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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O grande Cisma e o nascimento da Igreja Ortodoxa

O grande Cisma e o nascimento da Igreja Ortodoxa
Elemento central da identidade nacional russa, o cristianismo ortodoxo nasceu do chamado "Grande Cisma", de 1054. Nesse ano, o papa Leão IX excomungou o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, que por sua vez excomungou o pontífice romano.
Desde então, surgiram dois cristianismos: o ortodoxo, que é mais "oriental", mais "primordial", mais próximo das origens da religião; e o catolicismo, que é mais "imperial" e europeu. Esses aspectos podem ser facilmente observados na arquitetura, na arte religiosa e nas vestes dos sacerdotes e religiosos de cada vertente. Os padres russos, por exemplo, usam compridas batinas pretas, chapéus especiais e longas barbas. Além disso, a Igreja Católica se deixou influenciar pela abordagem racionalista e individualista da Renascença (séculos XV e XVI) e da "filosofia das Luzes" (século XVIII), algo que não se verificou no cristianismo oriental. Em seu livro Remembering in a world of forgetting (Lembrando em um mundo de esquecimento), o escritor britânico William Stoddart traça um interessante paralelo entre as vertentes do cristianismo e do is-lamismo: segundo ele, enquanto o catolicismo, mais "sóbrio" e racional, pode ser comparado ao Islã sunita, a ortodoxia, mais mística, se aproxima do xiismo.
A causa teológica fundamental da separação entre católicos ocidentais e ortodoxos orientais foi a questão do filioque: enquanto os russos e gregos permaneceram fiéis ao estipulado pelo Concílio de Nicéia (589), segundo o qual o Espírito Santo procede somente da primeira pessoa da Trindade, os católicos introduziram, a partir do século VI, na Espanha, a cláusula inovadora de que o Espírito procede do Pai e do Filho (filioque, em latim).
Outra discordância diz respeito à autoridade religiosa. Os ortodoxos não aceitam a superioridade do papa de Roma sobre os cinco outros patriarcas da Igreja Ortodoxa (de Moscou, Constantinopla, Jerusalém, Antioquia e Alexandria). Para eles, o papa é primus inter pares ("primeiro entre iguais"), mas não concordam que tenha a palavra final em questões teológicas, morais ou disciplinares. Ele não poderia, por exemplo, ter imposto o filioque ou o celibato sacerdotal a toda a Igreja. Ao contrário dos sacerdotes católicos, os ortodoxos podem se casar e ter filhos, e o celibato é restrito aos bispos e monges. No cristianismo oriental, o divórcio é permitido por motivos graves, e rejeitado pela doutrina católica.
Os ortodoxos tampouco aceitam dogmas católicos como o da infalibilidade papal ou o da existência do purgatório. No campo litúrgico, os cristãos ortodoxos seguem o rito de são João Crisóstomo, e os católicos, o rito romano. O sinal-da-cruz também é feito de forma diferente segundo a confissão: na ortodoxia, ele vai da direita para a esquerda, simbolizando o fato de que o cristianismo nasceu no Oriente e foi levado para o Ocidente - e também que Jesus surgiu entre os judeus, mas sua mensagem foi absorvida pelos gentios. No sinal ortodoxo, três dedos se juntam para representar a Trindade. No sinal católico o sentido é o inverso e a mão está aberta, perdendo o simbolismo trinitário dos dedos.

