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domingo, 10 de julho de 2016

Biografia de Millôr Fernandes

A trajetória de um humorista
Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1924: nasce Milton Fernandes - mais tarde nacionalmente conhecido como Millôr Fernandes — na rua Isolina, 59, bairro do Méier, onde vive até os 10 anos; dez anos tão intensamente vividos que valem metade de sua vida.
A família de quatro irmãos (dois meninos e duas meninas) vivia num sobrado amplo e sólido, de estilo colonial português. Mas de português na família só o estilo da casa, que servia de cenário para a convivência de duas outras raças europeias igualmente meridionais: a espanhola, pelo lado do pai, e a italiana, por Unha materna.
O lado espanhol, aventureiro e irreverente, é sintetizado na figura do pai. Morto aos 36 anos, quando Millôr mal completara 2, a imagem que ficou, fixada nas centenas de fotografias que encheram as gavetas e a imaginação do menino Millôr, é a de um homem bonito, garboso, de espírito ousado e irrequieto. Já a parte italiana era mais convencional e acomodada, mas, em compensação, mais afetiva e bondosa. Mas ambos os lados, tão diferentes, conviviam harmoniosamente no sobradão português, sempre cheio de tios, tias, primos, primas, avós. O centro da reunião era o "puxado", cobertura de telhas onde a família fazia as refeições, as crianças brincavam e as mulheres conversavam enquanto bordavam e costuravam.
Com a morte do pai, a família passa da vida estável de classe média para a condição proletária. A situação, até certo ponto, era compensada pelo conforto da casa, pela amplidão do quintal, que se prolongava até os quintais das outras casas, formando quase um território de ninguém, ou melhor, de todas as crianças que lá brincavam.
É dessa época o amor maior de sua vida: sua avó. Sentimento "mais do que correspondido" (como diz Millôr) por essa mulher que teve 72 netos e bisnetos e se desdobrou num amor de avó e de mãe (Millôr perdeu a mãe quando tinha apenas 10 anos).
Outra lembrança, ainda do Méier, é o Grupo Escolar Enes de Sousa, onde Millôr fez o curso primário, numa época em que havia grande autonomia no ensino público: graças talvez à extraordinária personalidade de sua diretora, Isabel Mendes, a escola era ótima, de um espírito pedagógico inigualável. Hoje, já com o nome de sua antiga diretora, a escola é chamada por Millôr de Universidade do Méier... forma bastante carinhosa de reconhecer sua influência e importância.
Todo este mundo é, para Míllôr Fernandes, só uma lembrança e uma evocação... O antigo bairro do Méier já não existe mais, transformado que foi pela força "modernizadora" do progresso, que destrói não só a arquitetura mas também a memória social de nossas grandes cidades. Hoje, é com certa melancolia que Millôr revê o bairro de sua infância: "Reconhece-se alguma coisa. Um pé de manga, um pedaço de muro, um resto de terreno, ainda, milagrosamente, baldio, mas há uma mutilação geral, irrecuperável. Como li em Paulo Mendes Campos: 'Todo homem, ao se extinguir, leva no coração duas cidades mortas'. Eu já levo uma, bem (in)visível" "Volta ao Lar (nostalgia)".

DO MÉIER PARA O MUNDO
Com a morte da mãe, os quatro irmãos se separam, indo cada um viver em casa de parentes. Para o Millôr de hoje, essa fase de sua infância lhe faz lembrar os romances de Dickens: Oliver Twist carioca, órfão de pai e mãe, a cuidar precocemente de sua própria vida. Muitas vezes, ao voltar tarde para casa, tinha de atravessar grandes sítios solitários, naqueles bairros ainda rurais da zona norte carioca. Era então o medo do lobisomem, da mula-sem-cabeça, que provocava súbitas corridas de perder o fôlego. Mas tudo isso era amenizado pela presença constante de sua avó, muitas vezes a esperá-lo, tarde da noite, para servir-lhe uma refeição fora de hora.
Foi em 1938, aos 13 anos de idade, que Millôr iniciou sua vida profissional, ingressando no mundo jornalístico graças a seu tio Viola, funcionário da revista O Cruzeiro. E foi nessa revista que o então garoto Millôr começou a trabalhar no cargo de "office-boy de luxo", desempenhando também tarefas ligadas à produção jornalística.
É bem verdade que, três anos antes, aos 10, Millôr já estreara na imprensa quando O Jornal publicou um desenho seu. Mas esse episódio foi ocasional. O importante foi o fato de a publicação ter sido paga, o que, para o autor, já prenunciava "uma mentalidade profissional" que o acompanharia por toda a vida.
No tempo em que Millôr começou a trabalhar em O Cruzeiro, o jornalismo brasileiro era ainda muito precário, sem grandes especialistas. Eram raros os jornalistas que conheciam francês ou inglês. E Millôr soube abrir seu caminho nessa imprensa acanhada, tomando parte cada vez mais ativa na produção jornalística: escreve legendas, trabalha em paginação, etc.
Já com uma vida profissional engatilhada, Millôr sai da casa de seus parentes e vai viver numa pensão. Mas... nada de morbidez... nada dos ambientes miseráveis e mesquinhos das habitações coletivas descritas nos romances de Balzac e Aluísio de Azevedo. Millôr viveu em pensões confortáveis, "familiares", tipicamente de classe média, que proporcionaram ao autor uma vivência comunitária bastante valiosa e até divertida.
Nessa época, voltara a estudar, matriculando-se no antigo curso propedêutico do Liceu de Artes e Ofícios. Frequentava o período noturno, depois de trabalhar o dia todo. A vida era muito corrida; muitas vezes ia estudar com o estômago vazio. Mas o prestígio profissional que logo chega e o consequente acúmulo de trabalho tiram Millôr outra vez dos bancos escolares, desta vez para sempre.
Após algum tempo na revista O Cruzeiro, desempenhando as mais variadas funções, Millôr, percebe que está marcando passo. Ë quando resolve mandar um conto seu para um concurso promovido pela revista A Cigarra. E ganha o primeiro lugar. Valorizado diante de seus superiores, Millôr consegue um posto mais condigno em O Cruzeiro. Começa também a colaborar em outras publicações, como O Guri, O Detetive e a própria A Cigarra. E tudo por causa do conto premiado que, aos olhos críticos do Millôr de hoje em dia, parece "muito, muito fraco", mas é carinhosamente guardado como uma relíquia histórica.
É a partir dessa época que ele começa a firmar sua carreira jornalística, atingindo um de seus pontos altos na fase áurea da revista O Cruzeiro. De fato, ao lado de companheiros como Fred Chateaubriand, Franklin de Oliveira, Jean Manzon e outros, Míllôr Fernandes iniciara um processo de total renovação da revista. E o resultado é realmente admirável: O Cruzeiro, que tinha uma tiragem de 11 mil exemplares em 1945, atinge, em 1954, a marca dos 750 mil exemplares, um ponto jamais alcançado por qualquer outra publicação do gênero no Brasil. Sua penetração era tão grande que chegou a ter uma edição em espanhol, circulando em toda a América Latina e sul dos Estados Unidos.
Nesse período, MiEôr Fernandes trabalhava intensamente, chegando a escrever dez seções por semana. E é sobretudo com a seção "O Pif-Paf", sob o pseudônimo de Vão Gôgo, que o autor ganha prestígio nacional. O menino do Méier conquistara o seu mundo.

