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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Entrevista com Luiz Inácio Lula da Silva (1998)

Entrevista com Luiz Inácio Lula da Silva
"Os evangélicos vão colaborar com meu governo"
O candidato do PT à presidência defende os temas sócias, a soberania nacional e a liberdade religiosa
Por: Carlos Fernandes
Nos últimos 20 anos, nenhum político brasileiro conseguiu se identificar mais com a classe trabalhadora do que Luiz Inácio Lula da Silva. Casado com Marisa Letícia, cinco filhos, 52 anos de idade, metalúrgico de profissão e líder por vocação, a vida de Lula daria muito mais do que um livro. Desde que migrou, com a mãe e sete irmãos, da pequena Garanhuns (PE), em direção a São Paulo, numa viagem de 13 dias a bordo de um pau-de-arara, sua vida não parou de dar voltas. Típico retirante nordestino, o menino vendeu comida na rua, foi engraxate e office-boy. Por acaso, conseguiu emprego numa fábrica de parafusos, o que lhe abriu as portas para a profissão de metalúrgico, na qual haveria de tornar-se um dos maiores líderes políticos da história do Brasil.
Como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, o mais poderoso do país, Lula liderou as históricas greves no ABC Paulista, que desafiaram o regime militar, no fim dos anos 70. Preso como subversivo, o líder emergente percebeu que aquele movimento só poderia ser levado adiante através de uma ampla mobilização dos trabalhadores. Em 1980, Lula e um grupo de sindicalistas, religiosos, intelectuais e representantes de movimentos sociais fundaram o Partido dos Trabalhadores (PT), sigla que, poucos anos depois, teria influência decisiva na política brasileira. Nas eleições de 1986, Lula tornou-se o deputado federal mais votado do país e teve atuação marcante na elaboração da Constituição de 1988, sempre defendendo os interesses dos trabalhadores. Estava preparado, então, o caminho para o mais alto voo jamais tentado por um operário brasileiro: a disputa da presidência da República, em 1989. Se contava com o apoio de inúmeros segmentos, Lula tinha contra si a antipatia de muitos grupos evangélicos, que chegaram a dizer que, se eleito, o candidato do PT acabaria com a liberdade religiosa e até fecharia igrejas. Numa campanha memorável, Lula chegou ao segundo turno, onde obteve cerca de 31 milhões de votos, mas perdeu para Fernando Collor de Mello. O fim do sonho embalado pela canção Sem medo de ser feliz foi o pontapé inicial de uma série de viagens por todo o país, que ficaram conhecidas como as Caravanas da Cidadania. Ao longo de quatro anos, Lula despontou como candidato imbatível - a faixa presidencial parecia, apenas, uma questão de tempo.
Nas eleições seguintes, em 1994, nova derrota, desta vez para o atua! presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Uma perda amarga, ainda mais porque, apenas cinco meses antes daquele pleito, Lula já era considerado presidente eleito, com uma aceitação popular que beirava os 50%. A partir dali, a oposição se enfraqueceu, atropelada pela aliança de partidos de centro e direita que compõem a base de sustentação política do Governo Federal.
Quando muita gente não acreditava numa nova candidatura. Lula anunciou, no início deste ano, sua intenção de concorrer, pela terceira vez consecutiva, ao Planalto.
VINDE resolveu entrevistar os dois candidatos mais bem posicionados na corrida presidencial deste ano. Nesta edição, Lula fala de suas ideias, seus planos para o governo, sua relação com os evangélicos e faz, a seu modo, um retrato da situação do país. Em setembro, a vez é do presidente Fernando Henrique - que concorre à reeleição -, cuja entrevista já está agendada. Sem ter a pretensão de influenciar a opção eleitoral do leitor, VINDE abre espaço para o debate político, que deve ser tão democrático quanto a fé.
Se o senhor for eleito, quais serão as primeiras atitudes do governo Lula?
Vemos nos concentrar na adoção de políticas capazes de gerar empregos. Essa é a prioridade mais urgente. Junto com isso, cuidaremos desde o primeiro dia dos graves problemas na área da saúde, da educação, da previdência social e da agricultura. Também vamos atuar no combate à seca.
Que alterações o senhor pretende fazer na política econômica?
A atual política econômica defende os interesses dos grandes e dos gigantes. Mesmo quando esses gigantes têm pés de barro, como foi o caso dos banqueiros socorridos com os 20 bilhões de reais do Proer [programa criado pelo Governo Federal para sanear instituições financeiras], dinheiro esse que faz falta no prato do brasileiro. Mudaremos isso. Nossa preocupação maior será estimular economicamente o pequeno e o médio, para que o país retome o crescimento, com justiça social.
Quais os maiores defeitos, na sua opinião, do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso?
O desprezo pelo ser humano e o desinteresse pelas questões sociais.
O candidato a vice-presidente na sua chapa, Leonel Brizola, declarou que pretende rever as privatizações, um dos carros-chefes do atual governo. O que será feito, de fato, neste campo?
Meu governo estará voltado para o futuro, e não para o passado. Mas algumas privatizações tiveram aspectos muito suspeitos. Faremos apuração rigorosa e auditorias. Se descobrirmos que houve delitos e irregularidades, cumpriremos com nosso dever e vamos exigir punições judiciais.
No passado, criticou-se o PT por sua política de isolacionismo. O senhor pretende fazer um governo de coalizão?
Na atual campanha, nosso arco de alianças está mais amplo e mais forte. Os problemas do Brasil são graves demais para serem enfrentados por um só partido. Nosso governo contará com a força dos que já estão conosco e de muitas lideranças independentes, que aceitarão o chamado dessa missão de justiça.
E o senhor aceitaria o apoio de forças como o PMDB e o PFL?
Em alguns estados, o PMDB tem figuras corajosas, que têm denunciado os erros e as injustiças praticadas pelo atual governo. No Congresso Nacional, em particular, buscaremos boas relações com esses setores. O PFL é o grande pilar de sustentação do atual governo. Não tem sentido pensar em apoio de um partido identificado com as elites, com a indústria da seca, com negociatas de todo tipo.
O que será feito para reduzir o desemprego, que o senhor tanto vem criticando em sua campanha?
Adotaremos políticas emergenciais capazes de gerar empregos imediatamente, através de incentivos à pequena agricultura, construção de moradias, obras de combate à seca e redes de saneamento básico. Junto com a retomada do crescimento, isso produzirá queda segura no desemprego.
As reformas constitucionais, consideradas fundamentais pelo presidente FHC, alteraram profundamente as relações sociais e trabalhistas no Brasil. O senhor pretende dar continuidade a este programa reformista?
O que Fernando Henrique tentou foi um conjunto de contrarreformas, sempre orientadas para anular conquistas sociais e enfraquecer a soberania nacional. Vamos buscar verdadeiras reformas, como a reforma agrária, que ampliem os direitos de cidadania, garantam maior produção de alimentos e menos conflitos no campo.
O que fazer para frear o crescimento do déficit público e da dívida externa?
A retomada do crescimento econômico, e não a elevação de impostos, trará aumento na arrecadação, reduzindo esse déficit. Mas, sobretudo, será preciso corrigir a elevada taxa de juros fixada pelo Banco Central. Ela é a maior responsável pelos déficits crescentes. O enfrentamento da dívida externa envolve várias medidas. Uma delas é interromper a farra das importações. Outra é iniciar uma política industrial séria, que faça as exportações crescerem. Também será preciso fazer renegociação com os credores, com a voz firme de um país que não pode ser tratado como republiqueta.
Saúde, educação e segurança são temas recorrentes em campanhas eleitorais. Objetivamente, quais são seus planos nestas áreas?
