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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Nossa Televisão está com defeito (1967)

Nossa Televisão está com defeito
 Sentados no chão da sala, os dois meninos assistem ao filme de mocinho. São seis e meia da tarde. Eles chegaram há pouco da escola e ainda vestem uniforme. As lancheiras e os cadernos descansam sobre uma poltrona. Na cozinha, preparando o jantar, a mãe está atenta aos sons que vêm da sala: dentro de alguns minutos começa a primeira novela.
O pai também chegou, faz cinco minutos. Está tomando banho e se demorar muito é possível que jante sozinho, com o que já se acostumou, assim como se acostumou com outras coisas: as crianças param mais em casa, a mulher não faz muita questão de visitar as amigas, e ele precisa ter sempre alguma coisinha para fazer depois do jantar, pois em dia de semana o chamado horário nobre da televisão dedica metade do tempo às novelas e aos anúncios. Até dois anos atrás, antes de comprar o televisor, eles costumavam jantar juntos, sem pressa, conversando — a mulher sobre os filhos, os filhos sobre a escola. Algumas vezes iam visitar os parentes, outras vezes iam ao cinema. Hoje isto acontece raramente, aos sábados ou domingos. A televisão mudou os hábitos da família brasileira.
A televisão — o maior instrumento de comunicação entre os homens. Há apenas 45 anos, atravessar o Atlântico por ar, ligando Portugal ao Brasil, foi uma aventura que dois portugueses — Sacadura Cabral e Gago Coutinho — realizaram em mais de dois meses e sem testemunhas dos riscos que passaram, num hidroavião e fazendo amerissagens forçadas no mar.

Documentário velho no lugar da notícia
Hoje, sentadas em suas salas de visita, milhões de pessoas veem os astronautas saindo de suas cápsulas em pleno espaço. Depois de ligar os continentes, por intermédio de satélites, a televisão põe o cosmo diante do homem. E, acompanhando os avanços da tecnologia, ela se prepara para novos aperfeiçoamentos. Nos Estados Unidos e Europa a transmissão de espetáculos em cores já existe em escala comercial. Mais um pouco, e o homem não dependerá mais de horário para assistir ao seu programa preferido. Um aparelho, recém-inventado e pronto para ser produzido a baixo custo, poderá ser ligado ao televisor e gravar numa fita magnética os programas desejados, enquanto se recebe visitas ou se vai às compras.
No Brasil, porém, estamos longe de bem usar a televisão. No Texas, em fins de 1963, as câmeras estavam presentes quando Lee Oswald era transportado de uma prisão para outra e, assim, milhões de americanos viram-no morrer assassinado por Jack Ruby com um tiro no estômago. No Japão, um líder socialista é esfaqueado por um fanático religioso durante uma convenção política e todo o país assiste ao crime: a TV estava transmitindo. No Brasil, no instante em que o governador deposto de São Paulo regressava ao país, a TV transmitia receitas de bolo e documentários de 20 anos. Margot Fonteyn, uma das maiores bailarinas do mundo, esteve no Brasil, e a tevê recusou-se a pagar 15 mil cruzeiros novos para mostrar sua arte ao público. Chico Buarque e Nara Leão emocionaram o país inteiro com "A Banda", batendo recordes de venda de discos, e tudo quanto a televisão tirou desse sucesso, que ela mesma favorecera, foi um programa que se esvaziou a curto prazo.
Nossa televisão informa mal, diverte menos ainda e é insensível à cultura. Produções inteligentes e boas coberturas são raras. Hoje, a TV passa pela pior crise de seus 17 anos de vida. Um levantamento do sindicato dos artistas estimava em cerca de 700 milhões de cruzeiros velhos o total de salários atrasados em São Paulo, no mês de abril passado. Só a Record estava em dia. No Rio, os cálculos para o mesmo mês iam a um bilhão em atrasados. — No Brasil, tudo está errado desde o começo — diz Walter Clark, diretor-geral da TV Globo, da Guanabara.
E como começou? A televisão transmite as imagens por faixas de ondas-canais — que existem em número limitado. Por isso, estas faixas "pertencem" ao Estado. Na Europa quase toda e nos países do bloco socialista, é o próprio Estado que as utiliza. No resto do mundo, elas são entregues a empresas que as queiram explorar. No Brasil, o governo distribui os canais de graça. Apenas exige, de quem os recebe, o compromisso de explorá-los no interesse público. O Conselho Nacional de Telecomunicações (Contei) encarrega-se de fiscalizar. Com um detalhe: segundo o mesmo Walter Clark, muitos deles foram concedidos "apenas para atender a interesses políticos". Resultado: ha televisão demais no Brasil.
A área metropolitana de Nova Iorque por exemplo, tem um canal para cada 2 milhões e 200 mil habitantes, enquanto a grande São Paulo tem dois canais para o mesmo número de pessoas; e Belo Horizonte, com um milhão de habitantes, já ganhou quatro canais.
Esta distribuição de concessões sem muito critério trouxe problemas. O principal deles é econômico. Nos países em que o Estado explora a TV, os recursos vêm de uma taxa cobrada dos proprietários de aparelhos televisores. Na Itália, onde há cerca de sete milhões de aparelhos, cada um contribui para o 'Estado com 36 cruzeiros novos por ano; na Bélgica, essa taxa é de 34 cruzeiros novos; na Inglaterra, de 26.
No Brasil, porém, quem sustenta a televisão é o indiozinho camarada que faz biscoito ou o esquimó que vende geladeiras: são as milhares de mensagens comerciais que aparecem no vídeo o dia inteiro. Nos Estados Unidos, em 1965, foram empregados mais de 5 trilhões de cruzeiros velhos (2,5 bilhões de dólares) em publicidade na TV. No Brasil, no mesmo ano, as 38 emissoras existentes não faturaram mais que cem bilhões de cruzeiros. Os canais, portanto, são muitos para as verbas de publicidade existentes.
Assim, as emissoras precisam brigar com todas as armas por esse "pouco" dinheiro. Como aos anunciantes interessa atingir o maior número de pessoas, a grande batalha é a da audiência. Ao lado, disso, o preço do tempo vendido aos anunciantes é mantido baixo por uma concorrência feroz. Em São Paulo, uma organização de corretagem chegou a vender o tempo das emissoras a crédito, com descontos de até 50% sobre os preços de tabela, dando ainda de presente a produção dos comerciais necessários. Ainda hoje, um grande anunciaste pode comprar tempo na TV por até um quarto do preço de tabela. E o patrocínio exclusivo de programas praticamente não existe mais.
— Oitenta por cento de nossa receita de publicidade, hoje, vem dos anúncios por intervalo — diz Fernando Severino, diretor-comercial da TV Tupi, de São Paulo.
O anunciante não se arrisca a empregar toda a verba num programa que ele não sabe se alcançará boa audiência. Por isso anuncia nos intervalos. E já que os preços são baixos, as emissoras precisam do maior número possível de anúncios. Cada vez que um artista canta uma música, é necessário um comercial para pagar o tempo gasto. Assim, um programa, para ir ao ar, precisa encontrar no mínimo 14 anunciantes. O canal-7, São Paulo, já chegou até a 19 anunciantes por programa.
Esta emissora paulista, durante uma semana de abril último, colocou no ar 2.482 mensagens comerciais, média de uma mensagem cada dois minutos.
No Rio, acontece a mesma coisa. Apenas a TV Globo mantém algum respeito pela tabela de preços, enquanto as outras vendem o seu tempo com grandes descontos. Os anunciantes perdem com isso. A Frigidaire, há algum tempo, fez um filme de 45 segundos que custou 10 milhões de cruzeiros e agora arrisca-se a vê-lo empurrado no vídeo junto com outras 14 mensagens, a maior parte das vezes de baixo nível técnico, cansativas.
— O que se faz nessa área é um crime contra o anunciante e contra o público — diz o gerente-comercial de uma grande agência de publicidade.
Recentemente, uma portaria do Contei limitou a 15 minutos por hora o máximo de propaganda comercial pela TV. A fiscalização, porém, cabe ao Departamento de Correios e Telégrafos, que no início tentou agir com algum rigor. Pouco tempo depois, o diretor de uma emissora paulista dizia que não poderia obedecer à determinação do Contei, porque as concorrentes não o faziam, e o DCT não fiscaliza "porque não tem verbas para comprar os televisores de que necessita".
Daí, a avalanche de comerciais, tão grande que os publicitários gostam de contar a história do telespectador que chegou ao fim da noite certo de que "para a limpeza dos dentes, o melhor é Alka-Seltzer, que contém o aditivo ICA, com ação detergente e gostinho de uva gelada".

