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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Jesus ou Yehoshuah? (Religião)

Jesus ou Yehoshuah?
Por: Carlos R. Caldas Filho
Em meu trabalho de pesquisa e pastoral, tenho me defrontado com uma versão hebraizante do cristianismo: pessoas que defendem ser errado usar o nome "Jesus". Para elas o certo seria sua forma hebraica Yehoshuah. Há quem pense que incorrem em erro as seguintes tradições: ortodoxa, calvinista, luterana, anglicana, presbiteriana, batista, metodista, adventista, quadrangular, assembleiana e outras pentecostais (de igrejas como Deus é Amor, O Brasil para Cristo, Congregação Cristã do Brasil e IURD). Todos estariam servindo a um falso deus.
A argumentação de quem pensa desta maneira pode ser assim resumida; a revelação de Deus à humanidade foi dada na língua hebraica. A única transliteração possível do nome do Messias é Yehoshuah, e não Jesus, que seria uma deturpação greco-romana, pois na língua hebraica não há correspondente para a letra "j". Portanto, o nome do Senhor, para o grupo citado, não poderia em hipótese nenhuma ser transliterado com a letra "j". O fato de a língua hebraica não possuir letra correspondente a "j" não é nada demais. Há tempos, especialistas em hebraico são unânimes em transliterar palavras que começam com a letra hebraica yod (a letra inicial de Yehoshuah), ora com ."i" (ou "y"), no caso de substantivos comuns, ora com "j", no caso de nomes próprios. Uma rápida consulta a qualquer léxico, analítico . ou gramática de hebraico bíblico confirma esta afirmação.
O movimento pretende restaurar o que considera ser uma verdade adormecida por 2.000 anos.
"O falso Jesus"
Não leva em consideração o fato atestado pelo Dr. Karl Heinrich Rengstorf, de que séculos antes de Cristo o nome "Jesus" já era muito popular entre os judeus. Há extensa documentação que comprova a afirmação do professor Rengstorf. É, portanto, impossível que o nome "Jesus" fosse o nome de um falso deus, como acredita o movimento que quer hebraizar o cristianismo. Se assim fosse, judeus jamais colocariam este nome em seus filhos.
O que se pode dizer com relação a este ensino? Antes de iniciar qualquer argumentação, uma ressalva: para se comentar este assunto em detalhes, é preciso muito espaço. Portanto, o que se segue é uma síntese.
DO ÓBVIO ULULANTE À DESCOBERTA DA AMÉRICA
Nelson Rodrigues, conhecido teatrólogo brasileiro, criou a expressão "óbvio ululante". Parte da argumentação do grupo que defende o uso de Yehoshuah Hamashiah (em bom português, Jesus Cristo) insere-se nesta categoria. Seus textos repetem à exaustão que o nome do Salvador foi revelado em sua forma hebraica Yehoshuah. Isso é verdade. Tal declaração é um axioma, uma verdade evidente por si mesma, que não necessita de comprovação. Em sua soberania, Deus escolheu o antigo povo de Israel para ser o depositário da revelação (Dt 7.6-7; Rm 9.4-5). É óbvio que Ele comunicou-se com o povo que escolheu na língua hebraica. No entanto, não há nas Escrituras ordem para que a língua hebraica seja mantida nem proibição à tradução e, ou, transliteração de nomes em hebraico para qualquer outra língua. A língua hebraica não é sagrada. No Egito, em meados do quarto século antes da era cristã, aconteceu a tradução da Bíblia hebraica para a língua grega. Essa tradução é a famosa Septuaginta (LXX). As comunidades judaicas que não residiam em Israel e não tinham o hebraico como língua materna sempre entenderam a Septuaginta como Palavra de Deus, mesmo sabendo ser uma tradução, na qual os nomes próprios hebraicos foram transliterados,.
Passados tantos séculos, um grupo "descobre a América" e passa a acreditar na forma Yehoshuah como sendo a única correta, bem como a ensiná-la. É estranha essa tentativa de "reinvenção da roda", por alguns motivos.
Primeiro, a insistência na forma Yehoshuah é exemplo do que especialistas em sociologia chamam de sequestro simbólico. Há um sequestro de um elemento da cultura judaica, que é imposto como sendo o único correio.