Na saúde, vamos dar prioridade para a medicina preventiva e para o médico da família. É mais eficiente e mais barato tratar as doenças antes de elas se tornarem graves. Na educação, vamos promover a defesa do ensino público e a elevação de sua qualidade, com o incentivo à qualificação dos professores e à pesquisa. Um carro-chefe será a Campanha Nacional de Alfabetização que, finalmente, marcará a data para completa erradicação do analfabetismo. Na segurança, o combate rigoroso ao crime será feito em paralelo à valorização e reeducação das forças policiais, eliminando a corrupção e o desrespeito aos direitos humanos.
Como será sua relação com as Forças Armadas? O senhor pretende aumentar as verbas destinadas à defesa nacional?
Vamos criar o Ministério da Defesa e manter com as Forças Armadas relações absolutamente normais e regulares, conforme previsto na Constituição. Quanto à fatia do orçamento, não existe mais Guerra fria, nem corrida armamentista. Os gastos não podem ser os mesmos daquele tempo. Mas as Forças Armadas não podem perder condições operacionais. Por isso, devem ser mantidos os níveis sensatos de renovação de equipamentos.
O senhor se sente vítima do temor da sociedade por um governo esquerdista ou acha que existe uma campanha permanente contra o senhor?
Sinto claramente que esses temores, onde existem, são fruto da desinformação e de calúnias. Onde converso com as pessoas, expresso minhas ideias e adianto nossa linha de governo, tudo isso cai por terra. Meu governo terá um perfil democrático e popular.
O senhor disputou a presidência duas vezes consecutivas e chegou em segundo lugar em ambas. Na sua opinião, quais foram os motivos das derrotas eleitorais em 1989 e 1994?
Para o Collor, em 1989, acho que perdi em dois momentos. O primeiro foi quando não tivemos humildade de conversar com o PMDB, para ver se conquistávamos os 5% de votos que o doutor Ulysses Guimarães teve. O outro foi aquele último debate [levado ao ar pela Rede Globo de televisão, a poucos dias do segundo turno]. Eu cometi um crime contra mim e contra as pessoas que acreditavam em mim. Eu não poderia ter feito o comício do Rio de Janeiro - que terminou à meia-noite -, para depois chegar em São Bernardo à uma da manhã, onde fui a um jantar para angariar fundos até as 3h. Logo depois, viajei para Brasília, pensando que ia voltar às 10h, mas só voltei às cinco da tarde. Aí, fui para o debate. Nas 48 horas que antecederam o debate, eu dormi apenas três horas. Acho que aquilo foi uma total irresponsabilidade com o projeto que poderia ter feito com que eu ganhasse. A terceira coisa foi a montagem do debate que a Globo fez no Jornal Nacional. Já com o Fernando Henrique, eu acho que perdi porque ganhei as eleições antes do tempo. Eu já era considerado presidente da República em maio [a cinco meses das eleições]. Por isso, foi possível, então, fazer a aliança que eles fizeram, além do plano de estabilização econômica. E, também, nós passamos a campanha inteira sem ter a crítica correta ao projeto econômico, ao Plano Real. Eu acho que isso foi fatal.
No momento desta entrevista, pesquisas de opinião apontam 41% de preferência do eleitorado pelo candidato - e atual presidente -Fernando Henrique, enquanto o senhor está com 25%. Há alguma estratégia em andamento para reverter o quadro nesta reta final?
Nossa campanha está apenas começando. A do FHC já dura dois anos e tem todo o apoio dos grandes veículos de comunicação. A estratégia é percorrer os estados e mostrar, no nosso horário de rádio e TV, que a seca do Nordeste está se agravando, que o desemprego cresce, e as elites tiraram esses temas do noticiário. A seca continua no Nordeste com a mesma gravidade. Só que, do ponto de vista político, não interessa à classe dominante continuar falando de seca, porque pode prejudicar. Mas acontecerá o que diz aquela passagem bíblica que os evangélicos conhecem bem: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".
E por falar em pesquisas eleitorais, o senhor acredita nelas?
As pesquisas refletem apenas um momento, ou seja, a intenção de voto na ocasião da pesquisa. Todos sabem que ocorrem mudanças e reviravoltas, até mesmo na véspera das eleições. Nos últimos anos, aconteceram também casos de manipulação e de apurações mostrando resultados opostos aos das pesquisas.
Então, o FHC de 1998 pode ser o Lula de 1994 e perder uma eleição tida como ganha?
Pode. E em minhas viagens pelo Brasil, em meus contatos com o povo, com os pequenos, sinto isso com muita força.
No seu governo, o que será feito em face do processo de globalização que domina o mundo? Além do Mercosul, o senhor pretende apoiar a aproximação do Brasil com outras alianças de nações, como a União Europeia e o Nafta, que inclui os países da América do Norte?
A globalização pode trazer aspectos muito positivos. Mas desde que o Brasil participe nela como uma nação soberana, portadora da décima economia mundial, de reservas estratégicas incalculáveis, uma população de 160 milhões e um dos mais ricos territórios do planeta. Não como uma pequena peça, secundária e subordinada. Vamos participar da globalização de cabeça erguida, com projetos de desenvolvimento nossos, sem vergonha de sermos brasileiros, querendo gerar empregos aqui, querendo melhorar a agricultura. Este ano, o Brasil vai importar US$ 2 bilhões em arroz, milho e feijão. Para que importar feijão, que na lavoura dá em setenta dias? É por isso que o superávit argentino em relação ao brasileiro foi de US$ 1,4 bilhão. Vamos fazer abertura de fronteiras de acordo com os nossos interesses. Os Estados Unidos fazem assim, e por isso mandam no mundo. O Mercosul é um passo muito importante, e as relações com a União Europeia interessam muito ao Brasil. Quanto ao Nafta, e principalmente à Alça [aliança de países da América Latina], proposta pelo presidente americano Bill Clinton, há necessidade de cautela, porque existem indícios de imposição de força. E o Brasil não pode aceitar isso. Nós queremos uma nação forte, soberana, e uma nação forte tem de ter ingerência nas grandes decisões econômicas, no país e na Organização Mundial do Comércio, que é onde as coisas se decidem. Portanto, nós temos divergência com muitos pensadores americanos, que querem tornar o Estado brasileiro uma zona franca. Nós queremos uma nação livre e soberana, em que o povo tenha orgulho de andar de cabeça erguida.
Qual será a receita do seu governo para evitar que o país sofra um ataque especulativo e enfrente uma crise semelhante à da Indonésia e outras nações asiáticas?
A retomada do crescimento econômico e a estabilidade social que vamos garantir atrairá investimentos produtivos, que são muito mais necessários que os especulativos. Medidas econômicas consistentes, interligando taxa de juros, câmbio, equilíbrio fiscal e correção na balança comercial, afastarão todos os riscos de ataque,
O senhor acredita em Deus? Professa alguma religião?
Acredito em Deus e sou católico.
O que o senhor acha do crescimento do segmento evangélico no Brasil?
Acho importante, porque isso significa uma liberdade de opção e de credo religioso, o que é fundamental numa democracia.
Na sua opinião, de que forma a rede de igrejas evangélicas espalhadas pelo Brasil poderia ajudar a resolver problemas como a fome, o analfabetismo e o desemprego?
A rede de igrejas evangélicas pode desempenhar um papel fundamental em meu governo, através de parcerias e, mais que isso, através da apresentação de propostas concretas de políticas públicas. A Campanha Nacional de Alfabetização é um exemplo de área onde essa rede pode ter um desempenho fabuloso. Outro exemplo é o conjunto de atividades que dedicaremos a setores como a infância desassistida, acompanhamento de pessoas da terceira idade, mobilizações de saúde preventiva, campanhas de combate à fome etc.
