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terça-feira, 26 de julho de 2016

O Brasil encoberto (Religião)

O Brasil encoberto
Por: Percival de Souza
Quinhentos anos se passaram desde que as naus do capitão Cabral partiram, segunda-feira, 9 de março de 1500, por volta das 9h da manhã, da Torre de Belém, em Portugal, para avistar, na quarta-feira, 22 de abril, o Monte Pascoal. "Terra à vista!" Fomos descobertos há cinco séculos, dizem os principais estímulos comemorativos. Na Porto Seguro (Bahia) de hoje, onde o Brasil começou mais intensamente, o lugar será capital por um dia neste abril de 2000. A gente pode imaginar o desembarque, a missa celebrada por Coimbra, a cruz feita de pau-brasil. A poeira da história atravessa a noite dos tempos e completa 500 anos.
Mas, nesses tempos de festa, raciocinar é preciso. Afinal, as leitoras e os leitores sabem pensar, e é preciso respeitá-los na capacidade de discernir. Brasil-colônia, Reino Unido, Império e Brasil-república. Longa história. Equívocos na festança que se anuncia para comemorar os 500 anos de descobrimento.
Chegamos ao ponto: afinal, fomos descobertos por quem? Pelos europeus, dizem os colonizadores para os colonizados.
Quando Colombo descortinou as Américas, em 1492, já havia milhões de habitantes nesta terra que haveria de se chamar Brasil. Poucos leram a carta que o escrivão das naus, Caminha , escreveu para El-Rei D. Manuel ("A terra é dadivosa e boa, em se plantando, tudo dá"), que se transformou numa espécie de certidão de nascimento moderna, embora só tenha sido publicada em 1817.
O sangue de 3 milhões de nativos, em três séculos, salpicou as nossas terras, resultado da crueldade colonizadora, a mesma que, para compensar, trouxe desumanamente, nos porões dos sinistros navios negreiros, 3 milhões de escravos africanos que não tiveram destino diferente. Vergonha para Castro Alves, poeta morto precocemente, expressar em versos magistrais: "Colombo, fecha a porta de teus mares!" E mais: "Varrei os mares, tufão!"
Pois é, viramos Brasil com essa matança para a qual se usa a palavra "genocídio". Um horror: dos 5 milhões de índios que tínhamos em 1500, não restam mais de 300 mil. E olhem que Vaz de Caminha assinalou em sua carta a El-Rei: eles "são muito mais nossos amigos que nós seus". Na verdade, fomos achados por gente do Velho Mundo. Os primeiros brasileiros já estavam aqui. Para nós, não houve descobrimento em 1500. Já habitávamos estas terras que seriam chamadas, a princípio, Vera Cruz e depois Santa Cruz. "A mais bela e luminosa província da terra", como diria em nosso tempo o saudoso antropólogo Darcy Ribeiro.
Será difícil explicar isso que você acaba de ler na febre comemorativa dos 500 anos. Paciência. Mas existem outros ângulos na nossa história de país jovem. Nossa reminiscência passa por invasores que se instalaram, mas foram expulsos; pelo sangue de nossos heróis com seus gritos de liberdade que lhes custou a vida em holocausto.
A riqueza primitiva, pau-brasil, quase acabou; deve ser substituída pela luz e pelo sal do Evangelho, pelo amor, pela paz, pela solidariedade e pelo testemunho"
Tivemos que enfrentar invasores de três nacionalidades e piratas de toda parte. Contudo, precisamos ainda nos descobrir como país. Aprender que "feliz é a nação cujo Deus é o Senhor". Perceber que temos urna só bandeira, um só hino e, mais importante que tudo, somos um só povo. Cantamos, em nosso hino, que somos gigantes pela própria natureza, mas temos agido de modo a fazer a nação adormecer dentro do país.
Precisamos de um surpreendente amanhecer. O povo brasileiro está sofrendo com a desigualdade, a miséria, o desemprego. A violência e a droga estão contaminando e destruindo. Falta-nos educação, saúde, perspectiva. Como escreveu Camões, um fraco rei faz fraca uma forte gente. Ou seja: maus governantes tornam débil um povo que tem tudo para ser forte e feliz. Brigamos e matamos pela terra, que, em verdade, não nos falta. As capitanias continuam hereditárias. Chamamos "cultura" o mau gosto, a ignorância, as excrescências. A natureza é pródiga conosco, mas não desfrutamos desta bênção.
Irmã, irmão: cada cristã, cada cristão que recebeu a bênção de aqui ter nascido precisa, mais do que nunca, irradiar fé e esperança. A riqueza primitiva, pau-brasil, quase acabou. Tem que ser substituída pela luz e pelo sal do Evangelho, pelo amor e pela paz, pela solidariedade e pelo testemunho, pela vontade de mudar e transformar, pelo destemor de converter e dignificar. Sentimentos que são vontade do Senhor, expressa nas Sagradas Escrituras. Recebemos e transmitimos. Aprendemos e ensinamos. Por isso queremos descobrir verdadeiramente o nosso Brasil, ainda encoberto. O que somente será possível com a presença de Deus, a vida plena e abundante oferecida por Jesus Cristo e o bálsamo sempre confortador do Espírito Santo.


