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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Entrevista com Luiz Inácio Lula da Silva (1998)

Entrevista com Luiz Inácio Lula da Silva
"Os evangélicos vão colaborar com meu governo"
O candidato do PT à presidência defende os temas sócias, a soberania nacional e a liberdade religiosa
Por: Carlos Fernandes
Nos últimos 20 anos, nenhum político brasileiro conseguiu se identificar mais com a classe trabalhadora do que Luiz Inácio Lula da Silva. Casado com Marisa Letícia, cinco filhos, 52 anos de idade, metalúrgico de profissão e líder por vocação, a vida de Lula daria muito mais do que um livro. Desde que migrou, com a mãe e sete irmãos, da pequena Garanhuns (PE), em direção a São Paulo, numa viagem de 13 dias a bordo de um pau-de-arara, sua vida não parou de dar voltas. Típico retirante nordestino, o menino vendeu comida na rua, foi engraxate e office-boy. Por acaso, conseguiu emprego numa fábrica de parafusos, o que lhe abriu as portas para a profissão de metalúrgico, na qual haveria de tornar-se um dos maiores líderes políticos da história do Brasil.
Como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, o mais poderoso do país, Lula liderou as históricas greves no ABC Paulista, que desafiaram o regime militar, no fim dos anos 70. Preso como subversivo, o líder emergente percebeu que aquele movimento só poderia ser levado adiante através de uma ampla mobilização dos trabalhadores. Em 1980, Lula e um grupo de sindicalistas, religiosos, intelectuais e representantes de movimentos sociais fundaram o Partido dos Trabalhadores (PT), sigla que, poucos anos depois, teria influência decisiva na política brasileira. Nas eleições de 1986, Lula tornou-se o deputado federal mais votado do país e teve atuação marcante na elaboração da Constituição de 1988, sempre defendendo os interesses dos trabalhadores. Estava preparado, então, o caminho para o mais alto voo jamais tentado por um operário brasileiro: a disputa da presidência da República, em 1989. Se contava com o apoio de inúmeros segmentos, Lula tinha contra si a antipatia de muitos grupos evangélicos, que chegaram a dizer que, se eleito, o candidato do PT acabaria com a liberdade religiosa e até fecharia igrejas. Numa campanha memorável, Lula chegou ao segundo turno, onde obteve cerca de 31 milhões de votos, mas perdeu para Fernando Collor de Mello. O fim do sonho embalado pela canção Sem medo de ser feliz foi o pontapé inicial de uma série de viagens por todo o país, que ficaram conhecidas como as Caravanas da Cidadania. Ao longo de quatro anos, Lula despontou como candidato imbatível - a faixa presidencial parecia, apenas, uma questão de tempo.
Nas eleições seguintes, em 1994, nova derrota, desta vez para o atua! presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Uma perda amarga, ainda mais porque, apenas cinco meses antes daquele pleito, Lula já era considerado presidente eleito, com uma aceitação popular que beirava os 50%. A partir dali, a oposição se enfraqueceu, atropelada pela aliança de partidos de centro e direita que compõem a base de sustentação política do Governo Federal.
Quando muita gente não acreditava numa nova candidatura. Lula anunciou, no início deste ano, sua intenção de concorrer, pela terceira vez consecutiva, ao Planalto.
VINDE resolveu entrevistar os dois candidatos mais bem posicionados na corrida presidencial deste ano. Nesta edição, Lula fala de suas ideias, seus planos para o governo, sua relação com os evangélicos e faz, a seu modo, um retrato da situação do país. Em setembro, a vez é do presidente Fernando Henrique - que concorre à reeleição -, cuja entrevista já está agendada. Sem ter a pretensão de influenciar a opção eleitoral do leitor, VINDE abre espaço para o debate político, que deve ser tão democrático quanto a fé.
Se o senhor for eleito, quais serão as primeiras atitudes do governo Lula?
Vemos nos concentrar na adoção de políticas capazes de gerar empregos. Essa é a prioridade mais urgente. Junto com isso, cuidaremos desde o primeiro dia dos graves problemas na área da saúde, da educação, da previdência social e da agricultura. Também vamos atuar no combate à seca.
Que alterações o senhor pretende fazer na política econômica?
A atual política econômica defende os interesses dos grandes e dos gigantes. Mesmo quando esses gigantes têm pés de barro, como foi o caso dos banqueiros socorridos com os 20 bilhões de reais do Proer [programa criado pelo Governo Federal para sanear instituições financeiras], dinheiro esse que faz falta no prato do brasileiro. Mudaremos isso. Nossa preocupação maior será estimular economicamente o pequeno e o médio, para que o país retome o crescimento, com justiça social.
Quais os maiores defeitos, na sua opinião, do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso?
O desprezo pelo ser humano e o desinteresse pelas questões sociais.
O candidato a vice-presidente na sua chapa, Leonel Brizola, declarou que pretende rever as privatizações, um dos carros-chefes do atual governo. O que será feito, de fato, neste campo?
Meu governo estará voltado para o futuro, e não para o passado. Mas algumas privatizações tiveram aspectos muito suspeitos. Faremos apuração rigorosa e auditorias. Se descobrirmos que houve delitos e irregularidades, cumpriremos com nosso dever e vamos exigir punições judiciais.
No passado, criticou-se o PT por sua política de isolacionismo. O senhor pretende fazer um governo de coalizão?
Na atual campanha, nosso arco de alianças está mais amplo e mais forte. Os problemas do Brasil são graves demais para serem enfrentados por um só partido. Nosso governo contará com a força dos que já estão conosco e de muitas lideranças independentes, que aceitarão o chamado dessa missão de justiça.
E o senhor aceitaria o apoio de forças como o PMDB e o PFL?