HOJE EM DIA
Na década de 60, Millôr Fernandes editou uma revista humorística, O Pif-Paf. Depois, destacou-se como um dos principais jornalistas de O Pasquim.
Atualmente (1980), colabora na revista Veja, onde escreve toda semana uma seção humorística de duas páginas. Isso sem falar nos inúmeros livros publicados, como Lições de um Ignorante, Fábulas Fabulosas, Millôr no Pasquim e muitos outros.
Apesar de seu largo prestígio como humorista, teatrólogo e desenhista, Millôr é pouco afeito aos círculos acadêmicos, especialmente àqueles mais conservadores, muito preocupados com a imortalidade literária. E isto se explica, principalmente, pela característica essencial de Millôr: um escritor da "antimoral e da irreverência", como já foi definido mais de uma vez.
Mas, como toda biografia que se preza termina falando das glórias presentes
e futuras do autor, vamos passar a palavra ao próprio Millôr que, num lirismo vazado de ironia, assim imaginou sua posteridade:
POEMINHA ÚLTIMA VONTADE
Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.
De preferência, mata;
Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.
Na tumba, em letras fundas,
Que o tempo não destrua,
Meu nome gravado claramente.
De modo que, um dia,
Um casal desgarrado
Em busca de sossego
Ou de saciedade solitária,
Me descubra entre folhas,
Detritos vegetais,
Cheiros de bichos mortos (Como eu).
E, como uma longa árvore desgalhada
Levantou um pouco a laje do meu
                                               [túmulo
Com raiz poderosa,
Haja a vaga impressão
De que não estou na morada.

Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente
Em meu canteiro final.
E o casal repetirá meu nome,
Sem saber quem eu fui,
E se irá embora,
Preso à angústia infinita
Do ser e do não ser.
Ficarei entre ratos, lagartos,
Sol e chuva ocasionais,
Estes sim, imortais.
Até que um dia, de mim caia a semente
De onde há de brotar a flor
Que eu peço que se chame
Papáverum Millôr.



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Fonte:
Millôr Fernandes: Leitura Comentada. Texto: Maria Célia Rua de Almeida Paulillo. Abril Educação. São Paulo, 1980, págs. 3-5.

Biografia de Chico Buarque

"TALVEZ O MUNDO NÃO SEJA PEQUENO NEM SEJA A VIDA UM FATO CONSUMADO"
"Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões?...
Se lembra da jaqueira
a fruta no capim..."

Não, as canções de Chico não são autobiográficas. Não havia jaqueiras na casa da rua Haddock Lobo, para onde a família Buarque de Holanda se mudou, vinda do Rio, quando o compositor tinha apenas dois anos de idade (1946). E isso segundo o testemunho do pai historiador, que afirma não saber da existência de jaqueiras em São Paulo. No entanto, caía balão, sim, no terreno baldio atrás da casa, que ficava perto da rua Augusta - uma Augusta provinciana onde, diz o Chico, "se não passava banda, passava bonde"...
Também as Ritas, Carolinas, Januárias e Madalenas que povoam suas músicas não integram, necessariamente, a galeria de suas ex-namoradas: são nomes femininos, apenas. Exceções quanto ao caráter de verossimilhança de suas personagens? Deve haver. Uma delas parece ser o caso da canção Luísa:
"Por ela é que faço bonito
Por ela é que faço o palhaço
Por ela é que saio do tom...
É pra ela que eu f aço cartaz
É por ela que eu espanto
De casa as sombras da rua
Faço a lua
Faço a brisa
Pra Luísa dormir em paz."
Chico fez esta canção em parceria com Francis Hime, por sinal pai de outra Luíza (esta, com z), afilhada de Chico. Luísa (com s) é a última das meninas de Chico e Marieta Severo, sua mulher. "Bem, é claro que pra filha da gente sempre se abre uma exceção".
Outra exceção parece ser o caso de Angélica:
"Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar".
Quem é essa mulher? É a mãe que "só queria lembrar o tormento / que fez (s)eu filho suspirar": Zuzu Angel, que lutou desesperadamente — até morrer, atropelada - para deslindar o caso do desaparecimento e morte de seu filho, preso político, em 1971.
Em geral, as canções de Chico não refletem de maneira imediata os acontecimentos, sejam eles pessoais ou políticos. "Minha música não é política, diz ele. Às vezes, tem um conteúdo social. Mas não me considero um cantor de protesto, no sentido usual da palavra. Claro que as coisas acabam se misturando. O artista não faz, necessariamente, crítica social. Mas a leitura dos jornais, a observação do quotidiano, aproveito tudo. A leitura dos jornais, principalmente, é essencial para o meu trabalho. Tanto quanto a fantasia. E com isso vem a fusão, confusão, transfusão." 
De família intelectual ("as paredes lá de casa viviam cobertas de livros") e de grande sensibilidade artística, filho do historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Hollanda, uma das mais sólidas figuras intelectuais deste país, e de Maria Amélia Buarque de Hollanda, pianista-concertista, Chico conviveu desde cedo com os amigos da casa — João Gilberto, Vinícius de Morais, Baden Powel, Tom Jobim, Alaíde Costa, Oscar Castro Neves. Isso iria, necessariamente, marcar sua formação de compositor e escritor JÁ desenvoltura com que ele manipula o material verbal, aliada à amplidão de suas referências culturais e humanas não se devem exclusivamente a uma sensibilidade especial, vinculada a talento, mas também a uma convivência com grandes livros. Leu muito na adolescência: Dostoievski, Tolstoi, quase todos os grandes romances russos; leu os franceses (Céline, Balzac, Zola, Roger Martin du Gard); depois passou aos brasileiros:
Guimarães Rosa, João Cabral, José Lins do Rego, Machado, Drummond, Graciliano... Numa fase posterior, descobriu os latino-americanos: Cortazar, Puig, Garcia Marques, Borges. Convivência com textos, convivência com pessoas: eis os elementos formadores de sua personalidade rica e multiforme, e que instrumentaram o artista de hoje.
Desde criança, ouvia dentro de casa os amigos da irmã Heloísa (Miúcha) tocarem violão e cantarem. Era a bossa nova que estava nascendo, em 1958: uma mistura nova de música e poesia, abatida diferente do violão de João Gilberto.
Chico começou a aprender a tocar violão com Heloísa, que mais tarde se casaria com João Gilberto. Mas tocava era mesmo de ouvido, acompanhando o disco na vitrola. E ouvia rádio, muito rádio: Ataulfo Alves, Ismael Silva, Noel Rosa. Ouvia de tudo: chorinho, samba, marchas, modinhas e serestas. E confessa a dívida que tem com João Gilberto, "ele marcou toda uma geração. Isso é até lugar-comum. Qualquer artista de minha geração, que você entrevistar, vai dizer que ficou muito marcado quando ouviu o João. Eu me lembro do primeiro disco dele que ouvi: Chega de Saudade. Fiquei horas e horas e horas ouvindo e tal, e foi só a partir daí que eu comecei a pegar no violão, a tentar imitar a batida da bossa nova, a fazer minhas primeiras músicas, imitando a bossa, cantando à Ia João. Ê um cara que fez a cabeça de uma geração inteira."
Além disso, Chico faz questão de registrar outras influências que recebeu: António Carlos Jobim, Noel Rosa, Vinícius, Drummond, Dorival Caymmi, Paulo Vanzolini.
Depois de uma temporada de dois anos na Itália, para onde se mudara sua família, entra para o Colégio Santa Cruz — uma escola burguesa de alto nível em S. Paulo. Lá, por contraditório que possa parecer, dá-se sua abertura para o social: torna-se participante de movimentos de juventude, tais como OAF (Organização de Auxílio Fraterno), que promovia rondas noturnas para levar comida e agasalho aos mendigos da cidade, sobretudo no inverno; movimentos de "desfavelamento", etc. — que, malgrado o caráter paternalista que lhes possa ser atribuído, tiveram a eficácia de pô-lo em contato, sem mediação, com essa "romaria de mutilados" de que fala em sua grande canção, com o "plano dos bandidos, dos desvalidos".