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Fonte:
Revista Eclésia. Ano V - Nº 53 - Abril de 2000. Eclesianet. São Paulo, pág. 48.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A Revolta de Beckman

Revolta de Beckman
1. Foi seguramente o regime colonial um dos fatores preponderantes na formação do nosso espírito de povo. Principalmente depois das guerras holandesas começa esse espírito a manifestar-se com uma frequência e uma força que estavam dizendo bem claro como tinha ele de orientar toda a nossa história.
A primeira dessas manifestações é essa de que nos vamos ocupar, e que se dá no Maranhão antes do fim do século XVII.
Desde antes da intrusão flamenga, já se haviam os colonos acostumado a rebater agressões de piratas. Aliás, por meados do primeiro século, tinham expelido da Guanabara usurpadores franceses. Mais tarde ainda os tocaram do Maranhão.
Não houve uma investida depredadora, uma ameaça de conquista, um ataque à soberania do domínio, contra a qual não fossem as próprias populações as primeiras a insurgir-se, e a levantar o seu protesto.
Depois de haver defendido o litoral, começou o colono a invadir e ocupar o interior para além da linha de Tordesilhas, arredando assim as raias do domínio, ampliando o território, fazendo-o muito maior do que o tinham feito os tratados.
Nem seria preciso mais nada para explicar como naturalmente se ia gerando na alma do povo em formação um forte sentimento do seu valor, e logo uma nova consciência jurídica, em contraste com as tradições da mãe-pátria.
E como para fazer ainda mais intenso, profundo e poderoso esse sentimento que teria de dominar toda a vida da sociedade nova que se constitui sobrevêm a circunstância de se haver aqui, em dois séculos, criado a riqueza, tornando-se deste modo a colônia em verdadeiro empório e socorro do velho reino depauperado. Sem o Brasil opulento do século XVIII, Portugal não teria subsistido: o esforço que fizera na construção da sua epopeia marítima tinha-lhe exaurido a vitalidade, ao ponto de fazê-lo incapaz de por si mesmo resistir à competição em que teve de entrar para manter o seu vasto domínio.
2. Estes sucessos do Maranhão assinalam uma das crises em que, de agora por diante, se vão condensar ímpetos que andavam latentes em toda a colônia, e nos quais, melhor acentuado, se apanha o novo espírito que se vinha gerando.
Em São Luís as desordens, as lutas e os escândalos, em que viveu a terra desde que se expulsaram os franceses, foram tomando um caráter de violência crescente até as vésperas deste que foi o motim de mais vulto entre os que vinham trazendo a capitania em estado quase contínuo de sedições e tumultos.
Para mais agravar a situação na capitania, tinham os governadores do Estado transferido para Belém a sede do governo, ficando em São Luís apenas o capitão-mor como autoridade superior.
Em 1680 publicava-se uma lei abolindo a escravidão do gentio, e confiando aos jesuítas toda jurisdição espiritual e temporal nas aldeias. Estas medidas irritaram profundamente os ânimos; e mais quando se viu como os executores cuidavam de aquinhoar-se fartamente na distribuição dos tais índios "livres" e assalariados.
Coincidindo mais ou menos com estes vexames, concedera o governo a uma empresa de Lisboa o "privilégio exclusivo do comércio de todo o Estado por espaço de vinte anos". Por essa concessão, era o comércio "geral e absolutamente proibido a todos os vassalos". Em relação aos índios, o caso tornava-se agora curioso: esquecida de que se abolira a escravidão, autorizava a corte à tal empresa "empregar no seu serviço os casais de que precisasse... e a fazer no sertão quantas entradas quisesse"...
É ocioso dizer que os monopolistas agravaram ainda o que tinha de mais odioso o privilégio; e ao clamor geral que se foi levantando rebatia o Governador (Francisco de Sá e Menezes) com atos de força e de escandalosa proteção à empresa, mesmo porque era nela particularmente interessado.
Outras causas concorrem ainda para fazer mais aflitivas as condições da vida, principalmente em São Luís. Diz João Francisco Lisboa que "dois anos de esterilidade e de fome precederam à sublevação".
Não tardou que dos agravos e queixas se passasse a conspirar.
3. Os conjurados contaram logo com o apoio dos frades carmelitas e franciscanos. Segundo o mesmo Lisboa, celebravam até os seus "concilíabulos no convento dos Capuchos"; e que "todos os dias amanheciam pasquins e trovas pelas esquinas... convidando o povo à revolta; e do alto do púlpito, muitos meses havia que os frades não faziam outra coisa nos seus sermões". "Frade houve que chegou a bradar publicamente em uma praça — que lhe dessem quatro homens resolutos que ele, em poucas horas, se obrigava a livrar o Maranhão do cativeiro".
Entre os chefes da conspiração, a figura mais notável era Manuel Beckman (ou Bequimão, como todos lhe chamavam, e ele mesmo escrevia, aportuguesando o nome).
Tendo tudo combinado, aprazaram os chefes a última conferência para a noite do dia 23 de fevereiro de 1684. Deviam nessa noite começar às cerimônias de uma festividade, religiosa que no dia seguinte se celebraria. Resolveram por isso os revoltosos aproveitar o ensejo daquele concurso de povo para os tumultos preparados.