Em alguns estados, o PMDB tem figuras corajosas, que têm denunciado os erros e as injustiças praticadas pelo atual governo. No Congresso Nacional, em particular, buscaremos boas relações com esses setores. O PFL é o grande pilar de sustentação do atual governo. Não tem sentido pensar em apoio de um partido identificado com as elites, com a indústria da seca, com negociatas de todo tipo.
O que será feito para reduzir o desemprego, que o senhor tanto vem criticando em sua campanha?
Adotaremos políticas emergenciais capazes de gerar empregos imediatamente, através de incentivos à pequena agricultura, construção de moradias, obras de combate à seca e redes de saneamento básico. Junto com a retomada do crescimento, isso produzirá queda segura no desemprego.
As reformas constitucionais, consideradas fundamentais pelo presidente FHC, alteraram profundamente as relações sociais e trabalhistas no Brasil. O senhor pretende dar continuidade a este programa reformista?
O que Fernando Henrique tentou foi um conjunto de contrarreformas, sempre orientadas para anular conquistas sociais e enfraquecer a soberania nacional. Vamos buscar verdadeiras reformas, como a reforma agrária, que ampliem os direitos de cidadania, garantam maior produção de alimentos e menos conflitos no campo.
O que fazer para frear o crescimento do déficit público e da dívida externa?
A retomada do crescimento econômico, e não a elevação de impostos, trará aumento na arrecadação, reduzindo esse déficit. Mas, sobretudo, será preciso corrigir a elevada taxa de juros fixada pelo Banco Central. Ela é a maior responsável pelos déficits crescentes. O enfrentamento da dívida externa envolve várias medidas. Uma delas é interromper a farra das importações. Outra é iniciar uma política industrial séria, que faça as exportações crescerem. Também será preciso fazer renegociação com os credores, com a voz firme de um país que não pode ser tratado como republiqueta.
Saúde, educação e segurança são temas recorrentes em campanhas eleitorais. Objetivamente, quais são seus planos nestas áreas?
Na saúde, vamos dar prioridade para a medicina preventiva e para o médico da família. É mais eficiente e mais barato tratar as doenças antes de elas se tornarem graves. Na educação, vamos promover a defesa do ensino público e a elevação de sua qualidade, com o incentivo à qualificação dos professores e à pesquisa. Um carro-chefe será a Campanha Nacional de Alfabetização que, finalmente, marcará a data para completa erradicação do analfabetismo. Na segurança, o combate rigoroso ao crime será feito em paralelo à valorização e reeducação das forças policiais, eliminando a corrupção e o desrespeito aos direitos humanos.
Como será sua relação com as Forças Armadas? O senhor pretende aumentar as verbas destinadas à defesa nacional?
Vamos criar o Ministério da Defesa e manter com as Forças Armadas relações absolutamente normais e regulares, conforme previsto na Constituição. Quanto à fatia do orçamento, não existe mais Guerra fria, nem corrida armamentista. Os gastos não podem ser os mesmos daquele tempo. Mas as Forças Armadas não podem perder condições operacionais. Por isso, devem ser mantidos os níveis sensatos de renovação de equipamentos.
O senhor se sente vítima do temor da sociedade por um governo esquerdista ou acha que existe uma campanha permanente contra o senhor?
Sinto claramente que esses temores, onde existem, são fruto da desinformação e de calúnias. Onde converso com as pessoas, expresso minhas ideias e adianto nossa linha de governo, tudo isso cai por terra. Meu governo terá um perfil democrático e popular.
O senhor disputou a presidência duas vezes consecutivas e chegou em segundo lugar em ambas. Na sua opinião, quais foram os motivos das derrotas eleitorais em 1989 e 1994?
Para o Collor, em 1989, acho que perdi em dois momentos. O primeiro foi quando não tivemos humildade de conversar com o PMDB, para ver se conquistávamos os 5% de votos que o doutor Ulysses Guimarães teve. O outro foi aquele último debate [levado ao ar pela Rede Globo de televisão, a poucos dias do segundo turno]. Eu cometi um crime contra mim e contra as pessoas que acreditavam em mim. Eu não poderia ter feito o comício do Rio de Janeiro - que terminou à meia-noite -, para depois chegar em São Bernardo à uma da manhã, onde fui a um jantar para angariar fundos até as 3h. Logo depois, viajei para Brasília, pensando que ia voltar às 10h, mas só voltei às cinco da tarde. Aí, fui para o debate. Nas 48 horas que antecederam o debate, eu dormi apenas três horas. Acho que aquilo foi uma total irresponsabilidade com o projeto que poderia ter feito com que eu ganhasse. A terceira coisa foi a montagem do debate que a Globo fez no Jornal Nacional. Já com o Fernando Henrique, eu acho que perdi porque ganhei as eleições antes do tempo. Eu já era considerado presidente da República em maio [a cinco meses das eleições]. Por isso, foi possível, então, fazer a aliança que eles fizeram, além do plano de estabilização econômica. E, também, nós passamos a campanha inteira sem ter a crítica correta ao projeto econômico, ao Plano Real. Eu acho que isso foi fatal.
No momento desta entrevista, pesquisas de opinião apontam 41% de preferência do eleitorado pelo candidato - e atual presidente -Fernando Henrique, enquanto o senhor está com 25%. Há alguma estratégia em andamento para reverter o quadro nesta reta final?
Nossa campanha está apenas começando. A do FHC já dura dois anos e tem todo o apoio dos grandes veículos de comunicação. A estratégia é percorrer os estados e mostrar, no nosso horário de rádio e TV, que a seca do Nordeste está se agravando, que o desemprego cresce, e as elites tiraram esses temas do noticiário. A seca continua no Nordeste com a mesma gravidade. Só que, do ponto de vista político, não interessa à classe dominante continuar falando de seca, porque pode prejudicar. Mas acontecerá o que diz aquela passagem bíblica que os evangélicos conhecem bem: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".
