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sábado, 30 de julho de 2016

"Que imortal, posto que é chama"

"Que   imortal, posto que é chama"
Por: Pasquale Cipro Neto
Na prova de português da primeira fase da Fuvest 2000, a banca elaborou uma questão baseada neste trecho de Memórias póstumas de Eras Cubas:
"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo".
O enunciado da questão pedia aos candidatos que apontassem a ideia expressa pelo "particípio suposto". Seguiam-se cinco alternativas, entre as quais "concessão", dada como correia. Se se permite que alguém fume em um lugar em que habitualmente não se pode fumar, por exemplo, faz-se uma concessão e, consequentemente, gera-se contraste entre o fruto da concessão (permitir o fumo) e a norma (não fumar). Por trás da concessão, está, pois, o contraste, a oposição, o choque, a quebra da expectativa.
Que há ideia de concessão em "Suposto o uso vulgar seja..." é indiscutível. Como o próprio texto de Machado de Assis diz, a norma é começar pelo nascimento. O narrador, no entanto, quebra essa norma e começa pela morte, o que caracteriza o contraste, a oposição, base para a existência da concessão.
A questão da Fuvest esbarra, porém, num problema de nomenclatura (sempre ela, a nomenclatura!). "Suposto" não é particípio propriamente dito, como o chamou a banca. Se o fora, teríamos a chamada oração reduzida (aquela em que normalmente não há conectivo e o verbo aparece numa das formas nominais — gerúndio, infinitivo ou particípio). A tese do particípio e da oração reduzida é inviabilizada pela presença da forma "seja", do presente do subjuntivo do verbo "ser", e pela possibilidade da pura e simples substituição de "suposto" pela conjunção concessiva "embora": "Embora o uso vulgar seja começar pelo nascimento...". Nunca se soube de um particípio que equivalesse à conjunção "embora".
O fato é que, no texto de Machado, "suposto" realmente não é particípio; é conjunção que introduz oração de valor adverbial. A "surpresa" é confirmada pêlos dicionários, que dão a "suposto", "suposto que", "posto" e "posto que" valor concessivo. Essas conjunções ("suposto" e "posto") e locuções conjuntivas ("suposto que" e "posto que"), abundantes na obra de Machado, aparecem nela e nos dicionários como equivalentes a "embora", "ainda que", "se bem que".
O Aurélio dá dois exemplos de Ressurreição, do próprio Machado: "Como caráter, fazia-lhe a mãe grandes elogios, e eram fundados, posto fossem de mãe"; "Teve excelente recepção, posto que a viúva, sem deixar de ser cortês e graciosa, parecia um pouco reservada e preocupada". (É de notar o emprego da forma verbal "parecia", do imperfeito do indicativo, no lugar da mais provável "parecesse", do imperfeito do subjuntivo. Como já vimos em artigo anterior, Machado trabalha como mestre a questão dos tempos e modos verbais.) Aulete dá dois exemplos de Herculano: "Um simples cavaleiro, posto que ilustre"; "E, posto que a luta fosse longa e encarniçada, venceram".
Em "Um boi vê os homens", Drummond também faz uso de "posto" com valor concessivo: "Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente, falta-lhes não sei que atributo pessoal, posto se apresentem nobres e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, até sinistros".
Já Vinicius, em seu popularíssimo "Soneto de fidelidade" ("De tudo, ao meu amor serei atento antes..."), deu a "posto que" valor de causa ou explicação, que os dicionários não "legitimam": "Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure". O fato é que, legítimo ou ilegítimo, o valor explicativo ou causal de "posto que" parece sacramentado, talvez justamente pela popularidade de Vinicius, de seu texto e de seu uso "espúrio".
Até a próxima. Um forte abraço.

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Fonte:
Revista Cult. Ano IV  - Nº 38 - Setembro de 2000. Lemos Editorial & Gráficos. São Paulo, pág.14.

