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domingo, 10 de julho de 2016

Biografia de José de Alencar

Ceci e Peri, um romance no Japão
"TÓQUIO - A ópera O Guarani, de Carlos Gomes, baseada no romance do mesmo título de José de Alencar, depois de percorrer meio mundo e todo um século desde o Scala de Milão (onde estreou a 19 de março de 1870), passando pela Inglaterra, Califórnia e Rio de Janeiro, vai ser agora exibida aos japoneses, dia 7 de setembro próximo, nesta Capital."
Esse é o início de uma reportagem do correspondente do jornal Folha de S. Paulo, publicada em 24 de julho de 1979.
7 de setembro de 1979! Neste ano está fazendo 122 anos que o romance O Guarani, de José de Alencar, começou a ser publicado, um capítulo por dia, no jornal Diário do Rio de Janeiro.
Japão! Do outro lado do mundo está sendo levada à cena uma adaptação desse romance escrito na então capital do Brasil, país que estava começando a se firmar como nação.
Provavelmente, nunca foi tão longe a imaginação daquele menino que aos 11 anos já comovia seus familiares e amigos mais chegados com suas leituras em voz alta, de acordo com suas próprias palavras em Como e Porque Sou Romancista.
"Não havendo visitas de cerimônia, sentava-se minha boa mãe e sua irmã Dona Florinda com os amigos que apareciam, ao redor de uma mesa de jacarandá, no centro da qual havia um candeeiro.
Minha mãe e minha tia se ocupavam com trabalhos de costuras, e as amigas para não ficarem ociosas as ajudavam. Dados os primeiros momentos à conversação, passava-se à leitura e era eu chamado ao lugar de honra.
Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava bem a contragosto de um sono começado ou de um folguedo querido; já naquela idade a reputação é um fardo e bem pesado.
Lia-se até a hora do chá, e tópicos havia tão interessantes que eu era obrigado à repetição. Compensavam esse excesso as pausas para dar lugar às expansões do auditório, o qual desfazia-se em recriminações contra algum mau personagem ou acompanhava de seus votos e simpatias o herói perseguido.
Uma noite, daquelas em que eu estava mais possuído do livro, lia com expressão uma das páginas mais comoventes da nossa biblioteca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao rosto, e poucos momentos depois não puderam conter os soluços que rompiam-lhes o seio.
Com a voz afogada pela comoção e a vista empanada pelas lágrimas, eu também, cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto, e respondia com palavras de consolo às lamentações de minha mãe e suas amigas."
Não é preciso muita imaginação do leitor para aproximar essa cena de um hábito que já se enraizou no Brasil hoje: a reunião da família, à noite, para assistir à telenovela.
O episódio narrado por Alencar ocorre quando ele tem 10, 11 anos, isto é, por volta de 1840, ano do golpe da Maioridade de D. Pedro II, episódio da História do Brasil, no qual tomou parte ativa o pai de Alencar, José Martiniano de Alencar.

DA INFÂNCIA NO CEARÁ AO ADVOGADO ALENCAR. NASCE UM ESCRITOR.
José Martiniano de Alencar, o pai, era padre quando conheceu sua prima, Ana Josefina, mãe do futuro romancista. Por amor dela, abandonou o sacerdócio e casou.
José Martiniano de Alencar, o filho, nasce a 19 de março de 1829, em Mecejana, Ceará.
Em 1832, o pai é eleito senador, e, dois anos depois, em 1834, torna-se presidente da Província do Ceará, cargo que deixa em 1837, dirigindo-se, no ano seguinte, 1838, para o Rio de Janeiro. Alencar, que conta 9 anos, viaja com o pai.
Essa viagem por terra, pelo interior do Nordeste, do Ceará à Bahia, causou profunda impressão em Alencar, que fará referência a ela ainda por volta dos 45 anos, logo no início de O Sertanejo: "Os sertanejos escoteiros que ainda agora em jornada para Bahia ou Pernambuco, sem outro companheiro mais do que seu cavalo, percorrem aquelas solidões também por mim viajadas outrora ainda no alvorecer da existência;..."
Dois anos depois, em 1840, Alencar completa sua instrução primária, que iniciara no Ceará, e, em 1844, aos 15 anos de idade, inscreve-se nos cursos preparatórios à Faculdade de Direito de São Paulo, no mesmo ano, portanto, da publicação de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo.
Alencar se impressiona bastante com o livro, o primeiro romance brasileiro de sucesso. Põe-se a ler os autores marcantes de sua época: Balzac, Alexandre Dumas, Alfredo de Vigny, Chateaubriand e Victor Hugo.
Datam de seus anos na Faculdade de Direito de São Paulo as primeiras publicações de Alencar. Com outros primeiranistas da faculdade funda uma revista semanal Ensaios Literários, onde publica um artigo de crítica (Questões de Estilo) e de história, sobre o índio Camarão.
Em 1848, aos 18 anos, Alencar escreve seu primeiro romance: Os Contrabandistas, que, segundo ele, teve seus originais destruídos por um colega que usava suas folhas para acender o cachimbo. Se essa história não for criação de Alencar, é explicável, dada a confusão que havia nas repúblicas de estudantes.
Em 1848, aos 18 anos, transfere-se para a Faculdade de Direito de Olinda. Como em São Paulo, sua principal preocupação não são os estudos de Direito, as leis, mas a literatura. Em Olinda, interessa-se pelas crônicas do período colonial, como fonte de personagens e enredos. Nessa época começa a redigir dois romances históricos: A Alma de Lázaro e O Ermitão da Glória.
Em fins desse mesmo ano, manifestam-se os primeiros sinais da tuberculose que acabaria por matá-lo. É obrigado a voltar para São Paulo, onde se forma em 1850.
Em 1851, aos 22 anos, Alencar inicia-se na profissão de advogado, que exercerá até o fim de sua vida, com raras e breves interrupções...

