, portanto, índices de uma situação difícil de ser mudada) e focaliza os acontecimentos (mais efêmeros e, assim, com possibilidades de não acontecer de novo). Esses acontecimentos são narrados em textos organizados de forma que não haja lacunas impedindo o leitor de visualizar a totalidade cênica. Repórter com pleno domínio da reportagem, ele vai juntando os retalhos da informação, costurando-os com a linha invisível que torna o relato verossímil, uma vez que é estruturado de acordo com as leis da coerência interna do texto, onde as peças são ajustadas como se fizessem parte de um quebra-cabeça montado pelo cronista. B claro que as peças não são reunidas ao acaso, pois o escritor procura sempre explorar a polissemia das palavras e o silêncio do discurso.
Essa predominância do fato sobre os personagens pode ser vista nas cinco crônicas que têm por título "Os gatos pardos da noite", formando o núcleo do livro Um gato na terra do tamborim. Já na apresentação — que Diaféria ironicamente chama de "Curriculurn mortis do autor" — ele afirma que vai "tentar decifrar as besteiras que todos os dias se cometem por aí", atingindo "os desvalidos, os chutados, os amofinados, que se equilibram nos muros da vida, os operários com e sem marmita, e as meninas enfurnadas em salas escuras sobre infinitas costuras — que não têm tempo, nem saco, nem dinheiro para fazer masturbação mental em frente de um copo de uísque".


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Fonte:
A Crônica, por: Jorge de Sá. Editora Ática, 4ª Edição. São Paulo, 1992, págs. 38-39.

O texto original redefinido

O texto original redefinido
Até aqui, nossa rápida incursão pelo conto de Borges tentou questionar a visão tradicional de texto, sugerida pelas teorias da tradução esboçadas no início deste capítulo. Como sugere nossa leitura de "Pierre Menard, autor dei Quijote", traduzir não pode ser meramente o trans-porle, ou a transferência, de significados estáveis de uma língua para outra, porque o próprio significado de uma palavra, ou de um texto, na língua de partida, somente poderá ser determinado, provisoriamente, através de uma leitura. Assim, se voltarmos às nossas questões iniciais, referentes ao próprio título deste livro, parece ficar mais claro que, ao traduzirmos translation workshop por "oficina de tradução", o que acontece não é uma transferência total de significado, porque o próprio significado do "original" não é fixo ou estável e depende do contexto em que ocorre. Assim, antes de traduzir translation workshop por "oficina de tradução", estabeleceu-se o contexto em que havia originalmente ocorrido: título de um curso especial e avançado, oferecido por uma universidade americana. Ao mesmo tempo, a tradução que sugeri, "oficina de tradução", como o Quixote de Menard em relação ao Quixote de Cervantes, passa a existir num outro contexto e ganha vida própria, a partir do momento em que se transforma no título de um livro publicado no Brasil.
O texto, como o signo, deixa de ser a representação "fiel" de um objeto estável que possa existir fora do labirinto infinito da linguagem e passa a ser uma máquina de significados em potencial. A imagem exemplar do texto "original" deixa de ser, portanto, a de uma sequência de vagões que contêm uma carga determinável e totalmente resgatável. Ao invés de considerarmos o texto, ou o signo, como um receptáculo em que algum "conteúdo" possa ser depositado e mantido sob controle, proponho que sua imagem exemplar passe a ser a de um palimpsesto. Segundo os dicionários, o substantivo masculino palimpsesto, do grego palímpsestos ("raspado novamente"), refere-se ao "antigo material de escrita, principalmente o pergaminho, usado, em razão de sua escassez ou alto preço, duas ou três vezes [...] mediante raspagem do texto anterior".
Metaforicamente, em nossa "oficina", o "palimpsesto" passa a ser o texto que se apaga, em cada comunidade cultural e em cada época, para dar lugar a outra escritura (ou interpretação, ou leitura, ou tradução) do "mesmo" texto. Assim, como nos ilustrou o conto de Borges, o texto de Dom Quixote não pode ser um conjunto de significados estáveis e imóveis, para sempre "depositados" nas palavras de Miguel de Cervantes. O que temos, o que é possível ter, são suas muitas leituras, suas muitas interpretações — seus muitos "palimpsestos".
A tradução, como a leitura, deixa de ser, portanto, uma atividade que protege os significados "originais" de um autor, e assume sua condição de produtora de significados; mesmo porque protegê-los seria impossível, como tão bem (e tão contrariadamente) nos demonstrou o borgiano Pierre Menard.