terça-feira, 19 de julho de 2016

O que é Supletivismo

Supletivismo
Em alguns casos de flexão de gênero, de pronomes pessoais, de graus, de significação de pessoas verbais, aparecem certas irregularidades que costumavam as antigas gramáticas explicar como exceções da regra geral. Assim: de pai, marido, boi, bode, genro e tantos outros substantivos, forma-se o feminino, não pela mudança de o em a como é da regra geral, mas, por meio de outra palavra inteiramente diversa: mãe, esposa, nora, vaca, cabra, etc. Entre os pronomes pessoais do caso reto: eu, tu, ele, ela e os seus respectivos casos oblíquos me, te, se não há também sequência. Nos graus vemos que bom, mau, grande, pequeno apresentam os comparativos e superlativos diferentíssimos: melhor, pior, maior, menor, átimo, péssimo, máximo, mínimo. Na série dos verbos há alguns que recorrem a outros temas para completar seus quadros pessoais como: remir e redimir; precaver-se e aprecatar-se; o verbo ir que recorre aos temas latinos ire, vadere, fugere: vou, vais, vai, vamos, vades, vão ou então: imos, ides, vão; fui, foste, foi, etc. Os modernos gramáticos dão a tais fenômenos o nome de supletivismo.
Supletivismo é, pois, o fenômeno morfológico pelo qual as flexões dos nomes e pronomes bem como dos verbos deficientes se completam, recorrendo a outros temas diferentes. Os casos mais importantes são os seguintes:
1) Supletivismo de gênero — Muitos substantivos recorrem a outra forma completamente diversa para a indicação do feminino. Exs.: pai, mãe; genro, nora; boi, vaca; bode, cabra; etc. Todos estes e muitos outros fogem à regra geral da mudança de o em a como: sogro, sogra; pato, pata; Antônio, Antônia. Falta-lhes a todos esta flexão normal, sendo-lhes necessário recorrer a outro tema para a formação do gênero feminino.
2) Supletivismo pronominal — Os casos retos do singular apresentam temas diferentes dos casos oblíquos. Assim: eu (me, mini, comigo); tu (te, ti, contigo); ele, ela (se, si, consigo, o, a). No plural existe regularidade temática: nós (nos, conosco); vós (vos, convosco); mas eles, elas (se, si, consigo, os, as, lhes).
3) Supletivismo de graus — Em todas as línguas românicas os adjetivos bom, mau, grande, pequeno formam o comparativo e o superlativo, recorrendo a temas diferentes: bom (melhor, átimo); mau (pior, péssimo); grande (maior, máximo); pequeno (menor, mínimo).
4) Supletivismo verbal — Quase todos os verbos denominados defectivos entram na classe geral dos que devem ser supridos com outras formas alheias ao seu tema primitivo. Outros, que não são considerados defectivos, como ser, ir, são também formados de vários temas. Em ser encontramos os latinos sedere e esse. O presente do subjuntivo: seja, sejas, seja, etc., pertence a sedere (sediam, sedias, sediat, etc.). Mas sou, és, é, etc., pertencem a esse (sum, es, est, etc.). — Nas formas de ir encontramos os latinos ire, andare, fugere. O imperfeito do indicativo ia, ias, ia, etc., depende de ire (ibam, ibas, ibat); o presente: vou, vais, vai, origina-se de vadere (vado, vadis, vadit); o pretérito perfeito do indicativo: fui, foste, foi é formado de fugere (fugi, fugisti, fugit, etc.). O verbo remir, naquelas pessoas em que pode confundir-se com remar, recorre ao composto redimir. Já precaver-se, não tendo o presente do indicativo completo nem o do subjuntivo, supre, tal falta com outro qualquer como aperceber-se, aprecatar-se, etc.
A causa destes fenômenos de Supletivismo está na história de cada uma das palavras e compete à gramática histórica ou à história da língua portuguesa explicá-la. Em muitos casos, entretanto, a explicação só poderá ser encontrada na gramática histórica do latim porque são fenômenos que já recebemos feitos na dialetação desse idioma em o nosso. Não será, portanto, na gramática normativa, que se darão as explicações últimas de tais ocorrências
As formas, que suprem as deficiências de todos esses fatos, tomam o nome de supletórias, supletistas ou supletivistas. Querem alguns que haja Supletivismo em sintaxe, o que não nos parece aceitável. Serão construções várias, corretas todas, que cada qual emprega como lhe mais agrada. Já será assunto de estilística e não de simples gramática.

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Fonte:
Gramática Normativa da Língua Portuguesa, por: Francisco da Silveira Bueno. Edição Saraiva, 7ª Edição. São Paulo, 1968, págs. 239-241.