E por falar em pesquisas eleitorais, o senhor acredita nelas?
As pesquisas refletem apenas um momento, ou seja, a intenção de voto na ocasião da pesquisa. Todos sabem que ocorrem mudanças e reviravoltas, até mesmo na véspera das eleições. Nos últimos anos, aconteceram também casos de manipulação e de apurações mostrando resultados opostos aos das pesquisas.
Então, o FHC de 1998 pode ser o Lula de 1994 e perder uma eleição tida como ganha?
Pode. E em minhas viagens pelo Brasil, em meus contatos com o povo, com os pequenos, sinto isso com muita força.
No seu governo, o que será feito em face do processo de globalização que domina o mundo? Além do Mercosul, o senhor pretende apoiar a aproximação do Brasil com outras alianças de nações, como a União Europeia e o Nafta, que inclui os países da América do Norte?
A globalização pode trazer aspectos muito positivos. Mas desde que o Brasil participe nela como uma nação soberana, portadora da décima economia mundial, de reservas estratégicas incalculáveis, uma população de 160 milhões e um dos mais ricos territórios do planeta. Não como uma pequena peça, secundária e subordinada. Vamos participar da globalização de cabeça erguida, com projetos de desenvolvimento nossos, sem vergonha de sermos brasileiros, querendo gerar empregos aqui, querendo melhorar a agricultura. Este ano, o Brasil vai importar US$ 2 bilhões em arroz, milho e feijão. Para que importar feijão, que na lavoura dá em setenta dias? É por isso que o superávit argentino em relação ao brasileiro foi de US$ 1,4 bilhão. Vamos fazer abertura de fronteiras de acordo com os nossos interesses. Os Estados Unidos fazem assim, e por isso mandam no mundo. O Mercosul é um passo muito importante, e as relações com a União Europeia interessam muito ao Brasil. Quanto ao Nafta, e principalmente à Alça [aliança de países da América Latina], proposta pelo presidente americano Bill Clinton, há necessidade de cautela, porque existem indícios de imposição de força. E o Brasil não pode aceitar isso. Nós queremos uma nação forte, soberana, e uma nação forte tem de ter ingerência nas grandes decisões econômicas, no país e na Organização Mundial do Comércio, que é onde as coisas se decidem. Portanto, nós temos divergência com muitos pensadores americanos, que querem tornar o Estado brasileiro uma zona franca. Nós queremos uma nação livre e soberana, em que o povo tenha orgulho de andar de cabeça erguida.
Qual será a receita do seu governo para evitar que o país sofra um ataque especulativo e enfrente uma crise semelhante à da Indonésia e outras nações asiáticas?
A retomada do crescimento econômico e a estabilidade social que vamos garantir atrairá investimentos produtivos, que são muito mais necessários que os especulativos. Medidas econômicas consistentes, interligando taxa de juros, câmbio, equilíbrio fiscal e correção na balança comercial, afastarão todos os riscos de ataque,
O senhor acredita em Deus? Professa alguma religião?
Acredito em Deus e sou católico.
O que o senhor acha do crescimento do segmento evangélico no Brasil?
Acho importante, porque isso significa uma liberdade de opção e de credo religioso, o que é fundamental numa democracia.
Na sua opinião, de que forma a rede de igrejas evangélicas espalhadas pelo Brasil poderia ajudar a resolver problemas como a fome, o analfabetismo e o desemprego?
A rede de igrejas evangélicas pode desempenhar um papel fundamental em meu governo, através de parcerias e, mais que isso, através da apresentação de propostas concretas de políticas públicas. A Campanha Nacional de Alfabetização é um exemplo de área onde essa rede pode ter um desempenho fabuloso. Outro exemplo é o conjunto de atividades que dedicaremos a setores como a infância desassistida, acompanhamento de pessoas da terceira idade, mobilizações de saúde preventiva, campanhas de combate à fome etc.
O senhor conta com algum assessor de campanha que o aconselha em relação aos evangélicos?
Não tenho um assessor formalmente designado para tanto. Mas, em meus frequentes encontros com pastores e com lideranças ligadas a esse segmento, recebo boas doses de assessoria, conselhos e explicações.
E pretende contar com algum evangélico na sua equipe de governo?
Pretendo contar com pessoas de todas as religiões.
O senhor acha que o Lula não assusta mais os crentes? A que atribui isso?
Quando as pessoas decidem conversar comigo, me ouvir, trocar opiniões, nenhum medo sobrevive. A verdade liberta.
Na sua atual campanha, o senhor chegou a pedir o apoio de algum líder evangélico? Qual foi a receptividade?
Tenho pedido apoio de inúmeros líderes evangélicos e a resposta tem sido bastante positiva. Até a grande imprensa tem noticiado isso, embora parecendo estar sentindo algum incômodo.
Alguns grupos cristãos, como o Movimento Evangélico Progressista (MEP), com sede em Belo Horizonte (MG), apoiam sua candidatura publicamente. Sua campanha tem tido apoio de outras entidades evangélicas?
Tenho a impressão de que citar o nome de algum movimento poderia ocasionar uma injustiça, pelo possível esquecimento de outro. Estão brotando iniciativas neste sentido em todo o país. Um comitê evangélico de Belém do Pará está solicitando agenda. Como vocês falaram, existe o MEP de Belo Horizonte. A senadora Benedita da Silva está articulando apoios no Rio, e acontece o mesmo em praticamente todos os estados. Eu sinto uma força incomparavelmente maior do que nas campanhas anteriores.
O senhor tem algum projeto voltado diretamente para o segmento evangélico?
