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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Algumas facções judaicas

Algumas facções judaicas
Essênios: Esperavam para breve o Juízo Final. Embora houvesse uma facção celibatária, alguns essênios casavam-se apenas para procriar. Contrários à forma como era praticada a religião no Templo de Jerusalém, recusavam o sacrifício de animais e rejeitavam a prática de juramentos para reforçar suas afirmações. Praticavam banhos e banquetes rituais e defendiam a vida em comunidade, a partilha dos bens e a dedicação ao estudo e à oração.
Fariseus: Flexíveis na interpretação das escrituras, valorizavam a erudição, questionavam a tradição e adaptavam as leis às circunstâncias. Pacifistas, reformaram a tradição judaica que sobreviveu ao massacre por Roma. Acreditavam na alma imortal e na ressurreição, mas não eram messiânicos ou apocalípticos: para eles, o Reino de Deus deveria ser realizado no presente, sem aguardar por uma vida futura.
Zelotas: De origem sacerdotal, eles pregavam a expulsão dos romanos e a morte dos judeus que colaboravam com o invasor, chegando a matar os que se casavam com mulheres pagãs. Desencadearam a revolta contra os romanos que levou à Guerra Judaica (66-70 d.C.). Entre os seguidores de Jesus, Pedro, Judas e seu irmão Tiago teriam sido zelotas.
Sicários: "Homens com punhal", partilhavam das mesmas crenças dos fariseus, mas viam a guerrilha contra Roma como um preparo de ações maiores a serem realizadas na chegada do Reino de Deus.
Saduceus: Aristocráticos, estavam sempre ao lado de quem detinha o poder. Dominavam os serviços religiosos no Templo em Jerusalém, e interpretavam literalmente as leis. Reconheciam como válidas apenas as escrituras sagradas, negavam a imortalidade da alma e a ressurreição no Juízo Final.


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Fonte:
Revista Galileu. Ano 11 - Nº 128 - Março de 2002. Editora Globo. Rio de Janeiro, pág. 33.

A Grande Pirâmide de Gize

A Grande Pirâmide de Gize
Por: Maria Dolores Duarte
A mais antiga maravilha é a única que ainda está de pé
A Grande Pirâmide de Gize, no Egito, é a mais antiga das Sete Maravilhas do mundo antigo — e a única que ainda existe. Erguida em 2550 a.C., foi trabalho para muita gente. Estima-se que 100 mil homens tenham participado de sua construção, que levou cerca de 20 anos. Eram homens livres, pagos muitas vezes com comida e cerveja.
Três construções formam o complexo conhecido como Pirâmides de Gize. Mas apenas a maior, a Grande Pirâmide, é considerada uma das maravilhas. Ela foi construída pelo faraó Quéops (seu nome egípcio era Khufu; Quéops é o nome grego, mais famoso) para ser sua tumba, no platô de Gize, perto do Cairo. Suas dimensões são monumentais: 137 metros de altura — originalmente eram 147 — e 227 metros em cada lado da base. Ela foi a construção mais alta do mundo até a Torre Eiffel, em Paris, ser inaugurada, em 1889.
"As pirâmides eram obras nacionais, que reuniam todo o Egito, o que ajudava na unificação política", diz o egiptólogo António Brancaglion, do Museu Nacional do Rio de Janeiro. "Existia, inclusive, uma espécie de fundação que geria os recursos destinados aos salários e materiais necessários para sua construção e manutenção."

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Fonte:
Revista Aventuras na História. Edição 45 - Maio de 2007. Editora Abril. São Paulo, pág. 22.

Quando a lente de contato foi inventada?

Quando a lente de contato foi inventada?
A ideia da lente é muito mais antiga que o produto. Em 1508, Leonardo da Vinci imaginou que uma lente corretiva aplicada diretamente na superfície do olho resolveria problemas de visão. Nascia seu conceito, que foi aperfeiçoado ao longo do tempo. Em 1632, René Descartes teve a mesma ideia. Mas só em 1887 o fabricante de peças éticas F.E. Muller e, um ano depois, o médico suíço Adolf Eugen Fick conseguiram transformar as lentes em realidade, produzindo modelos feitos de vidro. Elas, porém, não tiveram lá muita utilidade, pois machucavam o olho.
Em 1929, o oftalmologista William Feinbloom, de Nova York, fabricou uma lente mista de plástico e vidro. Era enorme e dura. No fim dos anos 40, começaram a aparecer no mercado lentes menores feitas de plástico rígido, como as do ótico americano Kevin Tuohy, em 1948.
Foi só em 1971 que a Bausch & Lomb lançou no mercado americano o primeiro modelo de lente gelatinosa, mais maleável e confortável. Já a primeira lente descartável surgiu em 1995. Apesar de todas as novidades, o bom e velho par de óculos segue soberano na preferência dos míopes e portadores de astigmatismo. Nos Estados Unidos, apenas 10% das pessoas que precisam de correção visual usam lentes de contato. No Brasil, apenas 1%.