ADVOGADO, JORNALISTA, DEPUTADO, MINISTRO DA JUSTIÇA. SUCESSO DE PÚBLICO, INSUCESSO DE CRÍTICA
Instalado no Rio de Janeiro, Alencar é convidado por seu ex-colega de faculdade, Francisco Otaviano, a colaborar no jornal Correio Mercantil. Aí, Alencar escreve diariamente sobre os mais diversos assuntos: os acontecimentos sociais, as estreias de teatro, os novos livros, as questões políticas, fatos marcantes da cidade, etc. A essa seção deu o nome de Ao Correr da Pena.
Alencar estreia como jornalista aos 25 anos, em 1854, e faz muito sucesso. Tanto, que no ano seguinte é gerente e redator-chefe de outro jornal, o Diário do Rio de Janeiro, onde agora publica seus folhetins sobre fatos variados.
O primeiro folhetim de Alencar data de 3 de setembro de 1854, e o último de 25 de novembro de 1855.
Em 1856, Domingos Gonçalves de Magalhães, poeta consagrado, que lançara oficialmente o Romantismo no Brasil, com o livro Suspiros Poéticos e Saudades, publica A Confederação dos Tamoios, poema editado às expensas do Imperador, D. Pedro II. Com esse poema, Magalhães desejava dar o modelo da poesia brasileira.
Alencar publica, então, no Diário do Rio de Janeiro, uma série de críticas ao poema, sob o pseudônimo de Ig. Várias pessoas escrevem também, defendendo o poeta, inclusive uma que se assinou Outro Amigo do Poeta, e que era o próprio D. Pedro. Era o primeiro conflito entre Alencar e o Imperador.
Nesse mesmo ano, 1856, Alencar escreve a Biografia do Marquês de Paraná, A Constituinte Perante a História e, em folhetins, seu primeiro romance: Cinco Minutos, que, no fim do ano, é publicado em plaqueta e dado como brinde aos assinantes do jornal.
A partir daí, aumenta muito a atividade de Alencar. No ano seguinte, 1857, começa a publicar A Viuvinha, que interrompe. E é nesse mesmo ano que, como resposta à polemica sobre A Confederação dos Tamoios, escreve O Guarani, que aparece primeiro em folhetim, no Diário do Rio de Janeiro, e, logo em seguida, em livro. O sucesso foi extraordinário, como conta Taunay em Reminiscências: "... O Rio de Janeiro em peso, por assim dizer, lia O Guarani e seguia comovido e enlevado os amores tio puros e discretos de Ceei e Peri e com extremada simpatia acompanhava, no meie dos perigos e dos ardis dos bugres serragens, a sorte vária e periclitante dos principais personagens do cativante romance...
Quando a São Paulo chegava o correio, com muitos dias de intervalo então, reuniam-se muitos estudantes numa república em que houvesse qualquer feliz assinante do Diário do Rio para ouvir, absortos e sacudidos, de vez em quando por elétrico frêmito, a leitura feita em voz alta por algum deles, que tivesse órgão mais forte. E o jornal era depois disputado com impaciência e, pelas ruas, se viam agrupamentos em torno dos fumegantes lampiões da iluminação pública de outrora — ainda ouvintes a cercarem ávidos qualquer improvisado leitor."
O sucesso de O Guarani leva Alencar a tentar o mesmo no teatro. Nesse mesmo ano escreve uma opereta (Noite de São João) e duas comédias (Verso e Reverso e O Demônio Familiar).
No ano seguinte, Alencar tenta o drama, e a peça As Asas de um Anjo, logo depois de encenada, é proibida pela censura por imoral: a heroína, uma prostituta, embora redimida pelo amor, é forte demais para o provincianismo da sociedade brasileira.
Em 1860, estreia o drama Mãe. A seguir, Alencar viaja para o Ceará, procurando continuar a carreira política do pai, que falecera. Candidata-se a deputado pelo Partido Conservador e é eleito. Começa então a carreira política, que há de envolvê-lo, subtraindo-o, embora não totalmente, à literatura.
Nessa mesma viagem ao Ceará conhece seu sobrinho, então com 11 anos, Araripe Júnior; esse menino, mais tarde, dedica-se à crítica literária e publicará um dos melhores livros sobre a obra do tio.
Em 1861, Alencar estreia na tribuna parlamentar. No ano seguinte, escreve Lucíola e o primeiro volume de As Minas de Prata.
Em 1864, Alencar casa com Ana Cochrane, filha de um médico homeopata inglês, da mesma família do Almirante Cochrane, herói da luta pela Independência. Mas o casamento não esfria o romancista: desse mesmo ano é a primeira edição de Diva, e, em três meses, redige os cinco últimos volumes de As Minas de Prata. Em 1865, publica Iracema, seu segundo maior sucesso depois de O Guarani, e, no fim desse ano, começa a publicação de Cartas de Erasmo ao Imperador.
Em 1865 e 1866, publica-se a primeira edição de As Minas de Prata, em seis volumes.
Aos 39 anos de idade, em 1868, Alencar torna-se Ministro da Justiça. No mesmo ano, publica-se no Correio Mercantil uma carta de Alencar apresentando Castro Alves a Machado de Assis.
No ano seguinte, Alencar candidata-se ao Senado e obtém o primeiro lugar na votação. Deixa então o Ministério da Justiça e volta à Câmara em oposição ao Imperador, que veta seu nome ao Senado. Em Reminiscências, Taunay publica um diálogo que teria havido entre o Imperador e Alencar, e que dá bem a medida do azedume das relações entre o romancista e D. Pedro, que lhe teria dito:
"— No seu caso, eu não me apresentava agora: o senhor é muito moço.
- Por esta razão, Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal."