Tenho aquele conjunto de projetos de que já falamos, envolvendo a parceria entre governo e igrejas. Em resumo, trata-se do próprio coração do meu projeto de governo, que é a ampliação dos projetos sociais, da valorização do ser humano, da solidariedade exercida com fé e compromisso. E não frases vazias e mera propaganda clientelista, como aconteceu com o governo FHC.
Qual a sua maior preocupação nesta campanha?
O que mais me preocupa é a manipulação do poder econômico e dos meios de comunicação. Eu estou disputando com um cidadão que é presidente da República, então o que vai acontecer? A partir da convenção oficial, eu não posso entrar no ar, em rede de rádio ou televisão, porque sou candidato. Ele pode entrar como presidente da República. Eu quero saber qual vai ser o momento em que se vai separar o presidente do candidato. Nós não estamos fazendo uma campanha em igualdade de condições. Nós estamos disputando contra o poder do Estado e o poder da comunicação. E qual é a nossa vantagem? É que nós temos o poder da razão. Milhões de brasileiros estão indignados com a quantidade de mentiras, e a nossa campanha vai ser um movimento em que vamos envolver artistas, intelectuais, empresários, pastores, padres, freiras, desempregados, empregados, pequenos e médios produtores, quem quiser. E nós vamos ganhar (1998)


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Fonte:
Revista Vinde. Ano III - Nº 33 - Agosto de 1998. Editora Vinde. Rio de Janeiro, págs. 12-15.

Os Cristãos e o Plebiscito (Política e Religiosidade)

Os Cristãos e o Plebiscito
Por: Robinson Cavalcanti
O Plebiscito
Os cristãos brasileiros - juntamente com os demais cidadãos - por disposição da Constituição federal de 1988, estão sendo chamados a se pronunciar, no próximo dia 21 de abril, em um plebiscito sobre o sistema de governo (presidencialismo x parlamentarismo), e sobre a forma de governo (monarquia x república) mais adequados ao País. Nessa consulta não estão em discussão nem a forma de Estado (federalismo), nem o regime político (democracia), nem o sistema econômico (capitalimo) ora vigentes.
Há na motivação dos constituintes a busca de legitimidade institucional diante do golpe de Estado militar que derrubou a monarquia e o parlamentarismo em 1880, um julgamento do desempenho histórico da república e do presidencialismo, e a necessidade de um aprofundamento em nossa caminhada democrática antes da ampla revisão constitucional que teremos a partir de outubro próximo.
As mudanças legais não terão implicações materiais imediatas: não aumentarão o pão na mesa do pobre, mas terão um valor de longo alcance: a clareza das regras do jogo democrático. E, nossa posição no plebiscito exige uma consciência cristã informada e responsável.

Os Sistemas de Governo
Os sistemas de governo são modalidades de um regime. No caso da democracia são eles: o colegiado (apenas aplicado na Suíça), o presidencialismo e o parlamentarismo.
a) O presidencialismo
O protótipo do presidencialismo é o modelo dos Estados Unidos: maior separação entre os poderes executivo, legislativo e judiciário, com predominância do executivo, cujo titular o exerce à base de um mandato popular temporário, acumula a Chefia de Estado e a Chefia de Governo e não pode ser destituído por julgamento político, mas apenas por crimes de responsabilidade no instituto do impeachment. O sistema se baseia em uma chefia pessoal forte, que centraliza e agiliza as decisões, jogando os partidos políticos um papel secundário.
A experiência norte-americana, com suas peculiaridades, é a única bem sucedida. O presidencialismo foi adotado nos países sob influência dos Estados Unidos, porém de tradição cultural autoritária (América Latina, Libéria, Filipinas, Coreia) servindo, na maioria das vezes, como mero anteparo legal para o caudilhismo, o populismo e o militarismo.
No Brasil o presidencialismo foi adotado, por influência do positivismo e do liberalismo conservador, a partir da Constituição de 1891. A marca desses 102 anos de nossa história política tem sido a instabilidade (golpes, renúncia, suicídio), com apenas dois presidentes eleitos democraticamente, terminando seus mandatos e passando a faixa para os seus sucessores em igual condição (Dutra e Juscelino), sem que seus antecessores ou sucessores tivessem igual performance. A demasiada soma de poderes tende a criar executivos imperiais, sem sólida base partidária e de traumático processo de remoção.
b) O parlamentarismo
O parlamentarismo se origina na longa experiência política britânica de redução dos poderes dos nobres e aristocratas em favor dos "comuns", por meio de uma casa legislativa representativa fortalecida. Com variações locais, o sistema é adotado na maioria das democracias estáveis atuais. Nele o mandato é conferido ao partido e não aos indivíduos, o conselho de ministros tem que ter base partidária parlamentar e pode ser destituído se não andar bem por meio de simples voto de desconfiança. Pratica-se a fidelidade partidária, os eleitores aprendem a valorizar mais os programas do que o "charme" ou o messianismo das estrelas políticas. Em caso de impasse entre o gabinete e o parlamento, este poderá ser dissolvido pelo chefe de Estado e convocadas novas eleições legislativas.
O mais importante é a separação entre a figura do Chefe de Estado (rei ou presidente), de caráter arbitrai, moderador, simbólico, suprapartidário e o Chefe de Governo (primeiro-ministro), líder do partido ou coalização com maioria, responsável pela condução política e administrativa.
No Brasil o parlamentarismo teve uma experiência positiva no Segundo Reinado (dentro das condições da época) e uma experiência "insincera" (61-63), como forma de se contornar a ameaça de um golpe militar.
As experiências do Japão, Itália, Portugal, Espanha e Grécia demonstram a possibilidade do parlamentarismo dar certo em países de tradição autoritária, e     a experiência da índia comprova que ele  pode funcionar em país pobre. É a experiência parlamentarista que gera uma burocracia técnica e partidos fortes, e não o contrário.