"Não faço programa para a classe A"
Sem dinheiro e com o tempo tomado pelos comerciais, a programação raramente supera o nível da mediocridade. É verdade que a televisão se dirige ao grande público, mas esta necessidade raramente é acompanhada por um esforço de melhorar as produções.
-— Não faço televisão para a classe A — diz Alberto Saad, diretor da Rede Excelsior — Faço para os que ficam em casa, por não poderem ir a lugar nenhum.
A audiência no Rio e municípios vizinhos, pesquisada pelo IBOPE, aponta 60% de pessoas que não passaram do curso primário. Contudo, os livros de bolso também se dirigem ao grande público e não deixam de lançar os clássicos da literatura nacional e universal. Mas a televisão continua apresentando novelas de má qualidade. Em seus 17 anos de vida, ela não acumulou recursos nem formou bons profissionais. As exceções são poucas.
Na Itália, o romance Os Noivos, de Manzoni, um dos clássicos da literatura mundial, foi apresentado em oito capítulos e custou um bilhão de cruzeiros. Aqui, 25 capítulos mensais de uma novela custam entre 50 a 60 milhões. E, quando os gastos com a montagem e direitos autorais ficam muito caros, as emissoras esticam a história para diluir o custo inicial em centenas de capítulos. A novela Redenção é um exemplo: exigiu a reprodução de uma cidadezinha de interior nos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, São Paulo. Ficou caro. Então, a emissora — Excelsior — fez a história render mais alguns meses, incluindo novos personagens que apareciam não se sabe de onde, mudando todo o enredo.
Assim, as novelas saem mais baratas, e por isso ocupam 32% da programação no melhor horário de segunda a sexta em São Paulo; 29% em Belo Horizonte; 22% em Curitiba; 24% nó Rio. O maior salário de ator é de Sérgio Cardoso, em São Paulo: 8 milhões; Carlos Zara, da Excelsior, onde exerce outras funções, ganha 5 milhões; Francisco Cuoco, da mesma emissora, recebe 3,5 milhões; Hélio Souto, 2,5 milhões; Rosamaria Murtinho, 2 milhões; Eva Wilma, 1,5 milhão.
Os musicais também são baratos: cenários pobres, estrutura de programas de rádio que se faziam 20 anos atrás. Praticamente, a única novidade é a câmera, que leva ao espectador o que antes ele só veria se estivesse no auditório. Para garantir a audiência, dois ou três cantores de maior popularidade puxam um elenco barato. Chico e Nara sustentavam "Pra Ver a Banda Passar"; Roberto Carlos, Vanderléa e Erasmo Carlos suportam o "Jovem Guarda"; Elis e Jair carregam "O Fino"; Gilberto Gil, Cláudia e Maria Betânia garantiam "Ensaio Geral".
A monotonia acabou matando os musicais. No primeiro trimestre deste ano eles começaram a perder público. E as emissoras, sem espírito empresarial, nunca tiraram deles rendimento nenhum, a não ser índices de audiência. Roberto Carlos tem oito carros de luxo, imóveis e participação numa série de outros empreendimentos; Jau- Rodrigues comprou imóveis em um bairro valorizado de São Paulo; Ronnie Von e Luís Vieira têm avião. Nada disso foi conseguido apenas com os salários pagos pelas emissoras, mas sim com o que lhes renderam os discos e shows no país inteiro. Durante meses, as próprias emissoras fabricam os ídolos, abrem-lhes o mercado em todos os Estados e depois deixam que a promoção de shows fique com o empresário e a venda de discos com as gravadoras.
No fim do ano passado, o Canal-7 de São Paulo fundou uma empresa de gravação — AU, Artistas Unidos — mas os grandes cantores, que podiam trazer lucros, já estavam todos presos a contratos com outras gravadoras.