OS ÚLTIMOS ANOS. UM POLÍTICO DESILUDIDO DEDICA-SE APENAS À LITERATURA. AUMENTA O SUCESSO DE PÚBLICO, AUMENTA O ATAQUE DA CRÍTICA.
O veto do Imperador encerra a carreira política de Alencar que, desencantado, se volta para a literatura. Tem apenas 41 anos, mas já se sente velho, pois, como romântico autêntico, considera a juventude como o auge da vida. Tanto que, em 1870, publica A Pata da Gazela e O Gaúcho, com o pseudônimo de Sênio. Data de outubro desse mesmo ano o pós-escrito da segunda edição de Iracema, refutando as críticas ao estilo, à linguagem e à concepção do livro. Em dezembro redige a Advertência Indispensável Contra Enredeiros e Maldizentes, incluída no primeiro volume de Guerra dos Mascates, que redige também nesse ano e que seria uma sátira a personalidades do Império.
No ano de 1871 publica O Tronco do Ipê e, no ano seguinte, Til e Sonhos d'Ouro.
Nessa época, a crítica investe sistematicamente contra Alencar, durante um ano, toda semana. Mas Alencar responde a ela e continua a escrever.
Em 1873, vem à luz a primeira edição de Guerra dos Mascates e Alfarrábios, que reúne: O Garatuja, que se passa no Rio colonial, O Ermitão da Glória e Alma de Lázaro.
Nesse mesmo ano, estreia a peça O Jesuíta, fracasso geral de público e de crítica. Por isso, Alencar, em O Globo, critica a indiferença do público, a qual, segundo o autor, revelaria um desinteresse geral pelo texto nacional. No mesmo jornal, Joaquim Nabuco replica a esse artigo e anuncia uma série de artigos sobre a obra literária de Alencar. Assim se inicia alonga polêmica Alencar-Nabuco, que se encerra em 14 de novembro desse mesmo ano (1873).
Em 1874, sai Ubirajara, o segundo volume de Guerra dos Mascates e Ao Correr da Pena, reunião de seus folhetins.
Em 1875, aparecem Senhora e O Sertanejo, últimos livros publicados em vida.
Em 1877, Alencar viaja à Europa em tratamento de saúde, mas não consegue se recuperar. Volta ao Rio, onde morre a 12 de dezembro do mesmo ano, aos 48 anos.
Relembrando Alencar, escreve Machado de Assis:
"Tinha-lhe afeto, conhecia-o desde o tempo em que ele ria, não me podia acostumar à ideia de que a trivialidade da morte houvesse desfeito esse artista fadado para distribuir a vida."


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Fonte:
José de Alencar: Leitura Comentada. Texto: José Luiz Beraldo. Abril Educação. São Paulo, 1980, págs. 3-6.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Biobibliografia de José de Alencar

Biobibliografia

José Martiniano de Alencar nasceu em 1829 em Mecejana (Ceará) e faleceu em 1877 no Rio de Janeiro. Bacharelou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo e foi residir no Rio. Praticou a advocacia, exerceu relevantes cargos públicos e políticos.
Dedicou-se à literatura e ao jornalismo. É considerado um dos maiores vultos e um dos principais romancistas da literatura brasileira.
De sua numerosa bibliografia, o maior destaque cabe à ficção que abrange quatro categorias de romance: o indianista, o histórico, o urbano e o regionalista, abarcando um vasto painel de determinado tempo social brasileiro. A ficção alencariana, como expressão dos sentimentos nacionalistas, realizando transfigurações de lendas e tradições, está no indianismo, em que exalta o nativo como símbolo e mito.
Romancista, crítico, teatrólogo, polemista, publicista, poeta, a obra de Alencar é vasta e rica.
Romances: Cinco Minutos (1856), O Guarani (1857), Viuvinha (1860), Lucíola (1862), As Minas de Prata, Diva (1864), Iracema (1865). O Gaúcho, A Pata da Gazela (1870), Sonhos D'Ouro, Til (1872), Alfarrábios (1873), A Guerra dos Mascates (1873/74), Ubirajara (1874), Senhora, O Sertanejo (1875), Encarnação (1893), Teatro: O Demônio Familiar, Verso e Reverso, As Asas de Um Anjo, Mãe, O Jesuíta.

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Fonte:
O Tronco do Ipê, por: José de Alencar. Editora Saraiva. São Paulo, 1972.