As Formas de Governo
O conceito usado no plebiscito não se refere à distribuição teórica da autoridade de mando, mas às peculiaridades do titular do executivo. O presidencialismo é intrinsecamente republicano, enquanto que o parlamentarismo pode existir tanto com a monarquia (Grã-Bretanha, Suécia, Holanda), quanto com a república (Alemanha, Itália, Áustria). Nesse caso, o parlamentarismo funcionaria de forma idêntica, alterando-se apenas não as funções, mas as características do Chefe de Estado: um rei permanente ou um rei "a prazo fixo" (como já foi denominado o presidente parlamentarista).
No passado a monarquia era associada a regimes autoritários e a república a regimes democráticos. Hoje se vê que essa associação não é procedente: há monarquias democráticas (Espanha) e absolutistas (Arábia Saudita) e repúblicas democráticas (França) e ditatoriais (Haiti).
No Brasil as elites e o estamento militar, por influência do positivismo, possuem convicções republicanas, enquanto a cultura popular (rei do baião, rainha dos baixinhos, roupas "nobres" nas escolas de samba) tem fortes raízes monárquicas. A Casa de Bragança está dividida em um ramo progressista (Petrópolis) e um ramo conservador (Vassouras).
Cremos que a opção parlamentarista - seja ela republicana ou monárquica -representará um salto de qualidade, uma revolução cultural em nossa política, quando as ideias, as propostas e a organização serão mais importantes do que os chefes iluminados. Com figuras paternais (maternais) na chefia do Estado, quem desejar ver Brizola, Maluf, Lula, Covas, Quércia ou ACM na chefia de governo que vote em um deputado do seu partido, para que eles venham a ser primeiros-ministros responsáveis e não magestáticos salvadores da pátria.
Contribuição Cristã
Nenhum segmento da sociedade pode concorrer para a democratização do Estado se não se democratizar internamente. Nem as formas políticas dos tempos bíblicos, nem a busca de chancela celestial para formas de governo eclesiástico autocráticas e historicamente explicáveis, nem a submissão ao autoritatismo de nossas raízes culturais ajudam esse propósito. É preciso conhecer a contribuição dos cristãos para a desconcentração do poder, do saber, da renda e da propriedade. Sem inquisições formais ou informais, mas na prática do pluralismo e no respeito às opiniões divergentes estaremos dando vida ao nosso voto no plebiscito. Uma igreja democrática em um país democrático.


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Fonte:
Revista Ultimato. Ano XXVI - Nº 221 - Março de 1993. Editora Ultimato. Viçosa - MG, págs. 12-13.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Entrevista com Fernando Henrique Cardoso (Ano: 1998)

Entrevista com Fernando Henrique Cardoso
Por: Cleber Leite
"Crença é coisa que se guarda no coração"
FHC evita falar de religião, mas reconhece importância dos evangélicos no processo social
Presidente ou candidato? A pergunta, feita toda vez que o presidente Fernando Henrique Cardoso participa de atos públicos ou anuncia medidas do governo, sintetiza a novidade, em termos de política brasileira, que as próximas eleições representam: pela primeira vez um presidente da República poderá ser reconduzido ao cargo pelo voto direto. E, a julgar pelas pesquisas, ele é o favorito para permanecer mais quatro anos no Palácio do Planalto.
Boa parte do sucesso do presidente Fernando Henrique deve ser creditado, sem dúvida, ao Plano Real, lançado em julho de 1994, três meses antes das eleições daquele ano, das quais FHC saiu consagrado com uma vitória no primeiro turno. Mas houve polêmica no seu governo. O fim da aposentadoria por tempo de serviço e a extinção da estabilidade no emprego para os servidores públicos foram princípios defendidos com fervor por Fernando Henrique e sua equipe. Outro ponto de destaque, não menos contestado, foi a privatização de empresas como a Vale do Rio Doce.
FHC apresenta os avanços do seu governo como credenciais para a reeleição A trajetória de FHC começou muito antes do dia em que ele subiu a rampa do Palácio do Planalto pela primeira vez. Nascido no Rio de Janeiro em 1931, radicou-se em São Paulo, onde iniciou destacada atuação no magistério como professor de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) em 1953. Com o golpe de 1964, Fernando Henrique transferiu-se para o Chile. De volta ao Brasil em 1968, teve os direitos políticos cassados um ano depois pelo Ato Institucional n° 5.
Participou da campanha pelas diretas em 1984 e, no ano seguinte, disputou a prefeitura de São Paulo. Num episódio polêmico, deixou fotografar na cadeira de prefeito dias antes das eleições, que perdeu para Jânio Quadros. Um dos fatos apontados para a derrota da declaração a ele atribuída, de que ateu. Hoje, nega que tenha dito isto.
Casado com a antropóloga Ruth Cardoso, FHC exibe um vistoso currículo de títulos academia apresenta as conquistas do seu governo para tentar um novo mandato. Ao eleitor, cabe decidir se ele deve permanecer mais quatro anos no Planalto. 
O segmento evangélico vem ganhando visibilidade na sociedade. Além de inúmeros parlamentares, há empresários, artistas e atletas que se confessam crentes. De que maneira o senhor vê a atuação dos evangélicos na sociedade brasileira?
Tenho tido a felicidade de contar com uma base de apoio extremamente ampla, que representa a diversidade da sociedade brasileira. Seja entre os parlamentares da base de apoio do governo, seja entre meus assessores no Executivo, conto com pessoas cujas convicções são ligadas às igrejas evangélicas, a quem sempre recorro e consulto. A atuação de evangélicos -e hoje são muitos os que se destacam na cena brasileira, nas mais variadas áreas - é também digna de nota.
Hoje, os evangélicos formam um grupo importante nas estratégias dos candidatos. Como a coordenação de sua campanha pretende atrair este grupo?