O mundo-cão da nossa TV
No vale-tudo pela audiência, alguns produtores exploram as feridas da sociedade. Sílvio Santos foi condenado publicamente pelo O São Paulo, jornal da Arquidiocese paulistana, por ter levado ao seu programa alguns suicidas frustrados, que receberam prêmios para contar com detalhes as experiências que tinham vivido. O mesmo Sílvio Santos promovia um programa, Rainha por una Dia, que mostrava mulheres miseráveis contando seus sofrimentos. Depois, o auditório escolhia, batendo palmas, a história mais triste. E a mulher que a tinha contado se transformava em Rainha por um Dia: vestia um manto, punha uma coroa na cabeça e sentava-se no trono, além de ganhar o prêmio maior. As outras ganhavam prêmios de consolação.
Abelardo Barbosa, Chacrinha, até hoje mantém audiência elevada no Rio, explorando a irreverência e o protesto de um tipo com o qual acabou por confundir-se. Mas não deixa de explorar coisas como o maior nariz, ou a mulher mais gorda, provocando um desfile de deformidades físicas diante das câmeras.
Jacinto Figueiras Júnior, que apresentou no Rio e São Paulo O Homem do Sapato Branco, levou prostitutas, ladrões e homossexuais à televisão, para fazer sensacionalismo. Recentemente, recolheu nas sarjetas de São Paulo alguns marginais, colocou-os diante das câmeras e realizou uma Mesa Redonda dos Mendigos.
Até pouco mais de dois anos, os chamados enlatados batiam recordes de público. Foi o tempo de Richard Chamberlain — o dr. Kildare — e de Vincent Edwards — Ben Casey — que recebiam centenas de cartas por dia, endereçadas às TVs e revistas especializadas.

Para onde vai essa TV em crise?
Outros filmes disputavam com os dois médicos românticos os índices de audiência: Os Intocáveis, 77 Snnset Strip (policiais), Bonanza e O Fugitivo (aventuras). Estes dois últimos ainda continuam no ar, mas os episódios são constan-temente repetidos e já não agradam tanto.
Hoje, para a maioria dos homens, o futebol é tudo quanto a TV pode oferecer. Mesmo assim, com a proibição das transmissões diretas, o interesse não é muito grande. Os vídeo-tapes são exibidos depois dos espetáculos e muitas vezes entram pela madrugada.

Solução: a rede nacional
Assim se arrasta a televisão no Brasil, hoje. Para tirá-la da crise em que se afunda, seus dirigentes sonham com uma solução: organizá-la em redes de cobertura nacional, "É o caminho natural para vencer nossas dificuldades", diz Fernando Severino, da TV Tupi de São Paulo.
— A Excelsior caminha para a formação de uma rede racionalmente estruturada — diz Alberto Saad.
Walter Clark também sustenta a necessidade das redes nacionais, mesmo considerando que a TV Globo só tem três emissoras — Rio, São Paulo e Bauru. Nos escritórios de comando das outras emissoras, porém, já se informa com segurança que a TV Globo assumiu o controle financeiro da TV Guajajaras, de Belém, e prepara-se para funcionar também em Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Salvador.
Primeiros passos concretos para a formação das redes nacionais: a criação do Telecentro, nas Associadas, com roteiro de custos por toda a cadeia; instalação da Teleproduções Globo; e a Central de Produções Excelsior. À TV Record de São Paulo, que ainda se mantém equilibrada, abre-se o caminho dos convênios com outras emissoras. E as demais, se estiverem em má situação, serão absorvidas. Ou morrerão.  O funcionamento em rede criará um mercado obrigatório para as centrais de produção.
— O Telecentro das Associadas, no Rio, tem uma verba de 600 milhões e produz 30 shows mensais — diz Fernando Severino.
Apesar disso, em quase todos os Estados, as TVs Associadas ainda continuam comprando programas de outras emissoras, gastando entre 100 e 150 milhões de cruzeiros por mês. Em Belo Horizonte, o canal 4 apresentou a novela "O Sheik de Agadir", comprada à TV Globo do Rio; além de "o Fino"-e o "Corte-Rayol Show", da Record de São Paulo. Mas já se sabe que as Associadas vão parar de comprar programas dos outros.