O SAMBA E A FACULDADE
Em 1963, ingressa na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade de São Paulo — USP). Segundo o testemunho do pai, Chico "gostava de fazer plantas para cidades fantásticas. Eram sempre coisas imaginárias, mas tinham em comum, todas elas, uma fonte exatamente no centro da cidade." Cursou a FAU só até o 39 ano. Já a partir do 29, começa a andar na companhia de Francisco Maranhão e de outros adeptos do samba. Ainda pretendia fazer o curso de Ciências Sociais, mas veio a roda-viva e levou esse plano "prá lá". Não estávamos ainda na época em que, segundo o preceito, "trabalhador trabalha, professor leciona, estudante estuda". Era o início da década de 60; havia, então, em vários setores, uma euforia de participação, de criatividade: era o tempo da bossa nova, do Cinema Novo, do teatro Oficina, do show Opinião, dos CPCs (Centros Populares de Cultura), do Teatro de Arena. A Faculdade servia, muitas vezes, de catalisador para muitos desses impulsos de criação. Sua ação formadora desenvolvia-se tanto nas aulas quanto nas conversas dos corredores, nos barzinhos, nos botecos e, sobretudo, nos grêmios das faculdades - entidades vivas. O da Faculdade de Filosofia, por exemplo — situada na rua Maria Antônia, confluindo com a rua Dr. Vila Nova, onde estava a Faculdade de Economia, também da USP, ambas no bairro da Consolação —, concentrava grande parte dessa fermentação produtiva.
A participação artística entre os estudantes era muito grande. E havia também um projeto de participação social que integrava estudo/arte/povo. Chico Buarque fundou, com alguns colegas, o "Sambafo": após as aulas, no grêmio ou na "Quitanda" — boteco da Dr. Vila Nova onde se faziam boas batidas —, o grupo se reunia para tocar e cantar. E Chico especializou-se em desafios. Em 1965, nasce Pedro Pedreiro (o único "Pedro" da autoria de Chico acabaria sendo este, uma vez que pelo filho Pedro, ele e Marieta ficaram esperando, pois só vieram as três meninas...). Vamos dar a palavra ao próprio Chico: "Quando entrei na Faculdade de Arquitetura, São Paulo novamente se transfigurou aos meus olhos. As universidades, a rua Maria Antônia, os sonhos políticos, as frustrações, a profissão, o tijolo, o pedreiro, o engenheiro. São Paulo vista de dentro. As longas noites paulistas; o violão entrando em cena. E foi aí que eu encontrei a fonte do meu samba urbano, cheirando a chaminé e a asfalto. É, portanto, sem receio que confesso que Pedro Pedreiro espera o trem num subúrbio paulista, Juca é cidadão relapso do Brás, Carolina é a senhorita da janela na Bela Vista e a banda passou, por incrível que pareça, no viaduto do Chá, em clara direção ao coração de São Paulo".
Quando a peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, começa a ser encenada, Chico é convidado pela direção do TUCA (Teatro da Universidade Católica) para musicá-la. Pois bem: Chico não compôs uma música que servisse de "fundo musical" para o texto. Antes, descobriu a música que o poema já carregava, latente, dentro de si, e a evidenciou. A essa experiência, Chico conta que deve muito: "Aquele trabalho garantiu-me que melodia e letra devem e podem formar um só corpo."
Em 1966, ainda antes do estouro de A Banda, conhece Marieta Severo, que se tornará sua mulher. Em outubro desse ano, no II Festival da Música Popular Brasileira, duas músicas disputam o primeiro lugar: A Banda, e Disparada, de Geraldo Vandré e Theófilo de Barros Filho (o Theo). Apesar de primeiro colocado, antes que o resultado fosse dado a público, Chico interveio: "Gosto muito de Disparada e sinto que o público também. Dividam o prêmio, porque se eu fizer isso no palco — e estou decidido — o gesto parecerá demagógico."

A RODA-VIVA
Com 22 anos e pouco mais de 30 músicas, Chico Buarque "quebrou a barreira da idade" e tornou-se o mais jovem depoente do Museu da Imagem e do Som. Afamadíssimo, ganha, em 1967, o título de Cidadão Paulistano, conferido pela Câmara Municipal de São Paulo. Isso enquanto, na calçada, uma banda — a da Guarda Civil — tocava A Banda...
Com uma agitadíssima vida de shows e apresentações pelo Brasil afora, Chico tinha-se tornado, na expressão de Millor Fernandes, a "única unanimidade nacional" — o que tem o seu preço. Alguém não pode ser hem visto por todos, a não ser que alguma das partes esteja alimentando um equívoco. É o que se passou com a utilização de A Banda como fundo musical de um filme de propaganda oficial na T.V. - contra o que Chico se indispôs indignadamente. Um exemplo, entre tantos, da capacidade que o sistema tem de absorver a música popular.
Mas a unanimidade em torno de Chico logo começará a se desfazer. Em fins de 67 é levada ao palco a peça "Roda-Viva", de sua autoria, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, e que tem como tema, exatamente, a desmistificação do ídolo popular. Essa peça revelou, com toda a agressividade que o teatro comportava, um Chico antilírico, chocante, destruindo inapelavelmente a imagem muito consumível de bom menino, de boa família, bem comportado. O público passa a responsabilizar o diretor Zé Celso pelo radicalismo agressivo da peça. Mas Chico Buarque a assume. Essa mudança de imagem se opera em dois níveis, em relação a dois públicos: diante daqueles que viam em Chico o tranquilizante "bom moço", e que agora se sentem decepcionados; diante do público simpatizante do tropicalismo e que, por motivos diferentes, (Chico passa a ser acusado de intransigente defensor do estilo tradicional de compor) renega o autor de Carolina. Data daí o confronto (alimentado pelos respectivos séquitos de fãs) entre Chico e os tropicalistas — como ficou registrado no LP Geleia Geral, de Gil e Torquato:
"Outra moça também Carolina
Da janela examina a folia
Salve o lindo pendão dos seus olhos
E a saúde que o olhar irradia."
Esse mal-entendido parece que só se resolverá totalmente por ocasião da gravação do show Chico e Caetano Juntos, em Salvador, 1972.
O gosto do público, em todo o caso, se alterara, e manifesta-se o desencontro: "Essa moça tá diferente / Já não me conhece mais / Está pra lá de pra frente / Está me passando pra trás /.../ Eu cultivo rosas e rimas / achando que é muito bom / Ela me olha de cima / E vai desinventar o som". Mais tarde, em seu quarto disco, lançado em 1970, gravado metade na Itália (para onde ele foi em 69, por quinze meses) e metade aqui, Chico faz uma revisão da própria obra, e se propõe a "dar um chute no lirismo".