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Fonte:
Revista História Viva. Ano 5 - Nº 53 - Março de 2002. Duetto Editorial. São Paulo, págs. 34-35.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O papado: do renascimento até João Paulo II (Religião)

O papado: do renascimento até João Paulo II

Por: Alderi Souza de Matos
A Reforma Protestante do século 16 despertou a cúpula da Igreja Católica do estado de letargia espiritual e omissão pastoral em que se encontrava. A reação católica teve duas manifestações complementares. Por um lado, Roma empenhou-se em combater o novo movimento, detendo o seu crescimento e procurando suprimi-lo onde fosse possível, como aconteceu na Espanha e na Polônia, Esse esforço recebeu o nome de Contra-Reforma. Por outro lado, a Igreja Romana, consciente das distorções espirituais e morais apontadas pelos reformadores, fez uma autocrítica rigorosa e um esforço sério no sentido de corrigir seus erros, aperfeiçoar sua estrutura e explicitar melhor sua fé, Esse aspecto é denominado pelos historiadores de Reforma Católica. Nos dois esforços, os papas tiveram uma atuação destacada,
Até o início da década de 1530, o trono pontifício continuou a ser ocupado por homens excessivamente envolvidos em questões seculares e políticas. Essa situação mudou quando Alessandra Farnese tornou-se o papa Paulo III (1534-1549). Farnese nomeou uma comissão de cardeais que avaliou a situação da igreja e propôs medidas saneadoras, entre elas que o papado se concentrasse nas suas tarefas espirituais e deixasse em segundo plano a preocupação com o poder, a opulência e a dignidade terrena. Outras duas grandes realizações de Paulo III foram a aprovação formal da nova ordem dos jesuítas ou Companhia de Jesus (l 540) e a convocação do Concílio de Trento (1545-1563):
Esse famoso concílio afastou definitivamente qualquer possibilidade de conciliação com os protestantes. Desde então, o catolicismo conservador e militante tem sido designado como "trídentino" (de Trento). Entre as suas muitas e importantes resoluções, o concílio reafirmou o papel dominante dos papas na vida da igreja. Outros destacados pontífices da era de Trento foram Giovanni Pietro Caraffa (Paulo IV, 1555-1559) e Giovanni Angelo Mediei (Pio IV, 1559-1565). Este último tem seu nome ligado a uma importante declaração de fé católica, o Credo de Pio IV ou Profissão de Fé Tridentina, que deve ser afirmada por todos os convertidos ao catolicismo. Esses papas reformadores contribuíram decisivamente para tornar a Igreja Católica uma instituição mais coesa, organizada e disciplinada, bem como dotada de uma clara identidade doutrinária. Um fato revelador é que por mais de trezentos anos nenhum outro grande concílio seria convocado até o Vaticano I.
Nos séculos 17 e 18, as antigas ligações entre a Igreja Católica e as autoridades seculares continuaram a criar problemas para os papas, O Concílio de Trento contribuiu para a centralização do poder no papado e isso não foi bem recebido em muitas partes da Europa devido ao crescente nacionalismo e ao absolutismo real. A oposição ao conceito de uma igreja centralizada sob a autoridade papal recebeu o nome de galicanismo, por haver se manifestado mais fortemente na França, a antiga Gália. Assim, somente em 1615, os decretos de Trento foram promulgados nesse país. Até mesmo dentro da Igreja houve galicanos, isto é, aqueles que acreditavam que a autoridade eclesiástica residia nos bispos, e não no papa. Por outro lado, os defensores da autoridade suprema dos papas foram chamados de ultramontanistas, porque buscavam essa autoridade "além das montanhas" (os Alpes). Outro golpe recebido pelo poder papal foi a supressão da ordem dos jesuítas, um poderoso instrumento das políticas pontifícias. Após ser expulsa de Portugal, Espanha e França, bem como de suas colônias latino-americanas, a Sociedade de Jesus foi dissolvida em 1773 pelo papa Clemente XIV. Assim, ironicamente, enquanto os papas insistiam na sua jurisdição universal, eles estavam de fato perdendo poder e autoridade.
Um golpe ainda mais devastador contra o papado foi desferido pela Revolução Francesa (1789). Desde o início houve um profundo conflito entre a Igreja e o ideário republicano da revolução. Assim, logo que tomou o poder, o novo governo procurou enfraquecer o papado e suprimir a Igreja na França. Dois papas da época sofreram bastante nas mãos do novo regime. O primeiro foi Giovanni Angelo Braschi ou Pio VI (1775-1799). Em 1798, o exército francês ocupou Roma, proclamou uma república e declarou que o papa não mais era o governante temporal da cidade. Pio VI morreu no ano seguinte, virtualmente como prisioneiro dos franceses. Seu sucessor, Barnaba Chiaramonte, eleito papa Pio VII (1800-1823), inicialmente foi deixado em paz. Todavia, em 1808, Napoleão tomou a cidade de Roma e o papa foi feito prisioneiro por vários anos, até a queda do soberano francês em 1814. Pouco depois de retornar a Roma, Pio VI restaurou a Sociedade de Jesus.