Segundo, voltando ao que foi dito há pouco, o cristianismo não reconhece nenhuma língua como sagrada, de uso obrigatório. Uma das principais contribuições da Reforma Protestante foi a tradução da Bíblia para diversas línguas, abolindo a exclusividade do latim, até então a língua litúrgica da Europa Ocidental. A imposição de uma língua é característica muçulmana, não cristã. Na tradição islâmica o árabe é língua sagrada. Não há equivalente deste fato na tradição cristã. Portanto, o Apocalipse de João, que fecha com chave de ouro a revelação de Deus, fala sobre "grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação" (Ap 7.9-10). Além disso, é mais do que provável, conforme lembram eruditos como Joachim Jeremias, que Jesus e seus contemporâneos tenham falado aramaico e, não, hebraico. Haja vista o Talita cumi (Mc 5.41). O cego à beira do caminho gritou para Jeshua (com "j" mesmo) "Filho de Davi", e foi ouvido (Mc 10.47).
Terceiro, nos Discursos de Despedida registrados no Evangelho segundo João, o Senhor Jesus fala a respeito do Espírito Santo, que viria "a fim de que esteja para sempre convosco" (Jo 14.16). O Espírito de Deus já veio. Ele é o Espírito da verdade (Jo 14.17). Se o movimento que defende com tanta ênfase o uso da forma hebraica do nome de Jesus tivesse razão, o Espírito Santo, logo no início da história da igreja, teria levantado pessoas para trazerem os fiéis de volta à verdade. E no mínimo, estranho, pensar que o Espírito da verdade esperasse 2.000 anos para atuar, ainda mais em uma questão dessa natureza.
Quarto, o movimento Yehoshuah Hamashiah é típico representante da efervescência religiosa de fim de milênio.
Teóricos em sociologia da religião lembram ser períodos assim propícios ao aparecimento das mais variadas propostas de experiências religiosas. Não é coincidência que tal movimento faça ouvir sua voz no fim do século XX.
Quinto, para utilizar mais uma vez a contribuição das ciências sociais em sua abordagem do fenômeno religioso: observa-se que o grupo que defende o uso de Yeoshuah é um grupo com características de seita, não de igreja. Considera-se o único detentor da verdade, contra todas as demais tradições cristãs. Utiliza linguagem por demais arrogante e ofensiva. Por meio do conhecimento da língua hebraica, pratica uma manipulação do poder religioso, Isto fica evidente pelo fato de o líder do movimento se autodenominar Haroeh ("Pastor", em hebraico). Por que não utilizar a palavra designativa de sua função em português? Essa tentativa de hebraização do cristianismo não é santa. Por trás de uma aparente piedade, esconde-se um jogo de poder. Afinal, são pouquíssimos os membros de igrejas que possuem algum conhecimento do  -hebraico bíblico. Quando surge alguém que conhece um pouco, dizendo que tudo que os outros aprenderam está errado, fica fácil semear confusão e conquistar adeptos. Em sua linguagem empafiosa, repetindo o tempo todo que é o único detentor da verdade, pois seria o único que invoca verdadeiramente o nome do Senhor, o movimento Yeoshuah Hamashiah se esquece de textos como: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mt 7.21).
Sexto, o movimento comete grosseiro erro teológico quando cita passagens como Joel 2.32 e Romanos 10.13: "Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo". Para o grupo, só será salvo quem invocar o nome Yehoshuah. Deste modo, reduzem o dom da salvação à invocação mecânica de um nome hebraico. De onde vem a salvação: da graça de Deus, que nenhum de nós merece, ou da mera pronúncia de um nome hebraico? Parece que a forma hebraica do nome do Senhor foi transformada em palavra mágica. Outro problema não tratado pelo grupo é que, em Joel 2.32, o Senhor é Javé. Em Romanos 10.13, citação do texto de Joel, a palavra Senhor (Javé, em hebraico) é traduzida por Kurios (literalmente Senhor, em grego).
Como bom judeu e bom conhecedor da língua hebraica, Paulo não se incomodou em traduzir Javé por Kurios. Então, quem será salvo: quem invocar o nome Javé ou quem invocar o nome Kurios? Assim, parece uma versão "evangélica" das Testemunhas de Jeová.