Leitura de José de Alencar

Leitura de José de Alencar
Por: João Alexandre Barbosa
(da Universidade de São Paulo)
A obra de José de Alencar, como já se disse muitas vezes, é tão variada em seus valores e intenções que o leitor menos avisado, sem uma leitura global de seus textos, perde a orientação e não sabe por onde começar o julgamento.
Nela há de tudo: desde o exercício mais ou menos etnográfico, onde a análise psicológica se rarefaz e o personagem enquanto personagem quase desaparece por entre o mapeamento linguístico e antropológico (Ubirajara, 1874), até o propósito de análise social e psicológica, por onde o escritor antecipava modos narrativos urbanos de grande fortuna em nossa literatura (Senhora, 1875).
Regionalista, histórico, social, psicológico são termos mais ou menos arbitrários que não chegam a definir um romance, muito menos um romancista. Este — para o leitor que pretenda uma compreensão menos esquemática — fica sempre aquém ou além das designações dos manuais de História Literária e só se esclarece sob uma lente menos rotulativa e mais fina: a que busque o seu modo de relacionamento com a própria linguagem por meio da qual chega à realidade. E sob uma lente assim, José de Alencar é muito mais interessante do que, em geral, nos fizeram acreditar as fórmulas batidas das esquematizações didáticas.
Na verdade, todo escritor é passível de reduções sumárias que, servindo aos desígnios da classificação, têm por objetivo mais profundo preencher o vazio de uma crítica parcial. Diz-se, por exemplo, que Machado de Assis foi um grande escritor (grifando-se o termo), mas que teve uma imaginação (esgarçando-se o termo) limitada pelos valores psicológicos, conhecendo a alma humana com o rigor de um Dostoievsky, mas sofrendo de uma certa miopia (a expressão foi usada por Eça de Queirós) para ver o grande espetáculo da luta entre a natureza e o homem. E, como era de esperar num espaço crítico assim afeito ao vezo manlqueista, o contrário daria José de Alencar. Imaginoso, fantasista, empenhado na construção de uma literatura brasileira americanista diferenciada da europeia, mas escritor apressado, desajeitado mesmo em lidar com personagens e situações. Será assim? Acredito que não e, em seguida, veremos por quê. Penso que foi Augusto Meyer quem, escrevendo sobre o presente livro ("Nota Preliminar" a O guarani, na edição Aguilar), pôs melhor o dedo no suspiro: viu José de Alencar como escritor, escolhendo os seus temas, esforçando-se por achar aquilo que é o objetivo de todo escritor de raça, isto é, a sua linguagem com a qual pudesse dar conta do tema que escolhesse. E, num desabafo de leitor crítico, querendo desvencilhar-se da mesmice das classificações, chega a afirmar:
"Eu por mim confesso humildemente que não vejo indígenas na obra de Alencar, nem personagens históricas, nem romances históricos; vejo uma poderosa imaginação que transfigura tudo, a Indo atribui um sentido fabuloso c não sabe criar senão dentro de um clima de intemperança fantasista. Poeta de do romance, romanceava tudo. Se teve a intenção de criar o nosso romance histórico, ficou só na intenção, e de qualquer modo não lograria fazê-lo, pois era demasiado genial para poder adaptar o seu fogoso temperamento a um gênero tão medíocre, que pede paciência aturada na imitação servil da crônica histórica, pouca imaginação criadora e acúmulo de minudências pitorescas (...)".
É, de fato, esta aposição mais adequada para que o leitor de hoje, familiarizado com as técnicas mais sofisticadas da narrativa, possa ler ainda José de Alencar: captar, por sob as intenções regionalistas ou americanistas que o romancista f azia vibrar na face de seus críticos mais mordazes, o esforço de quem, no romance, encontrava um veículo adequado para a objetivação de sua inquieta e poderosa capacidade fabuladora. Poucos escritores brasileiros, mesmo aqueles mais bem dotados tecnicamente, servem melhor ao estudo do que seja a própria arte da ficção, sobretudo no que diz respeito ao problema tão antigo quanto o próprio Aristóteles, o da verossimilhança. Em Alencar, a cada passo, em seus livros mais ambiciosos, pode ir o leitor de hoje rastreando elementos que conduzem ao cerne daquilo a que um crítico (Martin Price) chamou de "contrato ficcional", isto é, uma espécie de acordo tácito entre o autor e o leitor no que se refere às experiências do imaginário concretizadas pela narrativa.
Tropeçando nos erros de sua ignorância etnográfica, esbarrando por entre as armadilhas da selva selvaggia de uma terminologia "brasileira" ainda não bastante esclarecida em sua época (e tudo isso os seus críticos menos argutos e mais caturras, de ontem e de hoje, fizeram e f agem valer como condenação geral de sua obra), Alencar foi afirmando a supremacia de uma realidade ficcional sobre a chateia das minudências de ordem histórica ou geográfica com o mesmo ardor e imprudência da maioria de seus personagens heroicos.
Veja-se bem, no entanto: José de Alencar jamais perde a visão de conjunto de sua narrativa. Se a ação de seus personagens faz surgir acontecimentos que parecem bordejar o inverosímil, isto se dá por um momento fugaz, f o leitor termina pacificado. Tudo acaba por explicar-se convenientemente desde que a imaginação funciona como elemento controlador e organizador.
Este processo de compensação, que está em toda a sua obra, começou a ganhar foro de estilo (o "estilo José de Alencar") a partir deste "romance brasileiro", depois das tímidas experiências de romance urbano (a que ele mesmo chamava de romanceies) representadas por Cinco minutos (1856) e A viuvinha (1857).
Escrito em folhetins para o Diário do Rio de Janeiro entre janeiro e abril de 1857, o romance neste mesmo ano era publicado em quatro fascículos (as quatro partes que o compõem) "e que aproveitava a composição dos folhetins", conforme indica Darcy Damasceno na "Introdução" que escreveu para a sua edição crítica da obra (Instituto Nacional do Livro, 1958) e que vou utilizando nesta minha leitura.
Que José de Alencar julgava ser este o seu primeiro romance é fácil de verificar pelo "Prólogo" que antecedeu à publicação em folhetim. Ali, a "prima", que aparecia como interlocutora nas duas primeiras narrativas, é nomeada como responsável pela fé depositada no escritor:
"Gostou da minha história, e
pede-me um romance; acha que
posso fazer alguma coisa neste ramo
de literatura".
Ao contrário do que acontecia nas duas ohms anteriores, entretanto, a "prima" conserva-se no pórtico do romance, deixando de ser aquele expediente mais ou menos fácil com que Alencar conduzia as intrigas superficiais em Cinco minutos e A viuvinha.
Deixada no "Prólogo", transformada em depositária da obra, a mudança com relação à "prima" é fato mais substancial: revela uma deslocação de foco narrativo que, na verdade, inaugura o romance na obra literária de José de Alencar. De autor conivente ele passa a autor onisciente — assumindo a perspectiva épica por meio da qual podia soltar as rédeas de sua imaginação saturada pelas leituras adolescentes de Chateaubriand, Dumas, Hugo, Sue, Scott, Cooper, Marryat, Arlincourl, Soulié, Balzac, autores todos citados por ele mesmo em Como e porque sou romancista.
Na verdade, aquele leitor juvenil dos serões na chácara do pai, o Senador Alencar, quando lia e relia para a sua mãe e amigas Armanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas e Celestina, fazendo-as chegar até às lágrimas, encontrava agora, antes de atingir os trinta anos, o modo de transformar todas aquelas experiências em objeto capaz de aglutinar, pela ficção, aprofundando-as portanto, as emoções e sensações do leitor sensível. Não mais a história, em contraposição ao romance, a que ele se refere no período de abertura de sua primeira obra ("É uma história curiosa a que lhe vou contar, minha prima. Mas é uma história, e não um romance"): agora tratava-se de, munido de umas escassas notas extraídas de crônicas históricas e do que a fantasia, mais do que o registro verdadeiro, lhe dizia dos sertões brasileiros, enfrentar a ambição que, segundo o próprio romancista, alentava-o desde anos, quando escrevera Os contrabandistas, destruído pelo fogo (mais uma de suas ficções?!). E é curioso observar como, pela leitura do "Prólogo", é ainda o personagem, não o autor, dos romanceies anteriores que envia à "prima" a cópia de um hipotético manuscrito realizada por ele e Carlota (a jovem romântica do primeiro romanceie, como se sabe) "nos longos serões das nossas noites de inverno", como ali está dito. A ficção dentro da ficção, portanto, e não assumindo ares de crônica verdadeira como nos livros iniciais, é que vinha estabelecer a distinção entre história e romance por ele requerida.
Em sua curta, mas preciosa autobiografia, as origens do presente romance estão mencionadas a partir de 1848, quando, voltando ao Nordeste, viajando pelo interior do Ceará e Bahia, lendo cronistas da era colonial em Olinda, José de Alencar afirma a certa altura de suas reminiscências:
"Uma coisa vaga e indecisa, que devia parecer-me com o primeiro broto do Guarani ou de Iracema, flutuava-me na fantasia. Devorando as páginas dos alfarrábios de notícias coloniais, buscava com sofreguidão um tema para o meu romance; ou pelo menos um protagonista, uma cena e uma época".
O romance que se vai ler em seguida é o testemunho desse achado que o leitor deve apreender sem desprezar o que permaneceu daquela fantasia flutuante mencionada pelo escritor. Organizado em torno de quatro partes ("Os aventureiros", "Peri", "Os Aimorés" e "A catástrofe"), o romance possui aquilo que, em 1848, Alencar buscava sofregamente: passa-se no século XVII, às margens do Paraíba, e tem por protagonista o índio Peri, portanto uma época, uma cena e um herói. Divididas em curtos capítulos, as quatro partes dão, de fato, aquela impressão de estrutura cinematográfica anotada, com argúcia, por Augusto Meyer no estudo já referido. (Decorrente, talvez, em grande parte, da enorme plasticidade alcançada pelo escritor na elaboração das ações e cenas do romance.) Quanto ao outro elemento mencionado por Alencar em sua autobiografia — o tema, a sua detecção neste romance não c tão fácil quanto possa parecer àqueles que se habituaram a chamá-Io de histórico ou indianista.
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Fonte:
O Guarani, por: José de Alencar. Editora Ática, 17ª Edição. São Paulo, 1992, págs. 3-6.