Efetuou-se a reunião alta noite no mesmo convento de Santo António, naqueles tempos ainda fora da cidade. Ali expôs Manuel Beckman os fins do ajuntamento, e os intuitos da revolução. Ouvindo-lhe a palavra exaltada e segura, apresentaram alguns certas ponderações sobre a gravidade do passo que se ia dar. "Assomado e impetuoso de seu natural, e como surpreendido por uma oposição intempestiva, rebateu Beckman aquelas objeções, cheio de sobrançaria e de despeito. Retrucaram-lhe os outros no mesmo tom, e dentro em pouco estava travada uma confusa e renhida disputa".
Ia dissolver-se a reunião, quando um ilhéu desabrido (Manuel Serrão de Castro) arranca a espada e grita furioso que não era mais possível recuar daquele propósito, e que o traidor que se recusasse a avançar, ali mesmo, naquele instante, acabaria.
Este gesto decidiu de tudo. Em grande entusiasmo, deixam o convento e dirigem-se para a cidade, pondo ali a população em alvoroço. Tomam logo o corpo da guarda, e vão à casa do capitão-mor (Baltasar Fernandes) e declaram-no deposto. Dali marcham para o Colégio dos Jesuítas, e intimam os padres da resolução que se tomara, "declarando-os presos e incomunicáveis com guardas à vista".
Em seguida apoderaram-se da casa e dos armazéns da Companhia do Comércio do Estado do Maranhão.
"Ao amanhecer estava concluído todo aquele trabalho com a maior fortuna; e raro era o habitante que se não achasse em armas, a maior parte de boa vontade, bem poucos constrangidos".
4. Era preciso instalar logo a nova ordem. Convoca-se para isso uma Junta Geral. Essa Junta aprova por aclamação o que se havia feito (deposição do capitão-mor, e também do Governador, que se achava no Pará, abolição do estanco, e expulsão definitiva dos padres). Ato contínuo, organiza-se um novo governo, que se compôs dos oficiais da Câmara e três adjuntos, sob a superintendência suprema de dois procuradores do povo.
Para estes cargos foram aclamados Manuel Beckman e Eugênio Ribeiro Maranhão; e para o de adjuntos, Tomás Beckman, João de Sousa Castro e Manuel Coutinho de Freitas.
Este governo põe-se imediatamente em ação. Reforma a infantaria de linha, dando-lhe novos capitães. Organiza uma guarda cívica. Estabelece postos de polícia, e guardas em diversos sítios.
Substitui funcionários que não inspiravam confiança. Manda confiscar os armazéns da empresa abolida; e notifica os padres de que vão ser expulsos.
E acabou o dia como sempre — com Te Deum solene —, ao som de vivas, sinos e salvas de fuzilaria, "e no meio de congratulações gerais, acreditando todos que tinham realmente assegurado para sempre a felicidade da república e o bem de todos".
Reservara-se Beckman o papel de guia e condutor do povo maranhense. Era uma espécie de tribuno chefe, aconselhando, reprimindo, contendo pela palavra. Frequentemente falava às turbas, e das próprias janelas do senado, provocando a sua eloquência ruidosos aplausos. Pode-se dizer que ali a autoridade suprema era ele, sendo simples executoras as outras.
Mas, dentro logo dos primeiros dias, cuidou Beckman de estender a revolução não só na capitania como em todo o Estado. E agora é que vai ele entrar na fase dos desenganos. Em toda parte aplaudia-se a abolição do estanco e mesmo a expulsão dos padres; mas ninguém queria comprometer-se... O próprio Beckman voltou da vizinha Tapuitapera (hoje Alcântara) sem nada haver conseguido. A Câmara de Belém "estranhou as demasias a que se arrojara o povo de São Luís"... Conquanto gostasse muito do que se estava ali fazendo, aproveitou o ensejo de renovar protestos de fidelidade ao Governador... deixando assim uma porta aberta para entrar na revolução se a mesma vingasse...
O estilo era mesmo esse: todo mundo queria; mas dizer alto que se quer é mais sério, e não se faz sem muita ponderação.
5. De volta de Tapuitapera, vinha Beckman encontrar em São Luís uns sintomas que lhe deram a medida dos perigos a que se expunha a nova ordem de coisas se ali permanecessem os jesuítas encarcerados e deliberou embarcar imediatamente. Fez logo correr um bando ordenando que "todo os moradores estivessem presentes" no dia do embarque.
E com efeito, no dia 26 de março (domingo de Ramos), depois de ouvirem missa no Colégio saíram os padres (eram 26 ou 27) em préstito para a praia, e ali embarcaram em dois navios com destino à Bahia. Dizem as crônicas que a multidão chegou a comover-se, e que a cidade ficou mesmo consternada do espetáculo. A viagem dos padres foi muito acidentada e penosa; e alguns voltaram indo desembarcar no Pará. Os outros foram bem recebidos na Bahia, e ali ainda tiveram a fortuna de encontrar o grande velho António Vieira, que muito os confortou daquela desgraça, que ele próprio já havia também sofrido.