Grafia dos nomes próprios

Grafia dos nomes próprios
O PVOLP, no seu "Formulário Ortográfico — Instruções para a organização de vocabulário ortográfico da língua portuguesa", é claro quanto à grafia dos nomes próprios (XI):
"39. Os nomes próprios personativos, locativos e de qualquer natureza, sendo portugueses ou aportuguesados, estão sujeitos às mesmas regras estabelecidas para os nomes comuns.
"40. Para salvaguardar direitos individuais, quem o quiser manterá em sua assinatura a forma consuetudinária. Poderá também ser mantida a grafia original de quaisquer firmas, sociedades, títulos e marcas que se achem inscritos em registro público.
"41. Os topônimos de origem estrangeiras devem ser usados com as formas vernáculas de uso vulgar; e quando não têm formas vernáculas, transcrevem-se consoante as normas estatuídas pela Conferência de Geografia de 1926 [v. adiante] que não contrariarem os princípios estabelecidos nestas Instruções.
"42. Os topônimos de tradição histórica secular não sofrem alteração alguma na sua grafia, quando já esteja consagrada pelo consenso diuturno dos brasileiros. Sirva de exemplo o topônimo "Bahia", que conservará esta forma quando se aplicar em referência ao Estado e à cidade que têm esse nome.
"Observação. — Os compostos e derivados desses topônimos obedecerão às normas gerais do vocabulário comum."
As citadas normas da Conferência de Geografia (reunida no Rio de Janeiro em 1926, sob os auspícios do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), dizem entre outras coisas o seguinte:
"15.° — Não serão usadas abreviaturas nos nomes geográficos, salvo o que está indicado no item 18, escrevendo-se por extenso os designativos São, Santo, Santa, Dom, Dona, Padre, Frei, Coronel, General, Marechal, Engenheiro, Doutor, ele., frequentes em nossa toponímia, como São Roque, Santo António, Santa Isabel, Dom Pedrito, Dona Catarina, Dona Teresa, Padre João Pio, Frei Caneca, Engenheiro Passos, Doutor Seabra, Coronel Pacheco, General Carneiro, Marechal Jardim, etc. [...]
"18.° — Todas as vezes que se escrever nome de cidade, vila ou povoado de qualquer categoria, acrescenta-se ao mesmo, entre parênteses, a abreviatura do nome da unidade da Federação em que se acha situado. As abreviaturas, devem ser indicadas do modo seguinte:
Amazonas (Am.), Pará (Pa.), Maranhão (Mar.), Piauí (Pi.), Ceara (Ce.), Rio Grande do Norte (R.G.N.), Paraíba (Pba.), Pernambuco (Per.), Alagoas (Al.), Sergipe (Ser.), Bahia (Ba.), Espírito Santo CESJ, Rio de Janeiro (R.J.), Distrito Federal (D.F.), São Paulo (S.P.), Paraná (Pr.), Santa Catarina S.C.;, Rio Grande do Sul (R.G.S.), Minas Gerais (M.G.), Goiás (Go.), Mato Grosso (Mt.G.), Acre (Ac)." (Cf. Antenor Nascentes, O Idioma Nacional, Rio, 1960, p. 47.)
As siglas são hoje diferentes: AM, PA, MA, PI, CE, RN, PB, PE, AL, SE, BA, ES, RJ, DF, SP, PR, SC, RS, MG, GO, MT, AC — todas de duas letras, versais, sem ponto abreviativo, como o consulente pode ver em nossa lista de abreviaturas e siglas.
Acrescente-se à lista supra: AP (Amapá), FN (Fernando de Noronha), GB (Guanabara), RB (Rio Branco), RO (Rondônia) e BR (Brasil).
"Nomes e sobrenomes estão sujeitos às mesmas regras ortográficas vigentes para os nomes comuns e dentro dessas normas devem ser registrados os nascidos na vigência do acordo ortográfico.
"É preciso que se diga, no entanto, que somente em assinatura a pessoa pode (não se obriga, portanto) manter a grafia constante da certidão. Assim, um cidadão registrado Raphael Assumpção de Souza terá seu nome representado Rafael Assunção de Sousa em qualquer circunstância. Em assinatura, porém, se desejar, continuará a assinar-se daqueloutro modo.
"Não redundará confusão ou perda de direitos assinar-se, o citado cidadão, Rafael Assunção de Sousa? Absolutamente. Pode acarretar aborrecimento tão-somente por falta de compreensão alheia. Afinal de contas, o que de fato individualiza o cidadão não há de ser apenas seu nome, mas uma série de características, constantes em documentos oficiais, como filiação, data de nascimento, características somáticas (cor dos olhos, cabelo, etc.), impressões digitais, etc., etc. Diríamos mesmo que a assinatura identifica o indivíduo mui relativamente." (Artur de Almeida Torres (e) Zélio dos Santos Jota. Vocabulário Ortográfico de Nomes Próprios. Rio, 1961, p, 23-4.)
A tradição entre nós, contudo, tem contrariado a Lei. Assim:
1) os nomes próprios personativos têm sido grafados, na certidão, de acordo com a vontade do doador (ou de acordo com o "saber" ortográfico do escrivão...);
2) os nomes próprios das pessoas vivas se escrevem conforme constam na certidão de nascimento: Eriço Veríssimo;
3) os nomes próprios das pessoas falecidas são ajustados às normas ortográficas vigentes: Rui Barbosa, Machado de Assis, Eça de Queirós.