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Fonte:
Revista Aventuras na História. Edição 53 - Dezembro de 2007. Editora Abril. São Paulo, pág. 10.

O que é o Purgatório

Purgatório
Por: Lívia Lombardo
Só havia duas opções: ou ser quase santo e ir para o céu ou queimar no fogo do inferno
Céu e inferno. Para os cristãos de até meados do século 12, esses eram os únicos destinos das almas após a morte. Os bons, que haviam levado uma vida casta e santa, iriam para o céu. Os maus e pecadores estariam condenados ao inferno e a todas as penas ali presentes, descritas no Apocalipse da Bíblia como sendo a fome, a sede, o frio, o calor, os vermes, o mau cheiro e o fumo. Temendo esse fim, as pessoas iam mais à Igreja, se esforçavam para seguir à risca o que os padres pregavam, faziam penitências.
Mas e aqueles que não eram nem totalmente bons nem completamente maus? A ideia de salvação começou a ser desenhada algum tempo antes, no século 4, pelo teólogo Aurélio Agostinho - mais tarde, Santo Agostinho.
Para ele, os que estavam mais inclinados para a maldade tinham como destino o inferno, mas teriam a chance, por meio das orações dos vivos, de amenizar seu sofrimento. Já aqueles que não haviam sido inteiramente bons passariam por uma purgação para, talvez, alcançar o paraíso. Na época, o purgatório não era um lugar, mas uma ideia de salvação. A imagem dele como um "além" intermediário só se instalou na cristandade entre 1150 e 1250.
Bem antes de os cristãos inventarem o purgatório, outras religiões já possuíam a crença em um lugar intermediário, onde os que cometeram pecados leves poderiam se redimir de seus erros. Na índia do século 6 a.C., por exemplo, os mortos tinham três destinos distintos.
Os justos seriam conduzidos a um mundo de luz. Os maus sofreriam renascimentos de punição, sob a forma de vermes ou insetos, até caírem no inferno. Já os que levaram uma vida intermediária passariam por um período de trevas, seriam comidos pelos deuses e iniciariam um ciclo de renascimentos de perfeição até atingirem o paraíso. Já para os judeus antigos, existia uma categoria composta por homens nem bons nem maus. Eles sofreriam um castigo temporário após a morte, para alcançarem o éden.


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Fonte:
Revista Aventuras na História. Edição 43 - Março de 2007. Editora Abril. São Paulo, pág. 18.

sábado, 30 de julho de 2016

Quem foi Rasputin?