Com a partida dos padres dir-se-ia que São Luís caíra num súbito esmorecimento. Não era decerto a falta dos deportados o que se sentia: era a desilusão do sonho passado. Começa-se a pensar nas consequências de tudo aquilo. Acabado o entusiasmo dos primeiros dias, as almas estão fatigadas. Ninguém sabe agora que rumo se há de dar dali em diante ao que se fizera. O próprio Beckman afeta coragem; mas todos veem que ele procura inspirar aos outros "uma confiança" que ele mesmo já vai perdendo.
De dia para dia a situação se agrava. Já não se disfarçam em São Luís os moderados e prudentes, e logo nem mesmo os arrependidos.
O Governador do Estado, lá mesmo de Belém, tenta, por bons modos, fazer voltar à ordem legal a gente do Maranhão. Expediu para São Luís alguns emissários; tentou mesmo subornar ao chefe da revolução. Tudo, porém, inutilmente.
Já se estava por meados de outubro (com cerca de oito meses, portanto, de domínio revolucionário) quando se lembraram os chefes de mandar Tomás Beckman à corte como procurador do povo do Maranhão. Era uma prova formal de que se anseia já por entrar na ordem, saindo das incertezas da situação criada. O que se quer, com a embaixada à corte, é evitar escarmentos.
6. Tomás Beckman vai suscitar grandes sustos em Lisboa; pois lá se exageravam muito as proporções do que se dava em São Luís. Quando se soube, porém, que o motim já estava em declínio, reergueu-se nos seus melindres a majestade intangível, e todo mundo engrossou a voz outra vez. Foi logo preso o emissário, com o qual se estava até aí em arranjos, e devolvido às justiças do Maranhão; e como única providência, nomeou-se Gomes Freire de Andrada para restabelecer a ordem e castigar os rebeldes.    ,
Enquanto isso, cresciam em São Luís as dificuldades com que luta o governo revolucionário. O próprio Manuel Beckman fica indeciso no meio do geral desânimo e das defecções que lhe fazem em torno um vazio de terror. Entregou-se o comando da guarnição ao velho sargento-mor Miguel Belo e desde então pode-se dizer que Beckman não foi mais o chefe supremo na capitania rebelada.
No dia 15 de maio (1685) fundeava junto à barra o navio que trazia Gomes Freire. Foram logo à terra dois sujeitos a sondar os ânimos. Teve então, o general, certeza de que na cidade se anseia pela ordem; e o navio entrou no porto.
O próprio Beckman, falando na salvação de todos, consegue que a Câmara mande a bordo uma deputação a apresentar as boas vindas ao Governador, e a pedir-lhe que retardasse o seu desembarque até que se lhe preparasse uma recepção condigna.
Soube, no entanto, Gomes Freire que "traçavam negar-lhe a posse caso não viesse munido do perdão geral"; e deliberou saltar imediatamente. Foi recebido com as devidas honras, e até com sinais de alegria e entusiasmo.
Os comprometidos na rebelião cuidaram de fugir. Só Manuel Beckman não saiu da cidade, e até "continuou por muitos dias a andar livremente em público".
Parece, com efeito, que Gomes Freire viera com o propósito de tudo esquecer se a sua autoridade não encontrasse resistência.
Mas aquela atitude ostentosa do antigo chefe da revolta ainda agravada peia temeridade com que tentou libertar o irmão, que chegara preso da Europa, forçou o Governador a mudar de disposições. Ordenou a prisão dos chefes, e principalmente de Beckman, pondo-lhe a prêmio  a pessoa.
7. "Obrigado a sair da cidade, vagou desde então, errante e fugitivo, pela ilha, repelido de uns, esquivado de outros, e mal recebido por toda parte; até que uma viúva, condoída da sua desgraça, lhe forneceu uma canoa bem remada, da qual se transportou ao seu engenho do Mearim" (a umas 60 léguas de São Luís).
Naquele asilo, tentado dos prêmios oferecidos pelo Governador, vai surpreendê-lo e traí-lo um Lázaro de Melo, que, segundo uns, era afilhado e pupilo de Beckman. Em todo caso, era seu íntimo amigo, recebido sempre por ele como pessoa da família.
Ali, enquanto Lázaro se entretinha amistosamente com o seu antigo benfeitor, os da escolta o subjugavam. Meteram-no depressa na canoa e carregaram-no de grilhões, levando-o para São Luís.
O processo foi sumaríssimo. Dizem que Gomes Freire assinou a sentença muito compungido.
Chegou o dia da lúgubre cerimônia (2 de novembro de 1685). "Levantou-se a forca na praia chamada então do Armazém, hoje da Trindade; e ali, pela manhã foram executados Jorge de Sampaio e Manuel Beckman".
No momento supremo, como alma cristã, pediu, do alto do patíbulo, perdão a todos e declarou que pelo povo do Maranhão morria contente. "Grito derradeiro e sublime — diz Lisboa — de um coração altivo e generoso, admirável sobretudo naqueles tempos, em que as revoluções, simples fato material, não constituíam doutrina nem direito, e em que os condenados, ordinariamente humilhados diante da justiça, morriam protestando seu arrependimento, e beijando a mão que os punia".
Acaba assim (com este grande lance de alma, que deu à história colonial um dos seus mais nobres vultos) aquela que foi a primeira manifestação formal e violenta do espírito da terra contra os processos da metrópole.
E no entanto, o próprio Governador, com as câmaras de Belém e de São Luís, em Junta Geral, declaravam abolido o estanco. Era mais uma prova de que, "mesmo quando vencidas, as revoluções, por dolorosas que sejam, fazem o bem que visaram, se foram inspiradas na razão".