Muitas dificuldades pela frente
As dificuldades são muitas para se chegar à organização em redes. Para começar, nem sequer se sabe com segurança quantos televisores há. Recentemente o IBOPE informava ao Contei que o Brasil tinha quatro milhões de aparelhos. Mas, pouco antes disso, uma revista especializada em economia dizia que havia apenas dois milhões e 200 mil. Agora, o Contei pediu ao IBGE um levantamento geral.
As pesquisas de audiência também falham. Só o IBOPE se encarrega disso regularmente, assim mesmo limitando-se ao Rio e São Paulo. Em outras cidades, as pesquisas são feitas apenas a pedido de anunciantes, agências de publicidade ou emissoras. Na Guanabara, o IBOPE extrai os índices de audiência computando os municípios vizinhos de Nilópolis, Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita e Niterói — com cerca de 900 mil residências, em que há aparelhos de televisão. Mas em São Paulo a pesquisa ficou só no perímetro urbano, sem os municípios vizinhos que formam a Grande São Paulo, acusando apenas 700 mil aparelhos. Deste modo, os índices não podem ser uniformes: Chacrinha, por exemplo, que tem maior público nas camadas populares, sempre comandou a audiência no Rio, mas em São Paulo, onde certamente também é bem recebido, nunca chegou a posições destacadas nas pesquisas.
As redes precisarão vencer ainda dificuldades legais. Por determinação do governo, uma só organização não pode ter mais de cinco emissoras em todo o país. O prazo da lei para se regularizarem é curto, as dívidas precisam ser pagas, os programas caem cada vez mais. Os homens de televisão conhecem todos estes obstáculos. Sabem que anúncios bem mais caros — e, portanto, em menor quantidade — aumentariam o faturamento das estações, possibilitando melhorar o nível geral da programação, Para isso, entretanto é imprescindível que se reduza o número de canais pois a verba dos anunciantes é fixa. Com mais dinheiro, nossa TV poderá até enfrentar a responsabilidade que tem com o país, criando programas verdadeiramente educacionais. São esses os problemas. Resta ver, agora, se os homens da televisão vão saber enfrentá-los.


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Fonte:
Revista Realidade. Ano II, Nº 15 - Junho de 1967. Editora Abril. São Paulo, págs. 142-147.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