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Fonte:
Oficina de Tradução, por: Rosemary Arrojo. Editora Ática, 2ª Edição. São Paulo, 1992, págs. 22-24.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

O latim medieval, língua escrita

O latim medieval, língua escrita
A Idade Média apresenta os mesmos caracteres da Idade Latina, mas com os sinais trocados. A primeira grande oposição, que é a central, se encontra na antinomia paganismo x cristianismo. O mundo pagão tem como fulcro o corpo; mas o povo cristão está inteiramente voltado para a alma. Em vez do culto do corpo, a cultura do espírito. O corpo tem de crescer, alimentar-se, busca aumentar o seu espaço físico. Politicamente, o Estado se faz poderoso, alarga-se em império, torna-se cada vez mais imperialista. Mas a Idade Média não é imperial, é universal: o espírito humano é o mesmo em todas as latitudes. O Papa não é imperador, é pai, e a sua Paternidade lhe advém da qualidade de vigário de Cristo. No Ocidente, a ideia imperial não frutificou. Foram empresas fracassadas tanto o Império de Carlos Magno, quanto o Sacro Império Alemão. Não se faziam guerras de conquista, lutava-se pelo espírito. Ora era preciso libertar o Santo Sepulcro da guarda dos infiéis, ora era preciso combater em outras frentes contra os turcos ou os sarracenos. A Guerra dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra, elevou aos altares, com as labaredas da Inquisição, humilde camponesa de Domrémy. As guerras "leigas", por assim dizer, não tinham caráter imperialista; resultavam de intrigas da Corte, a que se mesclava quase sempre a luta pela sucessão de um trono. Ao contrário do que se dava no Império Romano, a "expansão" não representava nenhuma palavra de ordem, o romano gostava da arena, do anfiteatro, do campo de batalha, da ruidosa agitação da Urbs. O homem medieval, ao contrário, escondia-se, metia-se nas florestas, Fechava-se nos castelos, quando leigos, recolhiam-se aos mosteiros, quando clérigos. Nesse espaço místico, de cânticos e orações, não havia lugar para a sensualidade da palavra. A oralidade, como expressão estética, apesar dos notabilíssimos estudos de Paul Zumthor, não estava no coração do homem medieval. A palavra era órgão, instrumento, meio de comunicação e de expressão do pensamento, a ele servia, a, ele não se sobrepunha: ancilla intellectus. Não havia oradores e sim professores, não se construíam teatros e sim universidades, não se conduzia o povo para as brutalidades da arena e sim para o recolhimento nas catedrais ou para a meditação nos conventos. A palavra não se ataviava na boca de pregadores, mais afeitos a rezar com os fiéis. Refugiava-se no texto, na escrita, no manuscrito, O manuscrito é a casa da palavra medieval. Por isso tinha a sua morada bem defendida, nas bibliotecas conventuais. Umberto Eco captou muito bem, em seu O nome da rosa, esse sentido esotérico do manuscrito medieval. Aqueles que ultrapassavam as fronteiras do espírito de clausura medieval e se punham nas ruas a cantar e declamar o que era para ser lido com discrição e sensibilidade tornavam-se objeto de repulsa e de anátemas. Foi o que se deu com os turbulentos goliardos, dos quais disse Ricardo Árias y Árias
En segundo lugar, tenemos abundantes datos para afirmar Ia existencia de clérigos y estudiantes errabundos que vivían ai marcjnn y luom de toda disciplina, burlando leyes eclesiásticas y civiles, y contra los quales obispos y concilios promulgaron continuosdecretoss sin aparentes resultados. (1970, p. 8.)
A língua latina medieval é a língua sábia dos doutores, a língua das Universidades, língua universal. "Lês mêmes écrits se lisaient partout", salientou Meillet. Sem dúvida, ao lado dessa língua culta, vicejavam os romanços populares. Contudo, embora tivesse optado pelo volgare illustre, Dante Alighieri ainda escreveu um poema teológico.
As coisas profanas ficavam melhor no vozear românico, na fala quotidiana do povo, mais neolatina que latina. Nela é que se exteriorizam os trovadores, para cantar os seus amores, falsos ou verdadeiros, ou para satirizar desafetos ou acontecimentos. Essa literatura não é pagã, mas não tem raízes cristãs; nela colaboram também, e com muito valor, judeus e árabes. E já se vai deslocando dos céus medievais para os raios solares do Renascimento. Da clausura para a abertura.


