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segunda-feira, 18 de julho de 2016

Biografia de Cícero

Notícia Biográfica
Marco Túlio Cícero nasceu em Arpino, no ano 106 a. C. Sua mãe, Hélvia, pertencia a uma família humilde, mas de boa reputação.  Quanto a seu pai, divergem as opiniões dos biógrafos, pretendendo uns que ele tenha nascido na loja de um pisoeiro que o educou, e outros fazendo-o descender de Túlio Átio, que combatera valorosamente contra os romanos.
O nome de Cícero tem uma origem pitoresca: em latim cicer significa "grão-de-bico", e assim fora apelidado um seu antepassado em virtude de ter no nariz uma protuberância cuja forma lembrava a do gravanço. A esse respeito,  respondeu Cícero, quando já homem público, aos amigos que o aconselharam a mudar de nome: "Farei tudo para tornar o nome de Cícero célebre que o de Escauro e o de Catulo". Com efeito, Scaurus e Catulus, nomes de oradores famosos, não têm, em latim, significados menos jocosos: "pé torto" e "cachorrinho"... Mais tarde, quando questor na Sicília, Cícero mandou gravar, num vaso de prata que iria oferecer aos deuses, os seus dois primeiros nomes, Marcus Tullius, e, no lugar do terceiro, um grão-de-bico.
Dotado de excepcionais qualidades literárias e filosóficas, Cícero cultivou todos os gêneros de atividade intelectual, inclusive a poesia, tendo composto, ainda criança, um poema intitulado Pontius Glaucus, no qual descreve a aventura de um pescador da Beócia que, depois de ter comido certa erva, se atirou ao mar transformando-se em deus marinho. Aperfeiçoou de tal maneira a sua cultura e tão notável se revelou a sua eloquência que chegou a ser considerado, não só como o melhor orador, mas ainda como um dos melhores poetas do seu tempo; e note-se que, entre os príncipes da poesia latina, fulguravam nomes como os de Catulo e de Lucrécio.
O primeiro professor de Cícero, logo que terminou os primeiros estudos, foi Filão, o acadêmico, cuja eloquência e cujo caráter eram legítimo motivo de orgulho dos romanos. Ao mesmo tempo, frequentava Cícero a casa de Mudo Cêvola, senador ilustre, em cujo convívio adquiriu um profundo conhecimento das leis. Manteve, igualmente, estreitas relações com os sábios gregos de sua época, com os quais pôde aumentar e enriquecer o seu já precioso cabedal científico.
Depois da morte de Sua, sob cujo governo o jovem Cícero já tinha alcançado um grande renome, decidiu ele abraçar a carreira administrativa. Nomeado questor da Sicília, acabou por merecer do povo tão grandes provas de gratidão como nenhum outro magistrado romano recebera até então. Em toda a Itália, o seu nome se tornou conhecido e venerado. Mas, a sua popularidade culminou quando ele, insurgindo-se contra os desmandos de Verres, que fora pretor na Sicília, produziu os formidáveis discursos que se imortalizaram sob o nome de Verrinas.
Admirado e estimado, possuía amigos por toda parte, não havendo lugar na Itália em que não fossem numerosos. Contudo, a sua vontade e, sobretudo, as frases irônicas e mordazes de que frequentemente usava para ferir os que ousavam fazer-lhe sombra, acarretaram-lhe uma reputação de malignidade. De espírito fino e de um sarcasmo impiedoso, para tudo encontrava Cícero uma saída ou uma resposta.