A PESSOA E O NOME
Finalmente, o grupo hebraísta tem uma antropologia distorcida. Na antropologia bíblica, o nome é como um sinônimo da própria pessoa. A pessoa é o que é, e não deixa de o ser se seu nome for traduzido ou transliterado para outra língua. Saulo de Tarso não mudou quando foi chamado de Paulo. Vale lembrar que Saulo é seu nome hebraico (Shaul, transliterado Saul em português) e Paulo, seu nome latino, Simão não deixou de ser o que era quando foi chamado por Jesus de Pedro, Mateus e Levi eram nomes de urna mesma pessoa, e não de duas pessoas distintas. Ainda, Silas e Silvano eram nomes de uma mesma pessoa, e não de duas pessoas distintas. Ademais, o nome Josué (equivalente hebraico do nome Jesus — o Novo Testamento grego não distingue entre Josué e Jesus) aparece como Ieshua cerca de 29 vezes nos livros de Crônicas, Esdras e Neemias (incluindo Esdras 5.2 em aramaico), assim como Jehoshuah aparece cerca de doze vezes em Ageu e Zacarias. Muitas vezes esses dois nomes se referem à mesma pessoa, o filho de Jozadaque. Vale lembrar que o erudito F, Delitzch, profundo conhecedor da língua hebraica, mantém a forma Jeshua em sua tradução do Novo Testamento.
Alguns brigam pela obrigatoriedade do uso da forma hebraica do nome de Jesus. Melhor é abandonar uma postura aguerrida e obedecer ao Príncipe da Paz. que nos ordenou testemunharmos dele a todos os povos, falantes de todas as línguas. Pois um dia, na presença do que está assentado no trono e do Cordeiro, o nome de Jesus será louvado não apenas em hebraico, mas em toda língua falada pela raça humana,
Vem, Senhor Jesus! 
Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Volume II. Colin Brown (Ed.), São Paulo: Vida Nova, 1982, pp. 484-485.


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Fonte:
Revista Ultimato. Ano XXXII - Nº 260 - Setembro/Outubro de 1999. Editora Ultimato. Viçosa - MG, págs. 40-41.

terça-feira, 26 de julho de 2016

O suplício do trabalho

O suplício do trabalho
Se por trás das grandes datas se escondem, muitas vezes, grandes tragédias, com o dia 1.° deste mês não foi diferente: em 1886, milhares de operários se reuniram nas ruas de Chicago (EUA) para protestar contra as condições desumanas a que eram submetidos no serviço e para exigir a redução da jornada de trabalho de 13 para oito horas.
Reprimido com violência, o movimento resultou na prisão e morte de dezenas de pessoas. Três anos depois, porém, um congresso socialista realizado em Paris consagrou o l- de maio como o Dia Mundial do Trabalho.
Aliás, na própria origem, a palavra já tinha tudo a ver com suplício. Trabalho provém do latim vulgar tripalium, nome de um instrumento de tortura constituído por três pedaços de madeira cruzados ao qual era amarrado um condenado (tri = três; palus - estaca). Tripaliare (trabalhar) equivalia, por isso, a torturar. Esse sentido persistiu até o século XVIII (anos 1700), quando, por intermédio do francês, o vocábulo adquiriu o significado atual.
Se trabalho, com o tempo, perdeu a concepção original de tormento (há divergências, sabemos...), era preciso, de qualquer forma, recompensar quem empenhava seu esforço para levar a bom termo uma tarefa. Ou seja, trabalho exige salário. E o salário, com esse nome, teve origem na antiga Roma, que pagava o serviço de seus soldados e funcionários públicos com rações de sal (o salarium).
O produto, de grande valor na época, era usado por eles não apenas para o próprio consumo, mas também para a permuta por artigos de que necessitassem. Como a remuneração, depois, passou a ser feita em dinheiro para comprar o sal, o termo salário se estendeu à quantia recebida por um empregado.
Para ter trabalho e salário, porém, a pessoa depende, em geral, de um emprego, outra palavra que, com o tempo, mudou de conceito. Empregar vem do latim implicare (envolver, comprometer, unir, juntar, enlaçar). Como se vê, no início, emprego não constituía um simples contrato de trabalho entre o patrão e a pessoa a seu serviço. Pressupunha mais: um comprometimento, um envolvimento de ambas as partes em relações harmônicas e produtivas.


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Fonte:
Revista Historia Viva. Ano III - Nº 31. Ediouro. Rio de Janeiro, pág. 15.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A Origem do Baralho

BARALHO — Várias lendas percorrem o mundo contando histórias das cartas de jogar.