Rasputin
Por: Leandro Sarmatz
O monge louco". Foi com esse apelido funesto que o monge russo Grigori Yefimovich Novykh, nascido em 1872 e morto em 1916, entrou para a história universal da infâmia. Analfabeto, longas barbas, ar sombrio (alguém aí notou como o hippie doidão Charles Manson, assassino da atriz Sharon Tate em 1969, é a cara dele?), Novykh, ou "Rasputin" - "o depravado", em russo - gozou de raríssimos privilégios junto à corte do czar Nicolau II, o último a reinar .sobre a Rússia. Mandava e desmandava. Dava conselhos. Impunha sua vontade. Nada mal para quem amargara uma infância paupérrima e obscura na enregelante Sibéria.
Pouco se sabe, aliás, sobre a trajetória de Rasputin durante seus primeiros 40 anos de vida: uma viagem ao Oriente Médio, um casamento, algumas peregrinações. Sabe-se que era membro da seita Khlisti, banida pela Igreja Ortodoxa por pregar que todos os desejos dos homens deveriam  ser satisfeitos. O certo é que ele começou a palmilhar o caminho para a duvidosa   fama   em 1908. Foi nesse ano que o czar, desesperado com as constantes crises hemorrágicas do filho hemofílico Aleksei - que médico algum conseguia curar -, resolveu   apelar   para   aquele curandeiro que frequentava os salões do seu palácio. No início, Nicolau II chegou a desconfiar de Rasputin. O czar temia que a notícia sobre a hemofilia do herdeiro da coroa chegasse aos ouvidos da população e prejudicasse a aceitação do jovem Aleksei. (Que, na verdade, nunca chegou a subir ao trono, porque em 1917 seu pai foi deposto pela Revolução Russa.) O fato é que Rasputin conseguiu debelar o mal do herdeiro — provavelmente obra do acaso, mas que foi encarada como um milagre." Era a consagração. A partir desse episódio, os Romanov definitivamente estavam no bolso do "monge louco".
Eufórica com os bons resultados operados sobre a saúde do filho, a imperatriz Alexandra passou a confiar cegamente em Rasputin. Descobertas recentes, divulgadas no livro Rasputin: A Última Palavra, do escritor russo Edvard Radzinsky, sugerem inclusive um tórrido romance entre o monge e a imperatriz. Só para se ter uma ideia do alcance da sua influência, ele tinha poderes suficientes dentro da corte para nomear cargos do primeiro escalão do governo e indicava quase sempre uma gente inepta que não conseguia exercer corretamente suas funções.
Rasputin circulava livremente pelas altas-rodas da corte russa. E seus ares de homem santo não conseguiam esconder de ninguém as noites passadas em orgias regadas a hectolitros de vodca, o assunto predileto de todo mundo naquela Rússia sem revistas de fofocas. Tudo isso começou a irritara nobreza russa. Ninguém conseguia tolerar os poderes delegados àquele monge analfabeto e dissoluto. Inclusive porque, cochichavam alguns membros do governo, o predileto da imperatriz Alexandra conspirava com a Alemanha.
A gota d'água veio com o início da Primeira Guerra Mundial. Com o czar Nicolau It na frente de combate, Rasputin virou uma espécie de primeiro-ministro. Todas as decisões passavam pelo seu crivo delirante e místico. Um grupo de nobres resolveu planejar seu assassinato. Em 28 de dezembro de 1916, o príncipe lussupov e mais um punhado de membros da nobreza atraíram Rasputin para um jantar. Foi-lhe servido chocolate "batizado" com veneno. (Daí o nome do drinque que até hoje é servido em alguns bares: "Vingança de Rasputin", com vodca e creme de cacau...) Aparentemente a dose era pequena. Rasputin resistiu. Seus algozes, então, passaram a disparar com revólver e a atacá-lo com punhais. Mas o danado não morria, inconformados, seus assassinos o enfiaram num saco e o arremessaram às águas frias do Neva, o rio que banha São Petersburgo. Era o fim do "monge louco".

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Fonte:
Revista Superinteressante. Edição 167. Fevereiro de 2002. Editora Abril. São Paulo, pág. 24.

Quem são os Judeus messiânicos?

Quem são os Judeus messiânicos?
Por: Adriana Reis
Surgido há cerca de vinte anos nos Estados Unidos, o movimento judaico-messiânico congrega os judeus que acreditam que Cristo é o Messias anunciado nos textos sagrados. Ancorado em grupos como o Jews for Jesus (Judeus para Jesus), os messiânicos propõem o que, segundo eles, seria uma volta às origens do Judaísmo e do Cristianismo primitivo: a união de símbolos, rituais e costumes judaicos com a veneração de Jesus como o Messias. O problema é que justamente na base dessa proposta doutrinária repousa um paradoxo de difícil solução: a união do Cristo Messias com o Judaísmo. Explica-se.
Um dos pilares da fé judaica é a crença na vinda do Messias, ao contrário dos cristãos, que professam que Ele já se manifestou, na figura de Jesus. Ou seja, ao afirmarem-se como judeus, mas ao mesmo tempo defenderem que o Salvador já veio, expõem uma indefinição inerente ao movimento. Segundo os estudiosos, o grupo seria, em si mesmo, contraditório, pois as duas ideias são inconciliáveis. "O Judaísmo e a ideia de Cristo como o Messias são excludentes entre si", afirma o teólogo Sandro Bussinger, da Igreja Reformada de Belo Horizonte. "A cosmovisão, a exegese, a teologia e a ecleseologia são diferentes entre os judeus autênticos e os messiânicos."
Alheios à polêmica, enquanto pregam o caráter messiânico de Jesus, os seguidores do movimento pautam sua vida segundo os princípios dos judeus tradicionais: seguem os preceitos estabelecidos pela Torá — o livro sagrado do Judaísmo —, guardam o sábado, não comem carne de porco e fazem a circuncisão de seus filhos. Segundo afirmam, ao aceitar Cristo como Messias eles não estariam se convertendo ao Cristianismo, mas, antes, tornando-se judeus legítimos. "Buscamos seguir o princípio da lei judaica para nos realizarmos como judeus verdadeiros", diz o rabino messiânico Marcelo Guimarães, de Belo Horizonte.
O movimento, contudo, não é reconhecido pelos judeus tradicionais. "Não os consideramos como parte da comunidade judaica", afirma o rabino Leonardo Alanati, da Congregação Israelita Mineira. "Como judeus, não cremos que o Messias já tenha surgido, pois, quando isso acontecer, a Terra voltará à sua condição paradisíaca, sem guerras, pobreza ou injustiça social, com a natureza no mais perfeito equilíbrio. E todos podemos ver que isso ainda não aconteceu." Os judeus messiânicos, por sua vez, discordam dessa avaliação. "Nosso movimento é autenticamente um Judaísmo bíblico, pois considera o pai Abraão, Moisés, David, os profetas, assim como os judeus", afirma Marcelo Guimarães.
Seja como for, o movimento conta hoje com cerca de 1,5 milhão de seguidores no mundo, concentrados principalmente nos Estados Unidos, onde fica a sede da Union of Messianic Jewish Congregations, que reúne todas as congregações judaicas messiânicas no mundo. No Brasil, onde chegou há cerca de dez anos, são em torno de l 300 integrantes, segundo o último levantamento realizado pelo movimento.