Irritado com Munácio, porque este, cuja absolvição ele conseguira, demandava contra Sabino, um dos seus amigos, disse-lhe Cícero: - "Estás mesmo pensando, Munácio, que foste absolvido graças à tua inocência, e não à minha eloquência, que ofuscou a luz aos olhos dos juízes?" Como Marco Crasso lhe manifestasse sua estranheza diante de uma censura, quando pouco tempo antes havia sido por ele elogiado, Cícero respondeu-lhe: -"Sim, eu quis experimentar o meu talento num motivo ingrato". Mas tarde, esse mesmo Crasso, querendo reconciliar-se com Cícero, avisou-o de que iria cear com ele; e, algum tempo depois, como alguém lhe comunicasse que Valtínio, com quem ele também brigara, desejava fazer as pazes, disse Cícero: - "Valtínio também quer cear comigo?" Ao verificar, um dia, que era falsa a notícia que correra da morte de Valtínio, exclamou: -"Maldito quem mentiu tão inoportunamente!" A um rapaz que o ameaçava de cobri-lo de injúrias e que, pouco antes, fora acusado de ter envenenado o próprio pai com um bolo, disse Cícero: -"Prefiro tuas injúrias ao teu bolo". A um certo Públio Cota, que se tinha na conta de jurisconsulto, embora ignorante das leis e medíocre, retrucou Cícero, quando aquele, interrogado como testemunha num processo, lhe respondeu que não sabia nada: - "Julgas que te interrogo sobre o direito?!" Como Metelo Nepote, numa discussão acalorada, perguntasse insistentemente a Cícero quem era seu pai, teve esta resposta: "Graças à tua mãe, encontras mais dificuldades do que eu para responder' a essa pergunta". Ao ouvir Marco Ápino dizer, numa defesa, que o amigo que ele defendia lhe recomendara muita exatidão, raciocínio e boa fé, interrompeu-o Cícero: -"E como tens coragem de não fazer nada do que o teu amigo te pediu?" Tendo Verres, cujo filho adolescente era tido como homossexual, chamado Cícero de efeminado, este respondeu-lhe:
- "É uma censura que deves fazer ao teu filho, com as portas fechadas".
Outras vezes, suas frases eram cheias de humorismo, como quando perguntou a Domício, ao cogitar este de dar a um homem pouco inclinado à guerra, cuja honestidade entretanto admirava, um posto qualquer de que não o destinas para educar os teus filhos?" Ou quando, na Espanha, onde combatia ao lado de Pompeu, retrucou a um certo Márcio, que, recém-chegado da Itália, disseram que em Roma corria o boato de que Pompeu estava sitiado:  - "E embarcaste, então, só para vives certificar disso com teus próprios olhos?"
Como Cônsul, o maior triunfo político obtido por Cícero foi a repressão fulminante da conspiração de Caulina, cujos partidários ele mandou prender ,. cm seguida, fez executar em sua presença e na presença de todo o povo. As suas famosas Catilinárias, pronunciadas no senado valeram-lhe o título de "Pai da Pátria". Cícero era, então, o homem mais querido e de maior autoridade em Roma.
A sua estrela, só principiou a empalidecer quando encontrou diante de si, enérgica e impetuosa, a figura de César, futuro ditador. Tendo procedido ingratamente para com Clódio, homem de grande influência a quem devia grande parte de sua força, Cícero acabou perdendo totalmente o seu prestígio: duramente combatido pela aliança de César com Clódio, humilhou-se e, depois de uma série de perseguições, foi exilado. Mas, embora abandonado pelos grandes vultos romanos e mesmo por muitos dos seus velhos amigos, não deixou Cícero de receber, no exílio, testemunhos eloquentes de estima e admiração. Em Dirráquio onde esteve de passagem, foi visitado por grande número de pessoas que, em nome das cidades gregas, iam prestar-lhe homenagem. Por fim, como Clódio se incompatibilizasse com o povo pelas arbitrariedades que praticara, Cícero foi de novo chamado à Itália, tendo sido recebido com grandes manifestações de alegria, depois de ter passado dezessete meses fora do país. Clódio, algum tempo mais tarde, morreu assassinado, e Cícero foi o defensor do assassino, não tendo, porém, conseguido a sua absolvição. Foi nessa ocasião que se indispôs, com Catão, por ter este reprovado asperamente a sua atitude. Todavia, como governador da Cilícia, que lhe coubera por sorte na partilha que fora feita das províncias, a sua excelente administração e, sobretudo, uma vitória militar alcançada sobre os bandidos que assolavam a montanha de Amano, nos limites com a Síria, puderam reabilitá-lo e fazê-lo subir tão alto no conceito dos seus soldados concidadãos, que lhe foi dado o título de imperator e, em Roma, se fizeram preces publicas para agradecer aos deuses o seu esplêndido triunfo.