A memória da Revolução Francesa reforçou o conservadorismo político e teológico dos papas e sua consequente oposição às ideias republicanas e democráticas que viriam a ser cada vez mais amplamente aceitas no mundo ocidental. Essa atitude alcançou a sua expressão máxima no cardeal Giovanni Maria Mastai-Ferretti, que, como papa Pio IX, teve o mais longo pontificado da história (1846-1878). Pio IX enfrentou um novo problema, que foi o nacionalismo italiano e a luta pela unificação da Itália, até então subdividida em muitos principados, um dos quais eram os antigos estados pontifícios, Um desses líderes nacionalistas foi Giuseppe Garibaldi, que casou-se com a brasileira Anita Garibaldí. Em 1870, as tropas do novo Reino da Itália tomaram os estados papais e assim chegou ao fim o poder temporal dos papas, que havia atingido o seu auge no pontificado de Inocêncio III, no século 13.
Ao mesmo tempo que perdia o seu poder político, Pio IX acentuou fortemente as suas prerrogativas na área religiosa. Sua ousadia tornou-se patente quando, pela bula Ineffabilis, proclamou o dogma da imaculada concepção de Maria (1854), Com isso, ele foi o primeiro pontífice a definir um dogma por si mesmo, sem o apoio de um concílio. Dez anos depois, Pio promulgou a encíclica Quanta cura (1864) e seu famoso apêndice, o Sílabo de Erros. Suas oitenta proposições condenaram explicitamente, entre outras coisas, o protestantismo, a maçonaria, a liberdade de consciência, a liberdade de culto, a separação entre a igreja e o estado, a educação leiga e, em geral, o progresso e a civilização moderna. Sua última grande realização foi o Concílio Vaticano I (1870), o qual, através do decreto Pastor aeternus, proclamou o controvertido dogma da infalibilidade papal. Essa infalibilidade ocorreria quando o papa fala ex cathedra, isto é, no exercício oficial do seu cargo, definindo questões de fé e moral. Não por coincidência, isso ocorreu no mesmo ano em que a Itália anexou os estados pontifícios.
A Igreja Católica e seus pontífices começaram lentamente a aceitar o mundo moderno com o papa Leão XIII (1878-1903). Embora ainda marcadamente conservador, a ponto de declarar na bula Immortale Dei que a democracia era incompatível com a autoridade da igreja, ele deu uma série de passos construtivos no relacionamento com diversos governos europeus. Sua realização mais notável foi a encíclica Rerum novarum (1891), na qual expressou o pensamento social da Igreja e fez uma corajosa defesa dos direitos dos trabalhadores no contexto da revolução industrial e do capitalismo em expansão.
Um período especialmente conturbado para a Igreja Católica e para os seus líderes foi a época das duas guerras mundiais. Em sua repulsa do comunismo antirreligioso e ateu, e em sua preocupação com a defesa dos interesses da igreja, os pontífices do período acabaram estabelecendo fortes laços com regimes de extrema direita em diversos países da Europa. Em 1929, Pio XI (1922-1939) assinou uma concordata com o ditador fascista Benito Mussolini, o Tratado de Latrão, mediante a qual foi criado o Estado do Vaticano. Ele também apoiou o regime de Francisco Franco na Espanha. Mais problemática foi a concordata com Adolf Hitler em 1933, vista por muitos observadores internacionais como uma aprovação tácita do regime nazista. Todavia, em 1937, Pio XI publicou a encíclica Mit brennender Sorge ("com viva ansiedade"), contendo severas críticas ao nacional-socialismo,
Seu secretário de estado, o cardeal Eugênio Pacelli, sucedeu-o no trono pontifício como papa Pio XII (1939-1958), ao mesmo tempo em que eclodia a II Guerra Mundial. Esse papa tem sido severamente criticado por seu silêncio diante das atrocidades cometidas pelos nazistas contra os judeus, mesmo convertidos ao catolicismo. No campo doutrinário, ele proclamou o dogma da ascensão corporal de Maria (1950), Paradoxalmente, esse papa conservador tomou iniciativas que contribuíram para as grandes mudanças que viriam a acontecer na igreja após a sua morte. Ele incentivou o uso dos novos métodos de estudo bíblico por meio da encíclica Divino afflante Spiritu (1943), bem como valorizou e estimulou as igrejas localizadas fora da Europa,