Uma história de sonhos, uma história de ouro

Uma história de sonhos, uma história de ouro
Por: Valéria De Marco (da Universidade de São Paulo)
Há entre nós e Alencar vários heróis, muitos romances, ilusões, histórias de amor nos livros, no cinema e na televisão. É preciso ter em mente que mais de cem anos nos separam e que Alencar é uma figura de muitas faces: jornalista, crítico literário, cronista, teatrólogo, romancista, advogado deputado e ministro da Justiça. As múltiplas atividades se alimentavam de um obsessivo desejo de conhecer a realidade brasileira e de atuar dentro dela e não se pode tomar sua ficção sem considerá-la como parte do debate político e cultural dos tempos do Império, das polemicas acaloradas em busca da construção de uma identidade para a nação que nascia. Um pouco do clima e algumas questões desse debate poderão ser encontrados nos dois textos escritos por Alencar a propósito de Sonhos D'Ouro: "Bênção Paterna" e "Os Sonhos D'Ouro". O primeiro texto se desenvolve como um diálogo entre o autor e seu romance, como preparação para "aquela crítica sisuda". Na conversa pode-se observar não só o projeto da ficção alencariana e a classificação de suas obras como também algumas das questões a eles subjacentes.
Dentre elas, devem ser ressaltadas a da nacionalidade da literatura e a do papel da tradição literária. Quanto à nacionalidade, pelas referências que faz o autor, parece que a crítica da época oscilava entre os extremos de tematizar ou a raça nativa ou a colonizadora, zelando pela absoluta pureza das línguas. Alencar aponta para a necessária vinculação entre literatura e realidade e põe em relevo a constante interação entre o nativo e o estrangeiro: "Não são assim os povos não feitos: estes tendem como criança ao arremedo; copiam tudo, aceitam o bom e o mau, o belo e o ridículo, para formarem o amálgama indigesto, limo de que deve sair mais tarde uma individualidade robusta". A crítica ao caráter estrangeiro das personagens deste romance não tardou è, dois meses depois do livro sair do prelo, Alencar rebate-a em "Os Sonhos D'Ouro", texto que fecha esta edição. Ainda em "Bênção Paterna", tendo colocado os problemas da nacionalidade e da solidez da literatura, Alencar tece algumas considerações a respeito do seu papel de autor na História como contribuição para a formação de um lastro que possibilitaria a vinda dos grandes escritores: "Sobretudo compreendam os críticos a missão dos poetas, escritores e artistas, nesse período especial e ambíguo da formação de uma nacionalidade. São estes os operários incumbidos de polir o talhe e as feições da individualidade que se vai esboçando no viver do povo".
A história de Sonhos D'Ouro começa em um verão tropical, sob o sol ardente da Tijuca onde se encontram Ricardo e Guida. Ele, um jovem bacharel provinciano, com interesses e dotes artísticos, está no Rio trabalhando honestamente para conseguir vinte contos de réis, montante que o levaria à felicidade. Guida é a moça da corte, educada à inglesa, versada em salões e menina mimada, vendo todos os caprichos satisfeitos, por ser filha de Soares, homem que "de simples dono de armarinho, se elevara a milionário", a "banqueiro". A narração do primeiro j encontro das duas personagens l utiliza tantos recursos teatrais que o leitor logo percebe por onde vai a história e seu motor é "esta diferença de condições sociais", apontada por António Cândido, na Formação da Literatura Brasileira, como "uma das molas da ficção de Alencar" A explicitação dessa diferença social entre as personagens cria a possibilidade de lermos, neste romance, episódios de uma história do ouro. Os capítulos VIU e XII trazem algumas maneiras de enriquecimento e de aquisição de títulos de nobreza, ao apresentarem os convivas de Soares, mostrando que as relações existentes à mesa de almoço ou de jogo são tecidas pelo dinheiro. Este aparece também como elemento decisivo na definição do casamento, problema longamente discutido nos capítulos XXV e XXVI. O narrador, no capítulo V, atribui a devastação da natureza ao desejo de lucro.
Frequentemente, esse universo de relações humanas permeado por disputas econômicas serve de apoio a críticas à atividade política, como nas seguintes palavras de Soares, referindo-se ao casamento da filha: "eu sou a coroa, a Guida é o parlamento. Ela tem o direito de votar o projeto; eu limito-me à sanção ou ao veto".
Na relação entre Guida e Ricardo há dois obstáculos: o ouro e a consciência. Observe-se o caráter metálico das imagens que a ela se referem: o riso "argentino" de Guida é comparado a "um cofre de pérolas e rubis"; "ela era o milhão feito anjo; o ouro convertido em luz, a libra esterlina transformada em estrela", e sonhos d'ouro, a flor que provoca o encontro das personagens, tem a cor do metal. Ricardo defende a dignidade do trabalho, recusando-se a relacionar-se com o mundo pela circulação do dinheiro ou do favor. Isola-se em seu pequeno quarto para preservar a palavra empenhada e a consciência, trabalhando em alguns processos e traduzindo folhetins e Eugénie Grandet. Intencional ou não, é interessante a citação desta obra de Balzac: história de uma riqueza que cresce na medida em que os proprietários se dissolvem, uma trajetória de desumanização.
Talvez por a realidade brasileira não apresentar o mesmo grau de complexidade que a província francesa, talvez por Alencar não conseguir olhá-la com a pupila impiedosa de Balzac, Sonhos D'Ouro impregna-se do romantismo e nos oferece uma história de amor. Ricardo, liberado do compromisso de sua palavra, volta à harmonia natural da Tijuca. A rapidez do desabrochar da flor desata os sentimentos. Com a mesma pressa, Alencar foi ao prelo acrescentar o post-scriptum que, apesar de tantas peripécias douradas, acaba forjando um happy-end para a história de sonhos. Talvez seja esta a que mais cale na memória do leitor.