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Fonte:
Novo Guia Ortográfico, por: Celso Pedro Luft. Editora Globo, 10ª Edição. Rio de Janeiro, 1981, págs. 119-121.

O apóstrofo e o hífen

O apóstrofo e o hífen
Emprega-se o apóstrofo (') para assinalar a supressão de vogal em versos, por razões métricas, em palavras compostas e ligadas pela preposição de, consagradas pelo uso, e às vezes também de consoante em certas palavras nas quais se quer imitar a pronúncia popular. Exemplos: Em versos: "Havia promessa na c'roa do rei." Em palavras compostas e ligadas pela preposição de, consagradas pelo uso: galinha-d'angola, pau-d'arco (espécie de árvore), olho-d'água (nascente). No sentido de copo com água, devemos escrever copo d'água (sem hífen). Copo-d'água é nome de uma flor e também significa "lanche dado numa festa de amigos". Em certas palavras nas quais se quer imitar a pronúncia popular: "Ele 'tá melhor." (Supressão também da consoante.)
O hífen (-) é empregado para: indicar a divisão de uma palavra no fim de linha: es-critor, escri-tor; ligar pronomes átonos a verbos: escrever-lhe-ia, mandá-lo, contaram-me; unir elementos de vocábulos compostos e alguns prefixos e sufixos: pedra-sabão (vocábulo composto), super-homem (super: prefixo), capim-açu (açu: sufixo, significa grande. Palavra de origem tupi).
O apóstrofo e o hífen também estão classificados como notações léxicas, e são sinais que indicam a pronúncia das palavras.


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Fonte:
Meu Livro de Pesquisas. Texto de: Décio Gonçalves Ribeiro Guimarães. Edições Castor, s/d, pág. 20.