O senhor conta com algum assessor de campanha que o aconselha em relação aos evangélicos?
Não tenho um assessor formalmente designado para tanto. Mas, em meus frequentes encontros com pastores e com lideranças ligadas a esse segmento, recebo boas doses de assessoria, conselhos e explicações.
E pretende contar com algum evangélico na sua equipe de governo?
Pretendo contar com pessoas de todas as religiões.
O senhor acha que o Lula não assusta mais os crentes? A que atribui isso?
Quando as pessoas decidem conversar comigo, me ouvir, trocar opiniões, nenhum medo sobrevive. A verdade liberta.
Na sua atual campanha, o senhor chegou a pedir o apoio de algum líder evangélico? Qual foi a receptividade?
Tenho pedido apoio de inúmeros líderes evangélicos e a resposta tem sido bastante positiva. Até a grande imprensa tem noticiado isso, embora parecendo estar sentindo algum incômodo.
Alguns grupos cristãos, como o Movimento Evangélico Progressista (MEP), com sede em Belo Horizonte (MG), apoiam sua candidatura publicamente. Sua campanha tem tido apoio de outras entidades evangélicas?
Tenho a impressão de que citar o nome de algum movimento poderia ocasionar uma injustiça, pelo possível esquecimento de outro. Estão brotando iniciativas neste sentido em todo o país. Um comitê evangélico de Belém do Pará está solicitando agenda. Como vocês falaram, existe o MEP de Belo Horizonte. A senadora Benedita da Silva está articulando apoios no Rio, e acontece o mesmo em praticamente todos os estados. Eu sinto uma força incomparavelmente maior do que nas campanhas anteriores.
O senhor tem algum projeto voltado diretamente para o segmento evangélico?
Tenho aquele conjunto de projetos de que já falamos, envolvendo a parceria entre governo e igrejas. Em resumo, trata-se do próprio coração do meu projeto de governo, que é a ampliação dos projetos sociais, da valorização do ser humano, da solidariedade exercida com fé e compromisso. E não frases vazias e mera propaganda clientelista, como aconteceu com o governo FHC.
Qual a sua maior preocupação nesta campanha?
O que mais me preocupa é a manipulação do poder econômico e dos meios de comunicação. Eu estou disputando com um cidadão que é presidente da República, então o que vai acontecer? A partir da convenção oficial, eu não posso entrar no ar, em rede de rádio ou televisão, porque sou candidato. Ele pode entrar como presidente da República. Eu quero saber qual vai ser o momento em que se vai separar o presidente do candidato. Nós não estamos fazendo uma campanha em igualdade de condições. Nós estamos disputando contra o poder do Estado e o poder da comunicação. E qual é a nossa vantagem? É que nós temos o poder da razão. Milhões de brasileiros estão indignados com a quantidade de mentiras, e a nossa campanha vai ser um movimento em que vamos envolver artistas, intelectuais, empresários, pastores, padres, freiras, desempregados, empregados, pequenos e médios produtores, quem quiser. E nós vamos ganhar (1998)


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Fonte:
Revista Vinde. Ano III - Nº 33 - Agosto de 1998. Editora Vinde. Rio de Janeiro, págs. 12-15.

A Bíblia e o quadro negro (Religiosidade)

A Bíblia e o quadro negro
Igreja Presbiteriana cresceu investindo no evangelismo e na educação
O pioneiro Simonton: vida a serviço da obra missionária
Todo mundo já ouviu o célebre ditado "o tempo voa". Para a maioria das pessoas, a vida passa sem dar-lhes oportunidades de deixar sua existência marcada neste mundo. Ou, pelo menos, elas se queixam disso. Ao longo da história, não foram muitos os que souberam utilizá-lo como aliado, vivendo cada minuto como se fosse o último. Mas, pessoas assim existiram. O próprio Jesus Cristo deu exemplo: só precisou de três anos para registrar na História uma participação tão marcante que acabou dividindo-a em duas partes, antes e depois dele. Mais tarde, vieram outros, inclusive alguns que, procurando viver à imagem e semelhança do Filho de Deus, fizeram do seu tempo o melhor uso possível, vivendo para divulgar a mensagem do Mestre. O pastor e missionário americano Ashbel Green Simonton pode ser incluído nesta categoria. Em apenas oito anos, ele aprendeu tudo o que podia sobre a Palavra de Deus, viajou para o Brasil, anunciou o Evangelho para pessoas que nunca tinham ouvido falar da salvação em Cristo e morreu deixando como herança uma das maiores igrejas protestantes em território nacional. Hoje, passados 138 anos da chegada de Simonton ao país, a Igreja Presbiteriana do Brasil tem mais de 1.700 igrejas e quase dois mil pastores espalhados pelo país. É o grupo evangélico que mais investiu em educação no Brasil, possuindo até hoje uma grande rede de escolas em todos os níveis de ensino. Isso sem falar nos quase l milhão de fiéis vinculados aos quatro grandes grupos em que se dividem hoje os presbiterianos.
Desde cedo, Simonton, nascido em West Hanover, no estado da Pensilvânia, em 20 de janeiro de 1833, demonstrou interesse incomum pela obra missionária. Assim que concluiu o Seminário Presbiteriano de Princeton e tornou-se pastor, não hesitou em fazer as malas e partir rumo ao Brasil. A decisão, totalmente inusitada, deveu-se a uma revelação que Simonton interpretou como a vontade de Deus na sua vida. Depois de longa viagem de navio, aportou no Rio de Janeiro em 1855 onde logo manteve contato com c médico escocês Robert Kalley. Esse "estágio" com o pioneiro do Evangelho em terras fluminenses foi mais do que providencial: além da comunhão e do aprendizado espiritual. Simonton, que tinha apenas 26 anos. pôde conhecer bastante sobre a sua "terra prometida". Como quase todos os estrangeiros na época, ele pouco mais sabia sobre o Brasil além do fato de aqui haver florestas e muitos índios. Kalley já desenvolvia um trabalho protestante na cidade, apesar das dificuldades culturais e da forte resistência católica. Foi o que bastou para encorajar o jovem missionário.
Escravidão
Não demorou muito e Simonton começou a andar com as próprias pernas, mas sempre pela fé. No dia 19 de maio de 1861, conseguiu sua primeira vitória, Com a ajuda do pastor Alexander Blackford, seu cunhado, o pioneiro alugou uma sala na rua do Ouvidor, no centro da então capital do Império. O preço, 50 mil réis, era bastante salgado na época, mas Simonton contou com a ajuda financeira de um grupo de americanos que ali passaram a realizar culto; em inglês. A iniciativa valeu a pena. De acordo com a historiadora Leila Menezes Duarte, especialista na história do protestantismo no Rio de Janeiro, naquele imóvel realizou-se o primeiro culto ministrado em português realizado em local público. "O âmbito doméstico era a única forma de culto permitida pela constituição do império para os protestantes no Brasil", informa a pesquisadora. Na verdade, o culto tinha o objetivo principal de estudar a Bíblia, e essa primeira reunião contou com apenas duas pessoas. Mas o otimista Simonton teve seus esforços recompensados. Três domingos depois, a sala já ficou cheia de brasileiros interessados em estudar a Palavra de Deus junto com os missionários presbiterianos. Logo as reuniões de estudo bíblico tornaram-se evangelísticas. Os frutos não tardaram e, no dia 12 de janeiro de 1862, Simonton realizou o batismo dos dois primeiros convertidos, um padeiro português chamado Camilo e o brasileiro Serafim, que trabalhava como carpinteiro. Aquela data acabou tornando-se histórica, passando a marcar a fundação da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, a primeira da denominação no Brasil. O crescimento da obra na sala da rua do Ouvidor levou Simonton e seus seguidores a instalar-se num terreno da Travessa da Barreira (atual rua Silva Jardim). O local abriga até hoje a Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro.