A sisuda enciclopédia Britânica diz que o baralho descende provavelmente dos árabes e acrescenta também ser a cidade de Ulm, na Alemanha, a sua primeira e mais conhecida fabricante.
Há quem conte, entretanto, que o mais antigo baralho é o tarot; nesse particular, a lógica mistura-se com a fantasia, numa das mais fascinantes histórias vindas da antiguidade.
O tarot é um conjunto de 78 cartas, sendo que, dessas, 52 formam o atual baralho. As outras que existiam eram o "Cavaleiro" que tinha seu lugar entre a dama e o valete dos quatro naipes e ainda mais 22 figurativas que se caracterizavam por serem únicas e completavam assim o tarot. Entre essas, encontravam-se a torre, o imperador, o bobo, o homem enforcado e outras mais. Possivelmente o coringa originou-se do bobo.
Sabe-se que a princípio, o tarot era representado em tábuas, na mesma forma que as peças encontradas na bibliotecas de Alexandria, depois passou a medalhões, a placas de metal, a cartas de couro e finalmente a cartões de papel. Apareceu pela primeira vez na Espanha no século XIV, na mão de ciganos analfabetos que nele liam a sorte e o futuro. A incongruência cedo se fez notar — o tarot era de forma bastante inteligente e suas figuras eram por demais mescladas com símbolos das mais remotas épocas para ter sido inventado por nômades inconsequentes.
Ficando assim praticamente provado que o tarot foi trazido pela mão dos mouros quando estes invadiram a Espanha. Deste ponto em diante a lenda principia e é entusiasticamente defendida pelos estudiosos.
Segundo os entendidos, o tarot é um livro egípcio que versa sobre Deus em relação ao homem e o Universo, fazendo assim parte do quadro das ciências herméticas. É necessário, para compreendê-lo, estar-se familiarizado com o cabala, livro místico judaico, com a alquimia, a magia e a astrologia. Havendo ainda quem afirme ser o tarot urna sinopse dessas ciências, ou pelo menos uma tentativa.
As ciências herméticas constituem um sistema de estudo do homem em relação ao Universo, de uma forma bem mais transcendental que a pesquisa física. Sua forma c simbólica sem ser prisioneira da objetividade das palavras, ela é muito mais completa. As múltiplas facetas do símbolo ampliam a visão do espírito humano, atingindo a uma esfera de compreensão inegavelmente superior ao da linguagem.
Os princípios da vida no quadro das ciências herméticas são em número de quatro: O cabala apresenta-os nas 4 letras do nome de Deus (yod, he, val e He-Jeová) que unidas representam o Absoluto. A alquimia na forma de elementos; o fogo, a água, o ar e a terra: a magia os quatro espíritos desses mesmos elementos; a astrologia quatro princípios, que remotamente correspondem aos pontos cardiais, c finalmente o Apocalipse fala de suas quatro bestas: as cabeças do touro, do leão, da águia e do homem. O baralho é composto de quatro naipes identificados com esses símbolos. Sendo paus correspondente ao espírito do, fogo, espadas com o espírito da água. copas com o do ai? e ouros da terra.
Essas ciências eram conhecidas dos sacerdotes egípcios e só adquiriram cunho vulgar quando caíram nas mãos de homens pouco  esclarecidos que tomaram   literalmente   a significação dos símbolos.
Conta-se que na antiguidade os candidatos ao sacerdócio, para serem iniciados na alta doutrina, passavam por uma galeria no Templo de Osíris, a qual se compunha de 22 afrescos pintados em suas paredes. Levados pela mão dos altos mestres os iniciados aprendiam o segredo dos símbolos. Ora, com a invasão dos bárbaros na terra das pirâmides, os sacerdotes sentiram o perigo que os ameaçava, e reconhecendo que não teriam forcas para defender seu templo e seu segredo formaram um concílio. Depois de cuidadoso exame chegaram a uma das mais sábias conclusões — Devendo deixar para a posterioridade os seus conhecimentos, era necessário que eles fossem gravados em algo seguro. O que existiria de mais poderoso no mundo? Não foi preciso muito para que "o vício fosse eleito por unanimidade", e foi assim que as cartas de um jogo de soldados analfabetos ganharam as 22 figuras dos afrescos do Templo de Osíris. A lenda termina contando por seus próprios súditos e supõe-se ser esta a razão pela qual nunca foi encontrada uma pedra sequer desse tão citado templo pelas gerações seguintes. Como havia sido previsto, pelas suas vítimas, os invasores exterminaram suas vítimas, mas aprenderam o jogo dos soldados e assim o divulgaram através dos tempos.