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Fonte:
Sonhos D'Ouro, por: José de Alencar. Editora Ática. São Paulo, 1981, págs. 5-6.

Alencar conversa com os seus leitores

Alencar conversa com os seus leitores
Por: João Roberto Faria
Este volume reúne uma boa parte dos primeiros textos escritos pelo nosso maior escritor romântico. Pouco antes de se transformar no romancista que encantou o Brasil com as aventuras de Peri e Ceei — O Guarani é de 1857 —, José de Alencar exercitou a pena como cronista nos jornais Correio Mercantil e Diário do Rio de Janeiro.
Naqueles tempos, a crônica chamava-se folhetim e não tinha as características que tem hoje. Era um texto mais longo, publicado geralmente aos domingos no rodapé da primeira página do jornal, e seu primeiro objetivo era comentar e passar em revista os principais fatos da semana, fossem eles alegres ou tristes, sérios ou banais, econômicos ou políticos, sociais ou culturais. O resultado, para dar um exemplo, é que num único folhetim podiam estar lado a lado, notícias sobre a guerra da Criméia, uma apreciação do espetáculo lírico que acabara de estrear, críticas às especulações na Bolsa e a descrição de um baile no Cassino.
Visto por esse ângulo, o folhetim pertencia ao jornalismo, por ser essencialmente informativo e muitas vezes crítico. Por outro lado, a exigência de uma certa elegância e leveza na maneira de escrever colocava o folhetinista a um passo da literatura. Nas mãos de um grande escritor como Alencar, o folhetim jamais deixou de ser um exercício literário. Ao mesmo tempo em que ele contemplou a variedade de assuntos, achou lugar para o sonho, o humor, o devaneio, a fantasia e as descrições exuberantes da natureza do Rio de Janeiro, que revelavam desde então as qualidades do prosador que logo se afirmaria no cenário nacional.
A estreia de Alencar no Correio Mercantil ocorreu em setembro de 1854, quando tinha 25 anos. Durante dez meses ele escreveu a primeira série dos folhetins semanais intitulados "Ao correr da pena", que projetaram o seu nome no meio intelectual e social do Rio de Janeiro, então capital do Império. O prestígio como folhetinista rendeu-lhe o convite para o cargo de redator-gerente do Diário do Rio de Janeiro, onde trabalhou por quase três anos e publicou uma segunda série de folhetins nos meses de outubro e novembro de 1855.
A leitura desses textos é agradável, ainda hoje, por força do estilo brilhante do escritor, e seu conteúdo revela uma série de transformações importantíssimas pelas quais passava o Rio de Janeiro na ocasião. É toda a fisionomia de uma cidade vivendo o seu primeiro grande momento de progresso e modernização em moldes capitalistas, embora incipientes, que se desenha nas páginas de Alencar. Não esqueçamos que a extinção do tráfico de escravos, em 1850, obrigara os investidores a realocarem os recursos anteriormente destinados à compra dos negros trazidos da África. E, como o assentamento dos capitais do tráfico privilegiou a atividade comercial, a vida urbana entrou num período de franca prosperidade.
Alencar não só testemunhou essas transformações como foi um entusiasta do progresso. Nos folhetins, mostrou-se maravilhado com as primeiras máquinas de costura importadas dos Estados Unidos, louvou a iluminação a gás do Passeio Público, deslumbrou-se com a viagem de trem a Petrópolis, orgulhou-se dos luxos da rua do Ouvidor e não se cansou de mencionar os melhoramentos da cidade.
Alencar parou de escrever os folhetins "Ao correr da Pena" no final de 1855. À frente do Diário do Rio de Janeiro, com novas e enormes responsabilidades, era de se esperar que deixasse de lado o jornalismo leve, para cuidar unicamente dos artigos de fundo. Mas, surpreendentemente, ele voltou ao gênero durante o ano de 1856, escrevendo mais quatorze folhetins, aos quais deu três títulos — "Folhas soltas", "Folhetim", "Revista" — e dois subtítulos — "Conversa com os meus leitores", "Conversa com as minhas leitoras".
Até hoje esses textos permaneciam esquecidos nas páginas do Diário do Rio de Janeiro e ignorados pelos biógrafos e estudiosos de Alencar. Pois o leitor deste volume terá o privilégio de ler nove folhetins inéditos, reunidos pela primeira vez numa publicação.
Há pontos comuns entre as "Folhas soltas" e a produção anterior, como o interesse pelos espetáculos líricos, bailes, passeios, moda, assuntos que são comentados sempre com graça e bom humor. Mas há diferenças também. Os folhetins escritos "Ao correr da pena" eram mais abrangentes, incisivos e muitas vezes brilhantes nas análises de fatos políticos e econômicos. Já as "Folhas soltas", escritas sem regularidade semanal, não tinham compromisso com as "regras" do gênero. Quer dizer, podendo abordar os assuntos sérios nos editoriais, Alencar ficou à vontade para soltar a imaginação e escrever textos do mais puro devaneio. Nesse sentido, por não cumprirem a exigência de passar em revista os principais acontecimentos da semana, as "Folhas soltas" não são  propriamente folhetins, mas crônicas, escritas para entreter e divertir o leitor. Daí o tom ameno e brincalhão, de conversa entre amigos, desses textos leves e despretensiosos, que seguramente serão apreciados por quem gosta de uma prosa ágil, inteligente e bem-humorada.