Nestes quatro anos de governo, procurei ser o presidente de todos os brasileiros. Pretendo, como candidato, continuar agindo desta maneira. É claro que não desconheço interesses e demandas específicas de inúmeros grupos, religiosos ou não, da sociedade brasileira. Os evangélicos são um desses importantes segmentos. Reconheço a atuação destacada da Igreja Evangélica na luta pela construção de um Brasil mais justo e solidário.
O problema da fome no Nordeste mobilizou tanto o governo quanto as igrejas cristãs. O senhor pensou em fazer trabalhos conjuntos com esses grupos religiosos?
Sempre disse que os desafios que o Brasil tem a vencer não são só do Estado ou do governo. Nós temos procurado aumentar, sensivelmente, o grau de parceria entre as várias esferas de governo - federal, estadual, municipal — e entre o governo e as organizações da sociedade civil, como igrejas, sindicatos, empresas universidades. Não foi com outro espírito que eu e Ruth Cardoso, mulher do presidente] criamos o Conselho da Comunidade Solidária, que representa uma nova forma de relacionamento, articulação e parceria entre o Estado e a sociedade.
Caso seja reeleito, a parceria continua?
Se eu for reeleito, vou continuar incentivando o aumento dessa parceria. No caso específico das ações para o Nordeste, tenho colocado todo meu empenho para que tudo se faça de forma a minorar o sofrimento dos mais atingidos pela seca e pela fome. São inúmeros os programas dirigidos a essas populações, mas muito há por fazer. Por isso, vejo como absolutamente fundamental o envolvimento de todos no apoio a ações concretas e no combate a essa dramática situação.
O senhor já se declarou ateu, afirmou ser preciso uma "pitada de candomblé" para governar o Brasil e disse "aleluia" num encontro da Assembleia de Deus em São Paulo, em setembro passado. Afinal, o senhor tem alguma religião?
Para começar, não sou ateu e nunca disse que era. Também não basta apenas declarar a crença em Deus. Crença é uma coisa que se guarda no coração, O que vale é a prática. O mais importante é agir com os sentimentos da fé, da esperança, da solidariedade, da justiça e da fraternidade entre os homens. O que mais fascina na sociedade brasileira é o pluralismo religioso, conjugado com a imensa tolerância do povo na convivência com as diferentes crenças.
Como presidente de todos os brasileiros, independentemente de credo ou raça, cabe a mim respeitar a pluralidade e incentivar a tolerância, com profundo respeito aos símbolos e às crenças deste povo.
Setores católicos e evangélicos criticaram o senhor pelo governo ter abandonado a parte social em detrimento do combate à inflação. Quais são os fundamentos de seu programa de governo, nesta área, para um eventual segundo mandato?
Sempre disse que a estabilidade econômica não é um fim em si mesmo. Ela é a pré-condição para a superação das desigualdades sociais. O Plano Real já deu uma contribuição importante na medida em que permitiu que 13 milhões de brasileiros deixassem a faixa de pobreza nestes quatro anos. Pela primeira vez, também, milhões de brasileiros puderam ter acesso à proteína animal. Há cinco ou seis anos, a inflação era de tal ordem que se tornava impossível pensar em alternativas para o futuro, tamanho o grau de desorganização da economia e da sociedade. A prova de que a estabilidade era um anseio generalizado está não só no fato de que a população me elegeu para tocar este projeto, como, sobretudo, no apoio que ela contínua dando à estabilização. Mas é um equívoco pensar que o governo só cuidou disso.
Mas há quem diga que, com a estabilidade - uma bandeira de seu governo -, o país pagou um preço social muito alto, a começar pela elevação do índice de desemprego. O que o senhor acha disso?
Na educação, meu governo realizou uma verdadeira revolução no ensino fundamental, modificando completamente a atuação do Ministério da Educação, com uma série de projetos que culminaram na bem-sucedida campanha "Toda criança na escola". Em segundo lugar, realizamos o maior programa de reforma agrária de que o país tem notícia: estamos assentando 300 mil famílias - um total superior à meta proposta em 1994. Isso significa dar acesso à terra a um número de famílias maior do que todos os governos anteriores. Além disso, temos o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, o Pronaf, igualmente sem paralelo na história do País. Tivemos também, em quarto lugar, um grande avanço na área de qualificação e requalificação de trabalhadores: em 1994, foram 100 mil os atingidos; este ano, serão treinados e requalificados dois milhões de trabalhadores. Não é verdade, portanto, que meu governo tenha se restringido ao combate à inflação. A economia voltou a crescer estavelmente e, apesar de todas as dificuldades, me orgulho em dizer que, além de obtermos a estabilidade, conseguimos crescer a taxas estáveis e realizar profundas transformações para vencer o desafio imenso do problema social.
Seu governo elegeu as privatizações como um dos carros-chefes destas transformações. A privatização do Sistema Telebrás, ocorrida em agosto passado, pode colocar o poder de definir a política de concessões de canais de comunicação nas mãos de um ou outro grupo. Comenta-se que este é o principal motivo de a Igreja Universal do Reino de Deus, a cujo grupo pertence a Rede Record, ter acenado para seus rivais na campanha para a presidência. O que o senhor acha disso?
A privatização das empresas de telecomunicações foi feita com o objetivo de, primeiro, atrair grupos que possam realizar os investimentos necessários ao setor, a fim de dotar o país de um sistema mais eficiente, mais barato e acessível a todos. Foi um dos maiores negócios do mundo, e as empresas vencedoras se comprometeram com vultosos investimentos no país. Vários benefícios ao consumidor se farão sentir de imediato.
E como é possível garantir que haverá concorrência? Uma das maiores preocupações dos opositores do processo de privatização é a formação de monopólios...