MINHA VOZ FICOU
NA ESPREITA,
NA ESPERA
QUEM DERA
ABRIR MEU PEITO,
CANTAR FELIZ
De volta ao Brasil, :em 1970, Chico vai-se confrontar duramente com a censura do governo Mediei. Estabelece-se um jogo desgastante de pode-não-pode entre o compositor e o censor. Algumas canções são proibidas na totalidade: Apesar de Você, Cálice, Tanto Mar, Bolsa de Amores; outras, têm palavras ou versos inteiros cortados. O fato de, recentemente, com o afrouxamento da censura, algumas de suas músicas poderem ter saído em disco, como é o caso das três primeiras, não redime o mal: o prejuízo já ocorreu. Apesar de você, por exemplo, diz Chico, tem um tom de revolta que não é mais o de suas músicas atuais; Cálice "tem a cara do ano que foi feita, 1973: aquela coisa meio desesperada, pesada, muito daquele tempo". Tanto Mar precisou ser inteiramente reformulada, pois diz respeito à Revolução dos Cravos em Portugal, e muita coisa mudou.
A enumeração dos confrontamentos entre Chico Buarque e a censura seria longa e cansativa. Ele chegou a declarar nos jornais que, de cada três músicas enviadas para a censura, só uma era liberada. Em alguns casos, tratava-se de censura política; em outros, de censura "moral" — reafirmando aquele velho esquema de qualquer ditadura: a aliança da repressão política com a repressão sexual.
E quais as maneiras de driblar a censura? Felizmente, restou sempre a possibilidade daquilo que Caetano Veloso chamaria de "a linguagem da fresta" - que é, em suma, a linguagem do malandro, desse malandro que assumiu o nome de Julinho da Adelaide ou de Leonel Paiva e que ironicamente canta, em Jorge Maravilha: "Você não gosta de mim, mas sua filha gosta". Chico dá o referente verídico dessa passagem: "Aconteceu de eu ser detido por agentes de segurança e no elevador o cara pedir um autógrafo para a filha dele. Claro que não era o delegado, mas aquele contínuo de delegado." Os pseudônimos usados por Chico foram, no entanto, expediente de curta eficácia, pois criaram, logo, logo, a obrigatoriedade de juntar, ao nome do compositor, o CIC e o RG. Chico confessa que houve épocas em que sua criatividade estava mais voltada para driblar a censura, do que propriamente para sua música. Muitas vezes, diz ele, "paro no meio de uma música, porque eu sei que não vai ser possível gravar. Isso é uma autocensura e, é claro, um entrave sério. É inevitável que a gente crie ama autocensura. Eu já tenho a minha, condicionada". No entanto, o problema mais grave em relação à censura é desinformar culturalmente; não é tanto prejudicar um ou outro autor, que não pode ter sua obra difundida, mas interromper o processo de formação do público e, correlatamente, o desenvolvimento da obra dos autores.
Mas o fato de ter ficado por um longo tempo com sua voz "na espreita, na espera", sem poder entoar um canto largo, não significou, de maneira alguma, que Chico diminuísse sua produção. Em 1971, lança o disco Construção, ao qual não faltam raiva e garra para intensificar ainda mais sua crítica social. E recebe uma homenagem do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil, em Belo Horizonte: uma pá de prata, num tijolo de jacarandá, que os pedreiros lhe ofertavam, "com os olhos embotados de cimento e lágrima". Valia quase como a consagração de um poeta popular.
Com a novela Fazenda Modelo (1974), resvala de vez para a sátira, para a paródia e para a alegoria; a fim de não correr risco algum de se ver censurado, não fala da sociedade dos homens, fala só de bois e vacas...
Dois episódios nesse corpo a corpo de Chico com a repressão merecem registro. Um deles foi a censura na Phono 73 — o show da Phonogram, gigantesca exposição de cantores e compositores, na qual seria cantada a música Cálice, por Chico e Gil. Mas ela foi proibida na hora, mesmo depois de ter sido publicada em jornal. Para impedir que a palavra Cálice (cale-se) fosse pronunciada, cortaram o som de todos os microfones, um após o outro. Chico, com raiva, começava a cantar num deles, o som era desligado; ele pegava o outro, também faziam o mesmo, e outro, e outro. E assim ironizou (= transformaram em imagem concreta, em ícone) aquela palavra. Para que ninguém ouvisse "cale-se", a censura levou aquelas três mil pessoas presentes ao show a verem o "cale-se" dramaticamente concretizado nos microfones calados.
Outro, foi um caso de censura extrema: a peça Calabar, que Chico escrevera em parceria com Ruy Guerra, foi censurada e a imprensa impedida de notificar a proibição. Era a repetição histórica, em 1974, daquilo que, na peça, devia ter-se passado no século XVII. Diz o frei (personagem da peça) a Bárbara, viúva de Calabar:
"Calabar é um assunto encerrado. Apenas um nome. Um verbete. E quem disser o contrário atenta contra a segurança do Estado e contra as suas razões. Por isso o Estado deve usar do seu poder para o calar. Porque o que importa não é a verdade intrínseca das coisas, mas a maneira como elas vão ser contadas ao povo." Texto profético?
Chico foi proibido na Argentina, no governo Videla. E aqui no Brasil ele sei transformaria (até 1978) num dos artistas mais visados pela censura. Não seria por que ele detém, mais do que ninguém, esse poder inquietante dê lidar com as palavras?
Festa Imodesta
(Caetano Veloso)
Minha gente era triste e amargurada
inventou a batucada
pra deixar de padecer.
Salve o prazer, salve o prazer!
Numa festa imodesta como esta
vamos homenagear
todo aquele que nos empresta a sua testa
construindo coisas pra se cantar»
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
que o otário silencia
toda festa que se dá ou não se dá
passa pela fresta da cesta e resta a vida.
Acima do coração que sofre com razão
a razão que volta no coração
E acima da razão a rima
e acima da rima a nota da canção
bemol natural sustenida no ar.
Viva aquele que se presta
a esta ocupação:
Salve o compositor popular!


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Fonte:
Chico Buarque: Leitura Comentada. Texto: Adélia Bezerra de Meneses Bolle. Abril Educação. São Paulo, 1980, págs. 5-8.