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Fonte:
A Língua Portuguesa no Mundo, por: Sílvio Elia. Editora Ática. São Paulo, 1989, págs. 59-61.

Discurso, enunciação e contexto sócio-histórico

Discurso, enunciação e contexto sócio-histórico
A teoria semiótica examina a enunciação enquanto instância pressuposta pelo discurso, em que deixa marcas ou pistas que permitem recuperá-la. Chega-se ao sujei-lo pelo caminho do discurso, reconstrói-se a enunciação por meio da análise interna do texto: certos procedimentos do texto marcam, nos diferentes patamares do percurso gerativo, a relação entre o discurso c a enunciação pressuposta. Podem-se citar, entre outros, a determinação axiológica, no nível das estruturas fundamentais, o conflito ideológico instalado na narrativa entre os destinadores do sujeito, os valores que o sujeito assume e suas paixões.
Mas é sobretudo no nível das estruturas discursivas que a enunciação mais se revela, nas projeções da sintaxe do discurso, nos procedimentos de argumentação e na escolha dos temas e figuras, sustentadas por formações ideológicas.
A análise interna do texto apreende esses aspectos e mostra que as escolhas feitas e os efeitos de sentido obtidos não são obra do acaso, mas decorrem da direção imprimida ao texto pela enunciação. Ressalta-se o caráter manipulador do discurso, revela-se sim inserção ideológica e afasta-se qualquer ideia de neutralidade ou de imparcialidade do texto.
O exame interno do texto não é suficiente, no entanto, para determinar os valores que o discurso veicula. Para tanto, é preciso inserir o texto no contexto de uma ou mais formações ideológicas que lhe atribuem, no fim das contas, o sentido.
Pode-se caminhar nessa direção e executar a análise contextual, desde que o contexto seja entendido e examinado como uma organização de textos que dialogam com o texto em questão. Assim concebido, o contexto não se confunde com o "mundo das coisas", mas se explica como um texto maior, no interior de que cada texto se integra e cobra sentido.
Reconstrói-se a enunciação, por conseguinte, de duas perspectivas distintas e complementares: de dentro para fora, a partir da análise interna das muitas pistas espalhadas no texto; de fora para dentro, por meio das relações contextuais — intertextuais do texto cm exame. A enunciação assume claramente, na segunda perspectiva, o papel de instância mediadora entre o discurso e o contexto sócio-histórico.
São muitas as dificuldades de delimitação do contexto a ser considerado em cada análise textual, mas é possível resolvê-las, em grande parte, e definir, pelo exame da intertextualidade, a enunciação e o texto que ela produz.
A semiótica, como se afirmou desde o início, procura hoje determinar o que o texto diz, como o diz e para que o faz. Em outras palavras, analisa os textos da história, da literatura, os discursos pó líticos e religiosos, os filmes e as operetas, os quadrinhos e as conversas de todos os dias, para construir-lhes os sentidos pelo exame apurado de seus procedimentos e recuperar, no jogo da intertextualidade, a trama ou o enredo da sociedade e da história. Se os estudos do texto buscam, em geral, os objetivos comuns de conhecimento do texto e do homem, a semiótica pode, quem sabe, somar a outros os passos que tem dado nessa direção.