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Fonte:
História do Brasil, por: Rocha Pombo. Editora Melhoramentos, 14ª Edição. São Paulo, 1967, págs. 186-191.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Mauá, o empresário

Mauá, o empresário
Irineu Evangelista de Souza, mais conhecido como Barão de Mauá, nasceu em 1813 no Rio Grande do Sul.
Engatinhava ainda quando ficou órfão de pai. Três anos depois, sua mãe resolveu casar-se novamente e largou o pequeno Irineu nas mãos de um tio.
Depois de estudar num colégio interno até os dez anos, o menino mudou-se com o tio para o Rh de Janeiro, onde fez vários tipos de serviço temporário, inclusive o de engraxar sapatos.,,
Aos 17 anos, conseguiu um emprego fixo como balconista na loja de um inglês, A partir daí progrediu rapidamente.
Aos 23 anos já era sócio-gerente da loja e tinha conseguido aprender, por conta própria, inglês e contabilidade.
Alguns anos depois Irineu viajava para a Inglaterra, o país mais adiantado do mundo, na época. Lá conheceu uma grande fundição e concluiu que a indústria do ferro era a "mãe de todas as indústrias".
Chegando ao Brasil, comprou a pequena fundição de Ponta de Areia, em Niterói.
Em pouco tempo a fundição de Ponta de Areia cresceu e passou a ter também um setor de construção naval. Além de caldeiras, guindastes,
tubos para encanamentos e trilhos, a empresa começou a fabricar navios a vapor e à vela.        
Em 1854, por iniciativa de Mauá, a cidade do Rio de Janeiro era iluminada por lampiões a gás. Nesse mesmo ano, Mauá foi o responsável pela construção da primeira estrada de ferro do Brasil. Essa ferrovia possuía 15 km e ligava a baía de Guanabara á serra de Petrópolis.
Além de aluar na área da indústria e dos transportes, Mauá juntou-se aos ingleses e fundou um Banco, com filiais na Inglaterra, França, Estados Unidos, Argentina e Uruguai.     
Em 1872, Mauá participou de um avanço no campo das comunicações: a instalação do cabo submarino que permitiu a ligação telegráfica entre Brasil e Europa.
Apesar de sua garra, competência e determinação, o maior empresário brasileiro do século XIX foi à falência!
Em 1875, Mauá faliu, porque:
não recebeu o apoio do governo, por ser contrário à Guerra do Paraguai;
os produtos fabricados pelas empresas de Mauá não aguentaram a concorrência dos produtos estrangeiros. Os produtos ingleses, por exemplo, entravam com facilidade no mercado brasileiro porque os impostos cobrados na nossa alfândega eram baixos;
foi vítima de sabotagem em suas indústrias. Em 1857, a Fundição e Estaleiro de Ponta de Areia pegou fogo em cinco lugares ao mesmo tempo. Esse incêndio, provavelmente, foi provocado por sabotagem. As chamas destruíram boa parte da empresa e Mauá foi obrigado a pedir um empréstimo aos ingleses de milhões de libras.
Aos poucos, Mauá foi vendendo tudo o que possuía para pagar a dívida com os banqueiros internacionais. A maior parte das suas empresas foi passando para as mãos de capitalistas ingleses e norte-americanos.
Em 1889, quando morreu, Mauá era pobre e vivia de negociar café.