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Fonte:
Revista das Religiões. Edição 12 - Agosto de 2004. Editora Abril. São Paulo, pág. 10.

Origem do Cabide

Cabide
Por: Juliana Parente
Ele tem 4 mil anos, mas já foi trocado por baús por conta da moda medieval
O cabide tem mais de 4 mil anos, mas continua com a mesma carinha. Na primeira imagem que se conhece do acessório, ele está nas mãos da deusa Atena, grafado numa ânfora de 250 a.C. - e é bem parecido com o que a gente tem em casa. Hieróglifos extraídos de um sarcófago de 2000 a.C., atualmente em exposição no Museu do Cairo, já faziam referência ao objeto, presente no cotidiano das rainhas e dos reis egípcios.
O uso do cabide, no entanto, era diferente. A ideia não era manter a roupa pendurada, facilitando a escolha. Eles eram usados apenas como um recurso para ajudar a preservar as túnicas, cerzidas em tecidos muito delicados, como a seda. Dispostos na vertical e em local ventilado, os trajes acabavam durando mais. Durante a Idade Média, porém, os cabides desapareceram. Como a moda era usar uma roupa que mais parecia um carnisolão de lã, linho ou algodão, que não precisava de cuidados especiais, tudo era mantido em arcas. Segundo o historiador Philippe Ariès em A História da Vida Privada, a situação só começaria a mudar a partir do século 14, quando os móveis ganham um caráter mais permanente. Aos poucos, os baús passaram a ser tidos como objetos de arte até o momento em que, finalmente, cederiam lugar ao guarda-roupa, com suas prateleiras e suportes para pendurar.
Daí à popularização dos cabides, porém, foi uma longa jornada. Em 1903, o canadense Albert Parkhouse inventou o modelo mais popular já produzido até então. Segundo o Museu do Cabide (acervo online montado pela Auburn University, no Alabama), o departamento de patentes americano registrou cerca de 200 versões de penduradores na primeira década do século 20: para camisas, saias, casacos, modelos dobráveis e mais toda a sorte de variações que as necessidades puderam sugerir.


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Fonte:
Revista Aventuras na História. Edição 41 - Janeiro de 2007. Editora Abril. São Paulo, pág.18.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Nossa Televisão está com defeito (1967)

Nossa Televisão está com defeito
 Sentados no chão da sala, os dois meninos assistem ao filme de mocinho. São seis e meia da tarde. Eles chegaram há pouco da escola e ainda vestem uniforme. As lancheiras e os cadernos descansam sobre uma poltrona. Na cozinha, preparando o jantar, a mãe está atenta aos sons que vêm da sala: dentro de alguns minutos começa a primeira novela.
O pai também chegou, faz cinco minutos. Está tomando banho e se demorar muito é possível que jante sozinho, com o que já se acostumou, assim como se acostumou com outras coisas: as crianças param mais em casa, a mulher não faz muita questão de visitar as amigas, e ele precisa ter sempre alguma coisinha para fazer depois do jantar, pois em dia de semana o chamado horário nobre da televisão dedica metade do tempo às novelas e aos anúncios. Até dois anos atrás, antes de comprar o televisor, eles costumavam jantar juntos, sem pressa, conversando — a mulher sobre os filhos, os filhos sobre a escola. Algumas vezes iam visitar os parentes, outras vezes iam ao cinema. Hoje isto acontece raramente, aos sábados ou domingos. A televisão mudou os hábitos da família brasileira.
A televisão — o maior instrumento de comunicação entre os homens. Há apenas 45 anos, atravessar o Atlântico por ar, ligando Portugal ao Brasil, foi uma aventura que dois portugueses — Sacadura Cabral e Gago Coutinho — realizaram em mais de dois meses e sem testemunhas dos riscos que passaram, num hidroavião e fazendo amerissagens forçadas no mar.