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Fonte:
Teoria Semiótica do Texto, por: Diana Luiz Pessoa de Barros. Editora Ática, 2ª Edição. São Paulo, 1994, págs. 82-83.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O texto Jornalístico

O texto Jornalístico
Ouve-se dizer, de várias maneiras, que a palavra está morrendo. Há perto de 20 anos, esta versão da realidade foi tão difundida que as autoridades educacionais brasileiras, sempre atentas às teorias que surgem no meio acadêmico, correram a mudar o nome dos cursos de Português para Expressão Oral e Escrita, por temor de que os jovens se estivessem condenando, não apenas ao analfabetismo, mas ao silêncio eterno.
A morte do idioma nos meios audiovisuais é pura fantasia. Não só eles falam como neles se escreve: um programa de televisão, antes de ir ao ar, passa, numa produção competente, por diversas versões em sinopses, roteiros e scripts. Todos os componentes — cenários, enquadramentos de câmara, deslocamentos de equipe, temas e estratégia das entrevistas, cabeças de repórteres — são textos que se transformam em produto.
Se na organização produtora nunca se escreveu e leu tanto, também não há indicações de recessão na indústria de textos para consumo público. As editoras de livros se multiplicam e, se os jornais vendem proporcionalmente menos em parte do mundo, isto se deve a táticas editoriais que não correspondem à demanda de conceitos: a civilização da imagem coloca a população diante da necessidade de conceituar o que é exposto, porque digitalizar a informação analógica recebida é próprio da inteligência humana.
A produção de textos pressupõe restrições do código linguístico. A redução do número de itens léxicos (palavras, expressões) e de regras operacionais postas em jogo não apenas facilita o trabalho, mas também permite o controle de qualidade. A literatura não escapa de tais restrições, ora dispondo sobre métrica e rimas de um soneto, ora impedindo que poesia moderna tenha as mesmas métrica e rimas. É desta maneira que se definem os gêneros, dentro dos quais se fixam padrões de aceitabilidade e excelência para romances, odes ou martelos agalopados.
O jornalismo não é, porém, um gênero literário a mais. Enquanto, na literatura, a forma é compreendida como portadora, em si, de informação estética, em jornalismo a ênfase desloca-se para os conteúdos, para o que é informado. O jornalismo se propõe processar informação em escala industrial e para consumo imediato. As variáveis formais devem ser reduzidas, portanto, mais radicalmente do que na literatura.
Isto pode ser conseguido de várias maneiras. Requerimentos e cartas comerciais são exemplos de textos que suprimiram variações significativas através de fórmulas congeladas que, com o tempo, chegam a se diferenciar da língua corrente, como rituais em cujo sentido ninguém presta atenção. Para impedir que isso ocorra com o texto jornalístico, ele precisa ser submetido constantemente à crítica, que remove o entulho e repõe vida nas palavras. Uma atividade crítica que, se aplicada nos cartórios, substituiria "Venho, pelo presente, solicitar a V. S.a..." por "Peco-lhe"; e consideraria insensato escrever "Nestes termos, peço deferimento", por absoluta impossibilidade de alguém não querer o deferimento do que requer, ou pretender o deferimento em outros termos que não os seus.
O texto jornalístico procura conter informação conceituai, o que significa suprimir usos linguísticos pobres de valores referenciais, como as frases feitas da linguagem cartorária. Sua descrição não se pode limitar ao fornecimento de fórmulas rígidas, porque elas não dão conta da variedade de situações encontradas no mundo objetivo e tendem a envelhecer rapidamente. A questão teórica consiste em estabelecer princípios (a) tão gerais que permitam a constante atualização da linguagem e (b) relacionados com os objetivos, o modo e as condições de produção do texto.


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Fonte:
Linguagem Jornalística, por: Nilson Lage. Editora Ática, 4ª Edição. São Paulo, 1993, págs. 34-36.