Um dos períodos mais extraordinários da história da igreja e do papado teve início com a eleição do idoso cardeal Angelo Giuseppe Roncalli como papa João XXIII (1958-1963). Convencido da necessidade de uma ampla atualização (aggiornamento] da igreja, ele convocou o Concílio Vaticano II, formalmente instalado no dia 11 de outubro de 1962. Esse importante concílio, que teve expressiva participação de bispos do terceiro mundo, aprovou resoluções sem precedentes nas áreas de renovação litúrgica, preocupação com os pobres e diálogo interconfessional. As duas últimas preocupações já haviam sido expressas respectivamente na encíclica Mater et Magistra e na criação do Secretariado para a Promoção da Unidade Cristã. Seu sucessor, o cardeal Giovanni Battista Montini (Paulo VI, 1963-1978), embora mais contido, deu continuidade ao Concílio Vaticano II, no interesse de "construir uma ponte entre a Igreja e o mundo moderno". A "Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno" foi o documento mais longo já produzido por um concílio e contrastou profundamente com certas ênfases do século anterior.
Paulo VI também publicou a controvertida encíclica Humanas vitae (1968), que proibiu aos católicos o uso dos métodos de controle artificial da natalidade.
A eleição do último papa do século 20, em 1978, foi um acontecimento não menos momentoso para a Igreja Católica e para o mundo ocidental. O polonês João Paulo II (Karol Jozef Wojtyla) é o primeiro papa não italiano desde o século 16. Sua atuação corajosa contribuiu para a derrocada do comunismo em sua pátria e no Leste Europeu, Em 1981, ele sobreviveu a um grave atentado na Praça de São Pedro, É também o papa que mais se deslocou pelo mundo afora, tendo feito quase uma centena de viagens internacionais. Dotado de sólido preparo intelectual, tem publicado inúmeras encíclicas, abordando temas éticos, sociais e teológicos: Redemptor hominis (1979), Dives in misericordia (1980), Sollicitudo rei socialis (1988), Veritatis splendor (1993), Evangelium vitae (1995), Ut unum sint (1995). Por outro lado, representa um recuo conservador em relação aos seus predecessores, como ficou evidenciado na sua atitude em relação à teologia da libertação, nas suas interferências diretas em muitas organizações da igreja e, em geral, no seu entendimento exaltado da autoridade papal.
No seu conjunto, o papado tem sido uma instituição predominantemente benéfica para a Igreja Católica, dando-lhe um notável senso de unidade, propósito e identidade. Muitos pronunciamentos papais sobre temas sociais e éticos têm sido altamente relevantes em um mundo secularizado e materialista. Suas fraquezas têm sido o envolvimento político e um estilo de liderança nem sempre condizente com as normas dadas por Cristo aos pastores do seu rebanho. Finalmente, é de se lamentar que justamente essa instituição seja o maior obstáculo para uma maior aproximação entre os cristãos, visto que a autoridade pontifícia é rejeitada não somente pelos protestantes, mas pela Igreja oriental, que tem raízes tão antigas e apostólicas quanto a Igreja latina.


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Fonte:
Revista Ultimato. Ano XXXIV - Nº 269 - Março/Abril de 2001. Editora Ultimato. Viçosa - MG, págs. 50-51.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A Igreja Católica (Religião)

A Igreja Católica
Por: Guilherme Luz (pastor)
O vocábulo grego kathólikos surgiu no período helenístico, no final do quarto século a.C., com um leque de conotações de difícil entendimento para quem falava o idioma do Lácio, como Quintiliano ou Jerônimo, e outros filólogos e estudiosos que divergiam quanto aos seus vários significados, entre eles o de universal.
Embora não conste nos Evangelhos, nos Atos dos Apóstolos nem nas Epístolas, esse adjetivo, aplicado à igreja após uma evolução semântica de vários séculos, encontra fundamento neotestamentário (Mt 28.19 e Ap 7.9).