Documentário velho no lugar da notícia
Hoje, sentadas em suas salas de visita, milhões de pessoas veem os astronautas saindo de suas cápsulas em pleno espaço. Depois de ligar os continentes, por intermédio de satélites, a televisão põe o cosmo diante do homem. E, acompanhando os avanços da tecnologia, ela se prepara para novos aperfeiçoamentos. Nos Estados Unidos e Europa a transmissão de espetáculos em cores já existe em escala comercial. Mais um pouco, e o homem não dependerá mais de horário para assistir ao seu programa preferido. Um aparelho, recém-inventado e pronto para ser produzido a baixo custo, poderá ser ligado ao televisor e gravar numa fita magnética os programas desejados, enquanto se recebe visitas ou se vai às compras.
No Brasil, porém, estamos longe de bem usar a televisão. No Texas, em fins de 1963, as câmeras estavam presentes quando Lee Oswald era transportado de uma prisão para outra e, assim, milhões de americanos viram-no morrer assassinado por Jack Ruby com um tiro no estômago. No Japão, um líder socialista é esfaqueado por um fanático religioso durante uma convenção política e todo o país assiste ao crime: a TV estava transmitindo. No Brasil, no instante em que o governador deposto de São Paulo regressava ao país, a TV transmitia receitas de bolo e documentários de 20 anos. Margot Fonteyn, uma das maiores bailarinas do mundo, esteve no Brasil, e a tevê recusou-se a pagar 15 mil cruzeiros novos para mostrar sua arte ao público. Chico Buarque e Nara Leão emocionaram o país inteiro com "A Banda", batendo recordes de venda de discos, e tudo quanto a televisão tirou desse sucesso, que ela mesma favorecera, foi um programa que se esvaziou a curto prazo.
Nossa televisão informa mal, diverte menos ainda e é insensível à cultura. Produções inteligentes e boas coberturas são raras. Hoje, a TV passa pela pior crise de seus 17 anos de vida. Um levantamento do sindicato dos artistas estimava em cerca de 700 milhões de cruzeiros velhos o total de salários atrasados em São Paulo, no mês de abril passado. Só a Record estava em dia. No Rio, os cálculos para o mesmo mês iam a um bilhão em atrasados. — No Brasil, tudo está errado desde o começo — diz Walter Clark, diretor-geral da TV Globo, da Guanabara.
E como começou? A televisão transmite as imagens por faixas de ondas-canais — que existem em número limitado. Por isso, estas faixas "pertencem" ao Estado. Na Europa quase toda e nos países do bloco socialista, é o próprio Estado que as utiliza. No resto do mundo, elas são entregues a empresas que as queiram explorar. No Brasil, o governo distribui os canais de graça. Apenas exige, de quem os recebe, o compromisso de explorá-los no interesse público. O Conselho Nacional de Telecomunicações (Contei) encarrega-se de fiscalizar. Com um detalhe: segundo o mesmo Walter Clark, muitos deles foram concedidos "apenas para atender a interesses políticos". Resultado: ha televisão demais no Brasil.
A área metropolitana de Nova Iorque por exemplo, tem um canal para cada 2 milhões e 200 mil habitantes, enquanto a grande São Paulo tem dois canais para o mesmo número de pessoas; e Belo Horizonte, com um milhão de habitantes, já ganhou quatro canais.
Esta distribuição de concessões sem muito critério trouxe problemas. O principal deles é econômico. Nos países em que o Estado explora a TV, os recursos vêm de uma taxa cobrada dos proprietários de aparelhos televisores. Na Itália, onde há cerca de sete milhões de aparelhos, cada um contribui para o 'Estado com 36 cruzeiros novos por ano; na Bélgica, essa taxa é de 34 cruzeiros novos; na Inglaterra, de 26.
No Brasil, porém, quem sustenta a televisão é o indiozinho camarada que faz biscoito ou o esquimó que vende geladeiras: são as milhares de mensagens comerciais que aparecem no vídeo o dia inteiro. Nos Estados Unidos, em 1965, foram empregados mais de 5 trilhões de cruzeiros velhos (2,5 bilhões de dólares) em publicidade na TV. No Brasil, no mesmo ano, as 38 emissoras existentes não faturaram mais que cem bilhões de cruzeiros. Os canais, portanto, são muitos para as verbas de publicidade existentes.
Assim, as emissoras precisam brigar com todas as armas por esse "pouco" dinheiro. Como aos anunciantes interessa atingir o maior número de pessoas, a grande batalha é a da audiência. Ao lado, disso, o preço do tempo vendido aos anunciantes é mantido baixo por uma concorrência feroz. Em São Paulo, uma organização de corretagem chegou a vender o tempo das emissoras a crédito, com descontos de até 50% sobre os preços de tabela, dando ainda de presente a produção dos comerciais necessários. Ainda hoje, um grande anunciaste pode comprar tempo na TV por até um quarto do preço de tabela. E o patrocínio exclusivo de programas praticamente não existe mais.
— Oitenta por cento de nossa receita de publicidade, hoje, vem dos anúncios por intervalo — diz Fernando Severino, diretor-comercial da TV Tupi, de São Paulo.
O anunciante não se arrisca a empregar toda a verba num programa que ele não sabe se alcançará boa audiência. Por isso anuncia nos intervalos. E já que os preços são baixos, as emissoras precisam do maior número possível de anúncios. Cada vez que um artista canta uma música, é necessário um comercial para pagar o tempo gasto. Assim, um programa, para ir ao ar, precisa encontrar no mínimo 14 anunciantes. O canal-7, São Paulo, já chegou até a 19 anunciantes por programa.
Esta emissora paulista, durante uma semana de abril último, colocou no ar 2.482 mensagens comerciais, média de uma mensagem cada dois minutos.
No Rio, acontece a mesma coisa. Apenas a TV Globo mantém algum respeito pela tabela de preços, enquanto as outras vendem o seu tempo com grandes descontos. Os anunciantes perdem com isso. A Frigidaire, há algum tempo, fez um filme de 45 segundos que custou 10 milhões de cruzeiros e agora arrisca-se a vê-lo empurrado no vídeo junto com outras 14 mensagens, a maior parte das vezes de baixo nível técnico, cansativas.
— O que se faz nessa área é um crime contra o anunciante e contra o público — diz o gerente-comercial de uma grande agência de publicidade.
Recentemente, uma portaria do Contei limitou a 15 minutos por hora o máximo de propaganda comercial pela TV. A fiscalização, porém, cabe ao Departamento de Correios e Telégrafos, que no início tentou agir com algum rigor. Pouco tempo depois, o diretor de uma emissora paulista dizia que não poderia obedecer à determinação do Contei, porque as concorrentes não o faziam, e o DCT não fiscaliza "porque não tem verbas para comprar os televisores de que necessita".
Daí, a avalanche de comerciais, tão grande que os publicitários gostam de contar a história do telespectador que chegou ao fim da noite certo de que "para a limpeza dos dentes, o melhor é Alka-Seltzer, que contém o aditivo ICA, com ação detergente e gostinho de uva gelada".