O que é tradução

O que é tradução
Os dicionários costumam definir tradução como "ato ou efeito de traduzir". Enquanto ato, leva o tempo que o tradutor emprega no seu trabalho; como efeito, é o que resulta desse trabalho.
E o que é "traduzir"?
O verbo "traduzir" vem do verbo latino traducere, que significa "conduzir ou fazer passar de um lado para o outro", algo como "atravessar".
Quando, num livro sobre a Guerra das Gálias, o autor escreve que Caesar omnem equitatum pon-tem traduxit, o que ele quer dizer é que o imperador conduziu ou fez passar pela ponte toda a sua cavalaria.
E traduzir nada mais é que isto: fazer passar, de uma língua para outra, um texto escrito na primeira delas. Quando o texto é oral, falado, diz-se que há "interpretação", e quem a realiza então é um "intérprete".
A língua em que um texto a traduzir é originalmente escrito pode ter os nomes de língua-fonte ou língua de origem  ou  língua de partida (em inglês source language, em alemão Ausgangsprach, em espanhol lengua de origen, em francês langue de départ). A língua para a qual se faz passar um texto originalmente escrito em outra pode chamar-se língua-meta ou língua-alvo ou língua-termo ou língua de chegada (em inglês target language, em alemão Zielsprach, em espanhol lengua término, em francês langue d'arrivée).
Cada língua funciona como um código. O conjunto dos signos de uma língua constitui o seu léxico, o seu vocabulário. O conjunto de regras que regem as combinações dos signos de uma língua constitui a sua sintaxe; os modos pelos quais podem criar-se novos signos de uma língua constitui a sua morfologia. A sintaxe e a morfologia de uma língua compõem a sua gramática.
A tradução, enquanto passagem de um texto de uma língua para outra, tem a ver ora com o léxico, ora com a sintaxe, ora com a morfologia, da língua da qual se traduz, língua-fonte, e da língua para a qual se traduz, língua-meta.
Voltando ao verbo traduzir, o que o tradutor faz é apenas isto: levar o leitor de uma língua para o lado da língua do autor estrangeiro, ou, inversamente, trazer o autor de uma língua estrangeira para o lado da língua do leitor.
Cada um desses caminhos requer procedimentos especiais, decorrentes de uma atitude preliminar do tradutor: são dois caminhos que não se podem misturar, pois toda e qualquer mistura ou confluência há de levar a encruzilhadas onde o que se espalha é a farofa amarela das maiores confusões.
Confusão, por sinal, é o que parece não faltar quando se trata de tradução. Pode-se mesmo dizer que, biblicamente ao menos, a tradução nasceu de uma confusão. Todo mundo conhece a história bíblica da Torre de Babel, uma torre que alguns homens queriam construir altíssima com a pretensão de por ela chegarem ao céu; mas o Senhor dos Exércitos não aprovou o projeto daqueles pretensiosos e resolveu atrapalhar a comunicação na Torre: fez que se confundissem as línguas, um sem compreender o que outro queria dizer, e a incrível construção ficou por terminar, a meio caminho do seu tão almejado objetivo.
A Antiguidade desse mito bíblico, que se lê no Antigo Testamento, pode dar uma ideia de como é velha neste mundo a prática da tradução; pois é de imaginar-se que em pouco tempo começasse a haver na Torre de Babel pessoas com certa capacidade de entenderem mais de uma língua ao mesmo tempo, e que essas pessoas entrassem a atuar como elos de comunicação entre as que tinham línguas diferentes, como intérpretes e tradutoras portanto. E desde aí, desde os seus, primórdios, a tradução teve sempre quem se pronunciasse a favor dela ou contra ela.


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Fonte:
O que é Tradução, por: Geir Campos. Editora Brasiliense, 2ª Edição. São Paulo, 1987, págs. 7-10.