As várias "personalidades"das palavras

As várias "personalidades"das palavras
Prepare-se. Este texto vai dar trabalho. Será necessário abrir o coração e a alma para admitir a existência de velhos vícios. Será preciso aceitar novidades e surpresas. Também será preciso afiar o raciocínio lógico, sobretudo para a primeira conversa.
Vamos lá. Um cidadão é filho, neto e bisneto de estrangeiros. De alemães, por exemplo.
DIZ-SE, COM TODA A NATURALIDADE, QUE ELE DESCENDE DE ALEMÃES, CERTO?
Certo. Realmente, esse cidadão descende de "alemães". "Descender" significa "provir por geração, originar-se".
Até aí, nenhuma novidade. E se esse cidadão quiser fazer referência a seus antepassados? O que deve dizer? Que sua descendência é alemã? Vamos pensar. "Descendentes" são aqueles que "descendem", ou seja, "os que provêm", "os que vêm depois", "os que se originam". Não é o pai que descende do filho. É o filho que descende do pai. Então os descendentes de uma pessoa são seus filhos, netos, bisnetos. Obviamente, sua descendência está nos seus descendentes. Um cidadão só pode dizer que tem descendência alemã se seus filhos, netos, bisnetos forem alemães.
"Ascender" significa "subir, elevar". São ascendentes os que estão acima. Obviamente, a ascendência de uma pessoa está nos seus ascendentes, nos que vêm antes, ou seja, nos pais, nos avôs, nos bisavôs.
Moral da história: se um cidadão descende de alemães, ou seja, se provém de alemães, sua ascendência (e não sua descendência) é alemã, porque os que estão acima dele, na hierarquia familiar, ou seja, seus ascendentes (pais etc.), são alemães.
Todos sabem que no dia-a-dia as pessoas simplesmente ignoram a palavra "ascendência". Referindo-se a sua origem, costumam dizer "minha descendência". É o velho problema da contaminação pela semelhança.
O objetivo deste texto não é apenas tentar ensinar a diferença entre "descender" e "ascender", ou entre "ascendência" e "descendência". Isso é só uma semente. A ideia é tentar fazer você prestar atenção nas palavras e — é claro — no que elas significam.
Agora vamos às surpresas.
COMEÇAMOS COM A PALAVRA "FORMIDÁVEL". VOCÊ SABE O QUE ELA SIGNIFICA?
Procure-a num bom dicionário. O primeiro significado que se dá é "pavoroso, diabólico, horrendo, assustador". E não faltam exemplos. Clássicos. Mas essa palavra passou a significar algo como "maravilhoso, excelente, fantástico".
E "BÁRBARO"?
Outra desse time. Os gregos e os romanos denominavam "bárbaros" todos os estrangeiros. "Bárbaro" também é um indivíduo dos bárbaros, povo do norte da Europa, que, por sinal, invadiu parte do Império Romano. A palavra também assumiu o significado de "rude, sem civilização, inculto, selvagem". No Brasil, essa palavra possui ainda o sentido de "muito bom, excelente". Muita gente de mais de quarenta anos continua usando essa palavra com esse sentido, muito comum na época da Jovem Guarda.
AGORA RESPONDA VOCÊ TEM DUVIDAS QUANTO AO SIGNIFICADO DE "SOFISTICADO"?
Essa palavrinha é supersurpreendente. Usada largamente com o sentido de "chique, muito chique, de extremo bom gosto, de alto nível", essa palavra aparece nos dicionários como derivada de "sofisticar", sinônimo de "sofismar", ou seja, "falsificar, adulterar, deturpar". "Sofisticar" e "sofismar" são farinha do mesmo saco. "Sofisma" nada mais é do que "argumento falso formulado de propósito para induzir alguém a erro".
Uma que não pode faltar é "relevar". É de cair o queixo.
O QUE VOCÊ ENTENDE POR "RELEVAR UM FATO"?
Pode ser "destacá-lo, dar-lhe importância, salientá-lo", ou "deixá-lo de lado, ignorá-lo, atenuar sua importância". A palavra simplesmente tem sentidos quase opostos. E mais um, que quase passa despercebido: "tornar a levar, levar de novo".
Para terminar, outra doida como "relevar": "percalço".
SABE O QUE É "PERCALÇO"?
Constate você mesmo. Procure "percalço" nos dicionários.
Significa "problema, obstáculo, dificuldade", como é mais usada hoje. Mas também pode significar "lucro, vantagem, provento, rendimento, proveito".
Tudo isso mostra que às vezes o mundo das palavras não é muito diferente do mundo das pessoas. Várias "personalidades". Cuide-se!


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Fonte:
Ao Pé da Letra, por: Pasquale Cipro Neto. Editora EP&A. Rio de janeiro, 2001, págs. 126-128.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Conheça os verbos do MARIO

Conheça os verbos do MARIO
Quem nunca teve nenhuma dúvida sobre a conjugação do verbo odiar sabe que alguns dos seus tempos são odeio, odeia, odeiam, odeie, odeiem, por exemplo. Ou odiou, odiava, odiaram, odiará, odiariam, odiasse, etc.
Você pode perguntar por que, em alguns casos, existe um ei, como em odeio, e, em outros, apenas um i, como em odiou. É importante lembrar: quando a sílaba tônica é a que inclui o d, aparece o grupo de vogais ei. Quando a sílaba tônica é a seguinte, porém, o verbo deve ser conjugado de maneira regular (odiava, odiaria, odiassem, odiando, odiado, etc.).
Vale a pena você saber lidar corretamente com o verbo odiar porque ele é um dos cinco únicos da língua portuguesa terminados em iar que, pelo menos no Brasil, não seguem a conjugação normal. Os demais são mediar (e seu derivado intermediar), ansiar, remediar e incendiar.
Existe uma regra prática que ajuda a lembrar quais são eles: as iniciais desses verbos formam o nome MÁRIO (Mediar, Ansiar, Remediar, Incendiar e Odiar). Veja algumas formas deles:
Ansiar - Anseio, anseias, anseiam, anseie, anseiem, ansiava, ansiaram, ansiasse, ansiando, ansiado.
Incendiar - Incendeio, incendeias, incendeiam, incendeie, incendeiem, incendiava, incendiaram, incendiasse, incendiando, incendiado.
Remediar (atenção) - Remedeio (e não "remédio"), remedeia (e não "remedia"), remedeiam, remedeie, remedeiem (e não "remediem"), remediava, remediaram, remediasse, remediando, remediado.