"Não faço programa para a classe A"
Sem dinheiro e com o tempo tomado pelos comerciais, a programação raramente supera o nível da mediocridade. É verdade que a televisão se dirige ao grande público, mas esta necessidade raramente é acompanhada por um esforço de melhorar as produções.
-— Não faço televisão para a classe A — diz Alberto Saad, diretor da Rede Excelsior — Faço para os que ficam em casa, por não poderem ir a lugar nenhum.
A audiência no Rio e municípios vizinhos, pesquisada pelo IBOPE, aponta 60% de pessoas que não passaram do curso primário. Contudo, os livros de bolso também se dirigem ao grande público e não deixam de lançar os clássicos da literatura nacional e universal. Mas a televisão continua apresentando novelas de má qualidade. Em seus 17 anos de vida, ela não acumulou recursos nem formou bons profissionais. As exceções são poucas.
Na Itália, o romance Os Noivos, de Manzoni, um dos clássicos da literatura mundial, foi apresentado em oito capítulos e custou um bilhão de cruzeiros. Aqui, 25 capítulos mensais de uma novela custam entre 50 a 60 milhões. E, quando os gastos com a montagem e direitos autorais ficam muito caros, as emissoras esticam a história para diluir o custo inicial em centenas de capítulos. A novela Redenção é um exemplo: exigiu a reprodução de uma cidadezinha de interior nos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, São Paulo. Ficou caro. Então, a emissora — Excelsior — fez a história render mais alguns meses, incluindo novos personagens que apareciam não se sabe de onde, mudando todo o enredo.
Assim, as novelas saem mais baratas, e por isso ocupam 32% da programação no melhor horário de segunda a sexta em São Paulo; 29% em Belo Horizonte; 22% em Curitiba; 24% nó Rio. O maior salário de ator é de Sérgio Cardoso, em São Paulo: 8 milhões; Carlos Zara, da Excelsior, onde exerce outras funções, ganha 5 milhões; Francisco Cuoco, da mesma emissora, recebe 3,5 milhões; Hélio Souto, 2,5 milhões; Rosamaria Murtinho, 2 milhões; Eva Wilma, 1,5 milhão.
Os musicais também são baratos: cenários pobres, estrutura de programas de rádio que se faziam 20 anos atrás. Praticamente, a única novidade é a câmera, que leva ao espectador o que antes ele só veria se estivesse no auditório. Para garantir a audiência, dois ou três cantores de maior popularidade puxam um elenco barato. Chico e Nara sustentavam "Pra Ver a Banda Passar"; Roberto Carlos, Vanderléa e Erasmo Carlos suportam o "Jovem Guarda"; Elis e Jair carregam "O Fino"; Gilberto Gil, Cláudia e Maria Betânia garantiam "Ensaio Geral".
A monotonia acabou matando os musicais. No primeiro trimestre deste ano eles começaram a perder público. E as emissoras, sem espírito empresarial, nunca tiraram deles rendimento nenhum, a não ser índices de audiência. Roberto Carlos tem oito carros de luxo, imóveis e participação numa série de outros empreendimentos; Jau- Rodrigues comprou imóveis em um bairro valorizado de São Paulo; Ronnie Von e Luís Vieira têm avião. Nada disso foi conseguido apenas com os salários pagos pelas emissoras, mas sim com o que lhes renderam os discos e shows no país inteiro. Durante meses, as próprias emissoras fabricam os ídolos, abrem-lhes o mercado em todos os Estados e depois deixam que a promoção de shows fique com o empresário e a venda de discos com as gravadoras.
No fim do ano passado, o Canal-7 de São Paulo fundou uma empresa de gravação — AU, Artistas Unidos — mas os grandes cantores, que podiam trazer lucros, já estavam todos presos a contratos com outras gravadoras.