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Fonte:
História do Brasil: Império e República - Volume II, por: Alfredo Boulos Júnior. FTD Editora. São Paulo, 1989, pág. 53.

O Governo Collor

O Governo Collor
O presidente eleito tomou posse em 15 de março de 1990, no Congresso Nacional, diante das câmeras de TV que transmitiram o evento para todo o país e com a presença de vários chefes de Estado.
No dia seguinte, em cerimônia também transmitida pelas TVs, Collor baixou um pacote de medidas econômicas, financeiras e administrativas composto por 23 medidas provisórias, ao qual o governo chamou de Plano Brasil Novo, que, de imediato, ficou sendo mais conhecido como Plano Collor ou Plano Cruzeiro.
Os seus objetivos declarados foram o combate à inflação, o "enxugamento" da máquina estatal administrativa e a eliminação do déficit público como condições para a retomada do desenvolvimento da economia.
Os eixos básicos do Plano foram os seguintes:
● reforma monetária, com a substituição do cruzado novo pelo cruzeiro, sem alteração do valor;
● retenção por 18 meses (na prática, confisco) das contas, em cruzados novos, das pessoas físicas e jurídicas (empresas), nos valores acima de NCzS 50.000 (até este valor as contas foram convertidas em cruzeiros) para as contas correntes e cadernetas de poupança e até NCzS 25.000 ou 20% (o que fosse maior) para as contas de over e fundos de curto prazo;
● o congelamento parcial e controlado dos preços, que deveriam ser praticados nos níveis em que estavam no dia 12 de março (o plano foi antecedido, porém, por aumento dos combustíveis e tarifas de luz, telefone e correios); fechamento de empresas estatais (com demissão ou colocação em disponibilidade dos seus funcionários), como início de um processo de privatização da economia;
● abertura para o capital estrangeiro, eliminação de entraves para a importação de bens de consumo;
● contenção, visando a eliminação do déficit público, suprimindo-se despesas governamentais  e  colocando-se  à  venda imóveis e veículos até então usados por funcionários e repartições federais.
Vale ressaltar que o Plano Collor não contemplou a questão da dívida externa, deixando para negociá-la depois de obter os resultados internos, esperados com a aplicação das medidas econômicas.
O Plano Collor recebeu maciço apoio da população. Teve também ampla cobertura da imprensa, sobretudo da TV Globo. A imprensa escrita, mais cautelosa, abriu espaços para críticas, algumas contundentes.
No início, apesar da confusão que se instaurou na vida econômica do país, três ordens de questões afloraram: a necessidade de ações anti-inflacionárias (era preciso evitar a hiperinflação); a forma autoritária da sua proposição e execução (medidas provisórias usadas como se fossem decretos-lei) e a inconstitucionalidade de algumas das medidas propostas.
Com o tempo, porém, pôde-se identificar mais claramente os ganhadores e perdedores com o plano. Alguns analistas têm insistido por um lado no fato de que o Plano Collor é lesivo aos interesses do país e, sobretudo, dos trabalhadores, na medida em que é recessivo, tendo já provocado desemprego e perdas salariais. Além disso, preconizando a privatização e a abertura da economia ao capital estrangeiro, deverá aprofundar o nível de dependência do Brasil no contexto da economia mundial. Por outro lado, o governo, não executando sua parte no Plano (isto é, no "enxugamento" da máquina administrativa e na diminuição do déficit público), penalizou, unilateralmente, a iniciativa privada, pela inflação brasileira. Mais uma vez, os trabalhadores e os pequenos empresários estão sendo responsabilizados pelo ônus da dívida interna.
Na esfera política, uma área de atritos tem sido a relação entre o Executivo e o Congresso. Este deve aprovar ou rejeitar, em um certo prazo, as medidas provisórias. O núcleo básico do plano foi aprovado, tendo o governo articulado os setores tradicionalmente conservadores, compondo a maioria necessária para implementar sua política. Entretanto, conheceu uma significativa derrota política, quando teve um ato seu julgado e derrotado pelo Supremo Tribunal Federal, pelo escore de 9 a zero. Tratou-se da reapresentacão no Congresso da medida provisória nº 185, anteriormente não apreciada pelo Legislativo no prazo regulamentar, que, "maquiada" sob um novo número (190), retornou ao Congresso.