A Experiência Vazia

A Experiência Vazia
EM 1946, OS AMERICANOS estavam retornando a uma vida em período de paz — concluindo uma educação interrompida, comprando uma casa, construindo uma família. Alguns elementos novos iriam fazer parte do mundo pós-guerra. Um deles, que algumas pessoas haviam visto, mas a maioria apenas ouvido falar a respeito, era a televisão.
O pioneiro da indústria da televisão, Thomas Hutchinson, perscrutou o futuro para dar a todos uma ideia do que poderiam esperar: "Hoje estamos estabilizados no limiar de um futuro para a televisão que ninguém pode compreender inteiramente. Conhecemos algumas de suas possibilidades, mas estamos muito, muito longe de saber o que eventualmente pode ser feito. Sabemos, entretanto, que o mundo exterior pode ser trazido aos nossos lares, e, assim, uma das mais antigas ambições da humanidade já foi alcançada. Em sua casa, você assiste a eventos de importância nacional exatamente enquanto estão acontecendo. As personalidades que hoje apenas escutamos, amanhã serão tanto vistas como ouvidas."
As palavras de Hutchinson chamam nossa atenção novamente para a natureza notável da televisão. O que antes era apenas um sonho — comunicação visual instantânea à longa distância — tornou-se possível e corriqueiro. O maravilhoso tornou-se ordinário. E, ainda, se observarmos um pouco mais a fundo, o que se tornou corriqueiro permanece maravilhoso e um tanto misterioso. Após mais de trinta e cinco anos de estudo, estamos apenas começando a entender o que está acontecendo quando nós e milhões de outras pessoas estamos sentados em frente à televisão, comendo pipocas, fazendo o serviço de casa e casualmente alcançando "uma das mais antigas ambições da humanidade". Continuamos, conforme a expressão de Hutchinson, "muito, muito longe de saber" completamente o que está acontecendo, quando estamos vendo televisão, e quais os efeitos que ela pode gerar, a longo prazo, em nós e nas gerações que nos seguirão.
Alguns dos efeitos que conhecemos — e não conhecemos — dizem respeito ao que vemos na televisão, isto é, o conteúdo dos programas. Esses efeitos são assunto de capítulos posteriores. Neste capítulo, contudo, consideraremos alguns aspectos do ato de assistir à televisão em si. O que estamos fazendo ao assistir à televisão? Podemos estar fazendo algo mais estranho e talvez mais transformador do que possamos já haver pensado.
Ao assistir à televisão diariamente, estamos buscando relaxamento e entretenimento. Em tal disposição de espírito, somos bastante passivos. De fato, ver televisão é um ato bem mais passivo do que qualquer outra forma de entretenimento.
Ver televisão é um ato mais passivo do que outros tipos de entretenimento não participativos. A multidão, no estádio, assiste aos jogadores de futebol atirarem um ao outro na lama. O leitor de um romance beberica o seu drinque enquanto o protagonista rasteja entre arames farpados e fogo de artilharia. Mas essas não são atividades totalmente passivas. A multidão desempenha um papel: ela grita sua aprovação ou angústia e, de algum modo, acrescenta algo ao evento ou até mesmo faz parte dele. Afinal, como seria, para os dois times, um jogo em um estádio vazio? O leitor do romance procede à sua maneira, projetando para si mesmo a história e eventualmente voltando atrás, em busca de algum detalhe esquecido.
Quem vê televisão não faz nada disso. Ao contrário da multidão no estádio, ele está ausente para os jogadores. Ao contrário do leitor, ele não precisa imaginar nada. De fato, a constante mudança de cena à sua frente (a cena muda, em média, pelo menos a cada cinco segundos) faz com que seja difícil manter uma corrente de pensamento coerente. Ele é levado pelo jeito do programa, isto é, pela sua própria maneira de se desenvolver. Qualquer esforço físico ou mental do telespectador o distrai do que está sendo mostrado no vídeo. O telespectador ideal é receptivo, aberto. A televisão é descrita pelo velho mote do MacDonald: "Eles fazem tudo por você."
Naturalmente, isso é super-simplificar as coisas. Alguns programas puxam pela mente do espectador, a fim de solucionar um mistério, adivinhar o final, seguir a linha de argumentação, avaliar o desempenho. Mas quando estamos vendo televisão a fim de descansar e nos entreter, que é a nossa principal razão de fazê-lo, naturalmente escolhemos os programas que requerem o mínimo esforço mental. Assistindo-os, tendemos a nos deixar absorver pelo vídeo iluminado, o que pelo menos amortece nossa agilidade mental.
A passividade da assistência é, de algum modo, compensada pelo fato de que, grande parte do tempo em que estamos assistindo à televisão, o fazemos com outras pessoas, fazendo do comentários e até mesmo conversando sobre coisas que não têm absolutamente nada a ver com o que está no vídeo. Ao notar isso, um certo pesquisador declarou que ver televisão e uma atividade surpreendentemente ativa, em vez de um tipo de comportamento passivo. Entretanto, enquanto ver televisão é algo sempre acompanhado por desde brigas entre irmãos até um simples tomar banho, o ato de assistir, em si, é inerentemente passivo. Não há como se livrar do fato de que, quando estamos assistindo à televisão, ao contrário de nos distrairmos disso, estamos recebendo — recebendo apenas o que está sendo transmitido, do jeito que está sendo transmitido.
Muitas perguntas podem ser feitas a respeito dessa passividade, mas uma, quase nunca feita, é: "Até que ponto é ela realmente relaxante?" Essa questão surge porque geralmente não é a passividade o que encontramos, ao relaxar, mas atividades de um modo diferente daquela a que estamos acostumados.
A maneira normal de relaxar um músculo é contrair o músculo oposto a ele (há também remédios relaxantes musculares, mas não os consideramos normais). O que relaxa é o contraste de atividades, e não a inatividade. A fim de relaxar, as pessoas que trabalham em escritório jogam tênis, os operários de fábricas vão pescar, as donas-de-casa saem.