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Fonte:
Com todas as letras: o Português simplificado, por: Eduardo Martins. Editora Moderna. São Paulo, 1999, pág. 32.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Dicas de Gramática

Dicas de Gramática
Isso se deve às pequenas alterações que se pode notar entre as mudanças de uma estação para outra. (C. M.)
Isso se deve às pequenas alterações que se podem notar...
Com efeito as alterações podem ser notadas, pois que o se é uma apassivadora pessoal.
 ***
Informa o Sr. A. B. que serão necessárias quatorze leis complementares à Constituição e serão em tomo delas que irão constituir as Comissões Mistas. (C. M.)
— ...e será em torno delas que se irão constituir as Comissões Mistas.
...e há de ser (será) em torno delas que as Comissões Mistas se irão constituir.
(C. M.)
 ***
...tranquiliza-nos o novo dirigente sobre os grandes problemas habitacionais a que o Banco está sendo chamado a resolver. (C. M.)
— O Banco está sendo chamado a resolver problemas e não a problemas. Que faz então ali aquele a que o Banco. Corte-se o a.
 ***
...e o motorista fugiu empreendendo maior velocidade ao veículo. (C. M.)
...e   o   motorista   fugiu   imprimindo maior velocidade ao veículo. — Distração do noticiarista.
 ***
Deus permita que possamos transpor o Rubicon até atingirmos à planície. (C. M.)
...até atingirmos a planície.
— Atinge-se um lugar e não a um lugar; atinge-se o alvo e não ao alvo.
*** 
Ficou assentado, disse o Reitor J. D. F. L., que os excedentes serão enviados para as universidades de outros Estados, onde ainda hajam vagas. (O G.)
...onde ainda haja vagas — Ver n.° 17.
— A construção da frase é textual do Reitor citado.
 ***
Os menores frequentadores de caratê saem muitas vezes contundidos pelos golpes, tendo havido, inclusive, casos de vasamentos de vistas. (C. M.)
...tendo havido, inclusive, casos de vazamentos de olhos.
— Ver o n.° 3. O vazamento pode dar-se nos olhos que são os órgãos da vista ou visão. Vazamento do verbo latino vaciare. Ci ou ti latinos dão sempre z em português.


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Dos Fatos para a Gramática, por: Luiz A. Ap. Victória. Ediouro. Rio de Janeiro, 1985, págs. 16-17.

domingo, 10 de julho de 2016

Versificação

Versificação
1 —     Que é versificação?

R —     Versificação é a arte de fazer versos.

2 —     E o que é verso?

R — Verso é o nome que se dá a cada linha da poesia. Essa linha sempre deve ter ritmo e certo número de sílabas (é o metro). Eis exemplo de um verso:

"Minha terra tem palmeiras
Eis outro verso:
Onde canta o sabiá;
E mais outro:
As aves que aqui gorjeiam,
Ainda outro:
Não gorjeiam como lá."
(Gonçalves Dias)

3 — Se verso é o nome de cada linha poética, como se chamarão os quatro versos juntos?

R — O conjunto de versos se chama estrofe ou estância. A estrofe de 2 versos chama-se dístico; de 3, terceto; de 4, quadra ou quarteto; de 5, quintilha; de 6, sextilha; de 7, setilha (muito rara); de 8 oitava; de 9 (muito rara, não tem designação própria); de 10, décima; com mais de dez versos são raras. Quando o verso se repete no fim das estrofes, temos o estribilho, muito comum no rondó e na balada.

4 — Verso já entendi; e aquilo de ritmo e metro?

R — É que o verso deve ter metro, ritmo e rima. Destes, os mais importantes são os dois primeiros: o metro e o ritmo.

5 — Então, para que eu possa entender tudo muito bem, comecemos pelo metro.

R — O metro é a extensão da linha poética, é o número de sílabas do verso. Na nossa língua, a poesia tradicional só admite versos de uma a doze sílabas. Os poetas modernos, no entanto, já compõem versos com mais de doze sílabas (são os chamados versos bárbaros). As sílabas de um verso se denominam sílabas métricas.

6 — Sílaba?! Ah, isso eu já sei, é fácil!

R — Você sabe o que são sílabas gramaticais, mas estas são diferentes das sílabas métricas. Nem sempre elas coincidem.

7 — Então, como é que se faz a contagem das sílabas métricas?

