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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Perspectivas do Apocalipse de João

Perspectivas do Apocalipse de João
Apesar de adotar os procedimentos e as estruturas do gênero literário apocalíptico, o Apocalipse joânico não pode ser reduzido simplesmente a esse gênero. Uma seção da obra, as cartas às Igrejas da Ásia (Ap. 2-3) aparenta-se mais à maneira do profetismo tradicional que à forma apocalíptica. Sobretudo por sua interpretação religiosa da história e por seus verdadeiros centros de interesse, o Apocalipse de João se distingue da maioria das obras do gênero literário apocalíptico.
A era nova, anunciada e esperada pela apocalíptica judaica, foi inaugurada na Ressurreição do Cristo. Os últimos tempos estão iniciados e os benefícios messiânicos estão comunicados. Mas esse acontecimento é ainda da ordem do mistério: é sempre objeto de revelação e só pode ser percebido pela fé. Não obstante, ele tende para sua realização plena e sua manifestação gloriosa. Por enquanto, mantém-se a coexistência do "tempo presente" e da "era nova".
Nessa perspectiva, a clássica ruptura entre essas duas fases da história não tem mais a mesma significação. Mais que evocar a sucessão de dois períodos antagônicos, ela ressalta a confrontação de duas ordens de realidades. Por isso, as visões não têm mais como papel primeiro simbolizar as etapas preparatórias do evento final. Elas dizem respeito aos diversos aspectos da condição atual da Igreja, realidade desde já celeste, e, não obstante, ainda confrontada com as potências deste mundo. Desse modo, a meditação teológica toma o lugar da descrição apocalíptica do desenvolvimento da história.
O Apocalipse de João se aproxima das perspectivas da pregação profética, que tendia a suscitar o despertar espiritual pela comemoração dos eventos fundadores da Aliança e a consideração da vocação de Israel. Esta atenção ao mistério do "Reino que vem", mais que à data de sua manifestação gloriosa, explica por que o Apocalipse de João não explora os procedimentos de pseudonímia e antedatação que, na apocalíptica tradicional, destinavam-se principalmente a permitir que se calculasse a proximidade do "Dia do Senhor". O tema da urgência é, porém, mantido, unido à convicção de que os últimos tempos estão próximos, certo sentido, já começaram.


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Fonte:
A Bíblia: Tradução Ecumênica - TEB. Edições Paulinas e Edições Loylola. São Paulo, 1995.

domingo, 10 de julho de 2016

Profeta: Uma profissão antiga como o mundo


Uma profissão antiga como o mundo
Há palavras que têm sorte e profissões que subsistem apesar do desgaste do tempo. A palavra "profeta" é um termo grego que pode ser traduzido por "aquele que fala na frente". Mas — muito antes da civilização grega e da tradição bíblica — a profissão de profeta já existia. Com todas as variantes que essa profissão engloba, já encontramos profetas no terceiro milênio antes de Jesus Cristo.
Há mais de um século, arqueólogos descobriram uma quantidade considerável de textos que foram traduzidos e estudados por grande número de eruditos. Esses textos nos fizeram descobrir civilizações antigas, bem anteriores às narrações bíblicas. A partir deste fato, a Bíblia que — até o século passado — era frequentemente considerada como o livro mais antigo e a expressão típica da Antiguidade, rejuvenesceu de maneira surpreendente. O velho Abraão da Bíblia tornou--se um personagem quase moderno diante de outras figuras da Mesopotâmia ou do Egito, que viveram mais de mil anos antes do patriarca hebreu.
Neste quadro, os profetas da Bíblia devem ser considerados como representantes recentes de um fenômeno muito antigo e bastante espalhado no conjunto da Mesopotâmia e — com menos importância — no Egito. Assim, nestes últimos quarenta anos, foi publicada uma série de cartas, provenientes dos arquivos reais da cidade de Mari. Esta cidade, situada à margem direita do rio Eufrates, teve seus últimos momentos de glória no século XVIII a.C. Estas cartas — em sua maioria destinadas ao rei — contêm uma série de oráculos que dizem respeito à situação política do momento, aos problemas do culto e a diversas outras questões. Segundo tais cartas, a iniciativa destes oráculos vem da divindade. Para transmiti-los, a divindade se serve tanto dos profetas profissionais como ainda de homens e mulheres que, no começo, nada tinham a ver com a função profética.
Tendo sua origem na divindade, este profetismo recebe correntemente o nome de "profetismo inspirado", exatamente como o da Bíblia. São numerosas as semelhanças com o profetismo bíblico, principalmente quanto às fórmulas utilizadas e quanto àquilo que se pode chamar de "experiência profética". As divergências, todavia, são radicais no que concerne ao conteúdo dos oráculos.
Embora com diferenças marcantes, o fenômeno profético existe, portanto, antes do profetismo bíblico. Coexistirá, aliás, com este, influenciando-o, como o atesta, na idade de ouro do profetismo bíblico, o episódio do profeta Balaão. Apesar de ser um estrangeiro em Israel, as intervenções deste profeta ocupam os capítulos 22 a 24 do livro dos Números, enquanto um texto em aramaico — descoberto há vinte anos na Transjordânia — descreve, em termos bem parecidos, este profeta que se tornou célebre por causa da sua jumenta.
Assim, para além das fórmulas, a experiência e o estilo proféticos, os contatos entre a Bíblia e suas circunvizinhanças, sua interpenetração recíproca, aparecem numerosos e concretos.


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Fonte:
O Profetismo: das origens à época moderna, por: Jesus Asurmendi. Edições Paulinas. São Paulo, 1988, págs. 13-14.