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Fonte:
Crônicas Escolhidas, por: José de Alencar. Editora Ática. Folha de S. Paulo. São Paulo, 1995, págs. 11-13.

domingo, 3 de julho de 2016

Biografia de José de Alencar

José de Alencar
Por: M. Cavalcanti Proença
José Gonçalves dos Santos, português, e Bárbara de Alencar, raça de gente pernambucana, são os avós de José de Alencar. A família reside em Barbalha, sopé da serra do Araripe, no Ceará.
No ano de 1794, nasce José Martiniano de Alencar que, desde moço, revelaria pendores, políticos e revolucionários, atingindo os postos de presidente da província e senador do Império.
Em 1829, primeiro de maio, nasce o romancista, em Mecejana. A certidão de idade registra primeiro de março; mais tarde, ao matricular-se na Faculdade de Direito de São Paulo, ele se dará como nascido a 28 de março. Mas a família comemorava a data certa: primeiro de maio.
Em 1837, o pai, que assumira a presidência do Ceará, deixa o governo e volta ao Rio de Janeiro. A viagem se faz pelo interior, de Fortaleza até o rio S. Francisco e daí até Salvador. O conhecimento do sertão deixará marcas inapagáveis na memória do menino José e será uma evocação permanente na obra do romancista J. de Alencar. 
Com onze anos, está matriculado no Colégio de Instrução Elementar, que ficava na rua do Lavradio; mora nas vizinhanças, na Rua do Conde. É aluno estudioso e que sabe ler muito bem; também em casa, é o leitor dos serões, em que a mãe, a tia e algumas pessoas mais se reúnem para ouvir romances de amor contrariado, histórias de esposas caluniadas que, no capítulo final, são, afinal, desagravadas, enquanto os carrascos e os maus recebem o castigo pelo falso levantado. Na mesma casa, entretanto, se planeja a revolução de 1842; frustrada a conspiração, dela partem e a ela aportam pessoas estranhas, de sussurrantes vozes e pesados silêncios; os derrotados, procurando escapar às perseguições. Mas o tempo é de criança não se meter em conversas de mais velho, quanto mais em planos revolucionários! O que ninguém podia proibir ao menino era adivinhar e pressentir, e perceber; silencioso, sofrido, tenso, apreende fatos, interpreta notícias. E vem, talvez, dessa conjura fracassada o seu plano de escrever uma história dos movimentos rebeldes no nordeste.
Em 1846 está em São Paulo, na Faculdade do Largo de São Francisco, à sombra daquelas arcadas onde se pode dizer que nasceu grande parte da literatura romântica do Brasil. Continua estudando sério, pegado aos livros, pouco dado às loucuras boêmias que constituíam a legenda dos acadêmicos de então. Sob esse aspecto, é apagada sua passagem por S. Paulo; importantíssima, entretanto, para sua formação intelectual, pois são daquela época os seus estudos de francês, a leitura de Balzac, Victor Hugo e Chateaubriand, a aquisição do artesanato literário, traço que o singulariza entre os nossos românticos.
Mas, em 1848, tem de transferir-se para a Faculdade de Direito de Olinda. Lá, a paisagem evocativa de um passado heroico e as bibliotecas das comunidades religiosas lhe
abrem ao espírito as largas perspectivas do romance hirto-rico; Alma de Lázaro e Guerra dos Mascates estão diretamente ligados a essa permanência em Pernambuco; podem situar-se na mesma linha O Ermitão da Glória e O Garatuja, embora tenham como cenário o Rio de Janeiro.
Aproveitando a proximidade, vai ao Ceará; o reencontro da paisagem natal reaviva-lhe o encantamento pelos índios, a admiração pelo conhecimento que possuíam da terra, íntimos das plantas e dos animais silvestres, quase miraculoso para o entusiasmo do jovem estudante. Dezessete anos.
Mais tarde contará que nessa ocasião se delineiam os primeiros sinais de O Guarani, e também de Iracema, embora a distância de oito anos que haveria entre um e outro.
De volta a São Paulo, recebe o diploma de bacharel em Direito, em 1850; pouco depois se instala no Rio, trabalhando no escritório do Dr. Alberto Soares.
Fato muito curioso em J. de Alencar, é aquela reiterada confissão de que procurava na literatura "diversão à tristeza que (lhe) infundia o estado da Pátria". (Iracema, 1865.) Frase cujo sentido se completa nesta outra em que mal se revela uma alusão ao seu caso pessoal: "Quando as letras, entre nós, forem uma profissão, talentos que hoje aí buscam apenas passatempo ao espírito, convergirão para tão nobre esfera suas poderosas faculdades." Note-se, a propósito, a abundância de sua produção no campo da jurisprudência e da política, da crítica literária e da filosofia (cerca de 42 trabalhos), e compare-se com .o volume da obra de ficção que não chegou a vinte romances.
No entanto, do ponto de vista nacional, é ele o nosso mais importante escritor, de vez que em vinte anos de ofício literário, levantou em seus romances um retraio do Brasil. Sincronicamente regional, descrevendo o Ceará, em O Sertanejo; o Estado do Rio, em Til e O Tronco do Ipé; a capital do Império, em A Viuvinha, Cinco Minutos, Senhora, A Pata da Gazela; a zona rural carioca em Diva, a Tijuca, em Sonhos d'Ouro; O Rio Grande do Sul, em O Gaúcho. Diacronicamente histórico, romanceou os tempos coloniais em Minas de Prata; o contacto entre os índios e os colonizadores em O Guarani e Iracema; o dia-a-dia do Rio colonial em O Garatuja; uma lenda em O Ermitão da Glória. Guerra dos Mascates, episódio da história pernambucana, é uma sátira com endereço a D. Pedro II.
Se, como romancista, sua obra é deliberada e conscientemente nacional, seu sentimento de brasilidade e de apaixonada devoção à pátria se expandiriam em outros campos, numa atividade múltipla e intensa.
No Correio Mercantil faz polemica, de grande repercussão, com os defensores de A Confederação dos Tamoios, poema feito por quem não era poeta e mandado publicar pelo Imperador; e tanto tinha razão que, hoje, o poema tem importância apenas cronológica e só é lembrado em função da crítica de Alencar.
A política seria escoadouro natural de um espírito assim combativo e animado de tanta paixão cívica. Em 1861 é eleito deputado; em 68, é ministro da Justiça do Gabinete Itaboraí. Foi assinada por ele a lei que proibia a venda de escravos sob pregão e em exposição pública, espetáculo degradante, muito comum no chamado Mercado do Valongo. (15.9.69).
Mas, por esse tempo, já se tornam agudas as divergências com Pedro II, que lhe vetará a escolha para senador do Império, embora tenha sido o mais votado na lista tríplice. O episódio culminante é característico da personalidade de Alencar. Ele se candidatara ao Senado, talvez desejando repetir a carreira do pai, então já falecido, e foi comunicar o fato a Pedro H; este observa:
— "No seu caso, eu não me apresentava agora; o senhor é muito moço:
— Por esta razão, Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal."
Não teve cadeira no Senado. Mas teve glórias que a compensaram. Taunay nos dá notícia da percussão de O Guarani, publicado em folhetim: "Verdadeira novidade emocional, desconhecida nesta cidade; (...) entusiasmo particularmente acentuado nos círculos femininos da sociedade fina e no seio da mocidade (...) o Rio de Janeiro, em peso, lia O Guarani e seguia comovido e enlevado os amores de Ceei e Peri (...) Quando a São Paulo chegava o correio, com muitos dias de intervalo, então, reuniam-se muitos estudantes, numa república em que houvesse qualquer feliz assinante do Diário do Rio de Janeiro, para ouvir, absortos e sacudidos por elétrico frêmito, a leitura feita em voz alta, por algum deles que tivesse órgão mais forte. E o jornal era depois disputado com impaciência e pelas ruas se viam agrupamentos em torno dos fumegantes lampiões da iluminação pública de outrora — ainda ouvintes pára cercarem, ávidos, qualquer improvisado leitor."
A glória não veio sem o sofrimento provocado pela inveja e pela incompreensão dos incapazes e dos retrógrados. Atacado, negado, vilipendiado, na vida literária e na política, só no lar, bem constituído, encontrava tranquilidade e compreensão. Torna-se amargo. Sente-se velho aos quarenta anos, e adota o pseudônimo de Sênio. A saúde não é boa. Vai à Europa, e a viagem é um parêntese vazio na sua vida; tem encontros desagradáveis em Portugal; acolhimento amável em Paris; Londres é um desconsolo total.
Dezembro de 1877, morre chorando, abraçado à esposa, preocupado com a pobreza em que vai deixar os seus.
Joaquim Serra, amigo certo, colhe o depoimento dos contemporâneos. O de Machado de Assis é lapidar:
"Jamais me esqueceu, a impressão que recebi quando dei com o cadáver de Alencar, no alto da eça, prestes a ser transferido para o cemitério. O homem estava ligado aos anos das minhas estreias. Tinha-lhe afeto, conhecia-o desde o tempo em que ele ria, não me podia acostumar à ideia de que a trivialidade da morte houvesse desfeito esse artista, fadado para distribuir a vida."