A expansão da missão de Simonton logo adaptou-se à realidade brasileira. Inclusive, num ponto polêmico: a escravidão. Apesar de ser fervoroso antiescravista, Simonton não tocava no assunto em suas mensagens. A Junta de Missões Estrangeiras, responsável pela missão no Brasil, temia um confronto com a classe dirigente brasileira, em sua maioria defensora da escravatura, o que poria em risco o apoio político e ideológico conseguido para seus missionários. Tal característica persistiu até a proclamação da República, em 1889, o que originou um fato curioso: não havia representantes das duas classes que compunham a base e o pico da pirâmide social do país - os escravos e a aristocracia - na igreja.
Vencidos os primeiros obstáculos no Rio de Janeiro, Simonton se dirigiu para o Estado de São Paulo, organizando no ano de 1865 a Primeira Igreja Presbiteriana da capital paulista. Preocupado em expandir o protestantismo num país onde o catolicismo perseguia qualquer um que se atrevesse a mudar o discurso religioso, Simonton foi surpreendido pela providência divina. Um ano após a fundação da igreja em São Paulo, nascia uma congregação na cidade de Brotas, no interior paulista. Não haveria nada demais neste fato, exceto que houve a ajuda decisiva de um ex-padre convertido ao protestantismo, José Manoel da Conceição. Sacerdote controvertido, ele já aborrecia os bispos católicos mesmo antes da sua conversão, quando estimulava seus párocos a lerem a Bíblia. Figura fundamental na expansão da igreja, Manoel, além de realizar frequentes cruzadas no Rio e em São Paulo, fazia questão de visitar a população do interior, não passando por nenhuma fazenda ou casa pobre sem orar e ler a Bíblia com os moradores. Através da influência do ex-padre, as antigas paróquias católicas interioranas acabaram se transformando em igrejas evangélicas. O crescimento acelerado, contudo, não pôde ser presenciado pelo pioneiro Simonton, que morreu em 1867, em São Paulo, com apenas 34 anos de idade, vítima da febre amarela - moléstia tropical que fez milhares de vítimas no fim do século 19.
Fé na educação
Com o passar dos anos e a consolidação da denominação em território nacional, os presbiterianos começaram a engajar-se na realidade social brasileira. No início deste século, a maioria da população brasileira era formada por analfabetos. Sob o ponto de vista espiritual, esse fato era um desastre: significava uma multidão de pessoas sem acesso às doutrinas e ensinos bíblicos. Atentos a esse drama que afetava milhões de brasileiros, a igreja resolveu investir maciçamente em educação. A filosofia era simples, mas eficaz, e era traduzida no slogan: "Ao lado de cada igreja, uma escola". O sucesso foi total. "O grande interesse pela educação fez com que os presbiterianos criassem inúmeras  instituições  de  ensino, algumas respeitadíssimas até hoje", diz o professor Cléber Selos, 37 anos, que leciona história da igreja no Seminário Presbiteriano do Rio. Além do Instituto Presbiteriano Mackenzie, em São Paulo, a maior universidade particular da América Latina, os presbiterianos possuem ainda 500 templos-escola, que ministram ensino da pré-escola ao 2- Grau. "Temos desafiado as igrejas a usar os espaços vazios para dar cursos de alfabetização, ou mesmo profissionalizantes para crianças e adultos", conta o pastor Guilhermino Cunha, que há três anos preside o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, a maior das quatro convenções da denominação no país. Além da preocupação em manter a dedicação das igrejas pelo ensino, Guilhermino objetiva uma  reaproximação  com  as outras vertentes da igreja em território  nacional:  Igreja  Presbiteriana Unida (IPU), a Igreja Presbiteriana Independente (IPI) - e Igreja Presbiteriana Conservadora  (IPC),  que juntas representam cerca de 30% do -     total de presbiterianos no país. Mas eles não estão atentos apenas à educação.  O pastor Guilhermino salienta que o objetivo da igreja é implantar pelo menos uma congregação por semana. "Temos conseguido alcançar este alvo, que faz parte da nossa grande meta de dobrar o número de evangélicos presbiterianos no país até o ano 2000." Esse empenho missionário mostra que os ideais de Ashbel Simonton continuam delineando as prioridades  da Igreja Presbiteriana do Brasil até hoje.    

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Fonte:
Revista Vinde. Ano II - Nº 22 - Setembro de 1997. Editora Vinde. Rio de Janeiro, págs. 56-58.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Raízes da cizânia (Religiosidade)

Raízes da cizânia
Reforma traça a história do maior cisma do cristianismo
Em 20 séculos de existência, a Igreja Cristã experimentou quase todos os tipos de divisões, conflitos internos, manobras políticas e cismas. Mas em um ponto todos os historiadores concordam: nenhum acontecimento teve maior importância do que a Reforma Protestante, que completou 480 anos em outubro do ano passado. No entanto, mesmo depois de tanto tempo, as interpretações sobre o episódio raramente primam pelo equilíbrio. Geralmente, ouve-se falar na Reforma sob três pontos de vista, cada um com suas cotas de bom senso e arroubo, coerência e excesso, razão e delírio. No primeiro, o da assepsia histórica que ignora as convicções religiosas, ela foi uma revolução cultural e social originada num cisma, provocadora de grandes transformações políticas a partir da Europa. No segundo, o do catolicismo conservador, foi um ato de rebeldia, um racha provocado por um herege insubmisso, um certo Martinho Lutero. No terceiro, do protestantismo apaixonado, foi o momento de ruptura, quando os grilhões impostos pelo despotismo dos papas foram finalmente quebrados, e a Igreja tornou-se efetivamente apostólica.
É natural que cada um procure interpretar a Reforma de acordo com os próprios interesses. Mas para compreender as raízes, as circunstâncias e as consequências da Reforma, é preciso esquecer qualquer tipo de paixão ou partidarismo, como fizeram o católico Felipe Fernández-Armesto e o protestante Derek Wilson. Em Reforma (Editora Record) eles deixam de lado as diferenças doutrinárias para abrir juntos todas as perspectivas da História do Cristianismo: o primitivismo da igreja dos apóstolos com suas primeiras cisões, as teologias dos patriarcas, as raízes do pontificado, as contestações de Calvino e seus pares, a reação católica, a formação de sociedades comunais e ordens religiosas, o surgimento de novas igrejas e seitas, o desafio do ecumenismo. Baseando-se em extensa bibliografia, os autores derrubam a tese simplista de que a Reforma Protestante foi um cisma historicamente isolado, causador da formação de igrejas dissidentes. Reforma mostra que, antes da afixação das 95 teses de Martinho Lutero na porta de uma igreja alemã, já havia proto-reformadores como Santo Agostinho, e muitos outros surgiram depois, inclusive dentro do catolicismo.
O maior mérito do livro é apresentar a Reforma, sobretudo, como uma abertura de alternativas para a Cristandade, o que torna a obra um ótimo compêndio sobre o episódio que mudou a trajetória da Igreja e seus efeitos até os dias de hoje. Felipe Fernández-Armesto e Derek Wilson estão longe de esgotar o tema, mas conseguem reunir dados valiosos, geralmente desprezados em livros de editoras religiosas, ao sabor de suas orientações e conveniências. Por exemplo, se Reforma não apresenta Lutero como o super-herói que várias publicações evangélicas sugerem, também não deixa de citar algumas atrocidades cometidas contra os protestantes em nome da doutrina católica.