No início do Século II, a igreja cristã passou pela mais grave crise desde seus primórdios até então. A crise foi provocada, de um lado, pelos gnósticos, que afirmavam, entre outras coisas, a aparência docética de Jesus, isto é, que seu corpo não era de carne e osso, como o nosso, mas como o de um fantasma, concepção que nega a humanidade e morte do Mestre. De outro lado, pelos montanistas, que se proclamavam porta-vozes do Espírito Santo, pregavam o iminente fim do mundo, exigindo, como preparação para esse evento, o ascetismo, o celibato, jejuns demorados e abstinência de carne.
As comunidades cristãs, antes particulares ou independentes, fragilizadas pela inexistência de uma organização definida, uniram-se em torno de uma regra de fé resumida em um credo, no cânon do Novo Testamento e na autoridade dos bispos . Assim, conseguiram sair da crise fortalecidas.
A partir de então, Inácio, bispo de Antioquia, acrescentou à igreja o qualificativo "católica", com a ideia inicial de universal em contraste com particular.
Sendo católica, ou universal, a igreja não poderia se restringir a um lugar geográfico qualquer — a uma cidade, a um Estado, a um país — mas a todo o Orbe Terrestre. Não poderia, portanto, ser hebraica, grega ou romana.
Tendo a igreja desenvolvido o espírito de koinonia, tornando-se, por conseguinte, comunidade coesa e única, o qualificativo dado por Inácio e reforçado em suas cartas obteve pouco a pouco o sentido mais elevado e predominante de ortodoxia, perfeição, integridade e santidade.
Essa catolicidade da igreja cristã é exaltada por Cirilo de Jerusalém (348-350) em um trecho de suas catequeses, em que reafirma que ser católica é estar ornamentada com todos os preciosos dons do Espírito Santo, é ser charismata. É estar sempre no exercício do ministério de servir: dakonia.
Fica claro que o sentido da catolicidade do povo de Deus é que ele é diferente, com qualidades peculiares, unido em amor e fiel ao Senhor: "um povo especial, zeloso e de boas obras" (Tt 2.14).
Existe uma comunidade espiritual de pessoas oriundas de todos os grupos humanos, desde os tempos mais remotos até os dias atuais, que tiveram e têm como escopo o amor, a justiça, a paz, a retidão, a pureza, a bondade, a solidariedade, a santidade, o perdão e a fé no Deus Eterno.
Essa comunidade compõe-se daqueles que já partiram desta vida — a igreja triunfante — e dos que aqui ainda vivem — a igreja militante. Não obstante as diferentes condições, ela desfruta de perfeita comunhão porque  é um só corpo espiritual, a grande assembleia dos filhos de Deus.
A ela consagraram suas vidas os patriarcas, os profetas, os apóstolos e os mártires, bem como se consagram ainda hoje fiéis de todos os grupos denominacionais em todo o mundo.
Essa igreja é una, pois sendo o corpo de Cristo, é indivisível. Sua unidade é espiritual, por isso não pode ser visível aos olhos materiais. Não está nos bispos, presbíteros, diáconos, pastores ou dirigentes das comunidades locais, mas em Cristo, pastor e bispo das nossas almas. Nela se cumpre a oração sacerdotal do Senhor: "Para que todos sejam um, como Tu, ó Pai, o és em mim e Eu em ti, que eles sejam um em nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste" (Jo 17.21).
É santa, pois embora constituída de pecadores, é purificada pelo sangue do Cordeiro e santificada pelo poder do Espírito Santo, no qual foi selada para o dia da redenção.
É universal, ou católica, pois se constitui de pessoas de todos os grupos étnicos e sociais de todos os tempos e de todos os lugares, raças, línguas e nações em todo o universo.
É apostólica, porque "permanece na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações" (At 2.42).
As comunidades de fé, chamadas de igrejas, são, na realidade, agências do reino de Deus, pois a Igreja é uma só: una, universal e apostólica. A bendita companhia de todos os fiéis. O corpo místico do Senhor Jesus Cristo, do qual Ele mesmo é a cabeça.  
Por isso somos um em Cristo Jesus, nosso Senhor! Aleluia!