De regresso da Cilícia esteve Cícero em Rodes e em Atenas, onde visitou os vultos mais eminentes da época e recebeu dos gregos grandes provas de veneração. Chegando a Roma, Cícero encontrou uma situação extremamente grave, minada pelo dissídio entre César e Pompeu. Cheio de ambição e sem saber que partido tomar para satisfazê-la, colocou-se a princípio ao lado de Pompeu, para logo depois, aconselhado por Catão, passar a fazer o jogo de César. Catão, no entanto, não podia fazer o mesmo, por achar que não devia abandonar a causa que abraçara desde o início de sua carreira política. Cícero fez, mais tarde, o elogio de Catão, e César, na resposta que lhe deu, não deixou de louvar-lhe a eloquência e os serviços prestados à pátria. O discurso de Cícero intitula-se Catão, e o de César Anti-Catão.
Conta Plutarco que, tendo Cícero se encarregado da defesa de Quinto Ligário, acusado de ter pegado em armas contra César, disse este aos seus amigos: - "Que impede que deixemos Cícero falar? Há muito tempo que o ouvimos. Quanto ao seu cliente, é um homem mau e meu inimigo: está julgado". No entanto, a defesa feita por Cícero foi tão brilhante que perturbou o próprio César, fazendo-o tremer de emoção, e Ligário foi absolvido.
Instaurada a autocracia de César, retirou-se Cícero da vida pública, passando a ensinar filosofia no seu retiro de Túsculo e só raramente indo a Roma para prestar homenagens ao ditador. Era seu projeto, igualmente, escrever uma história da Itália, mas os múltiplos afazeres e as preocupações domésticas que se seguiram ao seu divórcio, impediram-lhe a realização desse desejo. Separando-se de Terência, sua mulher, casou-se em seguida com Publília, jovem cuja beleza e fortuna o seduziram. Pouco tempo depois, desgostoso com a morte de sua filha Túlia, acabou repudiando a nova mulher, sob o pretexto de que esta se alegrara com o triste acontecimento.
Embora amigo de Bruto, Cícero não participou da conspiração contra César. Morto o ditador, António, que era cônsul, tratou logo de fortificar o seu poder e moveu contra Cícero uma campanha terrível, sobretudo quando este, cheio de ambição, principiou a conspirar com o jovem César Otávio para chegar ao governo. Foi, porém, traído por Otávio, que acabou constituindo um triunvirato com António e Lépido, e os três, de comum acordo, partilharam o império entre si.
Inteiramente abandonado, Cícero e seu irmão Quinto deixaram Túsculo, onde se encontravam em repouso, e partiram para Astira, com o fim de embarcarem, depois, para a Macedônia e se colocarem ao lado de Bruto, cujas forças segundo corria, tinham aumentado consideravelmente. Em meio da viagem, porém, desesperançados e sem provisões, resolveram separar-se devendo Cícero continuar a viagem e Quinto correr à sua casa em busca do necessário. Alguns dias mais tarde, Quinto, pilhado por seus perseguidores, foi mono ao mesmo tempo que seu filho, depois de uma discussão comovente entre ambos, cada qual desejando ser o primeiro a morrer: os carrascos não esperaram que chegassem a um acordo e, separando-os, os degolaram.