Os autores só erram na mão na hora de organizar as informações: alguns assuntos são abandonados e retomados diversas vezes em função da divisão do livro em temas institucionais. Com isso, a ordem cronológica fica em segundo plano, o que cria alguma dificuldade na concepção de um quadro histórico lógico. Ainda assim, Reforma é uma obra que seminaristas e pastores devem não apenas ler, mas manter em estante como referência. Afinal, nunca i tarde para reverter a tendência de boa parte da Igreja Evangélica -particularmente da brasileira - de ignorar suas raízes, como se espiritualidade e história fossem princípios conflitantes.


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Fonte:
Revista Vinde. Ano III - Nº 26 - Janeiro de 1993. Editora Vinde. Rio de Janeiro, pág. 74.

Entrevista com Ricardo Gondim (Religião)

Entrevista com Ricardo Gondim
Por: Ornar de Souza
"O legalismo impede o avanço da igreja"
O pastor da Assembleia de Deus Betesda lança livro em que questiona a ditadura dos costumes
Não é somente por causa de sua pregação magnética e ungida que o pastor Ricardo Gondim é frequentemente solicitado a dirigir cultos, vários deles diante de grandes plateias, e ministrar palestras em congressos e seminários. O líder da Assembleia de Deus Betesda, em São Paulo, também é reconhecido em todo o país por um equilíbrio teológico que o distingue de parte significativa dos colegas de ministério. É pentecostal, mas tem horror ao legalismo. Possui formação teológica à altura dos maiores intelectuais das igrejas históricas, mas discerne nos movimentos carismáticos maior capacidade de adaptar-se aos contornos culturais. Defende uma igreja de princípios sólidos, mas não receia a comunicação com a sociedade.
Por estes e outros motivos, cada livro que escreve é garantia de sucesso. O mais novo, É proibido, não foge à regra. Lançada pela editora Mundo Cristão em dezembro do ano passado, a obra já está na terceira edição. Nela, Gondim traz para discussão o arbítrio eclesiástico - ou, numa linguagem mais simples, a ditadura pastoral - em questões relativas à conduta do crente, como a proibição do uso de calças compridas pelas mulheres, de ir ao cinema ou à praia, de assistir à televisão ou mesmo de bater palmas durante o culto.       
Com a autoridade de quem dedicou-se durante muitos anos à observação e à pesquisa dos movimentos espirituais, sociais e políticos (no sentido mais amplo do termo) da Igreja Evangélica brasileira, o pastor Ricardo Gondim falou, em entrevista a VINDE, sobre o pentecostalismo crescente no país, os riscos do legalismo, a ascensão de lideranças quase ditatoriais e a necessidade de questionamentos para que ocorra o verdadeiro crescimento espiritual.
Como o senhor vê o movimento pentecostal no Brasil?
Eu diria que o pentecostalismo tem duas frentes: o pentecostalismo clássico e o chamado neopentecostalismo. Este último tende a ser mais identificado com o que se denomina movimento carismático. O movimento pentecostal clássico é aquele encabeçado pela Assembleia de Deus.
Por que o movimento neopentecostal tem crescido tanto nos últimos anos?
O movimento carismático tem uma agressividade muito grande na mídia. Portanto, tem maior facilidade de adaptar-se aos anseios culturais e falar muito mais próximo da cultura que aí está. Não há nenhum demérito nisto, é apenas uma característica. Existem, sim, perigos potenciais nesse diálogo. Há o perigo da conformação como o presente século. Além disso, corre-se o risco de a cultura acabar influenciando mais a igreja do que ela consegue influenciar a cultura.
Como o senhor analisa o relacionamento entre os crentes chamados históricos e os pentecostais no Brasil?
Este relacionamento está cada vez mais amigável. As fronteiras entre históricos e pentecostais estão sendo alargadas, e a tendência é que haja cada vez menos tensões entre os dois segmentos. Tenho visto que o trânsito entre pastores pentecostais e tradicionais tem sido facilitado. A cada dia, os rótulos denominacionais têm sido menos respeitados, e, neste sentido, esta é uma tendência muito positiva. Aliás, as diferenças entre as liturgias pentecostal e histórica têm sido quase imperceptíveis. Nós estamos muito mais próximos de uma liturgia brasileira, diferente da americana ou da europeia.
O senhor diria que a expansão do pentecostalismo é um caminho sem retorno, que vai acabar atingindo as chamadas igrejas tradicionais, ou existe a possibilidade de, num determinado tempo, ele se desacelerar?
Eu acredito que a tendência pentecostalizante da Igreja Evangélica brasileira é irreversível. As igrejas tradicionais, conhecidas como denominações históricas, de alguma maneira já têm sido influenciadas por esse avanço fortíssimo do movimento pentecostal. Esta influência é muito mais sentida na liturgia, embora na própria parte teológica e doutrinária das igrejas tradicionais esteja havendo também uma forte influência. Não há hoje, eu diria, nenhuma igreja, por mais que se diga conservadora, histórica ou denominacional, que não tenha dentro do seu círculo pessoas com forte tendência pentecostal.
Qual seria o impacto disso no comportamento dos crentes?
A Igreja tem passado por uma verdadeira revolução litúrgica nos últimos 30 anos. E essa revolução é predominantemente de influência pentecostal, carismática. Eu acho que houve também, embora com menos força e velocidade, uma mudança teológica, haja visto a dificuldade que a Igreja brasileira teve, nestes últimos dez anos, de trabalhar questões como a teologia da prosperidade e a teologia da guerra espiritual, que foram trazidas no bojo do movimento neopentecostal e forçaram as igrejas denominacionais e as pentecostais clássicas a reelaborarem a sua teologia com respeito a anjos, a demônios, a dons espirituais. Hoje, a Igreja Evangélica do Terceiro Mundo, não só no Brasil, como na África e na Ásia, tem fortes tendências pentecostais, sem respeitar, por assim dizer, o rótulo denominacional da porta da igreja.
Até que ponto, nesta nova situação, o conservadorismo foi deixado de lado?
Embora muitos avanços tenham acontecido, a Igreja Evangélica ainda é um bastião de conservadorismo, de falta de diálogo cultural. O movimento pentecostal brasileiro, e o evangélico de um modo geral, tem muita dificuldade em enxergar a graça comum, a graça de Deus distribuída a todos os homens, e que os capacita a fazer coisas boas - embora seja participante da natureza caída. Nós temos a tendência de rotular pessoas, costumes e certas práticas, e de nos isolarmos do diálogo. Ainda hoje, o evangélico brasileiro típico é conhecido como aquele que pode ou que não pode fazer certas coisas.
O senhor acaba de lançar o livro É proibido, em que questiona o legalismo. A Igreja brasileira ainda sofre com uma espécie de ditadura de costumes?
Com certeza. Nós ainda temos uma ditadura dos costumes, que vai desde ornamentos, desde a indumentária, principalmente a feminina, até o diálogo cultural com as artes, com a música, por exemplo. Nós ainda temos a famosa frase: "Evangélico não ouve música do mundo", como se houvesse este tipo de departamentalização nas Escrituras entre aquilo que pode ou não ser consumido por nós só porque foi produzido por uma pessoa que não é evangélica. Eu já tive o desprazer de saber que algumas igrejas evangélicas ainda proíbem instrumentos musicais como a bateria, e outras que proíbem o ato de bater palmas.
Mas isso não acontece somente no interior?
Não, acontece mesmo em capitais. Aqui em São Paulo fui convidado para fazer uma cerimônia religiosa em determinada igreja, e foi-me dito que era proibido ter música que não utilizasse instrumentos típicos da Reforma e da liturgia reformada. Era proibido utilizar certos ritmos etc. Então a expressão "é proibido" ainda é muito utilizada, literalmente. É completamente anacrônico, mas coisas assim existem aqui em São Paulo.