Existem entusiastas que afirmam ser o tarot tão completo e perfeito que um prisioneiro tendo somente em suas mãos um de seus exemplares e sendo capaz de manejá-lo com presteza será capaz de adquirir surpreendentes conhecimentos. Há quem afirme também que a humanidade perdeu a chave da linguagem dos símbolos, e com isso esqueceu a significação da vida — e do baralho.
Lenda ou não, o tarot chegou até nós, virou o baralho e é hoje usado em grande parte da Europa. Seus reis ganharam a figura de grandes monarcas como Júlio César, David, Alexandre, Carlos Magno. Suas rainhas o rosto de Minerva, Argine, Raquel e Judite. O símbolo cabalístico do "Homem enforcado" gerou, como a mais certa das hipóteses, as figuras com duas cabeças — pois o "Homem enforcado" era assim apresentado, sendo que a cabeça de cima representava o céu e a de baixo o inferno, a linha mediana simbolizava a vida terrena.
Hoje a geração moderna, imediatista e objetiva, ainda para perplexa diante da figura enigmática e imponente da esfinge; e há quem pare diante de um jogo de pif-paf ou buraco com uma longínqua pergunta no cérebro: O que teriam os sacerdotes egípcios de tamanha importância a nos deixar? (segundo Germana de Lamare).


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Fonte:
Dicionário da Origem e da Evolução das Palavras, por: Luiz A.  P.  Victoria. Editora Científica, 4ª Edição. Rio de Janeiro, 1965, págs. 26-29.

domingo, 26 de junho de 2016

Antroponímia brasileira

Antroponímia brasileira
Os Antropônimos estão documentados e registrados em todas as raças e línguas, fazendo parte da cultura de todos os povos desde as eras mais primitivas.
Apelidos ou nomes foi a forma encontrada pelos seres humanos para distinguir as pessoas da família e da comunidade, facilitando assim, a identificação de cada um de seus membros.
Inicialmente, apenas um nome era suficiente para a identificação, mas com o crescimento das famílias e a população das comunidades, alguns nomes começaram a se popularizar e a serem também usados por descendentes de outras famílias, gerando assim dificuldades na distinção de cada pessoa. Houve então, a necessidade da criação de um segundo nome que acrescentado ao primeiro identificasse melhor as pessoas.
Esse segundo nome foi surgindo naturalmente aliado a peculiaridades referente a pessoa, e esta, fosse identificada facilmente: João Oliveira = João, que planta, cuida ou vende olivas; Paulo Ferreira = Paulo, o ferreiro ou aquele que trabalha com ferro; José Serra = José, o que mora na serra ou no alto da montanha; Pedro Carneiro = Pedro, o que cria carneiros; Antônio Lago = Antônio, o que pesca ou mora próximo a um rio ou lago; Sérgio Fortes = Sérgio, o forte, musculoso, de aparência forte; Luiz Guimarães = Luiz, nascido ou procedente da cidade de Guimarães; Cláudio Branco = Cláudio, o de cor bem clara, branca. Assim desta forma simples de "apelidos", foram surgindo nomes que seriam adotados como sobrenomes, simplificando a identificação dos indivíduos e das famílias dentro das comunidades.
iVa formação dos Antropônimos brasileiros houve a influência de vários povos e idiomas. O Português, o Espanhol, o Italiano, o Alemão, o Hebraico, o Árabe, o Inglês, o Francês, o Latim, o Anglo Sapcão e outros com menor participação, como o dos indígenas que aqui habitavam, por exemplo.
No início da colonização do Brasil, somente foram implantadas Cartórios de Registros Civis nas principais cidades onde residiam a maioria dos fidalgos, ficou, então, para os Padres da Igreja Católica, principalmente os Jesuítas que catequizavam pelo interior, estabelecer através dos casamentos e balizados, os nomes e sobrenomes. Porém, somente as crianças com os nomes de origem Bíblica, Santos ou usados pelos fidalgos eram aceitos para balizar, enquanto os de procedência indígena ou negra (afro) eram aconselhados a trocar por um desses nomes mais conhecidos dentro das classes dominantes.