R — A contagem das sílabas métricas se faz auditivamente e obedece a estes critérios:

1) quando houver vogal no fim de uma palavra e vogal no início da palavra seguinte, formando ditongo (grande amor) ou crase (minha alma) haverá uma só sílaba métrica;

2) no verso, a contagem de sílabas métricas se faz somente até a sílaba tônica da última palavra. Portanto, se a palavra for paroxítona, você não conta a última sílaba (por exemplo: castelo); se for proparoxítona, as duas últimas sílabas são desprezadas (por exemplo: lágrima). Os versos que terminam por palavras oxítonas ou monossílabas são chamados agudos; por paroxítonas, graves e por proparoxítonas, esdrúxulos;

3) os ditongos crescentes, geralmente, formam uma só sílaba métrica: pá-tria, gló-ria, dei-xa, a-cor-dou, su-biu, lábios;
4) os hiatos mantêm, em geral, as vogais separadas: ru-í-do, bo-a, re-cu-a, ven-ta-ni-a.

8 — Vamos ver, na prática, como fica isso tudo?

R — Tomemos os versos já vistos. Dividindo-o em sílabas métricas, fica:
"Minha terra tem palmeiras

"Mi
nha
ter
ra
tem
pal
mei
ras
1
2
3
4
5
6
7

 Onde canta o sabiá;
"On
de
can
ta
o
sa
bi
á
1
2
3
4

5
6
7
As aves que aqui gorjeiam,
"As
a
ves
que
a
qui
gor
jei
am,
1
2
3
4

5
6
7

Não gorjeiam como lá."
"Não
gor
jei
am
co
mo
Lá"
1
2
3
4
5
6
7

Note que em todos os versos há sete sílabas métricas e que a contagem destas só chega até a sílaba tônica da última palavra do verso.
Escandir um verso é fazer o que fizemos: dividi-lo em sílabas métricas.

9 — Se o verso pode ter de uma a doze sílabas, é natural que cada um deles recebe nome especial, não é?

R — Exatamente. Vejamos os nomes dos mais comuns:
— versos de 5 sílabas chamam-se pentassílabos ou redondilhas menores;
— versos de 6 sílabas chamam-se hexassílabos;
— versos de 7 sílabas chamam-se heptassílabos ou redondilhas maiores;
— versos de 8 sílabas chamam-se octossílabos;
— versos de 9 sílabas chamam-se eneassílabos;
— versos de 10 sílabas são de dois tipos: heróicos e sáficos;
— versos de 11 sílabas chamam-se hendecassílabos e
— versos de 12 sílabas chamam-se dodecassílabos ou alexandrinos.

10 — Veja o que estou pensando agora: às vezes o poeta quer que na sua poesia os versos tenham... dez sílabas, por exemplo.  É fácil para que ele consiga isso?

R — Não, não é muito fácil, mas os poetas podem recorrer a vários processos para que o metro seja perfeito. Eis os principais:

— a crase: é a fusão de duas vogais numa só: minha alma (mi-nhal-ma), pode exalar (po-de-xal-tar);
a elisão: é a queda da vogal átona final de uma palavra, quando a seguinte começa por vogal: canta um (can-tum), minha infância (mi-nhin-fân-cia);
— a ditongação: é a fusão de uma vogal átona final com a seguinte, formando ditongo: grande amor (gran-dia-mor), meigo amigo (mei-gua-mi-go);
— a sinérese: é a transformação de um hiato em ditongo: cru-el-da-de (cruel-da-de); vi-o-le-ta (vio-le-ta);
— a diérese: é a transformação de um ditongo em hiato: sau-da-de (sa-u-da-de), vai-da-de (va-i-da-de);
— a ectlipse: é a queda de um fonema nasal final para que haja crase ou ditongação: com o (co), com os (cos), com a (côa), com as (côas);
— a aférese: é a queda de sílabas ou fonema inicial: inda (em vez de ainda), stamos (em vez de estamos).

11 — Parece que já vimos tudo sobre metro. Passemos, então, ao ritmo do verso.

R — O ritmo é a música do verso. Para que um verso tenha ritmo, usam-se sílabas fortes e sílabas fracas, com intervalos regulares. A sequência rigorosa dessas sílabas é que dá ao verso música, harmonia e beleza. Quando se fala em ritmo, há um verso que merece especial atenção: é o decassílabo.

12 — Desculpe-me, mas já me esqueci disso. Que é mesmo verso decassílabo?

R — Verso decassílabo é aquele que tem dez sílabas métricas. Nesses versos, o acento pode estar na 6ª e 10ª sílabas (é o verso heroico) ou na 4ª, 8ª e 10ª sílabas (é o verso sáfico).