Em Ástira, Cícero, encontrando um navio, embarcou e foi até Circeu, mas aí, mudando totalmente de resolução, quis voltar a Roma, onde esperava contar com a benevolência de Otávio. Caminhou a pé alguns quilômetros e, sempre hesitante, tornou ao ponto de onde partira e regressou a Ástira, dirigindo-se, no dia seguinte, para Caieta (hoje Gaeta), onde possuía um domínio. A sua aflição era enorme e, para tirá-lo da situação penosa em que se achava, o seus criados resolveram levá-lo numa liteira em direção ao mar. Foi quando, a meio caminho, chegaram os seus assassinos, Herênio e Popílio, e o degolaram, tendo o próprio Cícero estendido corajosamente a cabeça ao mesmo tempo que pronunciava estas palavras: Moriar in patria saepe servata ("Morra eu na pátria que tantas vezes salvei").
Morreu no ano 43 a.C., aos sessenta e três anos de idade. Entre as as principais obras filosóficas, contam-se as seguintes: De Re Publica, De Officiis, Cato Major, Loelius Seu De Amititia, De Finibus Bonorum et Maloum, Pararadoxa Stoicorum, Tusculunarum Quoestionum, De Natura Deorum, De Divinatione, etc. E entre os seus discursos: In Catilinam, Pro Q. Gallio, Pro A . Cluentio Avito, Pro Lege Manilia, Pro À. Coecina, In Verrem, In Q. Coecilium, Pro Scamandro, Pro C. Mustio, Pro P. Quinctio, Pro Q. Roscio, Pro Murena, Post Reditum ad Quirites, Pro L. Cornelio Balbo, In L. Pisonem, Pro C. Rabirio Posthumo, Pro Q. Ligario, Pro Rege Dejetaro, Pro T. Annio Milone, Pro M. Marcello, Pro C. Planeio, De Provinciis Consularibus, Pro M. Coelio Rufo, Pro Domo Sua, Ad Pontífices, Pro P. Sextio, etc.


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Fonte:
Mestres Pensadores: Cícero - Da República. Editora Escala. Tradução: Amador Cisneiros. São Paulo, s/d, págs. 9-13.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"Et in Arcadia Ego"

"Et in Arcadia Ego"
Nas "arcádicas" Éclogas de Virgílio há um poema em que dois pastores trocam canções para assinalar a morte do arquetípico cantor mítico Dafne, que os inspira. A segunda dessas canções, que constitui a segunda parte do poema, eleva Dafne às estrelas, onde ele cruza o limiar do Olimpo para juntar-se aos deuses, começando então nova era de paz para os campos, eternamente gratos. A canção promete louvor até que o tempo estanque. O primeiro cantor chora a prematura passagem do jovem Dafne, celebra seus ensinamentos e lamenta a devastação do campo. Sua nênia termina, no meio do poema de Virgílio, com a construção de um túmulo para Dafne e um epitáfio a ser inscrito ali. Este poemeto é uma canção dentro da canção do pastor, ela mesma inscrita na cancão-poema de Virgílio:
DAPHNIS ECO IN SILVIS HINC USQUE AD SIDERA NOTUS
 FORMOSl PECORIS CUSTOS, FORMOSIOR IPSE.
EU, DAFNE, CONHECIDO NA FLORESTA DAQUI
ÀS ESTRELAS,
PASTOR DE
FORMOSO REBANHO E AINDA MAIS
FORMOSO PASTOR.