O que está por trás disso? Uma concepção legalista?
Sim. Essa concepção advém da nossa incapacidade de ler a Bíblia como um livro cultural. A Bíblia não é um código de doutrinas, não é um catecismo que foi codificado para que nós a obedecêssemos como um regulamento religioso. A Bíblia é a história da interação de Deus com a cultura humana. No meu livro É proibido fiz um esforço para mostrar às pessoas que a Bíblia não é uma dogmatização teológica, mas uma saga humana onde existem coisas bonitas e feias. Enfim, assim é a vida como um todo. O nosso comportamento como cristãos não deve ser o de fazer um catálogo do que pode e o que não pode, mas conviver com essa cultura e, no exercício da nossa maturidade, fazer aquilo que Paulo nos ensina: examinar tudo e reter o que é bom. O que eu quero mostrar no livro é que nós podemos olhar para a nossa cultura, para a convivência humana, e ver que existem lampejos, réstias da grandeza de Deus na produção humana. Como cristãos, devemos resgatar isso e ver ali sinais da graça comum de Deus para todos.
Por outro lado, o legalismo não tem o mérito de impedir que a Igreja se vulgarize?
Eu respondo com a Palavra de Deus. O apóstolo Paulo disse que o legalismo não tem valor nenhum contra a sensualidade. Este esforço de acrescentar à graça de Deus a lei é fortemente repelido nos escritos paulinos, principalmente nas epístolas aos Gaiatas e aos Colossenses. O legalismo não produz santidade nem amadurecimento. O máximo que ele produz são pessoas que obedecem cegamente, mas que não estão convencidas da verdade. E, voltando à sua pergunta, o legalismo impede grandemente o avanço da Igreja. E por quê? Porque, embora crie comunidades de pessoas obedientes, separa grandes segmentos pensantes da sociedade. Resultado: o Evangelho acaba ganhando em obediência, mas perdendo em reflexão. A Bíblia não quer uma obediência cega, mas uma obediência lúcida. Por isso, Deus disse: "Vinde, e arrazoemos." É o que Paulo chamou de culto racional.
O senhor acha que o legalismo atrapalha a evangelização?
Sim, porque nós crescemos em segmentos menos reflexivos da sociedade e nos afastamos dos setores pensantes, dos formadores de opinião. Nós jamais conseguiremos mudar o Brasil se não ganharmos os formadores de opinião, que têm uma reflexão e uma análise crítica. A minha questão é que, no Brasil, nós estamos crescendo a passos largos, principalmente em grandes centros como o Rio de Janeiro e São Paulo, mas ainda nos mostramos incapazes de dialogar com aqueles que estão nos segmentos mais pensantes da sociedade. Você pode ganhar uma pessoa pela imposição dogmática do medo, mas perde aqueles que têm a capacidade de refletir criticamente. O Evangelho alcançou o mundo porque conseguiu vencer a resistência pensante dos romanos, e assim chegou à Europa, ao Ocidente.
Foi por isso que o apóstolo Paulo teve tanto interesse em ir a Antioquia, que era uma cidade universitária, à Grécia, que tinha sido o berço do saber na Antiguidade, e a Roma, a imperatriz do mundo, porque ele sabia que, ganhando os romanos, estaria ganhando o mundo.
Na sua opinião, por que têm surgido tantas lideranças absolutistas no meio evangélico?
Politicamente, a América Latina tem um histórico de caudilhismo, e esta infeliz vocação proporciona ao meio evangélico um solo fértil para que essa mentalidade se desenvolva na igreja. Um certo líder pentecostal gostava de dizer que, quanto mais ele surrava os seus membros, mais obedientes e fiéis eles ficavam. Eu creio que essa cultura brasileira ajuda a provocar isso. Eu diria também que nós, no mundo evangélico, crescemos durante muitos anos sem uma leitura interdisciplinar. Nós fomos ensinados a ler somente a Bíblia. No máximo, o que se permitia era a leitura de livros que falassem de assuntos diretamente ligados a ela. Esta falta de conhecimento do mundo, de horizontes mais largos, favorece a mentalidade de gueto, da obediência cega e irrestrita ao líder. As pessoas começam a acreditar naquela tese de que a verdade se restringe àquilo que lhes é ensinado pela igreja-mãe. Elas ficam com medo de se aventurar além dos horizontes que lhes são fornecidos. Tudo o que for além desses contornos é apresentado como falso e perigoso.
O que a Igreja precisa fazer para manter uma atitude ética e comprometida com valores bíblicos claros sem precisar deste determinismo legalista?
Eu diria que a Igreja precisa entender que, por trás da lei, existem princípios que a Bíblia chama de espírito da lei. É preciso entender que Jesus fez uma clara distinção entre a letra da lei e o espírito da lei. A letra mata, não produz vida. A letra da lei é circunstancial, é geograficamente local, mas os princípios são eternos, para todos. A Bíblia não deve ser vista como um livro de letras secas, áridas, mas um livro de princípios eternos. É nesses princípios que devemos buscar os fundamentos que vão alicerçar nossa vida espiritual. É um caminho mais longo, mas é muito mais frutífero. A lei diz: "Não matarás." O simples fato de eu não pegar uma arma e matar alguém já me satisfaz com a lei. Mas o princípio do que Jesus disse sobre não matar é muito mais amplo do que o que está escrito ali, e vai ajudar-me a não odiar ninguém, nem destruir com a língua ou com sentimentos amargos outra pessoa que esteja comigo.
Falando em termos práticos, o que o crente deve levar em consideração na hora de escolher o que lhe convém ou não fazer?
No livro, eu digo que o que vai determinar o que convém não é só a consciência do cristão, mas a cultura na qual ele está inserido. Para um índio do interior da Amazônia, a nudez pode ser coberta apenas por uma tanga. Neste caso, o que convém são os parâmetros culturais nos quais o indivíduo está inserido. Os mesmos princípios se aplicam a nós. O que convém e o que não convém não pode ser legislado de maneira alguma, e sim compreendido de acordo com os ditames culturais nos quais estamos inseridos. Muitas vezes temos a tendência de legislar sobre a nossa roupa apenas sob o aspecto da sensualidade. Há outros padrões que devem delinear nosso comportamento. Muitas coisas consideradas extremamente pecaminosas dentro de determinada cultura podem deixar de sê-lo em outro contexto cultural. Na virada do século, por exemplo, a mulher mostrar o tornozelo era considerado extremamente sensual. Houve uma evolução cultural e hoje não é mais assim. O cristão deve entender a sua cultura, principalmente no caso dos missionários, que não devem tentar impingir os seus valores culturais.
Igrejas que agem de maneira discricionária, proibindo os membros de fazer determinadas coisas, ou de usar certas roupas, têm futuro?
A tendência é que tais igrejas mais e mais isolem-se em pequenos guetos. Perdem a pertinência cultural e, portanto, têm cada vez menos espaço para falar à sua geração.
Por que algumas igrejas neopentecostais são tão radicais quanto aos usos e costumes e outras, que seguem a mesma linha carismática, são extremamente liberais nessa questão?
Eu diria que as igrejas neopentecostais em geral surgiram através de novos líderes, e não têm muita continuidade. Essas lideranças não têm muito lastro, nem compromisso institucional. São pessoas que começam a partir de suas próprias visões, sonhos, têm muito ímpeto evangelístico e uma grande determinação de alcançar sua cidade, seu país. Como essas pessoas não têm muitos elos institucionais, são mais livres para traçar os próprios contornos.
Muitas dessas igrejas adotam teologias e eclesiologias de fundamento bíblico questionável, como a teologia da prosperidade. Qual o perigo disto?