13 — Vamos então separar as sílabas métricas de cada um para ver?

R — Eis o verso heroico (acentos na 6ª e 10ª sílabas):

"Só a   le ve es pe ran ça em to da a vi da.
 (Vicente de Carvalho)
Agora, o verso sáfico (acentos na 4ª, 8ª e 10ª sílabas):
"Dis far ça a pe na de vi ver, mais na da."
 (Vicente de Carvalho)
Não juntamos as sílabas do verso heroico (só a), porque a sílaba termina por vogal tônica, razão pela qual não se deve juntá-la à seguinte.

14 — Só os versos decassílabos é que são importantes? Não há outro que mereça pelo menos uma citação?

R — Os realmente importantes (porque mais aparecem e ficaram famosos com "Os Lusíadas") são os decassílabos. Mas não podemos esquecer os versos de doze sílabas ou alexandrinos. Estes podem ter acentos na 6ª e 12ª sílabas (é o verso alexandrino clássico) ou na 4ª, 8ª e 12ª sílabas (é o alexandrino moderno).

Exemplo de alexandrino clássico:
"Tu fos te co mo o sol u ma fon te de vi da"
(Olavo Bilac)
Exemplo de alexandrino moderno:
"É o cho ro sur do en tre cor ta do do ba tu que"
(Cassiano Ricardo)
Note a 1ª sílaba métrica desse verso: (É o), um recurso usado pelo autor.

15 — E a rima? Ê importante haver rima num verso?

R — Rima é a identidade ou semelhança dos sons no meio ou no final dos versos.

16 — E os versos que não rimam como se chamam?

R — Versos que não rimam são chamados versos brancos ou versos soltos.

17 — Que mais sobre rima?

R — As rimas podem ser classificadas de acordo com seu valor em:

pobres: quando formadas entre palavras de mesma classe: amor e louvor (ambas são substantivos); olhar e calar (são verbos);
ricas: quando formadas entre palavras de classes diferentes: arde e covarde (uma é verbo; outra, adjetivo); penas e apenas (uma é substantivo; outra, advérbio);
preciosas: quando se usam três palavras para formar a rima: vê-la e estrela; vê-lo e novelo;
raras: quando formadas com palavras que dificilmente rimam com outras: cisne e tisne, estirpe e extirpe (são raras ás palavras que assim terminam e possam rimar).

18 — A s rimas recebem nomes especiais, quanto ao lugar que ocupam na estrofe?

R — Quanto ao lugar que as rimas ocupam na estrofe, podem ser:

1) cruzadas ou alternadas: abab. Exemplo:
"De muita gente que existe,   a
Que nós julgamos ditosa,      b
Toda a ventura consiste,        a
Em parecer venturosa."         b
(Esta quadra é de origem popular, mas semelhante no significado à última estrofe do soneto "Mal secreto", de Raimundo Correia.)
Note como são cruzadas: um verso não rima com o seguinte, mas com o posterior a este.

2) emparelhadas: aabb. Exemplo:
"Uma noite estendi a música na estante                 a
E o cravo suspirou... Naquele mesmo instante,      a
Da ebúrnea palidez doentia do teclado                   b
 Manso e manso evolou-se o aroma do passado.   b
(Gonçalves Crespo)
Note que as rimas são paralelas, aparecem aos pares, uma logo depois da outra.

3)  interpoladas ou opostas: abba. Exemplo:
"Pinta-me a curva destes céus... Agora,          a
Ereta ao fundo, a cordilheira apruma:              b
Pinta as nuvens de fogo de uma em uma,       b
E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora."      a
(Olavo Bilac)
Observe que nas rimas interpoladas, os versos extremos é que rimam, havendo entre eles rimas emparelhadas.

4) encadeadas: quando o fim de um verso rima com o meio do seguinte. Exemplo:
"Voai, zéfiros mimosos
vagarosos, com cautela."
(Silva Alvarenga)

5) Se na poesia nenhum desses casos houver, as rimas são chamadas misturadas. Por exemplo:
"No outono a luz é um eterno poente,            a
Que mais à calma que ao rumor se ajeita;     b
Brilha.                                                             d
Tão de manso e calma,                                  c
Que parece unicamente feita                          b
Para o estado d'alma                                      c
De um convalescente."                                   a
(Mário Pederneiras)



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Fonte:
Português... bem mais fácil, por: Luiz Antônio Sacconi. Editora Atlas. São Paulo, 1972,m págs. 252-257.