Biografia de José de Alencar

Ceci e Peri, um romance no Japão
"TÓQUIO - A ópera O Guarani, de Carlos Gomes, baseada no romance do mesmo título de José de Alencar, depois de percorrer meio mundo e todo um século desde o Scala de Milão (onde estreou a 19 de março de 1870), passando pela Inglaterra, Califórnia e Rio de Janeiro, vai ser agora exibida aos japoneses, dia 7 de setembro próximo, nesta Capital."
Esse é o início de uma reportagem do correspondente do jornal Folha de S. Paulo, publicada em 24 de julho de 1979.
7 de setembro de 1979! Neste ano está fazendo 122 anos que o romance O Guarani, de José de Alencar, começou a ser publicado, um capítulo por dia, no jornal Diário do Rio de Janeiro.
Japão! Do outro lado do mundo está sendo levada à cena uma adaptação desse romance escrito na então capital do Brasil, país que estava começando a se firmar como nação.
Provavelmente, nunca foi tão longe a imaginação daquele menino que aos 11 anos já comovia seus familiares e amigos mais chegados com suas leituras em voz alta, de acordo com suas próprias palavras em Como e Porque Sou Romancista.
"Não havendo visitas de cerimônia, sentava-se minha boa mãe e sua irmã Dona Florinda com os amigos que apareciam, ao redor de uma mesa de jacarandá, no centro da qual havia um candeeiro.
Minha mãe e minha tia se ocupavam com trabalhos de costuras, e as amigas para não ficarem ociosas as ajudavam. Dados os primeiros momentos à conversação, passava-se à leitura e era eu chamado ao lugar de honra.
Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava bem a contragosto de um sono começado ou de um folguedo querido; já naquela idade a reputação é um fardo e bem pesado.
Lia-se até a hora do chá, e tópicos havia tão interessantes que eu era obrigado à repetição. Compensavam esse excesso as pausas para dar lugar às expansões do auditório, o qual desfazia-se em recriminações contra algum mau personagem ou acompanhava de seus votos e simpatias o herói perseguido.
Uma noite, daquelas em que eu estava mais possuído do livro, lia com expressão uma das páginas mais comoventes da nossa biblioteca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao rosto, e poucos momentos depois não puderam conter os soluços que rompiam-lhes o seio.
Com a voz afogada pela comoção e a vista empanada pelas lágrimas, eu também, cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto, e respondia com palavras de consolo às lamentações de minha mãe e suas amigas."
Não é preciso muita imaginação do leitor para aproximar essa cena de um hábito que já se enraizou no Brasil hoje: a reunião da família, à noite, para assistir à telenovela.
O episódio narrado por Alencar ocorre quando ele tem 10, 11 anos, isto é, por volta de 1840, ano do golpe da Maioridade de D. Pedro II, episódio da História do Brasil, no qual tomou parte ativa o pai de Alencar, José Martiniano de Alencar.

DA INFÂNCIA NO CEARÁ AO ADVOGADO ALENCAR. NASCE UM ESCRITOR.
José Martiniano de Alencar, o pai, era padre quando conheceu sua prima, Ana Josefina, mãe do futuro romancista. Por amor dela, abandonou o sacerdócio e casou.
José Martiniano de Alencar, o filho, nasce a 19 de março de 1829, em Mecejana, Ceará.
Em 1832, o pai é eleito senador, e, dois anos depois, em 1834, torna-se presidente da Província do Ceará, cargo que deixa em 1837, dirigindo-se, no ano seguinte, 1838, para o Rio de Janeiro. Alencar, que conta 9 anos, viaja com o pai.
Essa viagem por terra, pelo interior do Nordeste, do Ceará à Bahia, causou profunda impressão em Alencar, que fará referência a ela ainda por volta dos 45 anos, logo no início de O Sertanejo: "Os sertanejos escoteiros que ainda agora em jornada para Bahia ou Pernambuco, sem outro companheiro mais do que seu cavalo, percorrem aquelas solidões também por mim viajadas outrora ainda no alvorecer da existência;..."
Dois anos depois, em 1840, Alencar completa sua instrução primária, que iniciara no Ceará, e, em 1844, aos 15 anos de idade, inscreve-se nos cursos preparatórios à Faculdade de Direito de São Paulo, no mesmo ano, portanto, da publicação de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo.
Alencar se impressiona bastante com o livro, o primeiro romance brasileiro de sucesso. Põe-se a ler os autores marcantes de sua época: Balzac, Alexandre Dumas, Alfredo de Vigny, Chateaubriand e Victor Hugo.
Datam de seus anos na Faculdade de Direito de São Paulo as primeiras publicações de Alencar. Com outros primeiranistas da faculdade funda uma revista semanal Ensaios Literários, onde publica um artigo de crítica (Questões de Estilo) e de história, sobre o índio Camarão.
Em 1848, aos 18 anos, Alencar escreve seu primeiro romance: Os Contrabandistas, que, segundo ele, teve seus originais destruídos por um colega que usava suas folhas para acender o cachimbo. Se essa história não for criação de Alencar, é explicável, dada a confusão que havia nas repúblicas de estudantes.
Em 1848, aos 18 anos, transfere-se para a Faculdade de Direito de Olinda. Como em São Paulo, sua principal preocupação não são os estudos de Direito, as leis, mas a literatura. Em Olinda, interessa-se pelas crônicas do período colonial, como fonte de personagens e enredos. Nessa época começa a redigir dois romances históricos: A Alma de Lázaro e O Ermitão da Glória.
Em fins desse mesmo ano, manifestam-se os primeiros sinais da tuberculose que acabaria por matá-lo. É obrigado a voltar para São Paulo, onde se forma em 1850.
Em 1851, aos 22 anos, Alencar inicia-se na profissão de advogado, que exercerá até o fim de sua vida, com raras e breves interrupções...