Deve-se reconhecer entretanto, que foi muito proveitosa a colaboração cultural da Igreja na formação dos Antropônimos no início da colonização do Brasil. Apesar de algumas censuras a nomes indígenas e negros (afros), como também, saber que se não existisse os livros de registros de balizados e casamentos da Igreja Católica, muitos nomes e sobrenomes de famílias que aqui habitavam teriam desaparecido no tempo e da história, já que os governantes da época não tinham nenhum interesse em saber nomes e sobrenomes, onde, e como viviam as famílias, que habitavam o país. Aliás, como é hoje, apesar dos 500 anos de história ainda não possuirmos uma Legislação que determine e especifique os critérios que Cartórios devam adotar para fazer os Registros Civis de nascimento ou casamento.
A única Lei existente é a de n- 6015/73, da qual reproduzimos os artigos mais específicos:
Art. 55 —  § único
Os oficiais do Registro Civil não registrarão prenomes suscetíveis de expor ao ridículo os seus portadores. Quando os pais não se conformarem com a recusa do oficial, este submeterá por escrito o caso, independente da cobrança de quaisquer emolumentos, a decisão do Juiz competente.
Art. 56
O interessado, no primeiro ano após ter atingido a maioridade civil, poderá, pessoalmente ou por procurador bastante, alterar o nome, desde que não prejudique os apelidos da família, averbando-se a alteração que será publicada pela imprensa.
Art. 58 — § único
Quando, entretanto, for evidente o erro gráfico de prenome, admite-se a retificação, bem como a mudança mediante sentença do Juiz, a requerimento do interessado no caso do Art. 55 — § único, se o oficial não houver impugnado.
O Art. 55, apenas dá poderes aos Oficiais e Juízes decidir sobre nomes que exponham ao ridículo o seu portador, e o Art. 58, refere-se a erros gráficos. Entretanto não distingue ou especifica critérios como também não estabelece regras ou uso de letras na composição de nomes ou sobrenomes das novas famílias e cidadãos. Delegando este "poder" a oficiais dos Cartórios, as vezes pouco esclarecidos sobre Antropônimos, influir e até decidir sobre nomes e sobrenomes de muitas famílias, criando dificuldades sobre nomes que desejam ser registrados com as letras K, W e Y ou TH, não obedecendo o "Direito Consuetudinário" de qualquer cidadão. Esquecendo-se que Antropônimos não são traduzíveis, apenas adaptados ou aportuguesados para o nosso idioma. Isto é um direito da família decidir quais as letras que comporão o nome de seus filhos, desde que esses nomes não venham a infringir o Art. 55 da Lei nº 1 6015/73.
Evidentemente que durante quase 500 anos muitos erros ortográficos e gráficos foram cometidos por quem foi oficializar o nome ou por quem registrou: Bibiano ou Bibiana que devido a pronúncia do imigrante português, surgiu Viviano e Viviana; do erro de escrita no nome Ewaldo, nasceu Euvaldo; Alzira, que passou também a ser Elzira; Eurides, que é Orides; e muitos outros que poderão ser comprovados no étimo de nomes constantes neste livro.
Todavia esses erros cometidos ingenuamente por Padres e Oficiais de Cartórios Registro Civil muito colaboraram para o enriquecimento do nosso vocabulário de
Até o século passado predominaram os Antônios, Joãos, Josés, Anas, Paulos, Pedros, Terezinhas, Franciscos e alguns outros por serem de Santos de Igreja. Moisés, Abrão, Samuel, Sara, Salomão, Adão, Eva, etc., por serem nomes Bíblicos. Os Joaquins e Manuéis que eram muito populares um Portugal e essa popularidade veio junto com a colonização.
Com as imigrações dos Germânicos, Anglo sabões, Espanhóis, Italianos que aqui foram chegando, começou também, a se diversificar os Antropônimos Brasileiros.
Se até então, era predominante os Antônio, Josés, Marias..., a partir daí começaram a surgir Adalbertos, Arietes, Cláudios, Clóvis, Ewaldos, Giovanis, Gertrudes, Guilhermes, Robertos, Ronaldos, Walters, Wilsons..., acrescentando assim, uma valiosa colaboração para enriquecimento dos Antropônimos Brasileiros.