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Fonte:
História do Brasil: da Colônia à República, por: Elza Nadai e Joana Neves. Editora Saraiva, 13ª Edição. São Paulo, 1990, págs. 291-292.

sábado, 18 de junho de 2016

O indígena brasileiro: a visão dos europeus

O indígena brasileiro: a visão dos europeus
Como vivia material, cultural e espiritualmente o indígena brasileiro à época da conquista das terras americanas pelos europeus?
Essa questão não tem resposta única e precisa, pois são poucas as pesquisas e estudos sobre o modo de vida do indígena brasileiro antes dos contatos com os europeus. Em países pobres, com escassez de recursos, de conhecimentos e de tecnologia, como o nosso, não é dada prioridade a essa área de investigação científica. Quase sempre essas pesquisas dependem mais do esforço individual dos pesquisadores do que da ajuda e do incentivo governamentais.
Há que se considerar ainda deformações, preconceitos e julgamentos etnocêntricos de que foram e têm sido vítimas as populações tribais. Os primeiros cronistas, como Manuel da Nóbrega, André Thevet, Hans Staden, Frei Vicente de Salvador, Pêro de Magalhães Gandavo e outros, que descreveram o modo de vida de nossos indígenas, tinham uma visão de mundo modelada pelo cristianismo europeu da fase feudal e renascentista. Ao depararem com uma forma de vida muito distinta da europeia, que consideravam a única válida, esses cronistas reforçaram a ideia de uma pretensa superioridade racial e cultural do europeu, a quem caberia o papel de levar seus valores aos povos americanos.
Pouco compreendendo a cultura do homem americano em geral, e a do brasileiro em particular, o português conquistador estabeleceu uma divisão grosseira entre os nossos indígenas, agrupando-os em "tupi" (os moradores do litoral) e "tapuia" (os habitantes do interior). Essa interpretação dos cronistas europeus deveu-se em parte aos próprios "tupi" que, tendo os "tapuia" como inimigos, consideravam-nos inferiores.
Como a colonização iniciou-se pelo litoral, os primeiros contatos foram estabelecidos com os tupi, tendo os europeus pouco acesso aos grupos tapuia. Assim, quando os cronistas se referiam ao índio brasileiro, na verdade estavam generalizando informações que valiam apenas para certos grupos tupi. Porém, mesmo no que se refere aos tupi, as informações estavam imbuídas de preconceitos e etnocentrismo e eram resultado da observação de algumas poucas tribos.
Ao europeu educado segundo o cristianismo dos séculos XV e XVI, era difícil entender o modo de viver dos indígenas. Para eles, a poligamia, a antropofagia, a crença em forças mágicas e não no Deus cristão, a nudez etc. eram consideradas índices de barbárie incompatíveis com a visão europeia da vida.
Devido a essas práticas distintas das europeias, o indígena era considerado cruel, sanguinário, vingativo, desumano. Por não se adequar ao modelo econômico do europeu, que adentrava no capitalismo, nosso índio era tido como preguiçoso e ladrão. Por não crer no Deus cristão, era visto como herético. Infelizmente esta visão, de certa forma, ainda perdura. ;
Hans Staden, um europeu feito prisioneiro pelos tupinambá, deixou-nos um amplo relato da "selvageria" do índio:
"Pela manhã, bem antes do alvorecer, vêm eles, dançam e cantam em redor do tacape com que o querem executar, até que o dia rompa. Tiram então o prisioneiro para fora da pequena choça e derrubam-na, fazendo um espaço limpo. Em seguida, desatam-lhe a muçurana do pescoço, passam-na em volta do corpo retesando-a de ambos os lados. Fica ele então no meio, bem amarrado. Muita gente segura a corda nas duas extremidades. (...)
Quem matou o prisioneiro recebe ainda uma alcunha, e o principal da choça arranha-lhe os braços, em cima, com o dente de um animal selvagem. Quando esta arranhadura sara, vêm-se as cicatrizes, que valem por ornato honroso. (...) Tudo isso eu vi, e assisti". (Hans Staden, Duas viagens ao Brasil, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1974, p. 180-5.)
O canibalismo e a guerra tribal, documentados por Hans Staden, entre outros, eram práticas rituais, como atestam a antropologia nos dias de hoje. Estes costumes milenares tinham um sentido mítico, reconhecido tanto dentro como fora do grupo tribal. Apenas o preconceito e o etnocentrismo associaram aquelas práticas à falta de civilização.