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Fonte:
Revista Ultimato. Ano XXXII - Nº 258 - Maio/Junho de 1999. Ultimato Editora. Viçosa/MG, pág. 39.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Patologias do catolicismo romano

Patologias do catolicismo romano
Até aqui tentamos descrever o catolicismo em sua tendência original e normal. Mas ele apresenta também manifestações patológicas. Não há somente o católico. Existe também o catolicístico, como forma decadente do católico. E ele pertence também à história do catolicismo e como tal deverá ser assumido pelos católicos. O patológico aponta para o normal e o negativo guarda sempre referência ao positivo, pois para algo ser patológico e negativo tem de ser mais do que patológico e negativo. Muito daquilo que a tradicional crítica protestante e cultural move contra o catolicismo romano não é outra coisa senão crítica ao catolicístico e como tal pode e deve ser acolhida pelos católicos lúcidos. Consideramos acima que a identidade católica reside na sacramentalidade, na assunção positiva da mediação na qual o Evangelho e Cristo nos atingem. Por isso no catolicismo se valoriza muito a instituição, a doutrina, a lei, o rito, os sacramentos, os ministérios e outras tantas mediações do cristianismo. A partir daqui podem verificar-se reais patologias. Esse perigo foi muito cedo detectado por São Leão Magno ao pregar sobre o fim das perseguições e sobre a paz entre cristianismo e Império: "habet igitur, dilectissimi, pax nostra pericula sua...'", a nossa paz possui lá seus perigos. E estes não foram muito evitados na Igreja. Nela podemos encontrar, historicamente, todas as patologias imagináveis. Seria longo entrar na análise das principais, o que já foi feito com notável competência por outros". Apontaremos somente a estrutura patológica de fundo que reside na absolutização e ontocratização da mediação. Acentua-se tão-somente o momento de identidade entre mediação e cristianismo, ocultando, quando não recalcando, a outra dimensão da não-identidade. Assim a instituição da Igreja é de tal maneira absolutizada que tende a substituir Jesus Cristo ou a entender-se igual a ele. Em vez de ser função sacramental da redenção, se independentiza, bastando-se a si mesma e se impondo opressivamente sobre todos. O catolicismo privilegia a palavra (dogma) e a lei (cânon). A palavra e a lei exigem o especialista (o teólogo e o canonista). Assim surgiram as elites dos doutos e cios hierarcas que possuem a gestão exclusiva do sagrado. Como são os únicos versados, presumem que somente mediante suas doutrinas, dogmas, ritos e normas se obtém a salvação e se pertence à Igreja". Uma coisa é o dogma e outra o dogmatismo, a lei e o legalismo, a Tradição e o tradicionaiismo, a autoridade e o autoritarismo. O cristianismo foi na compreensão patológica católica reduzido a uma simples doutrina de salvação: importa mais saber as verdades "sicut oportet ad salutem consequendam", do que fazê-las numa práxis de seguimento de Jesus Cristo. Adora-se Jesus, sua terra, suas palavras, sua história, veneram-se os santos, decantam-se os mártires, celebram-se os heroicos testemunhos da fé, mas não se insiste no principal, que é pôr-se no seguimento deles e fazer o que eles fizeram; a celebração cúltica nem sempre leva à conversão e não raro a uma alienação da verdadeira práxis cristã.
A absolutização de uma doutrina, de uma forma cultual, de um modo de distribuir o poder na comunidade centralizando todas as decisões numa pequena elite hierárquica, de uma maneira de presença da Igreja na sociedade levou a formas inegáveis de opressão dos fiéis. O endurecimento institucional conduziu à ausência de fantasia, de espírito crítico, de criatividade. O novo é logo colocado sob suspeição enquanto predominam as tendências de apologia do status quo eclesiástico, apelos de lealdade à instituição mais do que à mensagem e às exigências evangélicas. A ideia da segurança é muito mais forte do que a da verdade e da veracidade. As tensões são sufocadas frequentemente por repressão em que não raro se violam direitos fundamentais da pessoa humana, respeitados até por sociedades aconfessionais ou oficialmente ateias.