Em Roma, no início do século XVII, um cardeal humanista que mais tarde se tornaria papa com o nome de Clemente IX inspirou-se na orgulhosa fragilidade desse epitáfio e rivalizou com sua persistente incompletude gramatical ao cunhar a frase proverbial que dá título a este capítulo: ET IN ARCÁDIA EGO (as palavras dizem literalmente: E/ATÉ NA ARCÁDIA EU) cativou desde então a imaginação de artistas c poetas em toda a cultura ocidental. O caso, como veremos, é de morte e paraíso. Trata-se de uma imagem clássica da nossa inclusão no — e de nossa exclusão do — passado. Ao mesmo tempo, é uma imagem clássica da inclusão e exclusão do mundo clássico no e do mundo arcádico que ele deslocou, esqueceu e depois lembrou, quando estava virtualmente perdido. Sim, queremos que os leitores refluam o que essa eliqueia em latim está fazendo no título deste último capítulo. Em 1786, o polígrafo e classicista Goethe (Johann Wolfgang von Goethe, então com 37 anos) abandonou seu cargo no governo de Weimar para uma viagem de dois anos pela Itália, onde viveu um intenso despertar, acompanhado de febril eclosão literária. Essa experiência e o impulso que deu a sua vida são narrados em Viagens pela Itália, com pungente capítulo intitulado Auch ich in Arkadien ("Também eu na Arcádia", versão alemã da famosa frase). Agora um entusiástico colecionador de lembranças e objetos clássicos, ele verteu rios de Elegias romanas para sua jovem amante Christiane, que encontrou, no regresso da Itália, trabalhando — nada mais adequado — numa fábrica de flores artificiais. Goethe continuou a representar o papel de funcionário dedicado, mas seu coração estava sempre a infinita distância da rotina de príncipes e guerras revolucionárias e contrarrevolucionárias da Europa central. No curso de sua longa vida ele iria inspirar a tendência helenística do romantismo, que fez jovens partirem para redescobrir e suspirar pela paisagem grega, pelos vestígios e ruínas do passado — entre eles Byron e Cockerell com seu grupo. Goethe também não deixa de assinalar sua ligação romântica e nostálgica com o mundo clássico no título desse capítulo.
Uma versão posterior dessa nostalgia aparece na tradição do jovem e insensato libertino que faz das suas e, mais tarde, sentimental, recorda com saudades a juventude perdida. A frase lapidar do cardeal traduz essa ideia para o século XX quando, por exemplo, os rapazes de Oxford no romance Brideshead Revisited, de Evelyn Waugh, fazem macaquices pelos quartos com um crânio que leva na testa a inscrição ET IN ARCÁDIA EGO (que é também o título do "Livro Um" do romance). Pensavam estar zombando de um velho clichê, mas na retrospectiva que o narrador Charles Ryder faz da Idade Média a frase sinistra acaba zombando deles, do clichê em que se transformara de repente a sua vida. Coloquemos o círculo de amizade do segundo filho de lorde Marchmain, Sebastian Flyte, no contexto do romance em 1945, ao término da Segunda Guerra Mundial, e poderemos saborear a arcádica ironia quando um esteta amigo do grupo, Anthony B.H. Blanche, recita para os rapazes versos clássicos de desespero de A terra devastada, de T.S. Eliot. Tudo os ultrapassara, nada fazia caso deles.
Muitas das mais famosas explorações da famosa frase foram, no entanto, na pintura. A mais famosa de todas é Na Arcádia, do mestre Nicolas Poussin, encomendada pelo mesmo cardeal que cunhou a frase. A tela mostra um grupo de jovens árcades reunidos em volta de uma lápide tumular, examinando atentamente as palavras mal decifráveis nela inscritas — aparentemente transmitindo o que conseguem ler a uma majestosa figura feminina ao lado. Mas por ora concentremo-nos em uma pintura posterior, um quadro que introduziu o gênero  na arte britânica: o retrato das sras. Bouverie e Crewe pintado por sir Joshua Reynolds em 1769.
Reynolds faz uma das senhoras apontar de forma indagadora a inscrição numa lápide, enquanto a outra a examina em profunda contemplação: ET IN ARCÁDIA EGO ataca novamente. A tela fazia parte de uma das primeiras fornadas de quadros do Reynolds como presidente da Real Academia (instituição que fora idealizada por ele e acabara de ser formalmente criada em 1768 com o objetivo de organizar a educação artística da alta sociedade britânica). Coma se que ele mostrou o quadro ao amigo Johnson (primeiro professor de literatura antiga da Real Academia, a partir de 1770) e que este fitou intrigado, achando "sem sentido [a frase] 'estou na Arcádia'". O que aquilo queria dizer? O artista replicou que o rei Jorge III tinha imediatamente captado o sentido no dia anterior: "Ai, ai", exclamara, "a morte está até na Arcádia."