ADVOGADO, JORNALISTA, DEPUTADO, MINISTRO DA JUSTIÇA. SUCESSO DE PÚBLICO, INSUCESSO DE CRÍTICA
Instalado no Rio de Janeiro, Alencar é convidado por seu ex-colega de faculdade, Francisco Otaviano, a colaborar no jornal Correio Mercantil. Aí, Alencar escreve diariamente sobre os mais diversos assuntos: os acontecimentos sociais, as estreias de teatro, os novos livros, as questões políticas, fatos marcantes da cidade, etc. A essa seção deu o nome de Ao Correr da Pena.
Alencar estreia como jornalista aos 25 anos, em 1854, e faz muito sucesso. Tanto, que no ano seguinte é gerente e redator-chefe de outro jornal, o Diário do Rio de Janeiro, onde agora publica seus folhetins sobre fatos variados.
O primeiro folhetim de Alencar data de 3 de setembro de 1854, e o último de 25 de novembro de 1855.
Em 1856, Domingos Gonçalves de Magalhães, poeta consagrado, que lançara oficialmente o Romantismo no Brasil, com o livro Suspiros Poéticos e Saudades, publica A Confederação dos Tamoios, poema editado às expensas do Imperador, D. Pedro II. Com esse poema, Magalhães desejava dar o modelo da poesia brasileira.
Alencar publica, então, no Diário do Rio de Janeiro, uma série de críticas ao poema, sob o pseudônimo de Ig. Várias pessoas escrevem também, defendendo o poeta, inclusive uma que se assinou Outro Amigo do Poeta, e que era o próprio D. Pedro. Era o primeiro conflito entre Alencar e o Imperador.
Nesse mesmo ano, 1856, Alencar escreve a Biografia do Marquês de Paraná, A Constituinte Perante a História e, em folhetins, seu primeiro romance: Cinco Minutos, que, no fim do ano, é publicado em plaqueta e dado como brinde aos assinantes do jornal.
A partir daí, aumenta muito a atividade de Alencar. No ano seguinte, 1857, começa a publicar A Viuvinha, que interrompe. E é nesse mesmo ano que, como resposta à polemica sobre A Confederação dos Tamoios, escreve O Guarani, que aparece primeiro em folhetim, no Diário do Rio de Janeiro, e, logo em seguida, em livro. O sucesso foi extraordinário, como conta Taunay em Reminiscências: "... O Rio de Janeiro em peso, por assim dizer, lia O Guarani e seguia comovido e enlevado os amores tio puros e discretos de Ceei e Peri e com extremada simpatia acompanhava, no meie dos perigos e dos ardis dos bugres serragens, a sorte vária e periclitante dos principais personagens do cativante romance...
Quando a São Paulo chegava o correio, com muitos dias de intervalo então, reuniam-se muitos estudantes numa república em que houvesse qualquer feliz assinante do Diário do Rio para ouvir, absortos e sacudidos, de vez em quando por elétrico frêmito, a leitura feita em voz alta por algum deles, que tivesse órgão mais forte. E o jornal era depois disputado com impaciência e, pelas ruas, se viam agrupamentos em torno dos fumegantes lampiões da iluminação pública de outrora — ainda ouvintes a cercarem ávidos qualquer improvisado leitor."
O sucesso de O Guarani leva Alencar a tentar o mesmo no teatro. Nesse mesmo ano escreve uma opereta (Noite de São João) e duas comédias (Verso e Reverso e O Demônio Familiar).
No ano seguinte, Alencar tenta o drama, e a peça As Asas de um Anjo, logo depois de encenada, é proibida pela censura por imoral: a heroína, uma prostituta, embora redimida pelo amor, é forte demais para o provincianismo da sociedade brasileira.
Em 1860, estreia o drama Mãe. A seguir, Alencar viaja para o Ceará, procurando continuar a carreira política do pai, que falecera. Candidata-se a deputado pelo Partido Conservador e é eleito. Começa então a carreira política, que há de envolvê-lo, subtraindo-o, embora não totalmente, à literatura.
Nessa mesma viagem ao Ceará conhece seu sobrinho, então com 11 anos, Araripe Júnior; esse menino, mais tarde, dedica-se à crítica literária e publicará um dos melhores livros sobre a obra do tio.
Em 1861, Alencar estreia na tribuna parlamentar. No ano seguinte, escreve Lucíola e o primeiro volume de As Minas de Prata.
Em 1864, Alencar casa com Ana Cochrane, filha de um médico homeopata inglês, da mesma família do Almirante Cochrane, herói da luta pela Independência. Mas o casamento não esfria o romancista: desse mesmo ano é a primeira edição de Diva, e, em três meses, redige os cinco últimos volumes de As Minas de Prata. Em 1865, publica Iracema, seu segundo maior sucesso depois de O Guarani, e, no fim desse ano, começa a publicação de Cartas de Erasmo ao Imperador.
Em 1865 e 1866, publica-se a primeira edição de As Minas de Prata, em seis volumes.
Aos 39 anos de idade, em 1868, Alencar torna-se Ministro da Justiça. No mesmo ano, publica-se no Correio Mercantil uma carta de Alencar apresentando Castro Alves a Machado de Assis.
No ano seguinte, Alencar candidata-se ao Senado e obtém o primeiro lugar na votação. Deixa então o Ministério da Justiça e volta à Câmara em oposição ao Imperador, que veta seu nome ao Senado. Em Reminiscências, Taunay publica um diálogo que teria havido entre o Imperador e Alencar, e que dá bem a medida do azedume das relações entre o romancista e D. Pedro, que lhe teria dito:
"— No seu caso, eu não me apresentava agora: o senhor é muito moço.
- Por esta razão, Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal."

OS ÚLTIMOS ANOS. UM POLÍTICO DESILUDIDO DEDICA-SE APENAS À LITERATURA. AUMENTA O SUCESSO DE PÚBLICO, AUMENTA O ATAQUE DA CRÍTICA.
O veto do Imperador encerra a carreira política de Alencar que, desencantado, se volta para a literatura. Tem apenas 41 anos, mas já se sente velho, pois, como romântico autêntico, considera a juventude como o auge da vida. Tanto que, em 1870, publica A Pata da Gazela e O Gaúcho, com o pseudônimo de Sênio. Data de outubro desse mesmo ano o pós-escrito da segunda edição de Iracema, refutando as críticas ao estilo, à linguagem e à concepção do livro. Em dezembro redige a Advertência Indispensável Contra Enredeiros e Maldizentes, incluída no primeiro volume de Guerra dos Mascates, que redige também nesse ano e que seria uma sátira a personalidades do Império.
No ano de 1871 publica O Tronco do Ipê e, no ano seguinte, Til e Sonhos d'Ouro.
Nessa época, a crítica investe sistematicamente contra Alencar, durante um ano, toda semana. Mas Alencar responde a ela e continua a escrever.
Em 1873, vem à luz a primeira edição de Guerra dos Mascates e Alfarrábios, que reúne: O Garatuja, que se passa no Rio colonial, O Ermitão da Glória e Alma de Lázaro.
Nesse mesmo ano, estreia a peça O Jesuíta, fracasso geral de público e de crítica. Por isso, Alencar, em O Globo, critica a indiferença do público, a qual, segundo o autor, revelaria um desinteresse geral pelo texto nacional. No mesmo jornal, Joaquim Nabuco replica a esse artigo e anuncia uma série de artigos sobre a obra literária de Alencar. Assim se inicia alonga polêmica Alencar-Nabuco, que se encerra em 14 de novembro desse mesmo ano (1873).
Em 1874, sai Ubirajara, o segundo volume de Guerra dos Mascates e Ao Correr da Pena, reunião de seus folhetins.
Em 1875, aparecem Senhora e O Sertanejo, últimos livros publicados em vida.
Em 1877, Alencar viaja à Europa em tratamento de saúde, mas não consegue se recuperar. Volta ao Rio, onde morre a 12 de dezembro do mesmo ano, aos 48 anos.
Relembrando Alencar, escreve Machado de Assis:
"Tinha-lhe afeto, conhecia-o desde o tempo em que ele ria, não me podia acostumar à ideia de que a trivialidade da morte houvesse desfeito esse artista fadado para distribuir a vida."


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Fonte:
José de Alencar: Leitura Comentada. Texto: José Luiz Beraldo. Abril Educação. São Paulo, 1980, págs. 3-6.

Biografia de Lygia Fagundes Telles

Signo: áries. Cor: vermelho
Lygia é alta, morena, cabelos pretos. Movimentos elegantes, grandes olhos escuros e curiosos. Afetuosa, cheia de pequenas delicadezas para as pessoas de que gosta. Mãos longas e magras, que se mexem sem parar, principalmente quando fala do que gosta: por exemplo, de literatura. Costuma dizer que há três coisas em processo de extinção rápida: o índio, a árvore e o escritor. É na defesa do último, em particular do escritor brasileiro, que Lygia se desdobra, movendo céus e terras.
Sua palavra é fácil e geralmente empolga auditórios, na sua maioria constituídos por jovens estudantes. Sua casa é cheia de livros, quadros e plantas. Vive em São Paulo, mas já viajou muito. As mesas, estantes e paredes de seu apartamento guardam coisas que se foram acumulando nessas viagens: caixinhas do Irã, camelos da Tunísia, figuras de barro do nordeste brasileiro, enfim, um pouco de cada lugar por onde ela passou.
Lygia faz ginástica regularmente (diz que adora praticar esportes), faz feira toda semana, compra em supermercados. Veste-se com discrição, tem um filho e um gato. É, enfim, uma mulher que vive o dia-a-dia de uma dona de casa paulistana. Mas Lygia nem sempre viveu em cidade grande.
Seu pai, o Dr. Durval de Azevedo Fagundes, era delegado e promotor público; a profissão fez dele uma espécie de viajante. Passava algum tempo numa cidade, depois era transferido para outra, depois para outra... e lá ia a família atrás: malas, sacolas, pacotes, a tralha toda. Até hoje Lygia se lembra dos cacarecos das mudanças, principalmente de um penico azul de um fogareiro a álcool e de um piano com grandes castiçais dourados, onde sua mãe costumava tocar. Estes objetos, com a família, percorreram várias cidades do interior de São Paulo: Areias, Assis, Apiaí. Sertãozinho e outras mais. Foi por esse interior que Lygia fez o curso primário.
 O ginásio, depois, foi feito em São Paulo, no Instituto de Educação Caetano de Campos, na época uma escola tida como modelo. Lygia conta que, nesse tempo de ginásio no Caetano de Campos, já escrevia suas primeiras histórias. Conta também que era péssima aluna em matemática, mas desforrava em português, cujo professor gostava de seu jeito de escrever. Pudera!