As igrejas neopentecostais têm sido fortemente influenciadas por uma teologia americana, a teologia de confissão positiva, que reflete a preocupação com a ascensão social, onde acredita-se que as pessoas, ao abraçarem o Evangelho, necessariamente ascenderão socialmente. Mas não através do trabalho, da frugalidade, da poupança, como diz a sociologia de [Max] Weber, e sim da mágica, da oração forte, da bênção sobre a carteira. Esta teologia da ascensão social rápida chegou no Brasil há uns 25 anos, e foi fortemente aceita devido à nossa estrutura socioeconômica de privilégios. Aqui, ou a pessoa já nasce rica ou a sorte a aquinhoa de maneira especial. Num país com índices alarmantes de pobreza e desemprego, é difícil ascender através do trabalho, do próprio esforço. Então, foi adequada uma nova linguagem à igreja: basta uma oração para ser próspero, pode-se reivindicar de Deus a bênção sobre a sua vida. Esta teologia que visa o bem-estar do ser humano, e não a glória de Deus, não tem nada a ver com o Evangelho. O Evangelho não tem esta relação direta de bênção de Deus com prosperidade. Isto é totalmente pernicioso.
Então o movimento neopentecostal seria o responsável pela disseminação da teologia da prosperidade por aqui?
O movimento neopentecostal não é propriamente o vilão dessa história. Ele é muito mais vítima, já que ele foi influenciado por essa teologia. O neopentecostalismo estava justamente querendo alcançar um segmento, a classe média, que tem grande ambição de ascensão social. Nos EUA, por ser um país que possibilita a mobilidade social, essa teologia tem uma plausibilidade muito grande. É por isso que minha tese sempre foi a de que a teologia da prosperidade teria as pernas muito curtas na América Latina porque logo esses grandes evangelistas seriam confrontados com a dura realidade de que aqui as coisas não são bem assim.
Voltando à questão das lideranças absolutistas, o senhor acredita numa cartelização das igrejas?
Acho que não usaria este termo, mas penso que uma das grandes ameaças para a Igreja Evangélica é o mercado. É o perigo de enxergarmos a nossa missão sob o ponto de vista mercadológico, através de lentes empresariais. Este é o grande perigo da Igreja nesta virada de século. Se usarmos a lei da oferta e da procura, vamos comprometer seriamente a nossa mensagem, adequá-la ao meio e cair no engodo da mídia, em que o meio se torna mais importante do que a mensagem. O que está acontecendo nas igrejas é que nós estamos segmentando o mercado. Um pastor passa a ver no outro um concorrente, e não um cooperador na obra de Deus. Começa a haver uma grande transferência de membros de uma igreja para outra, já que as pessoas não têm mais fidelidade à marca, à instituição. Aliás, esta é uma característica da própria modernidade. Aí, os pastores ficam em busca de técnicas que mantenham o seu auditório, o seu nicho de mercado.
A Igreja precisa de polemicas e questionamentos para evoluir?
E lógico. A Igreja sempre conviveu com a tensão, desde o grupo interno dos apóstolos. Depois, foi a igreja primitiva, com as questões judaizantes. Mais tarde, tivemos a teologia agostiniana, a Reforma, o calvinismo, o armenianismo... Querer esvaziar a Igreja de suas tensões internas é um desserviço que prestamos contra nós mesmos. Precisamos de contestações internas, precisamos nos reformar sempre. É aí que crescemos de verdade. Em última análise, nenhum de nós é o dono da verdade, ninguém tem a última palavra. E através das tensões que vamos crescer no conhecimento da Palavra de Deus.


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Fonte:
Revista Vinde. Ano IV - Nº 44 - Julho de 1999. Editora Vinde. Rio de Janeiro, págs. 9-12.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Entrevista com Fernando Henrique Cardoso (Ano: 1998)

Entrevista com Fernando Henrique Cardoso
Por: Cleber Leite
"Crença é coisa que se guarda no coração"
FHC evita falar de religião, mas reconhece importância dos evangélicos no processo social
Presidente ou candidato? A pergunta, feita toda vez que o presidente Fernando Henrique Cardoso participa de atos públicos ou anuncia medidas do governo, sintetiza a novidade, em termos de política brasileira, que as próximas eleições representam: pela primeira vez um presidente da República poderá ser reconduzido ao cargo pelo voto direto. E, a julgar pelas pesquisas, ele é o favorito para permanecer mais quatro anos no Palácio do Planalto.
Boa parte do sucesso do presidente Fernando Henrique deve ser creditado, sem dúvida, ao Plano Real, lançado em julho de 1994, três meses antes das eleições daquele ano, das quais FHC saiu consagrado com uma vitória no primeiro turno. Mas houve polêmica no seu governo. O fim da aposentadoria por tempo de serviço e a extinção da estabilidade no emprego para os servidores públicos foram princípios defendidos com fervor por Fernando Henrique e sua equipe. Outro ponto de destaque, não menos contestado, foi a privatização de empresas como a Vale do Rio Doce.
FHC apresenta os avanços do seu governo como credenciais para a reeleição A trajetória de FHC começou muito antes do dia em que ele subiu a rampa do Palácio do Planalto pela primeira vez. Nascido no Rio de Janeiro em 1931, radicou-se em São Paulo, onde iniciou destacada atuação no magistério como professor de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) em 1953. Com o golpe de 1964, Fernando Henrique transferiu-se para o Chile. De volta ao Brasil em 1968, teve os direitos políticos cassados um ano depois pelo Ato Institucional n° 5.
Participou da campanha pelas diretas em 1984 e, no ano seguinte, disputou a prefeitura de São Paulo. Num episódio polêmico, deixou fotografar na cadeira de prefeito dias antes das eleições, que perdeu para Jânio Quadros. Um dos fatos apontados para a derrota da declaração a ele atribuída, de que ateu. Hoje, nega que tenha dito isto.
Casado com a antropóloga Ruth Cardoso, FHC exibe um vistoso currículo de títulos academia apresenta as conquistas do seu governo para tentar um novo mandato. Ao eleitor, cabe decidir se ele deve permanecer mais quatro anos no Planalto. 
O segmento evangélico vem ganhando visibilidade na sociedade. Além de inúmeros parlamentares, há empresários, artistas e atletas que se confessam crentes. De que maneira o senhor vê a atuação dos evangélicos na sociedade brasileira?
Tenho tido a felicidade de contar com uma base de apoio extremamente ampla, que representa a diversidade da sociedade brasileira. Seja entre os parlamentares da base de apoio do governo, seja entre meus assessores no Executivo, conto com pessoas cujas convicções são ligadas às igrejas evangélicas, a quem sempre recorro e consulto. A atuação de evangélicos -e hoje são muitos os que se destacam na cena brasileira, nas mais variadas áreas - é também digna de nota.
Hoje, os evangélicos formam um grupo importante nas estratégias dos candidatos. Como a coordenação de sua campanha pretende atrair este grupo?
Nestes quatro anos de governo, procurei ser o presidente de todos os brasileiros. Pretendo, como candidato, continuar agindo desta maneira. É claro que não desconheço interesses e demandas específicas de inúmeros grupos, religiosos ou não, da sociedade brasileira. Os evangélicos são um desses importantes segmentos. Reconheço a atuação destacada da Igreja Evangélica na luta pela construção de um Brasil mais justo e solidário.
O problema da fome no Nordeste mobilizou tanto o governo quanto as igrejas cristãs. O senhor pensou em fazer trabalhos conjuntos com esses grupos religiosos?