Não se pode esquecer a grande colaboração de José de Alencar, Anchieta, Lemos Barbosa, Gonçalves Dias, Taunay, Teodoro Sampaio e outros escritores que através de suas obras que fazem parte do patrimônio literário da nossa cultura, conseguiram integrar e popularizar vários nomes indígenas, como: Guaraci, Iracema, Juçara, Juracy, Jurandir, Moacir, Ubiratã, Yara e muitos outros, dentro dos costumes de Antropônimos predominantemente das raças brancas.
A participação do povo também foi importante dentro desta conjuntura. Da criatividade popular nasceram: Josmari = justaposição de José e Maria; Lucineide — Lúcio e Neide; Genivaldo = Geni e Osvaldo...
O étimo dos Antropônimos exerceram e exercem pouca influência quando da escolha de novos nomes. A Bíblia, a Igreja, a Música, a Política, a Literatura, a TV, tiveram e tem maior influxo que os significados Etimológicos na popularização dos nomes de pessoas.
Os nomes dos Apóstolos e dos Santos se popularizaram em todas as camadas sociais sem considerar os significados Etimológicos. Também nomes como: Adolfo, Afonso, Amélia, Benjamim, Carmem, Carlos, Carol, César, Cláudio, Dante, Elizabeth, Franklin, Getúlio, Guilherme, Henrique, Iracy, Iracema, Jânio, Joana, Julieta, Juracy, Jurandir, Luiz, Marcos, Marina, Miguel, Roberto, Robson, Romeu, Salomão, Víctor, Vladimir, Washington, Yara e tantos outros se tornaram populares por se-mn nome de uma pessoa que tornou-se admirada por suas qualidades de Político, Governante, Herói histórico ou Mitológico, Personagem de um Romance ou Novela, Nome de Música ou Artista, ou ainda para homenagear a pessoas amigas ou da família, e não pelo sentido Étimo.
A escolha de um nome começa quando é anunciada e confirmada a gravidez. A partir daí se inicia uma longa peregrinação de A a Z por livros e revistas para escolher um nome que seja forte, bonito, simpático e admirado. Sugestões de familiares e amigos também são aceitas, e normalmente é elaborada uma grande lista. Mas, na verdade,, quem vai decidir são os pais, só eles é que darão a palavra final.
Se ao escolher nome para um filho os pais consultassem um Dicionário Étimo de Antropônimos, provavelmente nomes como: Paulo, Pedro, Cláudio e outros não seriam tão populares, as preferências cairiam para os Carlos, Apolo, Gumercindo, Humberto, Justo, Reinaldo, etc.
Entretanto, muitas vezes são esquecidos detalhes importantes nesta escolha. É preciso lembrar que em primeiro lugar que o nome escolhido não é marca ou propriedade sua e sim um nome que identificará alguém por toda uma vida, e em segundo o sobrenome que também o acompanhará. Como o sobrenome paterno é tradicionalmente legado de família e usado por todos os descendentes, procure incluir o e materno ao fazer o registro dos filhos, principalmente quando o sobrenome paterno for comum, talvez, assim possa reduzir alguns constrangimentos, para aquele que chega para honrar a família. A multiplicação de alguns sobrenomes tem gerado muitos problemas para quem as possui, principalmente para quem tem o primeiro nome ou prenome comum como: Antônio, José, Maria, Ana, Luiz, Paulo, Pedro, Carlos, Cláudio, Osvaldo, entre outros e um sobrenome de Silva, Souza, Soares, Pereira, Oliveira, Dias, Santos, Andrade, Teixeira, Carvalho, etc. Com certeza terá algum problema quando for abrir um crediário, solicitar uma ficha cadastral em um Banco ou precisar de um atestado judicial. Os homônimos são uma constante nos grandes centros urbanos, e ter um nome e sobrenome popular vai enfrentar dificuldades por toda a vida, sempre tendo que provar que não é aquele que pensam que é.
Neste livro foram incluídos mais de 5.000 nomes que estão selecionados em MASCULINOS, FEMININOS e INDÍGENAS para facilitar a sua escolha e na última parte os significados dos ANTROPÔNIMOS mais usados no Brasil.
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Fonte:
Dicionário de Nomes Próprios, por: Salvato Claudino. Edição própria, s/d, págs. 7-10.