domingo, 3 de julho de 2016

Inglês: As palavras - Words

As palavras - Words
Para construir um muro, precisam-se de tijolos e cimento. Para fazer uma palavra precisam-se de vogais e consoantes. As consoantes são os tijolos e as vogais são cimento. Em cada palavra' deve haver ao menos uma vogal.
Uma palavra e um grupo de letras que tem sentido. Boy (rapaz). Play (jogo) são as palavras. Elas tem sentido.
Uma sílaba e uma parte de uma palavra que tem um som, mas pode ou não ter sentido.
Há dois tipos de letras: Maiúsculas (Capital) ABC (Veja acima).
Letras Minúsculas: (small, letters) abcdefghijklmnopqrstuvwxyz.
Há 08 espécies de palavras. Cada uma tem uma tarefa diferente a desempenhar. Elas são:
1 - Substantivo (Noun) - O nome da pessoa, lugar, ou coisa.
2 -  Adjetivo (Adjective) - Qualifica o nome.
3 - Verbo (Verb) - Diz alguma coisa em relação ao nome, ou coloca questões.
4 - Pronome (Pronoun) - É usado em lugar do nome.
5 - Advérbio (Adverb) - Modifica um verbo; adjetivo ou outro advérbio.
6 - Preposição (Preposition) - Mostra a relação entre um nome ou pronome' e alguma outra coisa.
7 - Conjunção (Conjunction) - É uma palavra que une duas palavras ou duas frases.
Interjeição (Interjection) - É um grito ou um clamor para expressar alguma emoção súbita: dor, raiva, prazer, tristeza.
Há mais uma espécie de palavra. O Artigo (The Article).
Há duas espécies de Artigos:
a) - Definido (Definite = THE) - Aponta alguma pessoa ou coisa particular. Antigamente foi um adjetivo.
(b) - Indefinido (Indefinite = "A" e "AN") -  Eles significam qualquer um entre um número de pessoas ou coisas. Elas são formas curtas do numeral Um, Uma (one). A é usado antes de consoantes. AN é usado antes de vogais!

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Fonte:
Uma simples Gramática Inglesa para brasileiros, por: Clifford Noronha. Editora Vozes, 2ª Edição. São Paulo, 1980, págs. 2-3.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Linguagem
Em sentido amplo, pode-se entender por linguagem qualquer processo de comunicação:
a) A mímica, usada pelos surdos-mudos e pelos estrangeiros que não sabem a língua de um país.
b) O semáforo, sistema de sinais com que se dão avisos aos navios e aviões que se aproximam das costas ou dos aeroportos.
c) A transmissão de mensagens por meio de bandeiras ou espelhos ao sol, empregado por marujos, escoteiros, etc.
Para a linguística, porém, só apresenta interesse aquele tipo de linguagem que se exterioriza pela palavra humana, fruto de uma atividade mental superior e criadora.
Há dois tipos de expressão linguística: a falada e a escrita.
Na comunicação escrita, os sons da fala (que, em essência, constituem a linguagem dos homens) passam a ser apenas evocados mentalmente por meio de símbolos gráficos; a rigor, ela não se apresenta senão como um imperfeito sucedâneo da fala. Esta é que abrange "a revelação do eu em sua totalidade, pressupondo, além da significação dos vocábulos e das frases, o timbre da voz, a entoação, os elementos subsidiários do gesto e ao jogo fisionômico.
Por isso, para bem se compreender a natureza e o funcionamento da linguagem, é preciso partir da fala para se examinar em seguida a escrita, a qual se entenderá, assim, como uma espécie de linguagem mutilada, cuja eficácia estará na dependência da maior ou menor habilidade com que conseguirmos obviar à falta inevitável dos elementos expressivos auxiliares.

Língua e Estilo
A Língua é um sistema: um conjunto organizado e opositivo de relações, adotado por determinada sociedade para permitir o exercício da linguagem entre os homens.
Fato social por excelência, é aquele acervo de sons, estruturas vocabulares e processos sintáticos que a sociedade põe à disposição dos membros de uma comunidade linguística.
Do equilíbrio de duas tendências resulta sua estabilidade pelos tempos fora: de um lado, a diferenciação, força natural, espontânea, desagregadora; de outro, a unificação, força coercitiva, disciplinante, conservadora.
Ao assenhorear-se dos recursos da língua, cada indivíduo, culto ou ignorante, a executa à sua maneira, de acordo com a sua feição, com o seu temperamento: um é aparatoso, verbalista, ama a riqueza das imagens, a veemência das antíteses, a audácia dos adjetivos extravagantes; outro é sóbrio, cheio de delicadeza e pudor, prefere o desataviado da expressão direta, a singeleza de um vocabulário comum.
A contribuição pessoal do indivíduo, manifestada na seleção, por ele feita, dos recursos que a língua subministra, é o que se chama, em sentido lato — ESTILO, que Sêneca já havia definido como "o espelho da alma".
Sem embargo de se prestar à floração de mil estilos individuais, a língua não se desfigura: seu sistema permanece uno e íntegro. É a variedade na unidade — a preservação histórica do seu gênio, da sua índole, à qual se hão de adaptar todas as particularizações.