Essa instrutiva anedota mostra que o lema proverbial é mais do que gramaticalmente incompleto. Seu significado deve ser fornecido, seja por quem o recita, seja pelos que o ouvem ou leem ou por ambas as partes. Por um lado, há o alegre entusiasmo que Goethe orgulhosamente proclamaria: na sua versão, encarou o EGO como referindo-se a si mesmo, imaginou um verbo na primeira pessoa e produziu o significado EU TAMBÉM ESTIVE NA ARCÁDIA — querendo dizer EU TAMBÉM ESTIVE NO PARAÍSO. Isso redunda numa nostalgia romântica que situa lembranças da arcádica bem-aventurança acima da melancolia do presente. O dr. Johnson, por outro lado, representa o papel que lhe é atribuído, de crítico acadêmico obcecado por palavras (afinal, é de sua autoria o primeiro dicionário sistemático da língua inglesa) e cego para o significado pictórico. Não conseguiu ver na tela nenhum dos sinais que levaram o rei (condenado a uma longa caduquice, à demência senil) a perceber de imediato que havia alguém mais a quem o EGO da inscrição podia se referir.
A voz, na visão do rei, vem da tumba. Deve ser, portanto, a Morte falando: ATÉ NO PARAÍSO ESTOU. Assim, NÃO HA COMO ESCAPAR DA MORTE - MESMO NA ARCÁDIA. Essa interpretação tem a vantagem de combinar com a colocação da frase no túmulo. E também constrói corretamente o latim (acrescentando SUM, SOU, ESTOU). Mas o quadro não quer apenas que captemos o sentido e pronto, podendo então partir com mais um memento mori para a nossa coleção de ditos clássicos. Em primeiro lugar, deveríamos também nos lembrar do Dafne morto das Éclogas de Virgílio quando lemos essa frase e contemplar a ele como o EGO. Se o pastor morto está dizendo ATÉ NA ARCÁDIA FUI, então o sentido deve ser: MESMO NA ARCÁDIA, ONDE VIVI, ENCONTREI A MORTE E AÇORA JÁ NÃO SOU. (Acrescentar FUI, no sentido de ESTOU MORTO, também é correto em latim.) Mesmo o mais encantador dos pastores, o mais adorável cantor, é mortal; e assim temos todos que morrer um dia.
Cada leitura dessas quatro palavras latinas, aparentemente simples, é problemática. E é isso, na verdade, que nos diz o quadro. Pois a cena que Poussin concebeu e Reynolds tomou emprestado para inaugurar um respeitoso classicismo investigador na cultura britânica tem muito a ver com a origem de um provérbio segundo o qual não se deve tomar o escrito como certo. Uma das damas de Reynolds precisa que a outra interprete para ela a inscrição na tumba: sua companheira pode muito bem entender, mas pode também estar atrapalhada — ou ainda tentando decifrar. Seja qual for o caso, a diferença entre as duas figuras no quadro leva os que o observam a perceber como a dificuldade de ler intervém entre nós e o significado da tela.
Para saber o que a pintura contém, o observador deve reconhecer que o quadro dramatiza a fórmula ET IN ARCÁDIA EGO. Para saber o que a tumba contém, estas senhoras na tela têm que ler sua inscrição e, particularmente, têm que conhecer uni pouco de latim. Mas têm que conhecer também que gênero de pintura é esse. Pois estão fazendo o papel dos pastores árcades de Poussin, que apontam as letras no túmulo deles para outra imponente espectadora. Dificilmente alguém esperaria encontrar pastores alfabetizados na Arcádia; no entanto, a Arcádia é essencialmente o nosso conhecido "alhures" virgiliano — e conhecido também das damas de Reynolds — dos textos poéticos clássicos. E entre esses textos, como vimos no início deste capítulo, está aquele destinado ao túmulo de Dafne.
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Fonte:
Antiguidade Clássica, por: Mary Beard e John Henderson.  Tradução: Marcus Penchel. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 1995, págs. 139-145.