O monopólio acabou. Pela primeira vez, a partir do ano que vem, vamos ter concorrência no setor de telecomunicações com a criação das chamadas empresas-espelhos, que vão concorrer com as atuais concessionárias. É bom deixar claro que o Estado não perdeu sua capacidade de regulamentação. Foi criada a Agência Nacional de Telecomunicações [Anatel], que mantém o poder normativo e regulador e que interferirá sempre que o interesse público assim o exigir.
Mesmo assim, não há o perigo de vir a existir um monopólio privado, em substituição ao monopólio estatal?
Não há riscos de que os interesses de algum grupo prevaleçam sobre os demais e sobre o interesse público, ou de formação de monopólio privado. A Anatel estará atenta a esses aspectos. Além disso, desde o início do governo, sob o comando do ministro Sérgio Motta, cuidamos de dar transparência e seriedade ao processo de concessões e à regulamentação do setor.
Os cinco dedos, que foram a marca registrada de sua campanha de 1994 vão voltar?
Enumerar todas as metas do programa de 1994 e as respectivas ações do governo nestes quatro anos seria muito longo. Algumas já foram mencionadas aqui. Quanto às prioridades simbolizadas pelos cinco dedos, quero dizer que são preocupações permanentes do povo e, portanto, do meu governo também. Certamente, no novo programa, constarão avanços que devemos fazer em saúde, educação, segurança, agricultura, reforma agrária.
O emprego terá atenção maior no seu eventual segundo mandato?
É sobretudo na questão do emprego que pretendo, caso mereça novamente a confiança dos brasileiros e brasileiras, concentrar esforços do próximo mandato para atacar este grave problema. O meu programa de governo procurará articular um conjunto muito grande de ações no combate ao desemprego. Povo e governo juntos, porque juntos soubemos derrotar a inflação, e seremos capazes também de vencer o desemprego.
É possível sintetizar todos os seus projetos numa ideia central? Como seria sua concepção de um Brasil ideal?
O meu programa ainda está sendo amplamente discutido em todo o País. Começamos por divulgar 25 cadernos para mostrar que os compromissos assumidos em 1994 estão sendo cumpridos. Em agosto, divulgamos as metas para um novo mandato e, o que é fundamental destacar, mostramos como e de onde sairão os recursos. Mas, para resumir, esse programa tem um sonho: transformar o Brasil num país mais justo, generoso e solidário no alvorecer do Terceiro Milênio depois de Cristo. Esse sonho está ao alcance de nossas mãos. Resta-nos transformá-lo em realidade (1998).


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Fonte:
Revista Vinde. Ano III - Nº 34 - Setembro de 1998. Editora Vinde. Rio de Janeiro, págs. 12-15.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A singularidade da revolução iraniana

A singularidade da revolução iraniana
A situação econômico-política do Ira do xá apresentava antes de tudo características exclusivas e paradoxais. A fabulosa riqueza oriunda dos impostos do petróleo havia permitido dotar o país densamente povoado de todo tipo de infraestrutura que contava com recursos financeiros para funcionar. As universidades iranianas anteriores a 1979, ao contrário das suas homólogas do Egito e da Síria, não eram pátios onde ficavam estacionados temporariamente os desempregados de amanhã. Os docentes eram pagos de forma decente e nem todos tinham ideia de se expatriar para melhorar o nível de vida; por isso, formaram-se elites capacitadas. Os alunos promissores iam fazer doutorado nos Estados Unidos com bolsas de estudo iranianas. Aliás, os dirigentes e os tecnocratas da república islâmica foram recrutados principalmente entre aqueles diplomados das universidades americanas que haviam deixado crescer a barba.
Apesar disso, bloqueios estruturais impediram que essas elites bem-formadas desempenhassem o papel correspondente às suas próprias qualificações e aspirações. O tacão pesado da ditadura, acompanhado por uma repressão selvagem, interditava toda e qualquer liberdade de expressão, e a monopolização da renda petrolífera e suas bases pelos políticos interessados em negócios que frequentavam a corte imperial, criava uma frustração considerável entre esses jovens diplomados mantidos à margem. De mais a mais, a riqueza do petróleo havia atraído para a periferia urbana grandes massas de moradores da zona rural amontoados nas favelas, numa situação comparável com a do mundo árabe sunita. Serão estes os "deserdados" mobilizados pela revolução islâmica.
A originalidade da situação iraniana também tinha outra causa, ligada às relações existentes entre os clérigos e o poder, diferentes no mundo sunita. No islamismo xiita existe um quase-clero, hierarquizado e dirigido por certo número de doutores da lei aptos a interpretar os textos sagrados a seu gosto. Esse clero tinha a vantagem de ser bastante independente em relação ao regime. No plano financeiro conseguira conservar o usufruto de propriedades imensas, especialmente imóveis, contra a vontade do xá, que tentara em vão arrancá-las deles depois da "revolução branca" de 1963. Em termos ideológicos, a doutrina xiita considera que o detentor do poder só terá legitimidade depois que chegar o imã oculto, isto é, o mahdi, que fará a conquista do mundo "enchendo-o de justiça e verdade, tal como está agora repleto de mentira e injustiça". É ao mahdi, cuja vinda os doutores da lei esperam, que os xiitas devem obediência, mesmo que, por conveniência, temporariamente possam penhorar ao governo empossado uma fidelidade de fachada que o clero, se assim desejar, denuncia quando quiser.
Essa ilegitimidade fundamental do detentor do poder forneceu a Khomeini uma base doutrinal preciosa para exigir a queda do regime do xá. O que detonou a revolução iraniana foi a aliança entre uma parte do clero conduzida por Khomeini e as elites estudantis islamitas frustradas na sua ascensão social e preteridas pelo sistema educacional iraniano de bom nível. Essa aliança revolucionária soube liderar um movimento cujos "deserdados" amontoados nas favelas forneceram os soldados da infantaria, galvanizados pelos mollahs que haviam dado seu aval à revolução.