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Fonte:
História do Brasil, por: José Dantas. Editora Moderna. São Paulo, 1989, pag. 4.

Anarquismo e socialismo

Anarquismo e socialismo
Nas cidades que cresciam rapidamente, formou-se o proletariado industrial e a classe média tornou-se mais numerosa.
A situação da classe operária caracterizava-se pela extrema miséria. O crescimento populacional, o êxodo do campo, o trabalho de mulheres e crianças, a economia de mão-de-obra com as máquinas, aumentaram de forma espetacular a oferta de trabalho barato, necessária ao desenvolvimento capitalista. O proletariado trabalhava usualmente 12 a 13 horas por dia, em troca de baixíssimos salários, e povoava os imensos cortiços urbanos.
Para numerosos homens e mulheres, uma fuga da sua miserável condição foi emigrar, especialmente para os Estados Unidos, conduzindo o sonho de tornar-se pequenos proprietários, nem sempre realizado. No entanto, para a maior parte do proletariado, a saída foi organizar-se e lutar contra a burguesia que havia se tornado a nova classe dominante. Progressivamente, as greves tornaram-se frequentes, sindicatos foram organizados e surgiram partidos da classe operária. Este movimento foi inspirado por duas grandes correntes de pensamento e ação que muitas vezes se confundiram: anarquismo e socialismo.
Para os anarquistas os males da sociedade derivavam especialmente de duas instituições: a propriedade privada dos meios de produção e o Estado. O grande objetivo dos programas anarquistas tornou-se a destruição do Estado e das mais diversas formas de autoridade que seriam substituídas por uma democracia ampla e direta, baseada em comunidades autogeridas. No Brasil do início do século XX, o anarquismo foi a ideologia predominante entre a classe operária nascente.
O pensamento anarquista teve grande importância, mas foi superado pelo socialismo científico, fundado por Karl Marx e Frederico Engels. Segundo eles, em sua história humanidade passou por vários modos de produção: comunidade primitiva, escravismo, feudalismo e capitalismo. Cada uma dessas fases estava baseada num determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas e engendrou, no seu interior, a etapa. A sequência, em termos de evolução social, não seria a mesma para todas as sociedades. Determinadas etapas poderiam ser saltadas. O Brasil, por exemplo, teria passado da comunidade primitiva dos indígenas para o capitalismo, a partir de seu descobrimento pelos europeus. A velha Rússia não desenvolveu plenamente a etapa capitalista, passando de um feudalismo decadente para o socialismo.
Para Marx e Engels o capitalismo seria um dos pontos culminantes do progresso humano, na medida em que expandiu de forma gigantesca as forças produtivas. Mas o capitalismo, como os demais modos de produção, será superado por condições que ele próprio criou. Depois de atingir o auge do seu desenvolvimento, o sistema capitalista tenderia a entrar em crises sucessivas que terminariam por conduzi-lo à destruição. Caberia ao proletariado, a classe dos que só possuem a força de trabalho, através da luta política, organizar a nova sociedade socialista, visando substituir a sociedade burguesa em crise.
Em 1848, Marx e Engels colaboraram para a organização de um partido da classe operária, publicando o Manifesto do Partido Comunista. Ali afirmavam ser a luta de classes o grande impulsionador da História. Ao lado disso, mostravam que o desenvolvimento capitalista derrubara as fronteiras nacionais, criando um mundo só. Desta fornia, a Revolução Socialista deveria ser realizada por uma classe operária, unida internacionalmente.
Em 1861, era fundada a Primeira Internacional, uma associação de partidos operários de vários países que prometiam ajudar-se na luta contra a burguesia. Até o século XX, outras internacionais surgiriam.
A grande obra de Marx foi O Capital, uma exaustiva análise do funcionamento da sociedade capitalista e uma crítica à economia política clássica, criada por Adam Smith e outros economistas liberais. Utilizando a teoria da mais-valia, Marx demonstrava que o capital era basicamente acumulado a partir do trabalho realizado pelos operários e não pago pelos empresários. Quanto mais baixos os salários maior a acumulação.
No mecanismo acima descrito, Marx localizava uma contradição básica do sistema, responsável pelas suas crises periódicas. Com salários baixos, o consumo da grande massa da população tenderia a estagnar ou diminuir, enquanto os investimentos, os avanços técnicos e a produção aumentavam. Esta situação conduziria às crises cíclicas, marcadas pela superprodução que, desencadeadas nos países centrais, tenderiam a propagar-se para a periferia do sistema.
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Fonte:
História do Brasil, por: Raymundo Campos. Atual Editora. São Paulo, 1983, págs. 114-115.