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Fonte:
Ubirajara, por: José de Alencar. Biografia de: M. Cavalcanti Proença.  Ediouro, 1966, págs. 1-6.

sábado, 18 de junho de 2016

José Martiniano de Alencar

José Martiniano de Alencar
(Mecejana/CE, 1829 — Rio de Janeiro/RJ, 1877)
Transfere-se com a família pa­ra o Rio de Janeiro, onde faz os primeiros estudos. Apaixona-se mui­to cedo pela literatura. Em 1843, le­va para São Paulo esboços de romance. É nessa cidade que faz o curso de Direito. Fica conhecido sob o pseudônimo de Ig; critica o poema de Gonçalves de Magalhães, escrevendo, em 1856, Cartas sobre a Confederação dos Tamoios, o que motiva um séria polemica. Esse fa­to desgosta o imperador D. Pedro II. Sofre terrível campanha da par­te de José Feliciano de Castilho e de Franklin Távora, apoiados por D. Pedro II. Defendeu a autonomia do falar português no Brasil, e, por isso, foi acusado de fazer incorreções de linguagem.
José de Alencar é o mais importante dos romancistas românticos, devido à diversidade e extensão de sua obra, à sua linguagem rica e poéti­ca, e aos temas de caráter nacional que utilizou. Segundo Raquel de Quei­rós, "Alencar é o verdadeiro pai do nosso romance".
O estilo alencariano é uma das grandes contribuições à literatura bra­sileira incipiente. Alencar preocupa-se com o problema da língua e do esti­lo. A sua obra traduz particularidades sintáticas e vocabulares do falar brasileiro. Enriquece a língua literária de inúmeros tupinismos e brasileirismos. Além disso, seu estilo é sonoro e brilhante, um tanto declamatório, ao gosto da época.
Sua obra compreende romances urbanos, indianistas, regionalistas e históricos. Em seus romances urbanos, Alencar retrata a vida no Rio de Janeiro, à época do Segundo Império, mostrando os costumes burgueses brasileiros. Seus romances revelam dramas sociais e morais como a hipo­crisia, a corrupção da sociedade, o casamento por conveniência, o patriarcalismo. Defende os direitos da mulher ao amor e à liberdade, estudando perfis femininos complicados e profundos. São livros desta fase: A Viuvi­nha e Cinco Minutos, Diva, Senhora, A Pata da Gazela, Sonhos D'ouro, Lucíola, Encarnação.
Os romances regionalistas de Alencar representam quadros de várias regiões brasileiras: o sul (O Gaúcho), a área rural fluminense (O Tronco do Ipê) e o nordeste (O Sertanejo). Através da exploração dessas caracte­rísticas regionais do país, Alencar busca criar uma literatura verdadeira­mente nacional, marcada pela exaltação dos diversos tipos e das diferen­tes paisagens brasileiras.
Como criador de romances indianistas, Alencar tenta representar um selvagem que simbolize a autonomia americana e a afirmação nacio­nal. Cria personagens indígenas marcados pelas qualidades morais, pela honra e pela pureza, influenciado pela teoria do "bom selvagem" de Rousseau. São índios, na verdade, que representam os valores da cristandade e da nobreza, idealizados ao extremo, muitas vezes perdendo, na obra de Alencar, as características próprias de sua cultura. Além disso, na tentati­va de ressaltar valores nacionais, Alencar resvala no conflito simplista en­tre bem e mal, colonizador e colonizado, selvagem e civilizado. Suas prin­cipais obras indianistas são: O Guarani, Iracema e Ubirajara.
Finalmente, os romances históricos de Alencar exploram as lutas pe­la posse da terra e pelas riquezas brasileiras, mostrando as aventuras dos bandeirantes, o povoamento dos sertões e os conflitos entre brasileiros e portugueses. Suas principais obras são: As Minas de Prata, O Garatuja e A Guerra dos Mascates.
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Fonte:
Língua & Literatura: Volume 2, por: Maria da Conceição Castro. Editora Saraiva, 1ª Edição. São Paulo, 1993, pág. 135-136.