Língua-comum e suas diferenciações
A este instrumento de comunicação geral, aceito por todos os componentes de uma coletividade para assegurar a compreensão da fala, denomina-se LÍNGUA-COMUM, ou coiné.
Mas, dentro da ampla coesão da língua, cabem vários aspectos, que se influem mutuamente, determinados não só pela situação cultural, ou psicológica, dos que usam dela, senão também pela ação de fatores geográficos, ou sociais.

Dialeto e língua especial
Os aspectos regionais de uma língua, que apresentam entre si coincidência de traços linguísticos fundamentais, constituem os DIALETOS.
Paralelamente a eles, sublinhem-se os aspectos grupais, nascidos por imposição da solidariedade que congrega os indivíduos da mesma esfera social, enlaçados por interesses comuns, ou pelas exigências da mesma profissão; eis as LÍNGUAS ESPECIAIS.
Aqui, é necessário distinguir três modalidades: calão, gíria e língua profissional.

Calão, gíria e língua profissional
CALÃO é a língua especial das classes que vivem à margem da sociedade, de caráter acentuadamente esotérico, artificialmente 'fabricada ' — diz Dauzat — para se poderem compreender entre si os indivíduos de certo grupo, sem serem entendidos pelos não-iniciados.
Inspirada na dissimulação dos malfeitores, cria um conjunto de convenções que a estremam da língua-comum a que pertence, posto que nesta se desenvolva e emaranhe.
Estão neste caso o argot dos franceses; a germanía dos espanhóis; o furbesco dos italianos; o cant dos ingleses; o slang dos americanos; o Rotwelsch dos alemães; o dieventael dos holandeses; o afinskoe dos russos, etc.
Para o linguista, pois, calão é a língua especial dos delinquentes portugueses e brasileiros. Como a fala das mais baixas camadas sociais, por exprimir a vida desses grupos, é naturalmente disfêmica, a palavra adquiriu a acepção vulgar de uso de termos chulos, gravosos, pouco limpos.
GÍRIA é a língua especial de uma profissão ou oficio, de um grupo socialmente organizado, quando implica, por sua vez, educação idiomática deficiente.
A gíria atinge a fraseologia e, especialmente, o vocabulário, já pela criação de palavras, já por se atribuírem novos valores semânticos às existentes. Frequentemente, a serviço da expressividade, ela se insinua na linguagem familiar de todas as camadas sociais.
As gírias dos grupos sociais de cultura elevada dá-se o nome de LÍNGUAS PROFISSIONAIS ou TÉCNICAS. Em diferentes graus, têm sua linguagem mais ou menos especializada os médicos, os engenheiros, os filósofos, os diplomatas, os economistas, etc.

Gramática Normativa: seu conceito e divisões
E uma disciplina, didática por excelência, que tem por finalidade codificar o 'uso idiomático', dele induzindo, por classificação e sistematização, as normas que, em determinada época, representam o ideal da expressão correia.
"Sou formas correctas de decir aquellas aceptadas y usadas por los grupos más cultos de Ia sociedad. Corrección quiere decir aqui prestigio social de cultura."
Fundamentam-se as regras da gramática normativa nas obras dos grandes escritores, em cuja linguagem as classes ilustradas põem o seu ideal de perfeição, porque nela é que se espelha o que o uso idiomático estabilizou e consagrou.
Refiro-me, decerto, àqueles escritores de linguagem corrente, estilizada dentro dos padrões da norma culta. Excetuam-se, pois, os regionalistas acentuadamente típicos, assim como os experimentalistas de todos os matizes —, por admiráveis que possam ser uns e outros. Estes últimos apreciam-se no âmbito da estética literária, mas não se prestam a abonar fatos da língua-comum.
Quanto a Ortografia, está fixada pelo Pequeno vocabulário ortográfico da língua portuguesa, publicado, em 1943, pela Academia Brasileira de Letras, com as alterações que lhe introduziu, no capítulo da acentuação gráfica, a lei n.° 5.765, de 20-12-1971. Em 1981, a Academia Brasileira de Letras publicou a 2ª edição dessa obra, com o título de Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, no qual se amplia consideravelmente o universo vocabular do idioma e se retificam lapsos da obra anterior, já aliás, apontados, na maioria, pelo acadêmico Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Compreende a gramática três partes: fonética e fonologia; morfologia; e sintaxe.
FONÉTICA e FONOLOGIA: estudo dos fonemas e sua combinação, e dos caracteres prosódicos da fala, como o acento e a entoação.
MORFOLOGIA: estudo das formas, sua estrutura e classificação. SINTAXE: estudo da construção da frase.