O mundo-cão da nossa TV
No vale-tudo pela audiência, alguns produtores exploram as feridas da sociedade. Sílvio Santos foi condenado publicamente pelo O São Paulo, jornal da Arquidiocese paulistana, por ter levado ao seu programa alguns suicidas frustrados, que receberam prêmios para contar com detalhes as experiências que tinham vivido. O mesmo Sílvio Santos promovia um programa, Rainha por una Dia, que mostrava mulheres miseráveis contando seus sofrimentos. Depois, o auditório escolhia, batendo palmas, a história mais triste. E a mulher que a tinha contado se transformava em Rainha por um Dia: vestia um manto, punha uma coroa na cabeça e sentava-se no trono, além de ganhar o prêmio maior. As outras ganhavam prêmios de consolação.
Abelardo Barbosa, Chacrinha, até hoje mantém audiência elevada no Rio, explorando a irreverência e o protesto de um tipo com o qual acabou por confundir-se. Mas não deixa de explorar coisas como o maior nariz, ou a mulher mais gorda, provocando um desfile de deformidades físicas diante das câmeras.
Jacinto Figueiras Júnior, que apresentou no Rio e São Paulo O Homem do Sapato Branco, levou prostitutas, ladrões e homossexuais à televisão, para fazer sensacionalismo. Recentemente, recolheu nas sarjetas de São Paulo alguns marginais, colocou-os diante das câmeras e realizou uma Mesa Redonda dos Mendigos.
Até pouco mais de dois anos, os chamados enlatados batiam recordes de público. Foi o tempo de Richard Chamberlain — o dr. Kildare — e de Vincent Edwards — Ben Casey — que recebiam centenas de cartas por dia, endereçadas às TVs e revistas especializadas.

Para onde vai essa TV em crise?
Outros filmes disputavam com os dois médicos românticos os índices de audiência: Os Intocáveis, 77 Snnset Strip (policiais), Bonanza e O Fugitivo (aventuras). Estes dois últimos ainda continuam no ar, mas os episódios são constan-temente repetidos e já não agradam tanto.
Hoje, para a maioria dos homens, o futebol é tudo quanto a TV pode oferecer. Mesmo assim, com a proibição das transmissões diretas, o interesse não é muito grande. Os vídeo-tapes são exibidos depois dos espetáculos e muitas vezes entram pela madrugada.