Embora os iranianos estivessem certos de ver sua revolução se ampliar para todo o mundo muçulmano, só conseguiram fazer um número significativo de seguidores no meio de outra população xiita, do sul do Líbano, cujos militantes pró-khomeinistas do Hizbollah foram recrutados por voluntários vindos de Teerã.


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Fonte:
A Revanche de Deus, por: Gilles Kepel. Tradução: J. E. Smith Caldas. Editora Siciliano. São Paulo, 1992, págs. 42-43.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Não vejo outra saída a não ser a democracia

Não vejo outra saída a não ser a democracia
É ESTRANHO MAS, DESDE aqueles três dias de agosto, cada dia que passa me parece uma semana. Estou acabando de pôr em ordem minhas ideias desde que voltei a Moscou vindo do sul, e só se passou um mês desde o golpe. Apenas um mês, mas quanta coisa aconteceu, quanta coisa mudou desde lá.
O golpe foi esmagado. Os democratas estão comemorando a vitória, mas a vida exige ação, exige decisões muito bem pensadas e não ortodoxas. O povo está insatisfeito com a vida difícil, sentindo que não há meio de melhorar. É aí que mora o perigo. Foi exatamente esse aspecto que os organizadores do golpe tentaram explorar. É por isso que não temos tempo a perder. Precisamos agir, levar adiante o processo de reformas e dar liberdade econômica ao povo, e então ele mesmo terá condições de realizar seu potencial. Temos muito o que aprender — aprender a lidar com política, economia e com a vida do Estado. E sob esse aspecto os democratas ainda estão crus.
Todos nós temos muito o que aprender, para que possamos governar nos moldes da democracia, da política e, principalmente, do pluralismo econômico.
Caso contrário, a paciência do povo se esgotará e então haverá uma incontrolável explosão de descontentamento e desordem: aí sim, poderemos nos preparar para o pior. Não menos perigosa para a realização dos nossos planos seria a reação resultante do cansaço do povo, traduzida em sentimentos de frustração, indiferença e apatia, o que poderia simplesmente bloquear nosso avanço rumo à economia de mercado.
Eu dividiria em dois grupos o conjunto de problemas que nos afligem no momento. Um deles é o grupo dos problemas atuais — abastecimento de alimentos, organização do sistema de distribuição de energia e combustíveis, e solução para a falta de medicamentos. O outro bloco de problemas refere-se à criação de condições para o desenvolvimento da empresa privada e uma efetiva aceleração das reformas econômicas. Só atuando paralelamente na solução de ambos os grupos de problemas é que conseguiremos sobreviver ao inverno e à primavera, obter o efeito desejado com a implementação das reformas e começar a sair da crise.
O mais importante agora é como sobreviver até a primavera, como atravessar o inverno. Todo o resto, exceto estes dois grupos de problemas, é uma questão de avançar mais rapidamente rumo à economia de mercado e estimular a livre empresa.
Mas, para que as reformas tenham êxito, é preciso que o povo acredite nelas. Sem a colaboração do povo, as reformas não sairão do chão, tudo continuará na mesma. Ou então, ao contrário, poderia haver uma forte reação em face da piora das condições de vida, o que constituiria um duro golpe desferido contra a democracia.
Lembro-me de quando, ao voltar de uma reunião com o secretário de Estado dos EUA, fui abordado por um grupo de pessoas e começamos a conversar. O interessante é que ninguém se queixou das dificuldades. Diziam, é claro, que elas não eram poucas, mas que o povo estava disposto a ficar unido, a suportar a experiência e apoiar a política de reformas até o fim. Esse tipo de apoio nos dá forças.
Nossas possibilidades são imensas, e este não é um chavão, um mero clichê. Tenho ouvido esta frase repetidas vezes de estrangeiros que conversam comigo. Eles dizem: vocês têm tudo — um povo culto e imensos recursos materiais — o que lhes dá condições de se tornarem um país rico. E nós temos mesmo de nos tornar um país rico. Repito: temos tudo para isso. Precisamos mudar, e então viveremos de outra maneira.
O que mais me preocupa é saber como viverão nossos filhos e netos, e os jovens que estão hoje com idade entre 15 e 20 anos. É aí que vejo o sentido de meu trabalho, pois, afinal de contas, foi por causa deles que tudo isso começou. As dificuldades não conseguiram nos assustar; sabíamos que haveria problemas sérios e complicados pela frente. Nós nos impusemos um objetivo: fazer com que as pessoas participassem do processo democrático e se sentissem gente de verdade. Isso já aconteceu, e é uma conquista da perestroika.
Mas também devem ser mudados o estilo e as condições de vida. É meu grande desejo que este povo, que tanto fez por esta terra, sentisse que finalmente seu tempo chegou — um tempo de felicidade.
Agora, quando se decide o futuro de nossa grande nação, o que menos penso é em mim mesmo. Por isso que me foi difícil, e ao mesmo tempo fácil, tomar uma decisão quando os conspiradores me apresentaram seu ultimato. Eu já havia feito minha escolha há muito tempo. Conspiradores podem agir sem se preocupar com os meios, mas eu não posso atingir meus objetivos de outro modo... A opção pela democracia me impossibilita de usar outros métodos. Caso contrário, seria uma inevitável repetição do passado, de tudo o que nós condenamos. Por mais complicados que sejam os problemas, eles devem ser resolvidos democraticamente. Não vejo outro caminho que não seja o da democracia.


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Fonte:
O Golpe de Agosto: a verdade e as lições, por: Mikhail Gorbachev. Tradução: Regina Amarante. Editora Best Seller. São Paulo, 1991, págs. 93-96.