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Fonte:
Gramática Normativa da Língua Portuguesa, por: Rocha Lima. José Olympio Editora, 35ª Edição. Rio de Janeiro, 1998, págs. 4-8.

sábado, 18 de junho de 2016

Língua: conceitos básicos

Língua: conceitos básicos
Na origem de toda a atividade comunicativa do ser humano está a linguagem, que é a capacidade de se comunicar por meio de uma língua. Língua é um sistema de signos convencionais usados pelos membros de uma mesma comunidade. Em outras palavras: um grupo social convenciona e utiliza um conjunto organizado de elementos representativos.
Um signo linguístico é um elemento representativo que apresenta dois aspectos: um significante e um significado, unidos num todo indissolúvel. Ao ouvir a palavra árvore, você reconhece os sons que a formam. Esses sons se identificam com a lembrança deles que está presente em sua memória. Essa lembrança constitui uma verdadeira imagem sonora, armazenada em seu cérebro - é o significante do signo árvore. Ao ouvir essa palavra, você logo pensa num "vegetal lenhoso cujo caule, chamado tronco, só se ramifica bem acima do nível do solo, ao contrário do arbusto, que exibe ramos desde junto ao solo". Esse conceito, que não se refere a um vegetal particular, mas engloba uma ampla gama de vegetais, é o significado do signo árvore - e também se encontra armazenado em seu cérebro.
Ao empregar os signos que formam a nossa língua, você deve obedecer a certas regras de organização que a própria língua lhe oferece. Assim, por exemplo, é perfeitamente possível antepor-se ao signo árvore o signo uma, formando a sequência uma árvore, já a sequência um árvore contraria uma regra de organização da língua portuguesa, o que faz com que a rejeitemos. Perceba, pois, que os signos que constituem a língua obedecem a padrões determinados de organização. O conhecimento de uma língua engloba não apenas a identificação de seus signos, mas também o uso adequado de suas regras combinatórias.
Como a língua é um patrimônio social, tanto os signos como as formas de combiná-los são conhecidos e acatados pelos membros da comunidade que a emprega. Individualmente, cada pessoa pode utilizar a língua de seu grupo social de uma maneira particular, personalizada, desenvolvendo assim a fala (não confunda com o ato de falar; ao escrever de forma pessoal e única você também manifesta a sua fala, no sentido científico do termo). Por mais original e criativa que seja, no entanto, sua fala deve estar contida no conjunto mais amplo que é a língua portuguesa; caso contrário, você estará deixando de empregar a nossa língua e não será mais compreendido pelos membros da nossa comunidade.
Estudar a língua portuguesa é tornar-se apto a utilizá-la com eficiência na produção e interpretação dos textos com que se organiza nossa vida social. Por meio desses estudos, amplia-se o exercício de nossa sociabilidade - e, consequentemente, de nossa cidadania, que passa a ser mais lúcida. Ampliam-se também as possibilidades de fruição dos textos, seja pelo simples prazer de saber produzi-los de forma bem-feita, seja pela leitura mais sensível e inteligente dos textos literários. Conhecer bem a língua em que se vive e pensa é investir no ser humano que você é.

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Fonte:
Gramática e Língua Portuguesa, por: Pasquale Cipro Neto & Ulisses Infante. Editora Scipione, 1ª edição. São Paulo, 1999, pág. 12.