ENTROU POR UMA PORTA E SAIU PELA OUTRA; QUEM QUISER QUE CONTE OUTRA.
Hoje, relembrando os alinhavos de sua profissão de escritora, Lygia se lembra de que sua infância foi pontilhada de histórias, contadas por uma pajem, a Maricota. Fadas, bruxas, assombrações, sacis, florestas encantadas e mulas-sem-cabeça povoaram sua mente de menina. Eram histórias contadas à noite, na hora de dormir. Às vezes histórias de medo, às vezes de fadas boas, que davam sonhos luminosos. Mas sempre histórias que ficaram retidas na memória (e às vezes nos cadernos) e que, mais tarde, iriam alimentar seus contos e romances, onde fadas e bruxas são substituídas por gente comum, de carne e osso, gente com quem se pode esbarrar na rua.
Ainda criança, Lygia ouvia histórias e depois as contava para um auditório de crianças do quarteirão, arrebanhadas nas escadas da porta de casa. Diz ela que, quando contava, não sentia o medo que a penetrava quando as ouvia. Então contava histórias para espantar o medo, para transferi-lo aos outros, aos que a ouviam. Preocupada com sua responsabilidade de contadora de histórias — pois não podia alterar nomes de personagens, nem a ordem em que as coisas aconteciam —, escrevia-as nas folhas finais dos cadernos, enfeitadas com cromos e gravuras. E tomava pito, porque estragava os cadernos. Quem diria...
Deixando para trás o ginásio e o normal (um dos poucos permitidos às mocinhas de antigamente), ela entrou na Escola Superior de Educação Física e depois na Faculdade de Direito de São Paulo, tornando-se aluna das famosas Arcadas do largo de São Francisco.
O curso de educação física foi para tranquilizar a mãe, D. Maria do Rosário, que a achava magrinha demais e provável candidata a uma tuberculose. E também apedido da mãe, que tocava piano, Lygia recitava, muito compenetrada, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac e Guilherme de Almeida. Foi ao som destes poetas e ao lado de livros de belas e coloridíssimas capas que Lygia foi crescendo.

LYGIA FAGUNDES, QUE AINDA NÃO ERA TELLES
A Faculdade de Direito do Largo de São Francisco ocorreu na vida de Lygia por volta da década de quarenta. Por esse tempo, já se delineavam seus caminhos literários: ela participava e acompanhava o pessoal da escola ligado em arte. Lygia pertencia à Academia de Letras da Faculdade de Direito e colaborava em revistas e jornais da faculdade (Arcádia, A Balança, por exemplo) com contos e poemas.
Frequentava a Jaraguá, misto de livraria, salão de chá e galeria de arte, onde se reuniam escritores, pintores e outros artistas. Lá era ponto de encontro de grupos intelectuais e boêmios, entre os quais o pessoal da Faculdade de Filosofia de São Paulo, que então funcionava em salas cedidas pelo Instituto de Educação Caetano de Campos, uma antiga escola de primeiro e segundo graus do centro de São Paulo. Era nessa livraria que se reuniam os fundadores da revista Clima, e foi também lá que surgiu um Clube de Cinema. Era ainda na Jaraguá que se encontravam alguns escritores já famosos, como Mário e Oswald de Andrade, e outros ainda desconhecidos, como Lygia, que ainda não era Telles, era de Azevedo Fagundes.
Mocinha bonita, comprida e magricela, Lygia rodopiava da faculdade para a livraria, numa São Paulo ainda pacata, com bondes cortando as ruas largas e tranquilas, e com a garoa caindo em noites frias de inverno.
Os frequentadores da Jaraguá e os estudantes do largo de São Francisco, porém, tinham problemas maiores do que o fino chuvisco da São Paulo da garoa: o Brasil do Estado Novo, a ditadura de Vargas e as reuniões proibidas, a censura à imprensa, a perseguição a estudantes. Tudo isso oprimia, tudo isso tornava perigosa e subversiva a atividade intelectual. Os intelectuais que se reuniam na Jaraguá eram uma espécie de resistência. Resistiram, sobreviveram, desabrocharam.
Os anos quarenta são anos importantes na vida de Lygia. Marcam seu primeiro casamento e seu primeiro livro. Casou-se com Goffredo da Silva Telles, professor da Faculdade de Direito, e, em 1944, teve seu primeiro livro publicado: os contos de Praia Viva. No fim dessa mesma década, em 1949, publica sua segunda obra, outros contos reunidos no livro O Cacto Vermelho.
Falando hoje destes seus primeiros contos, Lygia vê alguns deles como quem vê os primeiros e inseguros voos: mais para experimentar as asas, mais para medir as forças. Já outros contos destes primeiros livros, retrabalhados por Lygia, estão republicados numa recente obra que, por sinal, tem um título muito significativo: Filhos Pródigos, reunindo contos "que estavam perdidos e se acharam (...). Os contos desgarrados. Recolhidos e tosquiados. O pastor junta seu rebanho."
Mas, se algumas destas primeiras histórias não satisfazem o exigente gosto da escritora de hoje, satisfizeram plenamente a crítica do tempo. Lygia foi premiada pela Academia Brasileira de Letras pelo seu livro O Cacto Vermelho, ganhando o Prêmio Afonso Arinos. Histórias do Desencontro, livro de contos de 1958, também foi obra premiada, agora pelo Instituto Nacional do Livro. Em 1969 foi laureada mais uma vez na Europa (em Paris), com o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, atribuído a Antes do Baile Verde.
O casamento de Lygia com Goffredo não deu certo. Desfez-se. O segundo casamento foi com Paulo Emílio Salles Gomes, professor e crítico de cinema. Um dos melhores livros de Lygia é dedicado a ele. Trata-se de As Meninas, romance publicado em 1973. A escritora conta que este livro, que se passa num pensionato de moças, foi, de certa maneira, inspirado nos amigos do filho, Goffredo. Naquela época, sua casa vivia cheia de jovens, que entravam e saíam o tempo todo. Lygia ouvia suas conversas, suas "transas", sua vida. Incorporava tudo: onda de tóxicos, de drogas, o vocabulário restrito; a radicalização política dos anos setenta, a repressão violenta, a ação armada, os sequestros políticos, o terrorismo, os conflitos dos que optaram e dos que não conseguiram optar; a liberdade sexual, as mudanças de costumes. Tudo, enfim, que delineava o caminho da juventude universitária brasileira posterior a sessenta e quatro, Lygia ouvia, registrava. Escreveu então As Meninas, e recebeu vários prêmios: Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras; Prêmio Ficção, da Associação Paulista de Críticos de Arte; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.