Sempre disse que os desafios que o Brasil tem a vencer não são só do Estado ou do governo. Nós temos procurado aumentar, sensivelmente, o grau de parceria entre as várias esferas de governo - federal, estadual, municipal — e entre o governo e as organizações da sociedade civil, como igrejas, sindicatos, empresas universidades. Não foi com outro espírito que eu e Ruth Cardoso, mulher do presidente] criamos o Conselho da Comunidade Solidária, que representa uma nova forma de relacionamento, articulação e parceria entre o Estado e a sociedade.
Caso seja reeleito, a parceria continua?
Se eu for reeleito, vou continuar incentivando o aumento dessa parceria. No caso específico das ações para o Nordeste, tenho colocado todo meu empenho para que tudo se faça de forma a minorar o sofrimento dos mais atingidos pela seca e pela fome. São inúmeros os programas dirigidos a essas populações, mas muito há por fazer. Por isso, vejo como absolutamente fundamental o envolvimento de todos no apoio a ações concretas e no combate a essa dramática situação.
O senhor já se declarou ateu, afirmou ser preciso uma "pitada de candomblé" para governar o Brasil e disse "aleluia" num encontro da Assembleia de Deus em São Paulo, em setembro passado. Afinal, o senhor tem alguma religião?
Para começar, não sou ateu e nunca disse que era. Também não basta apenas declarar a crença em Deus. Crença é uma coisa que se guarda no coração, O que vale é a prática. O mais importante é agir com os sentimentos da fé, da esperança, da solidariedade, da justiça e da fraternidade entre os homens. O que mais fascina na sociedade brasileira é o pluralismo religioso, conjugado com a imensa tolerância do povo na convivência com as diferentes crenças.
Como presidente de todos os brasileiros, independentemente de credo ou raça, cabe a mim respeitar a pluralidade e incentivar a tolerância, com profundo respeito aos símbolos e às crenças deste povo.
Setores católicos e evangélicos criticaram o senhor pelo governo ter abandonado a parte social em detrimento do combate à inflação. Quais são os fundamentos de seu programa de governo, nesta área, para um eventual segundo mandato?
Sempre disse que a estabilidade econômica não é um fim em si mesmo. Ela é a pré-condição para a superação das desigualdades sociais. O Plano Real já deu uma contribuição importante na medida em que permitiu que 13 milhões de brasileiros deixassem a faixa de pobreza nestes quatro anos. Pela primeira vez, também, milhões de brasileiros puderam ter acesso à proteína animal. Há cinco ou seis anos, a inflação era de tal ordem que se tornava impossível pensar em alternativas para o futuro, tamanho o grau de desorganização da economia e da sociedade. A prova de que a estabilidade era um anseio generalizado está não só no fato de que a população me elegeu para tocar este projeto, como, sobretudo, no apoio que ela contínua dando à estabilização. Mas é um equívoco pensar que o governo só cuidou disso.
Mas há quem diga que, com a estabilidade - uma bandeira de seu governo -, o país pagou um preço social muito alto, a começar pela elevação do índice de desemprego. O que o senhor acha disso?
Na educação, meu governo realizou uma verdadeira revolução no ensino fundamental, modificando completamente a atuação do Ministério da Educação, com uma série de projetos que culminaram na bem-sucedida campanha "Toda criança na escola". Em segundo lugar, realizamos o maior programa de reforma agrária de que o país tem notícia: estamos assentando 300 mil famílias - um total superior à meta proposta em 1994. Isso significa dar acesso à terra a um número de famílias maior do que todos os governos anteriores. Além disso, temos o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, o Pronaf, igualmente sem paralelo na história do País. Tivemos também, em quarto lugar, um grande avanço na área de qualificação e requalificação de trabalhadores: em 1994, foram 100 mil os atingidos; este ano, serão treinados e requalificados dois milhões de trabalhadores. Não é verdade, portanto, que meu governo tenha se restringido ao combate à inflação. A economia voltou a crescer estavelmente e, apesar de todas as dificuldades, me orgulho em dizer que, além de obtermos a estabilidade, conseguimos crescer a taxas estáveis e realizar profundas transformações para vencer o desafio imenso do problema social.
Seu governo elegeu as privatizações como um dos carros-chefes destas transformações. A privatização do Sistema Telebrás, ocorrida em agosto passado, pode colocar o poder de definir a política de concessões de canais de comunicação nas mãos de um ou outro grupo. Comenta-se que este é o principal motivo de a Igreja Universal do Reino de Deus, a cujo grupo pertence a Rede Record, ter acenado para seus rivais na campanha para a presidência. O que o senhor acha disso?
A privatização das empresas de telecomunicações foi feita com o objetivo de, primeiro, atrair grupos que possam realizar os investimentos necessários ao setor, a fim de dotar o país de um sistema mais eficiente, mais barato e acessível a todos. Foi um dos maiores negócios do mundo, e as empresas vencedoras se comprometeram com vultosos investimentos no país. Vários benefícios ao consumidor se farão sentir de imediato.
E como é possível garantir que haverá concorrência? Uma das maiores preocupações dos opositores do processo de privatização é a formação de monopólios...
O monopólio acabou. Pela primeira vez, a partir do ano que vem, vamos ter concorrência no setor de telecomunicações com a criação das chamadas empresas-espelhos, que vão concorrer com as atuais concessionárias. É bom deixar claro que o Estado não perdeu sua capacidade de regulamentação. Foi criada a Agência Nacional de Telecomunicações [Anatel], que mantém o poder normativo e regulador e que interferirá sempre que o interesse público assim o exigir.
Mesmo assim, não há o perigo de vir a existir um monopólio privado, em substituição ao monopólio estatal?
Não há riscos de que os interesses de algum grupo prevaleçam sobre os demais e sobre o interesse público, ou de formação de monopólio privado. A Anatel estará atenta a esses aspectos. Além disso, desde o início do governo, sob o comando do ministro Sérgio Motta, cuidamos de dar transparência e seriedade ao processo de concessões e à regulamentação do setor.
Os cinco dedos, que foram a marca registrada de sua campanha de 1994 vão voltar?
Enumerar todas as metas do programa de 1994 e as respectivas ações do governo nestes quatro anos seria muito longo. Algumas já foram mencionadas aqui. Quanto às prioridades simbolizadas pelos cinco dedos, quero dizer que são preocupações permanentes do povo e, portanto, do meu governo também. Certamente, no novo programa, constarão avanços que devemos fazer em saúde, educação, segurança, agricultura, reforma agrária.
O emprego terá atenção maior no seu eventual segundo mandato?
É sobretudo na questão do emprego que pretendo, caso mereça novamente a confiança dos brasileiros e brasileiras, concentrar esforços do próximo mandato para atacar este grave problema. O meu programa de governo procurará articular um conjunto muito grande de ações no combate ao desemprego. Povo e governo juntos, porque juntos soubemos derrotar a inflação, e seremos capazes também de vencer o desemprego.
É possível sintetizar todos os seus projetos numa ideia central? Como seria sua concepção de um Brasil ideal?
O meu programa ainda está sendo amplamente discutido em todo o País. Começamos por divulgar 25 cadernos para mostrar que os compromissos assumidos em 1994 estão sendo cumpridos. Em agosto, divulgamos as metas para um novo mandato e, o que é fundamental destacar, mostramos como e de onde sairão os recursos. Mas, para resumir, esse programa tem um sonho: transformar o Brasil num país mais justo, generoso e solidário no alvorecer do Terceiro Milênio depois de Cristo. Esse sonho está ao alcance de nossas mãos. Resta-nos transformá-lo em realidade (1998).


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Fonte:
Revista Vinde. Ano III - Nº 34 - Setembro de 1998. Editora Vinde. Rio de Janeiro, págs. 12-15.