Solução: a rede nacional
Assim se arrasta a televisão no Brasil, hoje. Para tirá-la da crise em que se afunda, seus dirigentes sonham com uma solução: organizá-la em redes de cobertura nacional, "É o caminho natural para vencer nossas dificuldades", diz Fernando Severino, da TV Tupi de São Paulo.
— A Excelsior caminha para a formação de uma rede racionalmente estruturada — diz Alberto Saad.
Walter Clark também sustenta a necessidade das redes nacionais, mesmo considerando que a TV Globo só tem três emissoras — Rio, São Paulo e Bauru. Nos escritórios de comando das outras emissoras, porém, já se informa com segurança que a TV Globo assumiu o controle financeiro da TV Guajajaras, de Belém, e prepara-se para funcionar também em Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Salvador.
Primeiros passos concretos para a formação das redes nacionais: a criação do Telecentro, nas Associadas, com roteiro de custos por toda a cadeia; instalação da Teleproduções Globo; e a Central de Produções Excelsior. À TV Record de São Paulo, que ainda se mantém equilibrada, abre-se o caminho dos convênios com outras emissoras. E as demais, se estiverem em má situação, serão absorvidas. Ou morrerão.  O funcionamento em rede criará um mercado obrigatório para as centrais de produção.
— O Telecentro das Associadas, no Rio, tem uma verba de 600 milhões e produz 30 shows mensais — diz Fernando Severino.
Apesar disso, em quase todos os Estados, as TVs Associadas ainda continuam comprando programas de outras emissoras, gastando entre 100 e 150 milhões de cruzeiros por mês. Em Belo Horizonte, o canal 4 apresentou a novela "O Sheik de Agadir", comprada à TV Globo do Rio; além de "o Fino"-e o "Corte-Rayol Show", da Record de São Paulo. Mas já se sabe que as Associadas vão parar de comprar programas dos outros.

Muitas dificuldades pela frente
As dificuldades são muitas para se chegar à organização em redes. Para começar, nem sequer se sabe com segurança quantos televisores há. Recentemente o IBOPE informava ao Contei que o Brasil tinha quatro milhões de aparelhos. Mas, pouco antes disso, uma revista especializada em economia dizia que havia apenas dois milhões e 200 mil. Agora, o Contei pediu ao IBGE um levantamento geral.
As pesquisas de audiência também falham. Só o IBOPE se encarrega disso regularmente, assim mesmo limitando-se ao Rio e São Paulo. Em outras cidades, as pesquisas são feitas apenas a pedido de anunciantes, agências de publicidade ou emissoras. Na Guanabara, o IBOPE extrai os índices de audiência computando os municípios vizinhos de Nilópolis, Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita e Niterói — com cerca de 900 mil residências, em que há aparelhos de televisão. Mas em São Paulo a pesquisa ficou só no perímetro urbano, sem os municípios vizinhos que formam a Grande São Paulo, acusando apenas 700 mil aparelhos. Deste modo, os índices não podem ser uniformes: Chacrinha, por exemplo, que tem maior público nas camadas populares, sempre comandou a audiência no Rio, mas em São Paulo, onde certamente também é bem recebido, nunca chegou a posições destacadas nas pesquisas.
As redes precisarão vencer ainda dificuldades legais. Por determinação do governo, uma só organização não pode ter mais de cinco emissoras em todo o país. O prazo da lei para se regularizarem é curto, as dívidas precisam ser pagas, os programas caem cada vez mais. Os homens de televisão conhecem todos estes obstáculos. Sabem que anúncios bem mais caros — e, portanto, em menor quantidade — aumentariam o faturamento das estações, possibilitando melhorar o nível geral da programação, Para isso, entretanto é imprescindível que se reduza o número de canais pois a verba dos anunciantes é fixa. Com mais dinheiro, nossa TV poderá até enfrentar a responsabilidade que tem com o país, criando programas verdadeiramente educacionais. São esses os problemas. Resta ver, agora, se os homens da televisão vão saber enfrentá-los.


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Fonte:
Revista Realidade. Ano II, Nº 15 - Junho de 1967. Editora Abril. São Paulo, págs. 142-147.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sílaba tônica e acentuação

Sílaba tônica e acentuação

Para saber se uma palavra deve ser acentuada ou não, você precisa primeiro encontrar a sílaba tônica aquela pronunciada com mais intensidade. Por exemplo:

Letroníx  → Le-tro-nix
Robôs → ro-bôs
aventura → a-ven-tu-ra
bactérias → bac-té-rias

As palavras oxítonas têm a última sílaba tônica: Destrux, Barbudão, Milu.

As palavras paroxítonas têm a penúltima sílaba tônica: Lila,   Zeca, Parafuso.

As palavras proparoxítonas têm a antepenúltima sílaba tônica: ônibus, árvore,  relâmpago.

As palavras monossílabas têm apenas uma sílaba e podem ser tônicas (pé, sal, não...) ou átonas, quando são pronunciadas com menos intensidade (e, os, se...).



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Fonte:
Como se escreve? (Ortografia). Coleção Recreio. Editora Abril, s/d, pág. 5.