LYGIA FAGUNDES TELLES, ESCRITORA PROFISSIONAL
Qual é a medida de um bom escritor? Difícil de responder. Os críticos brigam entre si, os professores brigam com eles, enquanto o público, geralmente desinteressado de tantas querelas, vai elegendo seus preferidos, sem prestar muita atenção nem a professores, nem a críticos. E por esse público parece que Lygia foi bem recebida. Seu romance As Meninas, além de ter sido premiado, teve muito sucesso junto aos leitores. Tanto sucesso, que já está na décima edição, em vias de ser traduzido para o espanhol.
Assim é Lygia. Da vida para a literatura, e daí para a vida de novo. Atualmente, ela se empenha de corpo e alma em campanhas pela difusão do autor nacional, na luta pela profissionalização do escritor. Faz conferências, visita escolas, participa de seminários e semanas de estudo. Em 1977, por exemplo, participou da Comissão Organizadora do Congresso Internacional de Escritores. Em 1979, da Semana do Escritor Brasileiro. Pertence também ao Corpo Deliberativo de Cultura do Estado de São Paulo. Tudo isso, numa tentativa de assegurar o lugar do escritor brasileiro no nosso mercado, invadido por uma literatura estrangeira de baixa qualidade.
De uns tempos para cá, o mercado de livros brasileiros tem sofrido algumas alterações significativas e alvissareiras. Não é mais apenas o escritor que, com a pasta de originais debaixo do braço, sai correndo atrás dos editores. Para alguns escritores, evidentemente os de maior renome, a relação editor/autor parece ter virado ao avesso: o editor é que vai atrás dos autores, encomendando-lhes trabalhos.
Estamos vivendo um tempo em que as antologias se multiplicam; há antologias para todos os gostos: antologias de contos eróticos, de contos escritos por mulheres, de mineiros, de gaúchos, de contos escritos por publicitários e assim por diante.
Estamos também no tempo da produção encomendada de textos para antologias que, em conjunto, têm uma determinada proposta: a Editora Civilização Brasileira, por exemplo, publicou em 1954 um livro intitulado Os Sete Pecados Capitais. Em 1979, a Editora Cultura enfeixou em Criança Brinca, não Brinca? contos que giram em tomo de brincadeiras infantis. Em ambas as antologias Lygia foi chamada a participar, como também participou do livro de reescrituras de "A Missa do Galo" (famoso conto de Machado de Assis), organizado em 1977 por Osman Lins e editado pela Summus Editorial. Esta revisão do velho Machado está transcrita nesta antologia, onde você poderá ler a misteriosa e instigante conversa noturna entre Conceição e seu hóspede, tal como a concebeu Lygia.
A participação de Lygia em tantas e tão diferentes antologias é uma prova do realce de seu nome entre os escritores brasileiros contemporâneos mais conhecidos do público. Outra medida de seu sucesso é a frequência com que textos seus são adaptados para a televisão. "A Caçada" e "O Jardim Selvagem" são exemplos disso.
Mas essa "fecundidade" editorial brasileira não deve levar ninguém apensar que é fácil viver de literatura. Não é fácil; aliás, é quase impossível. Lygia, por exemplo, é prosaicamente funcionária pública: procuradora do Instituto Nacional de Previdência Social.
Lidar com literatura, enfim, é uma guerra em nosso país, mas algumas batalhas já foram ganhas. Uma delas, talvez a mais recente, foi contra a censura que, a partir de meados da década de sessenta, mutilou e desfigurou a produção literária brasileira, proibindo obras a torto e a direito. Muito embora Lygia nunca tivesse obras proibidas, foi sempre soldado de primeira linha, comparecendo a atos públicos, assinando manifestos e abaixo-assinados que pediam a queda da censura, em nome do livre exercício da profissão do escritor.
Para encerrar, com a palavra Lygia, e sua definição de escritor:
"A função do escritor? Escrever por aqueles que muitas vezes esperam ouvir de nossa boca a palavra que gostariam de dizer. Comunicar-se com o próximo e, se possível, mesmo por caminhos ambíguos, ajudá-lo no seu sofrimento. Na sua fé. Isso requer amor — o amor e a piedade que o escritor deve ter no coração".
Até que ponto Lygia cumpre seu propósito de amor e solidariedade é o que se pretende mostrar através dos textos selecionados para esta antologia.


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Fonte:
Lygia Fagundes Telles: Literatura Comentada. Abril Educação. São Paulo, 1980, págs. 3-6.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Machado de Assis: do Morro do Livramento à Academia Brasileira de Letras

Machado de Assis: do Morro do Livramento à Academia Brasileira de Letras
Machado de Assis, o hoje famoso romancista, não nasceu nem famoso nem romancista. Nasceu Joaquim Maria simplesmente, moleque de morro, magro, franzino e doentio, certamente moreno. Filho do mulato Francisco José de Assis, pintor de paredes, e da portuguesa Maria Leopoldina, Joaquim Maria nasceu em 1839, no dia 21 de julho.
Ainda menino pequeno, fica órfão de mãe. O pai casa-se novamente e a madrasta, Maria Inês, contraria a lenda das madrastas: substituiu em cuidados e carinhos a mãe verdadeira e mesmo o pai, que também morreu logo depois. O menino cresceu, assim, ao lado de Maria Inês, lavadeira e doceira, cujas balas e doces Machado se encarregava de vender na porta dos colégios que não podia frequentar.
Até aí, nada que prenunciasse a glória futura. Nada que fizesse ver no moleque baleiro o futuro fundador e presidente perpétuo da respeitabilíssima Academia Brasileira de Letras. Até aí, apenas a vida difícil que qualquer menino pobre do Rio de Janeiro levava nos idos de 1840.
Para ele, nada de escola que, na época, era privilégio dos bem nascidos da vida, dos que tinham pai doutor, fazendeiro, ou, pelo menos, funcionário público. De escola mesmo, só algumas aulas numa escolinha da redondeza, aulas de primeiras letras, do bê-a-bá, da conta do
mais e do menos. O resto viria depois, fora do tempo e fora da escola, com muito esforço de Machado, e um pouco de ajuda do padre Silveira Sarmento.
A Biografia de Machado é sóbria como suas poucas fotografias, que sempre mostram uma figura composta e bem vestida, de óculos sem aro, de barbicha, costeletas discretas e penteadas, de terno e colete. Tudo em cores sóbrias, como convinha àquela época.
Rígido como estas fotografias é o que se conhece da vida de Machado, o "Machadinho" para os amigos íntimos: nem grandes travessuras de criança, nem grandes aventuras de rapaz, nem mesmo grandes amores. Paixão grande de verdade, só por Carolina, recebida como esposa em matrimonio sacramentado. Vida perfeita, portanto, para uma biografia de escola, onde boêmios e não boêmios ganham asas de anjo, onde todos ficam bem-comportados, obedientes, estudiosos.
Mas, com Machado, talvez não seja preciso ocultar deslizes e amenizar pecados da juventude. Se os teve, ficaram esquecidos. Até os dezesseis anos, quando conseguiu publicar seu primeiro trabalho, Machado viveu em "brancas nuvens" ou, melhor dizendo, no cinzento amargo de um menino pobre que cedo decidiu ser escritor.
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Fonte:
"Machado de Assis". Literatura Comentada. Seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico  e crítico e exercícios por: Marisa Lajolo. Abril Educação. São Paulo, 1980.