Essa dinâmica natural sugere que há algo essencialmente insatisfatório quanto à televisão ser um relaxante, pelo menos se em grandes doses. A inatividade física e mental da televisão nos priva da habilidade de produzir muitos dos benefícios das formas mais ativas de relaxamento. Ver televisão não tonifica os músculos nem nos prepara para o sono satisfatório que segue o exercício físico. A leitura, os "hobbies", os esportes, a música, a conversa — tudo tem, ao menos, a possibilidade de conferir um senso de realização, por conhecimento adquirido, projetos executados, oponentes derrotados, amizade alimentada, medos superados, habilidades adquiridas. É claro que temos que escolher a recreação com prudência. Pode-se "pintar e bordar" todas as noites da semana e nunca chegar a uma dessas satisfações — e até sofrer também algumas perdas. Mas confiar na televisão para relaxar é privar-se dos lucros mais comuns de formas mais ativas de relaxamento.
Uma palavra-chave, aqui, é "confiar". Confiar na televisão para relaxar, passando tanto tempo com ela como o fazemos, é um padrão que causa sérios prejuízos. Contudo, pode-se fazer um uso melhor da televisão em doses menores. Certo crítico de televisão forjou o termo "pipoca mental" para descrever os lucros da audiência limitada: não adiciona nutrientes à dieta, mas dá prazer, e não faz mal. A televisão certamente preenche essa necessidade. A questão é se precisamos não fazer nada por várias horas todos os •dias.
O nosso hábito de ver televisão demonstra que achamos a televisão fascinante, mas, quando nos são feitas as perguntas certas às horas certas, vemos que não estamos tão contentes assim com ela. Todavia, como acontece com os outros hábitos, permanecemos fascinados com a televisão bastante tempo depois de terminado o prazer.
Um pesquisador que parece ter feito a pergunta certa é Mihaly Csikszentmihalyi, Presidente do Comité Para o Desenvolvimento Humano, da Universidade de Chicago. Ele e seus colegas recrutaram um grupo de voluntários adultos, a fim de estudar como eles utilizavam o seu tempo e como se sentiam a respeito do que estavam fazendo. Os voluntários foram equipados com diários, para registrarem suas atividades por uma semana. Também receberam "beepers", que funcionavam em determinados horários. Quando os voluntários eram "bipados", eles deviam registrar o que estavam fazendo naquele momento e como estavam se sentindo.
Csikszentmihalyi não se surpreendeu ao descobrir que os voluntários passavam mais tempo vendo televisão do que em qualquer outra atividade de lazer. Ele realmente se surpreendeu ao descobrir que as pessoas "bipadas", enquanto viam televisão, tendiam a sentir-se fracas, passivas, sonolentas, solitárias, desconcentradas e rejeitadas. Nenhuma outra atividade praticada por elas fazia com que se sentissem tão mal.
"A princípio", relatou Csikszentmihalyi, "não sabíamos se as pessoas começavam a ver televisão sentindo-se passivas e vazias, esperando que ela as animasse, ou se era realmente o ato de ver TV que as levava a tal estado de ânimo. Voltamos a estudar os dados, e parece que a última alternativa é a verdadeira — a TV causava a sua depressão." Csikszentmihalyi centra sua explicação na passividade da experiência da televisão. "Qualquer outra atividade em que você possa pensar resulta em mais positiva do que ver TV, mas todas elas custam um certo esforço e risco. Ver televisão é seguro e fácil. Você não fracassa. A TV está à sua disposição sempre que você quiser. Faz com que você se sinta como se estivesse fazendo algo, participando, quando, na realidade, não está. A TV é, acima de tudo, uma ilusão." Não é de admirar que algo tão seguro e passivo seja insatisfatório — e até deprimente — como forma de relax.
As diferenças entre ver televisão e outras formas de relaxamento mostram a diferença entre os dois tipos principais de relaxamento — o ativo e o passivo. As formas ativas podem ser chamadas de recreação; as formas passivas, de descanso. Ver televisão é uma forma de descanso. Ela nos relaxa não por exercitar partes inertes de nosso corpo ou mente, mas simplesmente por fazer com que nosso corpo e mente inteiros entrem num estado de neutralidade.
A ocupação principal da categoria "descanso" é dormir. Dormir e ver televisão revelam ter algumas conexões interessantes. Em média, as pessoas dormem um pouco menos — cerca de quinze minutos por dia — desde que a televisão apareceu, do que faziam antes. A permuta entre dormir e ver televisão sugere que as duas são atividades semelhantes, Certo pesquisador descreve o ato de ver televisão como "um estado de quase-sono, que induz os espectadores ao sono ou a "devaneios'". Muitas pessoas de fato usam a televisão corno um relaxante, antes de ir para a cama.
Há, inclusive, um paralelo entre ver televisão e sonhar. Ambos envolvem reflexos do mundo real rearrumado em padrões imaginários. Ambos, repetidamente, têm fantasias sexuais ou agressivas. Engajamo-nos em ambas as atividades por algumas horas em cada vinte e quatro, mas depois lembramo-nos muito pouco do que assistimos ou sonhamos.
Talvez a forma de descanso com a televisão mais se pareça com o devaneio — o que fazemos quando estamos contemplando a lareira ou sentados sozinhos num restaurante, esperando que o jantar seja servido, ao término de um longo dia. A diferença é que, quando devaneamos, flutuamos em fragmentos de nossa própria memória e fantasiamos através de nossa consciência, enquanto ver televisão permite que outras pessoas exponham os produtos de suas imaginações, através de nossa consciência, para seus próprios fins.
Há um suporte fisiológico para a comparação entre ver televisão e devanear. Os padrões de ondas cerebrais característicos, quando uma pessoa está devaneando, são dominados pelo que se chama ondas alfa. Esses padrões, relativamente lentos, de atividade elétrica, na superfície do cérebro, indicam que uma pessoa não está processando informações do mundo exterior. Erik Peper, um pesquisador no campo da eletroencefalografia da San Francisco State University, descreve as ondas alfa deste modo: "Os padrões de ondas alfa... desaparecem quando uma pessoa executa comandos visuais (focaliza seus olhos juntos num determinado objeto), quando ela se encarrega do processo de busca de informação. Qualquer orientação em direção ao mundo exterior aumenta suas frequências de ondas visuais e bloqueia a atividade das ondas alfa. Alfa ocorre quando você não se orienta em direção a algo. Você senta-se e tem imagens na mente, mas está numa condição totalmente passiva, inconsciente do mundo exterior «o de suas imagens. O termo certo para descrever alfa é realmente 'espaçado'. Não orientado. Quando uma pessoa focaliza a visão, ou a orienta em direção a algo, nota alguma coisa fora de si mesma, então acontece um aumento imediato das atividades de onda mais rápidas, e as ondas alfa são bloqueadas [desaparece]."