O catolicismo romano não foi suficientemente negativo, isto é, crítico: "Muitas vezes, especialmente no período constantiniano, não anunciou com suficiência seus ideais de bondade, justiça e amor à sociedade e ao Estado injustos. Mas preferiu estar afirmativamente ao lado dos grandes proprietários e dos exércitos mais fortes. Comprou com a aura de justiça eterna os senhores injustos da sociedade, dando-lhes legitimidade e motivando muitos a se sacrificarem de bom grado e com humildade pela minoria no processo de produção, como também nos campos de batalha. O catolicismo perdeu o seu sal escatológico e se tornou uma ideologia que justificava as ordens de dominação dadas. Desta maneira, só aumentou a dicotomia entre o particular e o universal e evitou a sua reconciliação numa sociedade mais livre. Tornou-se reacionário".
Ao lado destas manifestações deturpadas se elaborou a justificativa teológico-ideológica; com facilidade se atribuiu ao direito divino o que é de direito histórico, se chamou de lei natural ao que é uma construção cultural. Assim se resguardavam a instituição, as leis e as doutrinas de qualquer crítica ou tentativa de mudança social. Destarte surgiram as várias mitologias opressoras sustentadas ideologicamente pelo catolicismo, como o mito do poder absoluto dos reis, da sacralidade do Império e outros.
A absolutização de um tipo de Igreja e de uma forma de apresentar a mensagem evangélica origina uma espécie curiosa de patologia: uma mentalidade apocalíptica. Quando o status absolutizado entra em crise, as pessoas empenhadas nele têm a nítida sensação do fim do mundo e da iminência da escatologia final. Parece que tudo se acaba. Teólogos e santos puderam cair em semelhante ilusão. São Jerônimo, por exemplo, via na queda do Império Romano sinal evidente do fim próximo do mundo (Ep 123, 15-17; PL 22, 1.057-1.058); São Gregório, Papa, lia nos cataclismos de seu tempo e na derrocada de Roma o sinal do fim iminente (Hom. in Evang. I, 5: PL 76, 1.080-1.081). Com efeito, chegou o fim de um mundo, de sua ordem e de seu poder. Mas esse mundo não é todo o mundo, nem absorve em si todo o processo histórico. A história continua, surgirão outros mundos e outras chances para a fé de se encarnar e de possibilitar o encontro salvífico do homem com Deus.
As manifestações patológicas do catolicismo romano ganharam livre curso com a expulsão de seu seio do pensamento negativo que mantinha viva a consciência da não-identidade. Foi um erro histórico a exclusão do protestantismo porque não se excluiu apenas Lutero, mas se excluiu também a possibilidade da crítica verdadeira, da contestação do sistema em nome do Evangelho. O catolicístico pode se transformar numa ideologia total, reacionária, violenta, repressiva e um dia invocada por conhecidos regimes totalitários instalados em vários países da América Latina. Nada mais longe e alheio ao espírito evangélico do que a pretensão do sistema catolicístico de infalibilidade ilimitada, de inquestionabiliclade, de certezas absolutas, do que o encapsulamento do cristianismo numa única e exclusiva expressão, do que a incapacidade de reconhecer o Evangelho senão numa única doutrina, numa única liturgia, numa única norma moral e numa única organização eclesiástica. Substitui-se a experiência cristã pela indoutrinação do sistema montado. Vive-se no inferno dos significantes sempre de novo interpretados e reinterpretados ideologicamente para se manterem sempre vigentes, numa cadeia sem fim de interpretações, perdendo-se a referência ao único necessário que é o Evangelho. A fetichização da mediação dentro do catolicismo é responsável pelo seu escierosamento histórico e pela lentidão em captar os sinais dos tempos e, à luz deles, traduzir e encarnar novamente a mensagem libertadora de Jesus.

Ao concluirmos esta parte, queremos novamente ressaltar que tais manifestações são patologias de vim princípio verdadeiro, patologias que não logram deglutir a força positiva da identidade do catolicismo. O negativo vive de um positivo mais fundamental, e a crítica, por mais contundente e veraz, se inspira em algo maior e mais são. Sem esta dicção do problema, cairíamos em juízos sem discernimento dos espíritos e acabaríamos confundindo cristianismo com catolicismo e identidade com suas concretizações históricas.

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Fonte:
Igreja: carisma e Poder, por: Leonardo Boff. Editora Ática. São Paulo, 1994, págs. 146-148.