Pesquisadores como Peper descobriram que mesmo quando as pessoas estão assistindo aos programas de televisão em que estão interessadas, suas ondas cerebrais indicam que estão recebendo o material de modo passivo. Herbert Krugman, que escreveu sobre algumas reações de espectadores a comerciais, faz a observação de que "a resposta elétrica básica do cérebro é claramente direcionada ao meio, e não às diferenças de conteúdo."
Ver televisão, como devanear, é uma atividade de ondas alfa. Isso não quer dizer que sejamos incapazes de absorver informações ou que estejamos imunes a influências, quando estamos vendo televisão. Absorvemos certos aspectos da televisão, apesar do modo sem envolvimento, passivo, descuidado, com que muitos de nós veem TV. Isso é porque nem todo aprendizado requer concentração. Como já foi demonstrado por pesquisadores como Krugman, um certo tipo de aprendizado é possível mesmo quando nossas mentes estão em repouso o suficiente para que haja apenas uma certa dose de atenção. Os psicólogos denominam esse modo de absorção de informações de aprendizagem passiva. A aprendizagem passiva ocorre quando uma pessoa não está nem concentrada nem opondo resistência à fonte de informação. Uma pessoa em estado passivo pode não apenas aprender, mas também sugestões feitas a ela quando está mentalmente relaxada são mais prováveis de serem seguidas mais tarde.
Quando estamos vendo televisão, estamos geralmente aprendendo passivamente, em vez de ativamente. Nossas faculdades críticas estão em repouso e estamos recebendo uma corrente de imagens e sons sem examiná-los. Por estarem nossas faculdades críticas suspensas, não sujeitos a certos tipos de influências. Não confrontamos problemas ou ideias, de modo que não podemos ser vencidos por um argumento nem sermos levados a uma mudança radical. Mas estamos aprendendo, do mesmo modo, armazenando imagens do mundo. Peper diz, a esse respeito: "A informação chega a nós, mas não reagimos a ela. Vai direto à nossa mente, e talvez reajamos a ela mais tarde, mas sem sabermos a que estamos reagindo."
Assim, há um paradoxo na passividade de ver a imagem eletrônica. A televisão nos traz uma corrente poderosa de sons e imagens informativos, mas o meio de informação, em si, freia a nossa capacidade de processar a informação que ela traz. A televisão multiplica enormemente o número de informações recebidas por nossa visão e audição, pondo-nos em contato com pessoas e eventos distantes. Mas, ao mesmo tempo, diminui nossa capacidade de manejar inteligentemente o fluxo crescente de informação.
Enquanto a passividade de ver televisão torna esse ato indesejável em grande proporção para os adultos, pode torná-lo positivamente daninho para as crianças. O desenvolvimento mental, físico, emocional e espiritual das crianças ocorre com a interação do crescimento de seus corpos e mentes com as pessoas e coisas ao seu redor. Os seres humanos progridem da passividade e dependência da infância até o domínio das aptidões e autonomia da maturidade. A jornada é, em grande parte, feita na base de tentativa e erro, repetição e experiência de consequências de decisões. O crescimento físico e mental é um processo inerentemente ativo. Não pode ser exigido de crianças passivas.
Já tivemos a oportunidade de discutir como o ato de ver televisão em excesso reduz as oportunidades dos pais de orientar o crescimento de seus filhos. Contudo, a passividade de ver televisão parece ter outras consequências adicionais, para o desenvolvimento das crianças. Quando as crianças estão passando tempo vendo televisão, elas estão afastadas de todos os meios normais de crescimento. Ver televisão priva as crianças da interação com as pessoas, com as coisas e até mesmo, dado o estado mental em que se dá a audiência, com as ideias. Ligar o aparelho significa desligar o processo de crescimento. As milhares de horas que as crianças passam em frente ao vídeo, em casa, podem estar causando sérios efeitos de longo alcance em seu desenvolvimento.
Em certo sentido, a televisão, na realidade, acelera o processo de crescimento. As crianças hoje tornam-se familiares ao estilo adulto, ao seu tipo de entretenimento, linguagem, comportamento sexual, independência e cinismo mais cedo do que seus pais e avós. Mas a exposição precoce às imagens do mundo adulto não é um atalho para a maturidade, visto que, de fato, não há atalhos. A autodisciplina só se adquire através da prática e da experiência — por exemplo, a satisfação de se completar um projeto difícil ou a culpa e a vergonha por haver decepcionado um amigo. O autocontrole brota, pelo menos até certo ponto, da disciplina envolvida na aquisição de aptidões. O julgamento do caráter vem do trato com as pessoas. A capacidade de relacionamentos pessoais — saber como lidar com conflitos, o entendimento das necessidades e opiniões alheias, ser apropriadamente modesto e positivo — vêm da experiência. A maturidade real é adquirida no mundo real, não diante do vídeo. A televisão pode sofisticar as crianças, e não amadurecê-las.
Assim, ver televisão é uma forma passiva de relaxamento que é menos desejável do que as formas com que se parece. Se queremos sonhar ou devanear, decerto é geralmente preferível fazê-lo nós mesmos, em vez de submergirmos diariamente nos sonhos de outras pessoas, que não participam de nossa experiência de vida ou percepções da realidade. Por que deveriam suas esperanças e receios, seus anseios e tristezas, tornar-se nossos, simplesmente porque estamos demasiadamente passivos, física e mentalmente, para pensarmos em nossos próprios desejos, para sucumbirmos aos nossos próprios sonhos, ou simplesmente irmos para a cama?
Nossa transformação em uma sociedade de adultos e crianças que passam de duas a três horas por dia de forma grandemente devaneadora tem suas consequências. Seria surpreendente se a televisão não tivesse, ao menos, contribuído para o desvio dos ideais de autodisciplina, economia e trabalho árduo, que eram a característica da sociedade americana, para o atual império dos ideais de lazer, gratificação instantânea e liberdade das restrições pessoais. A urbanização e a riqueza também desempenharam papel importante nessa mudança, mas nossos hábitos "televisivos" certamente nos ajudaram bastante nessa mudança. Assim, torna-se a televisão num agente de mudança cultural.


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Fonte:
Controlando a TV Mania, por: Kevin Perrotta. Tradução: Jussara Marindir Pinto Simões Áires. JUERP, 2ª Edição. Rio de Janeiro, 1989, págs. 47-57.

domingo, 26 de junho de 2016

A americanização da cultura infantil

A  americanização da cultura infantil
Cremos necessário deixar bem claro, uma vez mais,  que não estamos exaltando um canto do tipo "qualquer tempo passado foi melhor". Nossa defesa do que chamamos de "tradição cultural infantil" se baseia em duas razões-chave: a primeira é efetivamente crermos que tal tradição efetivamente contém valores que  seria lamentável perder, tanto do ponto de vista estético como do tipo de atividade que estimula na criança; em segundo lugar, porque a nova cultura que os meios  de comunicação estão gerando,  não  corresponde  a uma evolução espontânea dos hábitos artísticos e lúdicos da criança espanhola, mas sim, corresponde a uma estratégia interesseira, cujos objetivos são  a imposição de um determinado modelo  de vida, o que inclui — naturalmente — determinados gostos culturais concretos e, estreitamente relacionados com isso,  a incorporação imediata à cadeia do consumo. Que isto é o resultado de uma estratégia consciente e não de um processo aleatório, confirmam-no textos como os que a seguir reproduzimos, publicados na década de quarenta pelo editorialista das revistas Life e Variety:
Henry Luce — eis o nome do editorialista — animava os estadunidenses "a aceitarem de todo coração nosso dever e nossa oportunidade como a nação mais poderosa e mais vital do mundo c, cm consequência, exercer sobre este mundo todo o peso de nossa influência para nos expandirmos como acharmos conveniente. (...) este é o momento para nos convertermos na força geradora a partir da qual os ideais se espraiem pelo mundo."
E com mais exatidão ainda: "De sua [os meios de comunicação internacional que pertenciam aos Estados Unidos] eficiência depende que os Estados Unidos cresçam no futuro como o fez a Grã-Bretanha no passado como centro do pensamento e comércio mundiais..."
Poder-se-iam acrescentar muitos outros textos de personalidades estadunidenses nos meios empresariais, da comunicação, da política e inclusive do Exército, que não dão margem a dúvidas sobre sua vontade de exportar, paralelamente, modos de vida (o tantas vezes citado American way of life) e mercadorias.
De fato, cabe dizer que sua primeira e principal exportação é o próprio modelo de televisão. Enquanto que nos Estados Unidos a TV nasceu como uma televisão comercial, cuja estrutura de propriedade era  exclusivamente privada e alheia a qualquer controle estatal, o que fez com que sua orientação fosse basicamente voltada para estimular o consumo, na Europa, inicialmente, as televisões surgiram como monopólios do Estado. Em consequência, prevalece nelas uma atenção maior para as manifestações mais ideológicas. O debate francês sobre a ameaça de americanização de sua programação, reflete a concorrência entre os dois modelos. Não obstante, há um aspecto da batalha que parece definitivamente ganho pelo estilo americano: a introdução do aspecto publicitário como um componente habitual da programação, o que em nossa opinião constitui a essência de seu modelo.
Torna-se difícil hoje para qualquer telespectador espanhol conceber a TVE sem anúncios e sem telefilmes americanos. Efetivamente, no caso espanhol, ainda que se trate de um monopólio estatal, o modelo americano se impõe praticamente desde o primeiro momento: no ano de inauguração dos estúdios do Paseo de La Habana (outubro de 1956), e quando só existiam trinta mil aparelhos em todo o país, transmite-se o primeiro telefilme made in  USA   ("Patrulla de tráfico") e no ano seguinte a TVE contrata os serviços das agências CBS  e  UPI para   a informação internacional.83  Já  então  certos slogans publicitários competem em popularidade com as músicas do momento e as marcas de televisores patrocinam programas.
É este modelo televisão o principal agente formador da cultura da criança espanhola de hoje. Assinalamos anteriormente as tremendas consequências que o modelo comercial, o aparecimento constante da publicidade, tem para a criança, criança esta que não só assedia constantemente seus pais com sua ânsia insaciável de consumir isto ou aquilo, porque isto ou aquilo é anunciado na TV, como também chega ao cúmulo realmente doentio de dizer, pura e simplesmente: "Papai, me compre uma coisa." É o perfeito consumidor, interessado já não por determinado produto, mas sim, pelo fato de consumir em si mesmo. É o modelo completo de teledependente. Mais uma vez, impõe-se que deixemos bem claro: a publicidade constitui o núcleo essencial do modelo americano de televisão, ao ponto de condicionar inclusive a estrutura das emissões de entretenimento.


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Fonte:
Os Teledependentes, por: M. Alfonso Erausquin, Luís Matilla e Miguel Vázquez. Summus Editorial. São Paulo, 1983, págs. 88-91.